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Üniversite Tarafından Desteklenen 2016 Yılı Yüksek Lisans ve Doktora Projeleri

Investigado o campo da enunciação a partir do baccalauréat, procedemos também à mesma empreitada sobre o Enem. Nosso intuito aqui é de verificar como as duas avaliações partem de um mesmo projeto discursivo e realizam projetos interativos distintos, dado que provém de meios sociais e históricos distintos e também dos objetivos de cada avaliação.

Tendo isso posto, podemos adiantar que a dinâmica dialógica que afirmamos instaurar-se no contexto do baccalauréat também ocorre no Enem. O Estado mantém uma posição de legitimador dos que podem ser considerados aprovados no exame. Através do caderno de prova, ele mantém um diálogo direto no campo enunciativo com os professores, com a escola e com os alunos. Ao mesmo tempo, alunos legitimam o Estado enquanto o detentor dos direitos de classificar os avaliandos que podem ser considerados aprovados segundo critérios que ele estabelece. No entanto, se os cadernos de prova dos dois exames são diferentes entre si, é porque essas diferenças existem anteriormente em outros níveis, que começamos a explorar a seguir ao cotejar baccalauréat e Enem. Com essa metodologia, vamos evidenciar alguns aspectos das duas provas que se tornam menos aparentes quando não existe um parâmetro para o contraste.

Para proceder à leitura do exame brasileiro, pautamo-nos no caderno de provas identificado como Anexo 2. Trata-se do segundo caderno de provas, aplicado no segundo dia do exame no ano de 2015. O caderno é composto por uma proposta de redação, as questões que avaliam a área de conhecimento de Linguagens, Códigos e suas tecnologias, e também na área da Matemática e suas tecnologias. O avaliando conta com 5 horas e 30 minutos para responder a todos os itens e produzir seu texto.

Diferentemente do que ocorre no baccalauréat, não existem indicações de valores de cada item. A base de cálculos no Enem pauta-se na Teoria de Resposta ao Item, que reelabora os valores das questões a partir dos dados obtidos durante a correção eletrônica. Assim, não podemos precisar o valor de cada questão.

Observando mais atentamente os itens, o primeiro dado que levantamos é o número de questões, que somam 45 questões de múltipla escolha para cada área do conhecimento, ou seja, um total de 90 questões mais uma redação para serem respondidos em cinco horas e trinta minutos. O baccalauréat, ao contrário do Enem, é uma avaliação sem fins classificatórios. Na prova de francês, ele apresenta 5 itens de resposta livre, dos quais um é obrigatório e o outro é elegível pelo respondedor dentre os itens restantes, A duração da prova é de 4 horas.

O projeto enunciativo do État é conferir o fim dos estudos secundários e abrir acesso aos estudos universitários num sistema educacional que disponibiliza vaga para todos os estudantes que pretendem seguir o curso em nível superior. Ele espera que todos os alunos tenham atingido pelo menos o mínimo necessário para ser aprovado no exame e obter o título de bacharel. O État também parece dispor de uma dinâmica de avaliação que respeita melhor a disposição mental de seus alunos. A esse fator ligamos uma questão de logística. Aplicar um exame nesses moldes no Brasil encareceria muito para nossos cofres públicos. É preciso lembrar que a França tem a extensão territorial equivalente ao estado de Minas Gerais, e que a quantidade de alunos submetidos ao exame francês no último ano por exemplo foi de 686.907, enquanto o Enem contou na edição de 2015 com 7,7 milhões de participantes, o que inviabiliza uma aplicação de um caderno de prova que contemple apenas uma área do conhecimento por dia, além também do formato da questão. Itens de resposta livre demandam mais tempo e bancas para correção do que itens de múltipla escolha.

Esses fatores numéricos, que conjugam extensão territorial e número de participantes são um dos argumentos mais fortes para determinar o formato de cada uma das avaliações. A enunciação das questões responde diretamente ao contexto do qual emergem. Assim, esses fatores extralinguísticos são determinantes do modo como Estado e État elaboram seus projetos discursivos. Desse modo, confirma-se o que Bakhtin (2010) afirma sobre o enunciado refletir as condições específicas e as finalidades que ele carrega.

