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ÜNİVERSİTE MEKAN ENVANTER SİSTEMİ (UNI-ENVANTER) YAZILIM
A tabela 12 nos mostra que o eixo Autotranscendência apresentou uma tendência negativa com a quantidade de dias por semana fazendo uso da reserva, sugerindo que aqueles que têm mais valores coletivos tendem a trabalhar menos durante a semana. O eixo Reforço
pessoal apresentou correlação positiva com a renda mensal ($/mês) e com o valor da hora de trabalho ($/hora), indicando que indivíduos com valores mais individualistas ganham mais. Tabela 12: Correlação entre os eixos da escala de valores humanos e o perfil econômico dos pescadores da RESEX. Correlações significativas estão sinalizadas em negrito. Em vermelho temos as interações negativas. As tendências encontradas (valores de p próximos à 0,05) foram assinaladas em itálico. (R = Correlação de Pearson; p = sig. 2 extremidades).
% cons $/mês Dias/sem h/dia $/hora Autotrans R p -0,064 0,487 -0,044 0,632 -0,153 -0,039 0,048 0,095 0,675 0,602 Ref. Pessoal R -0,136 0,203* 0,107 -0,022 0,239** p 0,139 0,026 0,243 0,812 0,009 Abertura R p -0,104 0,257 0,095 0,303 -0,058 0,528 -0,078 0,395 0,144 0,118 Conserv R -0,003 0,022 -0,037 -0,031 0,063 p 0,976 0,814 0,690 0,733 0,494 Hedonismo R p -0,061 0,506 0,042 0,651 0,050 0,587 -0,090 0,330 0,048 0,600
Destaca-se, porém, que entre os não-beneficiários não foi observada a interação entre a renda mensal e os valores individualistas. Pelo contrário, o resultado mostrou apenas uma tendência de natureza negativa entre estas variáveis (p = 0,082; R = -0,159).
DISCUSSÃO
Nesse trabalho nos propusemos a avaliar como está a gestão participativa na Reserva Extrativista Acaú-Goiana 8 anos após a sua criação. Especificamente buscamos responder 4 perguntas que dizem respeito à 1) ciência dos PGRC pelos beneficiários da RESEX; 2) relação de dependência e alto conhecimento dos PGRC por parte dos beneficiários; 3) a participação num sistema de uso comum e os valores coletivistas dos indivíduos; e 4) se indivíduos mais coletivistas apresentam maior conhecimento dos PGRC.
Com relação à primeira pergunta, os resultados demonstram que, dos dez índices avaliados no presente trabalho, as menores médias foram de Limites claramente
definidos 1 e 2, enquanto a maior média pertenceu ao índice Reconhecimento mínimo do direito de organizar.
De acordo com Ostrom (2009), a medida de reconhecimento dos limites de uma área pode estar relacionada com a sua extensão. Áreas maiores requerem mais custo na marcação ativa de seus limites (através de placas e/ou cercas) tornando mais difícil, portanto, o reconhecimento deles por parte dos indivíduos ali inseridos. Desta forma, o resultado está relacionado com o fato de a RESEX apresentar uma área total de aproximadamente 6.678 hectares, abrangendo 6 comunidades diferentes e 1.440 famílias distribuídas entre dois estados (Paraíba e Pernambuco) caracterizando-a, portanto, como um local de elevada extensão territorial. Agrawal e Chhartre (2008) também observaram maior taxa de sucesso da gestão auto-organizada em sistemas de tamanhos moderados, em estudo de metanálise realizado em 152 florestas de uso sustentável distribuídas em 9 países.
O índice de Reconhecimento mínimo do direito de organizar apresentou média alta em todas as comunidades. Isso sugere que elas estão em sintonia nas questões sobre a organização da RESEX, concordando, em sua maioria, que a melhor solução é manter o recurso como sendo de uso comum. Tal resultado também demonstra que as comunidades têm interesse em manter a participação das comundidades no que diz respeito às questões da RESEX e do ofício da pesca.
Baldo do Rio apresentou maior média em quase todos os índices avaliados (Limites claramente definidos 1 e 2, Acordos coletivos 1 e 2, Equivalência proporcional 1, Monitoramento, Punições gradativas e Mecanismos de resolução de conflitos), demonstrando que detém um maior conhecimento acerca da RESEX e está mais próxima de uma gestão auto-organizada do que as outras comunidades. Entretanto, diferentemente do previsto, Baldo do Rio não é a comunidade que mais depende diretamente da pesca para o sustento. De fato, o resultado da correlação apresentado na tabela 9 indica que esse maior conhecimento de PGRC está relacionado ao fato de passarem mais tempo, por dia, em contato com a reserva.
