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2.2 Ünlü Kavramına Genel Bakış

2.2.1 Bir Ünlü Türü Olarak Kurgu Karakterler

A proposta inicial deste trabalho consistia em verificar o movimento do motivo da esperança em toda aquela que considero a fase madura da poesia de Ferreira Gullar: os livros

Dentro da noit e veloz, Na vertigem do dia, Barulhos e Muitas vozes. Excetuava-se do grupo Poema sujo, não porque este não pertença à referida maturidade, mas sim, como já

comentamos na introdução desta dissertação, por ser justamente um momento de exceção dentro dela, capaz, inclusive, de resumi- la em vários níveis, sendo, de acordo com a maioria dos críticos da obra de Gullar, o seu momento mais alto.

Por razões de variada ordem, sobre as quais não convém aqui discorrer, optei por me concentrar apenas nos dois primeiros livros dessa fase madura, cujo movimento (cumpre notar, intermediado por Poema sujo) é revelador não apenas da maneira como o motivo que escolhi (a esperança) é trabalhado de uma obra a outra, mas também por representar um trânsito maior, tanto estético quanto ideológico, que se opera na poesia de Gullar como um todo, sobretudo em relação a essa fase de amadurecimento, como pretendi demonstrar ao longo da dissertação.

A pesquisa poderia então prosseguir e se enveredar pela leitura de Barulhos e Muitas

vozes. Acredito que uma linha interpretativa, um caminho de análise, já fora, de algum modo,

dado, na medida em que, mesmo que enviesadamente, voltado especificamente para a observação de um tema — mas também por isso —, acabei fazendo uma revisão da fortuna crítica mais importante de Gullar e, com e a partir dela, o reconhecimento de uma base sobre a qual o poeta se apóia desde sempre (aquela perspectiva materialista) e daqueles procedimentos que se tornam obsessivos em sua poesia a partir de Dentro da noite veloz, comentados tanto no

capítulo que se refere à análise desta obra quanto no que diz respeito a Na vertigem do dia. Quero dizer, tanto os caminhos de leitura mais gerais, quanto aqueles respectivos ao tema da esperança já apontados na análise das duas obras da década de 70, me parece que serviriam também a uma pesquisa que pretendesse dar prosseguimento à observação, nas obras posteriores, do motivo em questão.

Pois bem, dando uma breve pincelada nesses livros que ficaram de fora, em Barulhos, pouco se acrescenta, dentro do recorte de leitura que propus, ao que já encontramos nas obras comentadas, não obstante seja um livro com belíssimos poemas, talvez alguns dos mais interessantes de toda a poesia de Gullar, tais como “Quem sou eu?”, “O cheiro da tangerina” e “Nasce o poema”, para ficarmos com apenas alguns exemplos. Mas a verdade é que Barulhos, quando lido e situado cronologicamente na trajetória dessa poesia, parece ser justamente uma obra de transição, que, além de manter os mesmos procedimentos estilísticos dos dois livros anteriores e a sua mesma consciência materialista de sempre, resgata deles vários motivos e temas, como a pesquisa sobre o corpo, a natureza do homem e das coisas, a memória e até mesmo assuntos que pareciam ter ficado para trás, como o engajamento mais apaixonado. Ressurgindo em poemas como “Sessenta anos do PCB”, “Nós, latino-americanos” e “Uma nordestina”, o olhar, naturalmente, não retorna aos reducionismos anteriores; pelo contrário, os vê de forma explicitamente crítica em vários textos, como em “Omissão” (“Não é estranho/ que um poeta político/ dê as costas a tudo e se fixe/ em três ou quatro frutas que apodrecem/ num prato/ em cima da geladeira/ numa cozinha da rua Duvivier?”107), ou ainda em “Manhã de sol”, quando o poeta se questiona, ironicamente, ao passar na frente do cemitério e pensar nos amigos mortos, ali enterrados: “— E pode um marxista admitir/ conversa entre defuntos?/

Não é a morte o fim de tudo?/ — É claro, digo a mim mesmo, é claro —/ e sigo em frente”108.