Passemos agora a observar o assunto tratado pelos itens. Este movimento analítico será posteriormente refeito para outros fins. Por ora, basta-nos levantar alguns exemplos de questões propostas para averiguar o conteúdo que é trabalhado nelas. O Enem tem por orientação central a análise de competências ao mesmo tempo em que não deixa escapar a mensuração de aquisição de conhecimentos difundidos no espaço escolar. Dessa maneira, questões de duas naturezas podem ser encontradas: aquela que visa a verificação de uma habilidade ou uma competência, e aquela que visa a averiguação de aprendizado de um determinado conteúdo escolarizado, como vemos nos seguintes exemplos. Iniciamos pela questão 98 da prova.

Este item exemplifica o objetivo do Estado em avaliar competências e habilidades dos alunos através das questões do Enem. Para que o avaliando responda de maneira satisfatória a este item, ele precisa ler o excerto que introduz a questão e depois escolher o item que melhor completa o comando da questão. O papel do avaliando é, então, escolher a terminação da enunciação do Estado que melhor completa o pensamento deste último. Dessa forma, para que o avaliando responda corretamente, ele precisa encontrar qual a leitura legitimada pelo Estado como a mais correta dentre os itens. Para realizar esta seleção, ele precisa lançar mão de suas competências leitoras de modo a completar o raciocínio proposto pelo Estado.

Neste caso, a responsividade que o avaliando exerce não está no fato de que ele responde com suas próprias palavras sobre um determinado assunto, mas no fato de que ele legitima uma leitura que o Estado realizou de um texto. O acabamento específico do enunciado do Estado permite ao avaliando responder da maneira que o próprio Estado previu: através da seleção de um item dentre os que ele oferece como possíveis respostas. Neste caso, a avaliação se dá em torno de um reconhecimento de leitura, e não na produção de uma leitura independente. O avaliando tem voz para reproduzir uma leitura já feita mas não tem voz para produzir sua própria leitura do texto. O Enem prevê

QUESTÃO 98

Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa. Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito. Então surgiram os números racionais e a História, organizando os eventos sem sentido. A fome desde sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança.

BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis. In: MORICONI, Í. (Org.). Os cem melhores contos do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando Bonassi configura um painel evolutivo da história da humanidade. Nele, a projeção do olhar contemporâneo manifesta uma percepção que

A) recorre à tradição bíblica como fonte de inspiração para a humanidade. B) desconstrói o discurso da filosofia a fim de questionar o conceito de dever. C) resgata a metodologia da história para denunciar as atitudes irracionais. D) transita entre o humor e a ironia para celebrar o caos da vida cotidiana. E) satiriza a matemática e a medicina para desmistificar o saber científico.

que o avaliando poderá explorar sua capacidade individual de produzir leituras quando de sua produção da redação. No caso de itens como esse, trata-se sobretudo de avaliar a capacidade de reconhecer leituras do que de produzir as suas próprias. Contudo, concordamos que mesmo o ato de reconhecimento de leitura implica também um ato de leitura.

Quando afirmamos que o dever do avaliando é promover a escolha da alternativa que melhor responde à questão ou que melhor completa a enunciação do Estado, e que ao fazê-lo ele não produz uma leitura, mas reconhece uma leitura legitimada pelo Estado, não estamos asseverando que as alternativas tidas como as incorretas poderiam resultar numa leitura possível do recorte utilizado na questão. Quando esta é elaborada, o Estado promove uma perspectiva de onde observar o texto. O avaliando teria como produzir sua própria leitura se houvesse como ele mostrar sua perspectiva sobre o que leu, o que não ocorre nas questões de múltipla escolha. Ainda assim, isso não significa que não exista um mecanismo de controle sobre a leitura e a interpretação da literatura escolarizada no baccalauréat.

No caso específico desta questão, não pudemos averiguar o desenvolvimento de interpretação do texto, que extrapola os limites do excerto discutido. No entanto, não afirmamos neste ponto da análise que as questões de múltipla escolha não favoreçam à produção de leituras críticas ou de interpretações. Passemos agora à leitura de uma questão que visa a avaliação da aprendizagem de um saber escolarizado específico. Para tanto, resgatamos do mesmo caderno de provas a questão 100.

