1. BÖLÜM:
3.2. İkinci Dil Öğretimine İlişkin Yöntemler
3.3.3. Dilbilgisi Öğretimine İlişkin Yaklaşımlar
3.3.3.1. Ürün olarak dilbilgisi öğretimi
Foto: Camilo Bustos, 19 de março de 2007.
Tudo isto nos remete à importância da cultura para o renascimento dos Awá porque, no caso deles, é claro que esta tem um fim político. Eles se reconhecem cada vez mais como cidadãos a partir da cultura, isto é, “enquanto mais puderem afirmar que tem um conjunto diferenciado de crenças e práticas, também têm os fundamentos legítimos para exigir a concessão de cidadania” (Yúdice, 2004, p. 43), quer dizer que, para eles, a cultura se torna um recurso para a política. Mas, esta relativa autonomia só se torna possível dentro do Estado, ou seja, serve aos fins deste, do ordenamento da sociedade e do território segundo seus parâmetros.
Contudo, cabe destacar os impactos sócio-territoriais gerados a partir da auto- identificação dos Awá como indígenas, tomando em conta que esta identificação é recente no tempo e que foi fortalecida por fenômenos conjunturais como o acesso aos benefícios decorrentes do Componente Social do Plano Colômbia.
Deve-se destacar como, em inícios da década de 2000, boa parte dos membros da comunidade apenas começava seu reconhecimento como indígena, apesar do intenso processo
político que líderes, como Dioselino Descanse e Bolívar Chapuesgal desenvolveram desde final da década de 1980, e de processos políticos como: a criação dos cabildos entre 1986 e 1992, a realização de estudos socioeconômicos para a constituição de resguardos durante a década de 1990 e a criação da ACIPAP em 1998.
Por esta falta de identificação como indígenas é que Gregório Rodriguez reconhece que o caminho que resta para o reencontro dos Awá com sua cultura ancestral é muito complicado porque, como ele mesmo diz “essa cultura está (...) como não muito clara, não é? Em alguns aspectos a cultura nós temos como muito cruzada, já como se intercalando com outras culturas”139. Ou seja, eles mesmos reconhecem como a cultura tradicional dos Awá já está
permeada por muitas práticas diferentes e será difícil recuperar seus traços específicos.
Curiosamente, a dúvida sobre a identidade dos Awá não parece ter vindo nunca de fora dos Awá, mas deles mesmos. Em um evento de apresentação da ACIPAP, realizado no Cabildo Alto Temblón, em maio de 2000, a antropóloga María Yaneth Pinilla conversou com alguns dos membros das comunidades Awá reunidos que lhe disseram que se reconheceram como indígenas apenas no momento em que se tinham afiliado aos cabildos, antes disso eles se reconheciam como colonos, aos quais, por sua aparência física, alguns chamavam de índios e outros, ainda, denominavam índios paisas140. Quando foram perguntados sobre se era verdade que os colonos destruíam o meio ambiente, eram os responsáveis pelo cultivo de coca e roubavam os indígenas, eles responderam negativamente e inclusive acrescentaram que alguns índios eram piores que os colonos. Um dos indígenas disse também que esta idéia da perversidade do colono era algo aprendido, que ele tinha começado a desconhecer e a rejeitar o que ele mesmo fizera antes, assim como que também tinha aprendido a sentir-se mais índio, a falar da terra como a mãe e a exigir terra, “porque indio sin tierra no es índio”141.
Este depoimento deixa claro que os mesmos indígenas reconhecem que se identificar dentro da categoria indígena está diretamente relacionado com a possibilidade de que o Estado reconheça e legitime sua apropriação territorial, porque esta categoria automaticamente lhes coloca como defensores da natureza e, portanto, lhes garante dispor dos
139 “esa cultura esta (...) como no muy clara, no? En algunas partes la cultura la tenemos como muy cruzada, ya
como cruzándose con otras culturas” Entrevista com Gregório Rodríguez, realizada, em 18 de março de 2007, por Camilo Bustos.
140 O termo paisa remete à identificação que os grupos étnicos subordinados, como índios e negros, fazem dos brancos, ou seja, dos mestiços que não se identificam como indígenas ou como negros. Já entre os próprios
mestiços da região andina, o paisa identifica ao natural do Departamento de Antioquia, ou da área de influência da “colonização antioqueña” (Departamentos de Caldas, Risaralda, Quindío, Norte dos departamentos de Valle Del Cauca e Tolima). Segundo o posicionamento étnico, o paisa pode ser um termo depreciativo porque diz respeito àquele que se aproveita dos outros para seu benefício.
recursos de seu território à vontade. Nos primeiros anos da organização, muitos Awá reconhecem a relativa artificialidade da categoria indígena, mas, com o decorrer do tempo, eles vão se reafirmando como tais e criando um processo de identificação.