Sem falar nos vários outros poemas que retomam abertamente versos e expressões tanto de

Dentro da noite veloz quanto de Na vertigem do dia, como se a corroborá-los, em alguns

casos, e a revisá- los, em outros, mas mantendo sempre o desenho daquele “mapa”, para retomar uma expressão de Alfredo Bosi, que dá, desde sempre, os contornos mais gerais da poesia de Gullar.

Agora, se por um lado esse resgate é patente, por outro, o poeta, em Barulhos, se volta muito para um velho topos da poesia universal, o do ubi sunt, também já trabalhado largamente pelo próprio Gullar nos livros anteriores, mas que parece, aqui, anunciar aquilo que será a temática principal de Muitas vozes (seu último livro até agora): a morte. Publicado às vésperas do aniversário de 70 anos de Gullar, Muitas vozes foi considerado uma das melhores coleções de poemas da última década, vide resenha de Daniel Piza para a Gazeta

Mercantil, de julho de 1999. Como também comenta Davi Arrigucci Jr., “há muito não se

juntavam, na poesia brasileira, tantas coisas belas numa safra só”.109

Lançado então doze anos após Barulhos, de 1987, Muitas vozes parece ser uma obra conclusiva quanto a certas inquietações que sempre acompanharam a poesia de Ferreira Gullar: nela, o poeta abandona quase por completo os poemas de apelo social, cedendo o lugar do discurso público a questões de ordem privada — e a consciência da proximidade da morte é a mais forte delas. Citando novamente Arrigucci Jr., “a complexidade da síntese poética que se acha neste livro em que os temas da identidade, do tempo e da linguagem se defrontam com o silêncio e a morte é o resultado formal de uma longa e densa experiência”.110 Preocupação

108 GULLAR, 2000. p. 396.

109 ARRIGUCCI JR., Davi. “O silêncio e muitas vozes”, Folha de S. Paulo, 12/06/1999. 110 Idem.

bastante recorrente em toda a sua poesia, a morte é tratada com tal freqüência em Muitas vozes que se torna imposs ível um estudo da obra que não aborde a questão. Com uma intensidade e tonalidade não observada nos livros anteriores, ela é então pensada nas diversas maneiras pelas quais o homem a percebe, seja anônima, próxima, ou intimamente.

Assim, a morte será pensada pelo poeta como algo que acontece a todos e, ao mesmo tempo, a ninguém especificamente, tornando-se um objeto de análise filosófica, distanciada, em poemas como “Nova concepção da morte”111, longo texto em que Gullar faz uma

“trajetória” do morrer, numa espécie de tratado filosófico: inicialmente ele fala sobre os primeiros sinais, na carne, de que a morte se elabora, num tipo de “armistício corporal”112 (“um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora,/ mas do fundo do corpo, onde a morte mora”); conseqüentemente, associa sua construção à construção da própria vida (“(...) onde ela circula/ (...) na medula// dos ossos e em cada enzima, que veicula,/ no processo da vida, esse contrário: a morte)”; para, enfim, refletir sobre a sua chegada, como uma espécie de elemento alterador das relações espaço-temporais, modificando e invertendo “o curso natural da vida” numa vertigem que engole toda a história do ser que morre, semelhante a um buraco negro criado por uma estrela ao se consumir. È interessante observar, mesmo que rasteiramente, como a posição de Gullar aqui concilia, de alguma maneira, as posições de dois importantes filósofos existencialistas, a saber, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, em relação à morte: endógena, interior, como possibilidade pessoal e intransferível, pertencente à própria estrutura da vida, enfim, o ser-para-a-morte heideggeriano; e exógena, exterior, como interrupção violenta de toda possibilidade e revelação do absurdo de existir, pensado por Sartre.

111 GULLAR, 2000. p. 464-6. 112 ARIÈS, 1977. p. 19.

Além dessa abordagem, Gullar volta fortemente a tratar da perda daqueles que lhe são muito próximos, e, nesse livro, sua célula familiar mais próxima ganha um grande peso: os poemas abordarão a morte de seu pai (em “Meu pai”), sua esposa (em “Thereza” e “Fim”) e mais tragicamente seu filho Marcos, morto em 1991, aos 37 anos (“Filhos” e “Visita”). “Traduzida” poeticamente, a perda de entes queridos influencia a ótica do poeta sobre a morte em geral e sobre a sua própria, induzindo o pensamento a se debruçar sobre a possibilidade do próprio fim, uma vez que a morte do próximo, além do abatimento emocional, traz também a solidão, a sensação daquele “que ficou”.

