• Sonuç bulunamadı

Com a emergência dos frigoríficos nos anos 1950, as empresas do ramo são estimuladas pela crescente demanda nacional. Inicia-se o sistema de integração e a expansão dos capitais acumulados para outras atividades. De acordo com Mior (2005, p.124):

Essas redes começam a ser tecidas ainda nos anos 40 do século passado [XX], com pequeno alcance e envolvendo um também reduzido número de atores e intermediários. Reduzidos eram os insumos e poucos os produtos derivados de suíno. No início, o produto principal da atividade era a banha de porco, excedente da produção familiar da região. Depois o produto principal passou a ser o suíno, que o frigorífico abatia e do qual produzia uma série de derivados. A fabricação de salame e outros defumados era a estratégia para a conservação de alimentos, visando o mercado distante, dada a incipiente tecnologia.

Sobre o funcionamento do sistema integrado, esclarece Goularti Filho (2007, p.288):

O sistema de integrados funciona da seguinte forma: a empresa faz um contrato com o agricultor e fornece [...] [filhotes], dá assistência técnica e revende a ração necessária para o rápido crescimento dos animais, ficando a cargo do integrado entregar num período determinado. O agricultor fica engessado, obrigando-se a atender às rígidas regras impostas pelo grande capital.

O modo de integração produtor – agroindústria supracitado compreende a fase atual do sistema, que pode indicar uma situação opressiva ao pequeno produtor rural, mas que nem sempre foi desta forma. Inicialmente, o fornecimento aos frigoríficos se caracterizava por relações de camaradagem, com prazos mais flexíveis e um número maior de produtores participantes. Em fins da década de 1970 se observará sua remodelagem, principalmente para

33 Sobre a formação das empresas Sadia e Perdigão e maiores detalhes sobre seus fundadores, Attílio Fontana e

suínos34, devido exigências no padrão de qualidade e redução de custos, restringindo a quantidade de produtores alocados. Além da suinocultura, a integração entre produtores e indústria se estende também para a avicultura, que na década de 1970 supera São Paulo como principal produtor nacional.

A arrancada na expansão dos principais agentes do setor compreende a segunda metade da década de 1960 a fins dos anos 1980, com a centralização de capitais através da compra de concorrentes menores e diversificação das atividades produtivas em outros ramos. As grandes empresas (Sadia, Ceval, Perdigão) estabelecem filiais em outros estados (Mato Grosso, São Paulo e Goiás), envolvendo atividades como produção e esmagamento de soja, silos para armazenamento, criação e produção de carne bovina, além da implantação, com sucesso, da avicultura em escala industrial em Santa Catarina em 1970. Para Mazzali (2000, p.65)

[...] foi no Estado de Santa Catarina que se configurou um estilo especial de organização da produção, imprimindo uma nova dinâmica ao setor, impulsionado por grandes frigoríficos de carne suína e com intenso apoio governamental. A coordenação de todas as atividades atreladas ao à produção e à comercialização das aves passou a ser exercida por uma única empresa, envolvendo a criação de matrizes e a incubação de ovos, produção de ração, abate e distribuição da carne. No caso especifico da engorda do frango, essa função é exercida por pequenos e médios proprietários rurais, submetidos ao controle da indústria mediante “contratos” formais ou não, em que os produtores agrícolas submetam-se tecnológica e organizacionalmente às recomendações do contratante.

Goularti Filho (2007, p.161) indica, sob uma análise macroeconômica, que a expansão da agroindústria catarinense possui ressonância no processo de industrialização desencadeado em São Paulo pós-1930. Se inicialmente as relações eram de concorrência com empresas paulistas do ramo, agora se tornam complementares às necessidades do grande centro, pois

[...] Estados que tinham relações comerciais com São Paulo [...] aproveitaram o potencial que tinham em alguns produtos para fortalecer suas indústrias. É o caso do Rio Grande do Sul, no setor de alimentos, calçado, bebidas e vestuário, e de Santa Catarina, no alimentício, têxtil e madeireiro.

Em uma perspectiva de modernização conservadora, o governo catarinense desempenhou papel preponderante no fortalecimento das grandes agroindústrias. Assim como ocorreu na agricultura brasileira, uma série de investimentos foi direcionada para estimular o setor através de suas agências:

34 “Entre 1970-1977, o Brasil tornou-se um grande exportador de carne suína, pulando de 2 mil ton. em 1970

para 12 mil ton. em 1977, o que representa um crescimento da ordem de 600 [%] por cento" (ESPÍNDOLA, 2002b, p.87).

ACARESC - Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina [1957], órgão de assistência técnica e fomento aos pequenos e médios produtores; BRDE - Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul [1961], programas de financiamento para indústria e, posteriormente, agroindústria de aves e suínos; FUNDESC [1963] operacionalizado a partir de 1968, como estímulo à modernização industrial via deduções em impostos; e PROCAPE [1975], substituindo o FUNDESC. (ESPÍNDOLA, 1999, p.61 - 62)

De acordo com esse autor, as empresas Sadia, Perdigão e Ceval-Hering foram as principais beneficiadas. Complementar às necessidades de aperfeiçoamento produtivo (mecanização, melhoria nos canais de distribuição), deficiências envolvendo estrutura na distribuição da produção (rodovias, transporte aéreo, ferrovia) e fornecimento de energia elétrica foram amenizadas com a criação de rodovias (BR-2) e da CELESC – Centrais Elétricas de Santa Catarina (criada em 1955, mas participante efetiva no fornecimento após 1965) (GOULARTI FILHO, 2007). Por outro lado, a preferência pelo transporte rodoviário foi um dos fatores que levou ao desinteresse da agroindústria pelo setor ferroviário e seu posterior sucateamento como canal de escoamento.

O alto grau de concentração da atividade e de investimentos em capacidade produtiva encontrou acolhimento nas exportações de frango, com destaque para o Oriente Médio a partir da segunda metade da década de 1970. Por sua vez, a carne suína encontra rejeição no exterior pelo descumprimento de exigências sanitárias para exportação da mercadoria. Nesse contexto, forma-se um quadro de capacidade ociosa para as décadas seguintes.

Segundo Espíndola (1999), os investimentos, até fins dos anos 1970, correspondem à expansão e centralização de capitais via aquisição de concorrentes; investimento produtivo em derivados de carne suína, na década de 1970, e derivados de carne de frango nos anos 1980, ambos com considerável grau de processamento; e diversificação produtiva em segmentos complementares ou concorrentes, como insumos (soja) e carne bovina, na região centro-oeste (estados de Mato Grosso do Sul e Goiás). Encontram seu esgotamento e posterior reorientação no início dos anos 1990, com a acentuada crise financeira do Estado, forte recessão econômica em todo decênio (1980) e a nova configuração macroeconômica.