Para entender a configuração Daoismo em relação à situação em que estava antes da sua chegada ao Brasil, podemos tomar como ponto de partida o período “moderno” do Daoismo (séc. X-XIX). É nessa fase que essa religião toma as principais formas que existem até hoje (subitem 1.2.3), vamos lembrar selecionadamente alguns pontos relevantes que podem ter influenciado a transplantação iniciada por Cherng. Enfatizamos a sistematização doutrinal através do Cânon, ideais morais daoistas, e a ampliação das formas de divulgação. Sobre a natureza organizacional, apesar da unificação doutrinal proporcionada pelas escrituras, em termos de organização e lideranças sociais o Daoismo é fortemente plural. A importância do leigo, como a formação de associações leigas, começa a tomar força já na fase moderna. Desde essa época até hoje existem festivais daoistas realizados majoritariamente por leigos, como grupos de estudos de artes daoistas.
A relação com outras tradições é complexa. Do lado mais oficial, grupos e pessoas daoistas nunca pararam de incorporar ou nativizar elementos estrangeiros, principalmente do Budismo, mas sempre houve o esforço pela demarcação simbólica. Os conteúdos religiosos
também tinham uma demarcação simbólica, seja num gestual específico, no Cânon, nas vestimentas, etc. No entanto, popularmente sabe-se que sempre foi difícil distinguir se o que a população em geral praticava é daoista ou de outras tradições chinesas. Isso ocorre com influência da noção de Três Ensinamentos (Budismo, Confucionismo e Daoismo), que era usado tanto por sacerdotes e monges daoistas quanto pela população leiga em geral. Assim, na sua fase moderna o Daoismo tem uma relação ambígua com outras tradições: emula e nativiza o que achar interessante, mas sempre mantendo uma demarcação da própria “identidade”.
A moral daoista, mesmo não sendo algo unificado rigidamente, apresenta aspectos comuns, como a busca por atitudes moderadas de forma geral, valorização da hierarquia social e divina, e importância do trabalho interno. Por um lado, essas formas de moralidade se expressaram em comunidades monásticas e nos templos. Por outro lado, teve mais abrangência numa divulgação mais sutil. Desde o final da fase moderna do Daoismo, sobretudo na dinastia Qīng (1644-1911), tanto agentes daoistas oficiais quanto a cultura popular começaram a divulgar elementos dessa tradição de forma indireta. Utilizaram de romances e poesias com mitos daoistas, textos popularizados com apelos morais daoistas, imagens daoistas em objetos não religiosos, surgimento de histórias populares, sobretudo de imortais. Também artes daoistas foram bastante divulgadas, como alquimia interna e oráculos, ou práticas com inspiração daoista como tàijí quán, qìgōng.
Ainda na China atual há obras literárias consideradas internamente como clássicas para os chineses, e que contém muitos elementos de origem daoista explícita ou implicitamente. Da mesma forma, no século XIX as chamadas artes marciais internas, que tem influência daoista, começaram a ser difundidas com mais força em toda China. O tàijí quán se destacou nesse sentido, principalmente por que passou a ser ensinado também em meio urbano, e como técnica simultaneamente profilática e marcial (Despeux, 1995, p. 26).
Importante ressaltar que o processo de associação direta entre conteúdos e pessoas daoistas às artes marciais foi um processo que tomou a forma que conhecemos a partir do século XIX, sendo que antes as lutas eram vistas pelos chineses como técnicas culturais ou “civis”. O criador do estilo Sūn de tàijí quán, Sūn Lùtáng (1861-1932), teria sido o principal responsável pelo surgimento da divisão entre “artes marciais internas” e “artes marciais externas” na China. Da mesma forma, foi um dos que mais popularizou a ideia que existiria conexão entre Daoismo e as artes internas, tendo inclusive incluído elementos daoistas nos estilos que ensinava (Wile, 2008)102. Mas, ainda que a conexão entre Daoismo e artes
marciais chinesas ocorreu historicamente somente nos últimos dois séculos, e de forma arbitrária, hoje essa vinculação é bem difundida e faz parte da cultura marcial de muitos praticantes dentro e fora da China, sejam daoistas ou não. Sabemos que o pai de Cherng, Wǔ Cháoxiàng, teve como professor um dos discípulos de Sūn Lùtáng103.