Dessa forma, quase como uma conseqüência do percurso reflexivo que brevemente vimos observando, Gullar, em Muitas vozes, ainda pensa sobre sua própria morte e é a respeito desse tipo de reflexão que podemos verificar como o motivo da esperança permanece como

topos forte, na medida em que o poeta, nesses textos, acaba afirmando a vida diante de uma

situação que normalmente suscitaria reação contrária. “Em primeira pessoa”, a morte será tratada, aqui, de maneira branda, conformada, sem desespero.

O poema “Aprendizado”113 é emblemático neste sentido. Fazendo referência a um verso feito no passado (aludindo ao poema “O anjo” de A luta corporal, cujo verso é “começo a esperar a morte”), o poeta compara suas duas posturas em face deste impalpável objeto que, se na juventude era percebido como algo heróico, um “facho/ a arder vertiginoso”, um “consumir-se/ através de/ esquinas e vaginas”, agora, após uma vida de experiências, é visto com serenidade, com a sabedoria de quem há tempos — desde então — convive com esta reflexão e sabe que sua proximidade é real. Sóbrio, sem desespero, o poeta então constata: “sei que/ apenas/ morro/ sem ênfase”. O poema nos chama indiretamente a atenção para dois

elementos que precisam ser levados em conta, um antigo e outro novo: a memória e a velhice, respectivamente, se tornam questões importantes para a construção dessa ótica relativamente conformada; relativamente porque o poeta compreende e sente a proximidade dessa “certeza invencível”,114 mesmo sem aceitá-la. Gullar não quer morrer, mas sabe que vai e não se ilude.

A constatação dessa certeza não implica um desejo de morte, mas sim o contrário: ao invés de um entreguismo pessimista ou de uma resginação melancólica, Gullar continua a afirmar a vida, e se a consciência de uma proximidade da morte se faz presente através da carne — uma vez que para o poeta a transcendência está no corpo — a afirmação da vida não se faz de forma diferente, como podemos ver no poema “Tato”, em que a certeza de existir se confirma pela ponta dos dedos: o toque do poeta em seu próprio corpo (“mas o tato me dá/ a consciente realidade/ de minha presença no mundo”). Amparando-se na mesma perspectiva materialista e nas mesmas obsessões, Ferreira Gullar mostra em Muitas vozes sua capacidade de se renovar a cada momento, fazendo da própria vida, na prática poética, a permanente construção através da qual as define (tanto a vida quanto a poesia) filosoficamente.

Terminada a dissertação, permaneço ciente de que a escolha de um tema como a esperança para a leitura de uma importante obra poética da segunda metade do século XX pode soar demasiadamente anacrônica, na medida em que, “em face dos últimos acontecimentos”, para usar uma expressão de Carlos Drummond de Andrade, o conceito parece estar deslocado do discurso intelectual de nossos dias, totalmente descrente de determinados valores, sendo acolhido apenas pela má positividade de um número cada vez maior de correntes religiosas e de livros de auto-ajuda. Por um outro lado, sempre me tocou ver como aquele que hoje é considerado o maior poeta brasileiro vivo lida tão recorrentemente

com essa questão, sendo ela um de seus maiores topoi. O otimismo de Ferreira Gullar, considerando o período da história brasileira que sua biografia atravessa, considerando os terríveis percalços experimentados por esta, e considerando ainda a perspectiva nada redentora de sua consciência, não deixa de ser uma lição tanto para a filosofia quanto para a literatura de grande parte do século XX — lição nada clichê, diga-se de passagem; pelo contrário, muito controversa ao que se espera de um intelectual de nosso tempo. No final das contas, a imagem que comumente se faz de Gullar como um poeta engajado está correta; talvez só a natureza que se dê a este engajamento é que esteja equivocada. Sua verdadeira participação social parece residir então naquela permanente perspectiva de futuro como mola propulsora de um esforço presente; se u engajamento, explicitamente político em alguns momentos, é, antes de tudo, um engajamento à vida.

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