A proximidade espacial e familiar dos Awá do Putumayo faz com que os não-indígenas sejam facilmente identificados. Frente a eles, existem posicionamentos diferentes que oscilam entre a recusa violenta do colono e sua aceitação tácita, tomando em conta os nexos tradicionais que existem entre os dois. O discurso de alguns dos líderes Awá que se apóia na representação perversa do colono mostra uma apropriação do imaginário construído pelo discurso estatal e legitimado pela academia. Uma mostra disto é o manifesto feito por Aurélio Yascuarán, líder do Resguardo Awá de Cañaveral-Miraflores, no documento final do Plano de Vida:
Que fique bem claro que, desde o início, os donos do territorio éramos nós, os indígenas (…), desde tempos imemoriáis soubemos lidar com a natureza (…), desde que nascemos, nossa mente já está lendo os sinais da natureza (…) nossa história é uma longa história de luta contra os latifundiários (...), queremos proibir o envenenamento dos ríos e os córregos com bioquímicos, seja pelo mal uso que fazem deles os colonos ou, pelas fumigações que está fazendo o Estado colombiano (...), esse uso de agrotóxicos é o maior estrago que fazem os não-indígenas142
Neste manifesto que mistura as reivindicações pela terra próprias do discurso tradicional das lutas camponesas e as preocupações ambientalistas próprias do pensamento ocidental moderno, já está clara uma visão maniqueísta do indígena preservador por natureza e do colono como destruidor. Aliás, reclama-se o direito à terra, baseando-se na ancestralidade. O indígena seria o representante dos povos originários, enquanto que o colono é o descendente dos conquistadores que roubaram a terra dos indígenas e o escravizaram. Não importa muito que Aurélio Yascuarán fosse, na realidade, também um colonizador que chegou com sua família de Nariño, como foi mostrado no Capítulo 1.
Outros dirigentes indígenas têm uma visão menos maniqueísta do colono porque reconhecem seu passado como colonos e os nexos de colaboração e relacionamento que têm acontecido desde a época de seu assentamento no Putumayo. Este é o caso de Dioselino
142 “Que quede bien claro que desde el principio los dueños del territorio éramos nosotros, los indígenas (...),
desde tiempos inmemoriales supimos lidiar con la naturaleza (...) desde que nacemos nuestra mente ya está leyendo las señales de la naturaleza (...), nuestra historia es una larga historia de lucha contra los terratenientes (...), queremos prohibir el envenenamiento de los ríos e las quebradas con bioquímicos, sea por el mal uso que
hacen de ellos los colonos o por las fumigaciones que está haciendo el Estado colombiano (...), ese uso de
Descanse, que diz que não tem nenhum atrito com os colonos que moram em comunidades Awá porque eles são poucos e compartilham a ideologia dos Awá, além de que algumas mulheres Awá casaram com eles e isso faz com que todos estejam dividindo os mesmos recursos143.
Outro caso é o de Gregório Rodríguez, que reconhece que começara seu trabalho político sendo presidente de uma Junta de Ação Comunal (JAC) aos 15 anos de idade, em “El Sábalo”, no território ancestral Awá de Nariño, e que depois fundara muitas veredas em San Miguel, já no Putumayo. Ele justifica sua passagem pela JAC, lembrando que, quando chegou ao Putumayo, eles (os Awá) eram muito poucos e sua família estava muito dispersa. Assim sendo, só conformou o Cabildo Cristalina II quando ele e seus companheiros Awá tiveram família, tiveram “renascentes” (o termo que ele mesmo usa)144.
Mas, apesar de que muitos dos Awá respeitem os colonos, eles reproduzem o discurso essencialista do indígena como protetor da natureza. Embora Gregório Rodríguez reconheça seu passado como colono, também critica a própria atitude ambiental dos Awá com a natureza decorrente de sua falta de identidade indígena:
Olhe como nós temos perdido ese contato com a natureza. Por que? Porque violentamos à natureza, pegamos o machado, derrubamos e acabamos com tudo, não respeitamos nada, pegamos o veneno e jogamos nos rios, matamos os peixes [pegamos] as espingardas e a esse ai Pam! Matamos-o (...) nos tornamos uns detruidores de nós mesmos. Hoje, como estamos? Levados pelas dificuldades, pobres e sem nada, doentes, sem cura. A mãe natureza nos negou suas medicinas, por quê? Porque, francamente, merecemos145..