Além disso, o tamanho da comunidade (116 famílias cadastradas) também pode contribuir para o aprendizado acerca das informações da RESEX, pois o número menor de usuários facilita não só a realização de reuniões como a comunicação entre eles, otimizando a transmissão de informações (Ostrom et. al. 1992; Ostrom, 2009). As menores comunidades, Baldo do Rio (116 famílias) e Carne de Vaca (163 famílias) tiveram uma percepção melhor com relação à regras de uso dos recursos, que pode estar relacionado, também, com o tamanho do grupo. Ostrom (1990) investigou uma comunidade auto-organizada na Turquia e observou que os pescadores dividiam sítios de pesca que eram rodiziados entre os usuários. Essa poderia ser uma alternativa a ser adotada pela RESEX visando mitigar os conflitos provocados pela grande extensão territorial da reserva. Dividir a área total em sítios menores, em esquema semelhante de rodízio, facilitando a fiscalização de cada área, poderia ser uma possibilidade a ser discutida com os beneficiários.
Um dos índices em que Baldo do Rio se destacou foi Acordos coletivos (1 e 2), que indica o grau de percepção da participação das comunidades na tomada de decisão (e.g quem estabeleceu quais indivíduos podem fazer uso da reserva), bem como o reconhecimento de uma liderança, como eles foram escolhidos, participação na escolha deles e conhecimento sobre a vigência do poder de um líder. Uma possível explicação é que a alta taxa de reconhecimento de uma liderança na comunidade pode ter um papel de grande importância no processo de organização do grupo. Seixas & Davy (2008), ao estudarem fatores que contribuem para um sistema auto-organizado observaram que a presença de uma liderança forte influencia positivamente no sucesso da gestão de um sistema comum. Outros pesquisadores também encontraram evidências de que, diante da existência de uma liderança reconhecida pela comunidade, há uma facilitação do processo de auto-organização da sociedade (Wade, 1994; Baland & Platteau, 2000; citado por Ostrom, 2009). Portanto, este
fator parece estar contribuindo para os resultados observados em Baldo do Rio. Complementarmente, observamos que a comunidade de São Lourenço foi a que obteve a menor média para Acordos coletivos (1 e 2) e foi, também, a comunidade que apresentou menor porcentagem de entrevistados que reconhecia uma liderança na comunidade (73% dos entrevistados).
A comunidade que apresentou menores índices de PGRC foi Acaú, e também foi a que apresentou maiores valores nos índices socioeconômicos de renda mensal e valor da hora de trabalho. Ainda, vimos que a comunidade de Acaú foi a que apresentou maior média no eixo de valores individualistas, demonstrando que os pescadores da região têm uma natureza menos coletivista. O resultado para os índices de Monitoramento e Punições gradativas indica que os pescadores de Acaú têm menor conhecimento acerca das regras da RESEX. Almeida et. al (2009) observaram que o Monitoramento é uma resolução importante para o sucesso de uma gestão co-participativa, partindo, preferencialmente, dos principais interessados no manejo dos recursos, os usuários. Acheson (1975) observou, num sistema auto-organizado, que a prática de punições gradativas contribuía na coibição da prática de pesca clandestina. De forma inversa, com relação a percepção de Equivalência proporcional, no que diz respeito aos ganhos individuais, a comunidade de Acaú apresentou maior média. Esse maior rendimento pode ser atribuído a uma maior experiência dos beneficiários de Acaú, sendo essa uma das primeiras comunidades a se levantar para a demarcação da RESEX (Fadigas & Garcia, 2008). Entretanto o baixo conhecimento dos outros PGRC na comunidade de Acaú não faz jus a essa origem, o que sugere a possibilidade de que esse aumento de renda mensal possa dever-se a ignorância dos PGRC. Aparentemente, o fato de ter uma renda mensal mais elevada pode estar passando a sensação de igualdade para os pescadores de Acaú.
A comunidade de São Lourenço é a que apresenta maior dependência direta dos produtos da RESEX (consome maior percentual do pescado), mas também apresentou índices significativamente baixos de PGRC. Ou seja, de forma inversa ao que previmos, quem mais depende e quem menos lucra com os produtos da RESEX têm pouco conhecimento dos PGRC. Esse resultado corrobora com Agrawal e Chhartre (2008) que observaram que pessoas em áreas maiores e com alta taxa de dependência tendem agir menos coletivamente. Silvano et. al (2013) observaram que uma menor dependência comercial (ou seja, os pescadores vendiam menos os peixes, consumindo uma parte significativa) podia justificar parcialmente o fracasso na implementação de políticas de gestão co-participativa anteriores devido à dificuldades de aplicação das regras em uma comunidade pesqueira da bacia do Tocantins.
No entanto, se olharmos esses dois últimos resultados de forma conjunta vemos que o desconhecimento de PGRC foi maior nas comunidades em extremos socioeconômicos, a que mais recebe (Acaú) e a que menos recebe (São Lourenço), indicando que é provável que a principal causa para o não-funcionamento da RESEX na região seja devido à falta de informações acerca das regras locais. É possível pensar que um maior conhecimento das regras de uma gestão comunitária possa atuar como um agente equilibrador, que facilite o ganho proporcional do uso dos produtos da RESEX.