Esta questão serve-se da letra de uma canção escrita por Chico Buarque. O Estado não nomeia o gênero discursivo em que o texto se dá, apenas o trata pelo termo genérico texto. O material apresentado no início da questão não é necessariamente um texto que deve ser lido ou interpretado, mas serve de suporte para que o avaliando possa responder ao item de maneira satisfatória. Assim, a canção apresentada exerce mais uma função de suporte à questão do que de fato um texto a ser lido. Não se trata, neste

Questão 100

Essa pequena Meu tempo é curto, o tempo dela sobra Meu cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora

Temo que não dure muito a nossa novela, mas Eu sou tão feliz com ela

Meu dia voa e ela não acorda

Vou até a esquina, ela quer ir para a Flórida Acho que nem sei direito o que é que ela fala, mas Não canso de contemplá-la

Feito avarento, conto os meus minutos Cada segundo que se esvai

Cuidando dela, que anda noutro mundo Ela que esbanja suas horas ao vento, ai Às vezes ela pinta a boca e sai

Fique à vontade, eu digo, take your time

Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas O blues já valeu a pena

CHICO BUARQUE. Disponível em: www.chicobuarque.com.br. Acesso em: 31 jun. 2012.

O texto Essa pequena registra a expressão subjetiva do enunciador, trabalhada em uma linguagem informal, comum na música popular. Observa-se, como marca da variedade coloquial da linguagem presente no texto, o uso de

A) palavras emprestadas de língua estrangeira, de uso inusitado no português. B) expressões populares, que reforçam a proximidade entre o autor e o leitor. C) palavras polissêmicas, que geram ambiguidade.

D) formas pronominais em primeira pessoa. E) repetições sonoras no final dos versos.

caso, de aferição de uma habilidade, mas da aquisição de um saber escolarizado, como já havíamos anunciado.

Especificamente para a questão 100, o Estado visa averiguar se o avaliando conhece as diferenças entre os registros da língua, entre as normas que a língua pode assumir quando manifesta num evento enunciativo. Basicamente, a escola explora duas normas: a culta e a coloquial. A questão investiga traços que caracterizam a última e liga- se ao texto apresentado apenas pelo sintagma “presente no texto” em “Observa-se como marca da variedade coloquial da linguagem presente no texto, o uso de”.

De todo modo, mesmo que o uso do texto de apoio da questão 100 seja considerado apenas como um apoio para o avaliando encontrar o item correto, o sintagma “presente no texto” garante a unicidade do enunciado do Estado. Essa unicidade é confirmada pela escolha da alternativa correta do item, neste caso, a letra B. Podemos considerar, então, que o Estado se serve de pelo menos dois tipos de questões que visam responder dialogicamente aos objetivos do Enem. Cada modelo de questão explora uma dinâmica cognitiva distinta. Vale a pena neste momento observamos novamente o caderno de provas do baccalauréat que fizemos alusão há pouco (Anexo 1). De lá, recuperamos a questão obrigatória para tecermos alguns comentários também a respeito do assunto.

Neste enunciado, fica-nos claro que o État elege um conteúdo escolarizado, que visa o domínio dos gêneros discursivos, sobretudo daqueles que circulam na esfera literária, como neste caso, o diário de viagem. Ao mesmo tempo em que averigua a aquisição de um saber escolarizado, o enunciado do État prevê uma avaliação de competência em leitura. Trata-se aqui de uma leitura no nível da interpretação37. O

enunciado prevê uma leitura primeira do texto A da coletânea, e propõe uma leitura

37 A leitura de um texto escrito pode ser compreendida como um processo de interação entre interlocutores que se dá em níveis diferentes, como o da codificação, da compreensão, da interpretação. Exploramos melhor a respeito da leitura na terceira parte da tese.

Para que serve o diário em Robinson Crusoé de Daniel Defoe (texto A)? Quais funções os outros textos dão ao escrito?

investigativa buscando reconhecer nos outros textos da coletânea um conteúdo que foi amplamente explorado no texto A.

Ao mesmo tempo em que averigua a aquisição de um saber, o enunciado propõe também analisar uma competência. É importante ressaltar que este enunciado se desdobra em duas ações que devem ser realizadas para que a resposta seja considerada completa. Cada uma dessas ações responsabiliza-se por um objetivo identificado na questão. Assim, para que a resposta seja considerada correta, é necessário que o avaliando adote uma posição responsiva específica para cada parte da questão, de modo a corresponder ao acabamento específico deste enunciado.