Até o século XVIII o riso era predominantemente concebido como algo negativo, ligado à derrisão, ao escárnio, ao sentimento de superioridade em relação ao outro. Pode-se remontar esse entendimento a Platão, que condenava o riso como um desvio ético, produto da inveja e do desconhecimento de si próprio. Em Filebo, faz Sócrates arrazoar que “a inveja (...) é uma dor da alma”, que “vemos o invejoso sentir prazer com a desgraça dos seus vizinhos”8, que a ignorância e a estupidez são males e, assim, concluir pela natureza inferior do riso. Para Platão, o ridículo é um vício e quem a ele se entrega tem uma disposição contrária ao que o oráculo de Delfos recomenda, “conhece- te a ti mesmo”. Na sua perspectiva idealista quem ri está voltado para a aparência e desconhece a si próprio, ambas as atitudes repreensíveis. Mesmo assim, reconhece a justeza de se rir da desgraça dos inimigos.
Aristóteles, autor da conhecida afirmação “o homem é o único ser vivente que ri 9,
assevera que a comédia é “uma imitação de caráteres inferiores, não contudo em toda a sua vileza, mas apenas na parte do vício que é ridícula” (ARISTÓTELES, 1449a33). Porém, embora se ria do defeito e da deformação, para que seja possível o riso esta não pode ser dolorosa nem destruidora, mas sim como a máscara cômica, que “é feia e deformada, mas não exprime dor” (ARISTÓTELES, 1449a35). Não se ri da dor com a qual se é empático.
Aristóteles trata do riso no contexto da vida cotidiana e da arte, mas também, como posteriormente fizeram Quintiliano e Cícero, pelo viés da necessidade retórica: o humor pode ser usado para depreciar o argumento adversário e granjear a simpatia de uma platéia, ambos os imperativos essenciais para quem almeje uma vida pública.
Skinner (1980) menciona que Cícero, em De Oratore, leva o personagem César a sugerir, à maneira de Aristóteles, que o material para o ridículo pode ser encontrado nos defeitos observáveis no comportamento das pessoas, desde que as pessoas em questão não sejam especialmente populares nem personagens de tragédias reais. Sugere também que outros materiais para a troça seriam fornecidos pela feiúra e pela deformidade física.
8 PLATÃO. Filebo. XXIX.
Também Quintiliano, no livro 6 de seu Instituto Oratoria, reitera que o riso “tem sua fonte em coisas que são, ou deformadas ou desgraciosas de alguma maneira”, concluindo que “nossa hilaridade nunca está muito distante da derrisão”.
Hobbes (1996) volta-se para quem ri quando diz que “o riso não é nada mais que a súbita glória que surge de alguma idéia de alguma importância de nós mesmos”. E ainda, que o riso incide mais naqueles que estão conscientes das menores capacidades que tem; que são forçados a cuidarem dos próprios interesses, observando as imperfeições de outros homens. Para Hobbes, muito rir dos defeitos dos outros é um sinal de covardia.
Ao longo do século XVIII a palavra ridículo (do latim ridiculum, piada e ridículus, risível ) era usada na Europa em sentido parecido ao que possui o termo humor nos dias de hoje, como termo genérico para algo que cause o riso, porém com uma conotação muito mais agressiva e negativa: uma técnica de superar e humilhar oponentes em debates, tornando-os risíveis pela zombaria, sendo os adeptos de tal prática aceitos socialmente, como forma de entretenimento em reuniões (MARTIN, 2006, p. 22). No entanto, à medida que as relações sociais se sofisticaram, a ênfase na derrisão e no escárnio foi sendo superada (ou maquiada) pelo cultivo dos aspectos mais intelectuais do jogo espirituoso e surpreendente com as palavras, e teorias da incongruência ganharam espaço. A contribuição do sentimento de superioridade nunca foi descartada, sendo levada em conta em várias teorias mais recentes, como as de Bergson, Koestler e Propp, mas não como eixo central. Recentemente a perspectiva foi retomada em Charles Gruner (1997), que formulou a Teoria do Humor da Superioridade. Nela afirma que: toda situação cômica tem um ganhador e um perdedor; mas, também, que a incongruência está sempre presente em uma situação cômica e que o humor requer um elemento de surpresa, o que demonstra ser uma teoria híbrida.
O paradigma da superioridade precisa ser levado em conta quando se pensa o humor do clown. Questões relativas a status são intrínsecas à sua aparência, movimentação, atitude corporal, expressão e estratégias de atuação. O clown vive constantemente no que Johnstone (1987) chama de balança do status.
Status, na concepção de Johnstone tem a ver com a conquista, defesa e preservação de um espaço existencial, de um território que tem aspectos geográficos, físicos, simbólicos e psicológicos. Status, neste sentido não depende de classe social, mas do controle de certa condição de dominância dentro do ambiente. Para ilustrar o
mecanismo de mudança de status no contexto das relações Johnstone usa da metáfora da balança do status . A balança sobe para quem está no comando da situação e desce para a parte submissa, mas tal estado pode se inverter logo em seguida. E quando os dois participantes da interação tentam estar no lugar alto (ou até baixo) da gangorra, aí se estabelece o conflito.
Para Johnstone, a movimentação da balança de status é o que confere interesse à situação em cena. Sob o prisma do humor, o jogo de status está presente em vários tipos de situações cômicas:
a) Inversão: personagens jogando com o corpo status oposto ao que tentam sustentar com a voz ou indumentária; também pessoas lutando por ocupar lugar de status baixo (como em um grupo que comenta as respectivas mazelas de saúde, cada um se esforçando por parecer em pior estado);
b) Revelar involuntariamente um status diferente do que se ocupa pode ser cômico, num efeito de desmascaramento, e a comicidade é maior se o status que se possui for imerecido;
c) Disputar status com objetos, como o personagem de Charles Chaplin, tentando inutilmente se utilizar de uma cama retrátil, no filme One A. M. (1916);
d) Perceber a queda de status de alguém que faz dele uso indevido é normalmente cômico.
O jogo de dominância e submissão perpassa a relação entre clown Branco e clown Augusto. Afetar um status que não se possui, desmascarar quem afeta, obter privilégios de um status que não é seu pela via do logro, são situações que perpassam os roteiros das entradas de clown. Há também as atitudes estereotipadas de patrão e empregado, os bofetões e outras interações que tocam diretamente no tema da superioridade, que serão abordadas adiante.