Todo esse legado continua em grande parte. Contudo, todos os eventos sócio- históricos que envolveram a China desde o século XIX, culminando na vitória dos países europeus na Guerra do Ópio em 1860, alteraram profundamente toda sociedade. O império ruiu, e mesmo a criação da república chinesa não adiantou: o país continuava com graves problemas e com forte influência política dos países colonizadores. Para os/as chineses/as esse foi conhecido como o “Século da Humilhação” (1850 e 1950; Pinheiro-Machado, 2013). Vimos que tudo isso teve fortes impactos às comunidades daoistas. Ideologias colonialistas eurocêntricas e cristianocêntricas começaram a ser usadas, classificando o que seria “nobre” e o que era “supersticioso” na China. No final da era imperial (séc. XIX-1911) o Daoismo começou a ser visto sob a ótica preconceituosa de “primitivo”, “mágico” ou “supersticioso”. Grande parte disso deriva da escrita de missionários cristãos na China, que foram os principais divulgadores da suposta divisão entre um Daoismo filosófico (“puro”, “filosófico”, “sabedoria” e “antigo”) e um Daoismo religioso ou místico (“mágico”, “supersticioso”, “deturpação da filosofia antiga”). Essa informação deve ser lembrada, pois essa visão pejorativa existe até hoje, e vai determinar a relação do Daoismo com outras culturas e dentro da própria China. Mais tarde, as ideologias marxistas no continente, e a influência racionalista em Taiwan e Hong Kong, vão aprofundar ainda mais estas visões preconceituosas na população chinesa. Ou seja, a visão orientalista europeia acabou tendo respaldo na visão nativa sobre o Daoismo, ocorrendo uma auto-orientalização.
Além da dimensão de representação social, ocorreram consequências físicas. Em geral, houve um forte fluxo de diáspora chinesa (subitem 2.2.2). Isso incluiu a migração de comunidades inteiras aderentes ao Daoismo, de sacerdotes e de monges de várias linhagens, com destaque do caso da mudança do 63º Mestre Celestial à Taiwan (subitem 1.2.4). Este foi o inicio do processo de internacionalização do Daoismo em sua fase contemporânea. Nesse sentido, podemos ver a recente globalização do Daoismo como consequência da ferida colonial aberta principalmente nos colonizados mais também entre os colonizadores. Expliquemos: o colonialismo foi um dos principais fatores para que o Daoismo fosse forçosamente para além da Ásia; mas também ajudou na difusão da tradição, através de
tradução de obras daoistas à línguas europeias, ainda que utilizando da classificação e hierarquização orientalista (filosófico/superior X supersticioso/inferior). Dessa forma, por um lado começou a divulgação do Daoismo para além da Ásia, por outro, selecionou e classificou de forma orientalista e hierárquica o que é nobre no Daoismo e o que não é através da diferença colonial.
Interessante notar o paradoxo gerado pelos missionários cristãos colonialistas: divulgam o Daoismo como não religioso, mas um dos resultados foi que as culturas “ocidentais” (Europa e EUA) começaram a ver o Daoismo como uma alternativa civilizacional e espiritual. Assim, nos termos da teoria descolonialista de Mignolo (2013), para os daoistas chineses abriu-se a ferida colonial, e fora e dentro da China o Daoismo foi divulgado segundo a diferença colonial pautada pelo orientalismo – nossa filosofia VS a “sabedoria” ou “supertição” deles. Deve-se lembrar de que a própria população chinesa recebeu em grande parte esse discurso, participando ativamente da sua própria orientalização.
Alguns pontos devem ser lembrados sobre as últimas décadas do Daoismo na China continental e Taiwan. Apesar de todas as questões levantadas anteriormente, houve também tentativas de organização e união entre daoistas. Após a diáspora daoista, e a estabilização oficial da Ortodoxia Unitária em Taiwan, o mestre celestial realizou uma tentativa de reunir institucionalmente os daoistas espalhados pela Ásia e outros lugares. Um dos resultados foi que o Daoismo de Taiwan se tornou mais formalizado e institucional. Isso ocorreu também devido a Lei Marcial das primeiras décadas na ilha, que forçaram as religiões a se filiarem em associações nacionais, que unificou os daoistas lá.
