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Marcos (05/02/2003) e Marcelo (06/09/2005) estão acolhidos na Unidade desde 12/04/2014, transferidos de outra unidade em outro município, embora sejam de Fortaleza. Na Guia do primeiro encontramos como motivo negligência e abandono dos pais. Na do segundo, temos apenas o abandono, embora se tratasse de uma mesma situação familiar que levou ao acolhimento.

O Conselho Tutelar averiguou uma denúncia na qual relatava o abandono de incapazes, estando também as crianças sem matrícula escolar. No dia 20 de junho de 2012, o pai compareceu à sede do Conselho Tutelar conforme solicitação do mesmo. Conta o pai que teve que separar-se da genitora dos meninos, pois a mesma era usuária de drogas e gastava todo o dinheiro que ele lhe dava com drogas, em vez de gastá-lo com alimentação para as crianças. Ficando insustentável, ele separou-se, mas, para continuar a prover os meninos, deixava-os sozinhos em casa para ir ao trabalho.

Em visita domiciliar dia 16 de agosto de 2013, as crianças estavam sozinhas, tendo os vizinhos relatados que as crianças dormiam nas calçadas e ficavam o dia sem supervisão de um adulto. Foram encaminhados a uma unidade temporária de acolhimento em 30 de agosto de 2013, sendo enviados posteriormente para unidade de acolhimento em outro município, pois por engano, acreditava-se que as crianças eram deste município.

No relatório desta unidade, consta a informação de que as crianças deveriam ter sido acolhidas em outra unidade, no município de Fortaleza, desconhecendo a funcionária da Vara da Infância que forneceu a informação o motivo pelo qual foram enviadas para lá.

Os relatos apontam que o pai não visita mais vezes as crianças, pois trabalha, mas sempre liga, assim como a genitora o fez algumas vezes. O pai tentou matricular as crianças na escola, mas não havia vagas na escola próxima.

As crianças relataram que o pai as deixava sozinhas com pão e café na mesa e vinha no almoço para preparar-lhes a refeição, mas estes desobedeciam e iam para a rua brincar, até que o Conselho Tutelar os trouxe.

Ao nos debruçarmos detidamente sobre este caso observamos o quanto o motivo em torno do qual foi centrado o argumento não corresponde ao que de fato se observa, trazendo a prevalência das condições materiais, e da carência de recursos financeiros em associação a um descaso das políticas públicas, no caso, educacionais.

É um caso no qual outras estratégias poderiam ter sido utilizadas ou, pelo menos, poderiam ter sido tomadas medidas para abreviar o tempo de acolhimento, que se estendeu por quase dois anos. Embora dentro do prazo previsto pelo ECA, o acolhimento dessas crianças poderia ter sido até nulo, se seu responsável, o pai, pudesse ter contado com uma escola em tempo integral.

Desta feita, podemos compreender que o pai das crianças não incorria no que o ECA prevê como negligência, pois em seu texto, qualifica-se negligência como o ato de não dispensar cuidados adequados aos filhos, deixando-os sem alimentação, sem cuidados de saúde e escolar por escolha, por ato de vontade. Ficam excluídos, do âmbito da negligência, os casos onde os responsáveis não possuem a informação do procedimento correto a ser adotado ou não tem condições de fazê-lo por motivos de pobreza ou falta de instrução.

Vemos, neste caso, que o pai das crianças não era negligente, pois se ausentava exatamente no intuito de prover as crianças. Também lhe faltava instrução sobre a indispensabilidade do processo educativo, da imprudência em deixar os filhos sozinhos e,

além de tudo, de fornecer-lhe condição para matricular os filhos para a escola e atividades no contra turno, comumente executadas pelo CRAS como Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo ou de informações sobre que órgãos acionar (Ministério Público, Conselho Tutelar, lideranças comunitárias). Destacamos o caráter humilde do referido pai, inclusive constatando sua falta de instrução, pois não consta assinatura no termo de audiência, ocorrido na Vara da Infância em 06/11/14, sendo registrado seu polegar. É visível a falha na rede de assistência que acabou por penalizar as crianças e o pai, que demonstrava forte vínculo com as crianças.

Esse caso também corrobora com a bibliografia citada em nossa revisão de Maria- Lívia no Nascimento (2012), no qual a autora aponta em seu artigo que a negligência se tornou o novo nome de pobreza. A ingerência do Estado sobre as famílias pobres, como já discutimos, permite que as famílias que habitam nas áreas periféricas, que apresentam menor poder aquisitivo e menor instrução e formação, estejam submetidas a medidas paternalistas a despeito das medidas educativas.

Em nenhum momento, anterior ao acolhimento, a família e as crianças foram ouvidas, dando-lhes lugar de sujeito, de modo contrário sua subjetividade e sua versão dos fatos não foi ouvida, como se os fatos estivessem dados e os profissionais da assistência e jurídica apenas o coletassem por serem proprietários de um saber sobe a família que ela própria não enxerga, mantendo todos sob tutela e vigilância.

Apresentamos dados históricos e sociais que apontam de que modo as políticas para infância se construíram, destacando a vigilância que sofreu a família pobre do Brasil e fora dele. Esta situação não se altera, pois, uma vez descoberta qualquer irregularidade no cuidado com as crianças, a família será sempre vigiada de perto, à espera de um deslize.

No prontuário das crianças não havia cópia do PIA, de modo que ficamos privados de alguns dados sobre as crianças. Porém, podemos questionar se o afastamento familiar atendeu genuinamente o melhor interesse da criança, ao tirá-la de um convívio familiar onde, como todos os outros, apresenta suas falhas, proporcionava-lhes atenção individualizada, cuidado e afeto, muito mais do que é possível oferecer no acolhimento. Toma-se como foco a situação pontual e não o processo e a singularidade do caso.

Benzer Belgeler