Como visto até aqui, o discurso indigenista assume o respeito inato dos indígenas à natureza, portanto, a recuperação cultural dos Awá, o processo de reetnização que estão desenvolvendo se traduz, automaticamente, na conservação dos recursos naturais e nas práticas econômicas sustentáveis. Diferentemente dos colonos que não se importam em derrubar a floresta para produzir coca, os indígenas têm de conservar os recursos naturais, porque eles são filhos da “mãe terra” e têm de respeitá-la.
143 Depoimento de Dioselino Descanse, realizado por Maria Yaneth Pinilla em dezembro de 2001, apud ICANH,
2002, p. 89
144 Entrevista a Gregório Rodríguez, realizada, em 18 de março de 2007, por Camilo Bustos.
145 Mire como nosotros hemos perdido ese contacto con la naturaleza ¿Por que? Porque nosotros violamos la
naturaleza, agarramos el hacha, la tumbamos y acabamos con todo, no respetamos nada, cogimos el veneno y se lo echamos a los ríos, matamos los pescados, [cogimos] las escopetas y a ese ¡Pam! Lo matamos (…) nos convertimos en unos destructores de nosotros mismos, hoy ¿Cómo estamos? Llevados de la dificultad, pobres y sin nada, enfermos, sin tener como curarnos. La madre naturaleza nos ha negado sus medicinas ¿Por qué? Porque, francamente, lo merecimos” Entrevista com Gregório Rodríguez, realizada, em Orito, em 18 de março de 2007, por Camilo Bustos.
Portanto, o reconhecimento que o Estado faz da apropriação territorial dos indígenas não se realiza por acaso. O Estado legitima a apropriação territorial dos indígenas em troca de que estes conservem os recursos naturais, de acordo com um paradigma desenvolvimentista baseado na utilização sob critérios racionais dos recursos naturais e culturais cada vez mais em risco de desaparecimento, já que “a nova plataforma hegemônica introduz uma revalorização da natureza e especialmente da ‘originalidade natural” (Moraes, 2002, p. 184). Esta característica leva os países periféricos dotados de amplas extensões de florestas, como a Colômbia, a uma requalificação dentro da divisão internacional do trabalho. Estes espaços não explorados “tornam-se uma vantagem comparativa no novo contexto global” (Moraes, 2002, p. 184). A recuperação da cultura indígena também é importante porque são eles que têm a chave para aproveitar muitos recursos desconhecidos pelo conhecimento científico ocidental.
Os mesmos indígenas vão tomando consciência da importância estratégica de seu território na ordem mundial que se consolida. Isto é mostrado na fala de Alirio García:
Se não fortalecermos o meio ambiente, pois, vêm os grandes latifundiários, ou os outros grupos de trabalho e acabam com nosso meio ambiente, porque (…) aquí o ar é puro e se formos em outros países desenvueltos, não temos (sic) nem ar, senão que já é somente um deserto, e aquí não temos deserto, aquí estamos (…) dentro da floresta146
Mas o impulso do Estado à recuperação da cultura não tem a ver só com a possibilidade de organizar o uso do território sob a racionalidade demandada pelo atual momento de valorização de recursos ambientais, como a biodiversidade. O Estado também enxerga a valorização da cultura em si, surgindo a concepção de bens culturais. Daí a importância da recuperação das comidas típicas, das músicas, das danças e, ainda, dos mitos e da língua, garantia, todos eles, de produção de rendas de monopólio mediante a extração de valor a partir do trabalho cultural.
A recuperação cultural dos Awá, então, é favorecida pelo Estado na medida em que também contribui para criar novas frentes de valorização, enquanto diminui as tensões sociais decorrentes da implantação de políticas de altíssimo impacto como o Plano Colômbia. Na medida em que os Awá se apropriam de uma identidade indígena que reúne elementos
146 “Si nosotros no fortalecemos el medio ambiente, pues, vienen los grandes terratenientes o vienen los otros
grupos de trabajo y nos acaban con el medio ambiente porque (...) aquí el aire es puro y vamos en otros países desarrollados, no tenemos (sic) ni aire sino que ya está solamente en un desierto y aquí no tenemos desierto, aquí estamos (…) dentro de la selva”. Entrevista com Alírio García, realizada, por Camilo Bustos, em 19 de março de 2007.
ancestrais com aspectos modernos, eles desenvolvem novas formas de relacionamento com outras comunidades indígenas e com os colonos, porém, estes novos relacionamentos também deparam com novos conflitos dada a impossibilidade de homogeneizar a representação do indígena em uma situação tão complexa como a do Putumayo.