Contudo, no país os daoistas pouco se diferenciaram das ofertas religiosas mais populares em termos de representação social, sobretudo pelas misturas culturais com tradições populares taiwanesas, e tem baixos números estatísticos de adesão (Lu, Johnson, Stark, 1998). Em Taiwan, organizações budistas foram criadas após a queda da Lei Marcial, como a Fó Guāngshān, sendo atualmente as principais organizações religiosas em termos de números de aderentes e influencia social. Os Daoistas em grande parte mantiveram a unificação institucional, e não modernizaram significativamente a forma de organização. A relação com outras religiões continua parecida com sua história: mantém respeito e eventualmente incorpora novos elementos, mas demarca sua fronteira e compete por espaço e possíveis aderentes com as outras. Mesmo assim os daoistas conseguiram se estabilizar e se organizar após tantas conturbações sociais, tendo hoje uma organização pluralista, mas unificada institucionalmente. Contemporaneamente os mestres e grupos daoistas de Taiwan são referências a muitos daoistas em todo o mundo.
Na China continental, apesar da forte repressão contra religiões no período de Máo Zédōng, ocorreu a criação da Associação Daoista Nacional Chinesa em 1957. Com a Revolução Cultural (1966-76) a liberdade novamente diminui. Após Máo, a liberdade religiosa na China volta a crescer, ainda que modestamente. Desde então a associação nacional e os daoistas em geral voltam a se organizar socialmente. Nas últimas duas décadas associações daoistas do continente, de Hong Kong, de Taiwan e de outros locais realizaram eventos em comum para melhorar o diálogo entre daoistas internacionalmente. Também alguns monges e sacerdotes daoistas do continente começaram a ir diretamente à Europa e America do Norte para divulgarem sua tradição, às vezes com apoio estatal.
Apesar de não haver estudos mais aprofundados, acreditamos que assim como ocorreu no período repressor da Lei Marcial em Taiwan (Lu, Johnson, Stark, 1998), na China continental desde 1949 até hoje existe um forte “mercado religioso cinzento” gerado pela impossibilidade de expressão religiosa plena. Ou seja, se lá institucionalmente o Daoismo está acanhado, grande parte da população pratica o Daoismo de forma popular, discreta e hibridizada com outros elementos, dentro das suas condições e motivada por necessidades pessoais. Esse “mercado cinzento” frequentemente se manifesta na leitura de literatura e poesias, práticas corporais profiláticas, iconografias sociais, e até na prática de elementos culturais, como uso de talismãs no recém-nascido pelos seus pais, sendo que tudo isso está recheado de conteúdo religioso – incluindo daoista – ainda que não seja óbvio. Sabemos que parte significativa desses elementos foi o que mais se espalhou pelo mundo, como obras proto-daoistas da antiguidade traduzidas aos europeus por missionários cristãos ou cursos de qìgōng de abrangência internacional.
Ainda sobre aspectos anteriores ao processo de transplantação, voltemos nossa atenção aos chineses e chinesas que vieram no Brasil e sua situação, para em seguida entender variáveis brasileiras que influenciam as atitudes do Daoismo que viria a chegar. Já citamos que houve desde o “Século da Humilhação” fortes fluxos diaspóricos de chineses/as. Desde 1812 há grupos de chineses oficialmente no Brasil, mas é um consenso que somente a partir das décadas de 1950, 60 e 70 que chegaram números significativos, normalmente vindos do Sul da China, Taiwan ou outras regiões, e mais tarde desde os anos 1990 vindos também de várias regiões da China continental. Parte dos atores sociais vindos nessa última onda saiu da China fugindo da Guerra Civil ou da tomada de poder dos comunistas, ainda que possam ter chegado no Brasil após já terem se estabilizado financeiramente. Apesar disso, se caracterizam por uma formação educacional e profissional mais significativa. Muitos antes de
vir aqui já tinham propósitos e meios profissionais de autossustento, como comércio, agricultura, mas também, em poucos casos, técnicas tradicionais chinesas.