De todos os pescadores entrevistados, quando questionados sobre a quantidade limite permitida para pesca, apenas um pescador, da comunidade de Baldo do Rio, tinha conhecimento de que havia um limite, mesmo que ele não soubesse ao certo quanto era. Uma pescadora, em Carne de Vaca, declarou haver um consenso estabelecido pelos pescadores juntamente ao ICMBio com relação à quantidade limite de pesca permitida, mas acrescentou que tal regulamentação ainda não estava em vigor. Os outros pescadores declararam não
haver limite estabelecido e que a quantidade pescada dependeria somente do esforço e dos recursos pesqueiros de cada um. Essa situação colocou todas as comunidades em pé de igualdade com relação à essas perguntas (10, 11 e 12) que se referem ao índice de
Equivalência proporcional 1, ou seja, às questões de igualdade na prática da pesca. Apesar
de o Plano de Manejo da reserva ainda não estar pronto, o Acordo de Gestão (fornecido pelo ICMBio) já contempla as definições referentes à quantidade permitida para cada tipo de pescado (caranguejo-uça, goiamum, siri, peixe, camarão, marisco, ostra, etc), bem como em quais períodos a pesca deve ser suspensa em determinados locais. O reconhecimento das regras é um dos PGRC básicos para o sucesso do manejo. Por exemplo, Acheson (1975) em revisão sobre os sítios lagosteiros do Maine, nos Estados Unidos, observou uma série de fatores que permitem ao sistema funcionar de forma auto-organizada, entre eles a definição clara do tamanho da carapaça das lagostas, status reprodutivos das fêmeas e técnicas adequadas de pesca. Estas medidas são aplicáveis à todos os pescadores licenciados, portanto, podemos identificar que, nesta comunidade, os pescadores estão cientes da equivalência proporcional de custos e benefícios. Agrawal e Chhartre (2008) observaram que a percepção de eficácia da política local tem um papel importante no desenvolvimento de uma postura sustentável.
Fica, portanto, evidente que uma falha de divulgação das regras comuns está ocorrendo. Apesar de ser ―criada‖ pelos usuários interessados em conservar os recursos de uso comum para as próximas gerações, a RESEX é de domínio da União e conta com a participação fundamental do órgão do governo (ICMBio) para o seu funcionamento, organizando reuniões gerais entre as comunidades. Seixas et. al (2010) apontam para a necessidade da existência de um órgão mediador entre a comunidade e o governo federal como um importante fator para o desenvolvimento de um sistema autorregulado sustentável e
bem sucedido. Os autores ressaltam que a existência de um modelo de gestão coparticipativa não garante a prática, de fato, de tais medidas. Políticas abrangentes e sem adequação para a população alvo não são eficazes (Ostrom, 2009).
Dos dez domínios básicos de valores humanos (benevolência, universalismo, poder, conquista, estímulo, autonomia, segurança, conformidade, tradição e hedonismo), os beneficiários apresentaram escores mais altos em 9.
As análises em nível de indivíduo mostram que valores individualistas correlacionam negativamente com o conhecimento de 4 dos 10 PGRC estudados, enquanto beneficiários com valores coletivistas detém maior conhecimento dos PGRC. Ou seja, os valores que cada indivíduo já detém influencia na sua motivação para registro cognitivo de informações da RESEX. Estudos em Psicologia Organizacional mostram que valores individuais afetam o comportamento dos funcionários (Tamayo & Gondim, 1996). Tal qual para empresas, a realização de dinâmicas que aumentem esses valores coletivistas podem auxiliar na gestão participativa da RESEX.
As análises mostram que valores mais individualistas (Reforço pessoal) correlacionam positivamente com a renda. Isso pode mostrar a importância do empreendedorismo para o sucesso individual. Entretanto, o fato desta correlação não ser observada entre os não-beneficiários (em verdade, existe em correlação negativa entre o eixo de individualismo – Reforço pessoal - e renda entre os não-beneficiários) questiona a explicação do individualismo enquanto motivador de empreendorismo e sucesso em qualquer ambiente.
Por outro lado, quanto maior o “Autotranscendência” menos horas de trabalho a
justamente refrear o ímpeto individual e não sobre-explorar o ambiente, podemos sugerir que valores coletivistas são facilitadores de um uso sustentável do ambiente. Almeida et al (2009) viram que o alto conhecimento de regras de uso sustentável de uma reserva demonstrou diminuir o esforço de pesca em moradores em comunidades amazônicas, ou seja, os pescadores passam menos tempo em cada rede de pesca. Os nossos dados parecem ter capturado em valores o custo do pensar social (dentro e fora da RESEX) e, consequentemente, a vantagem econômica do individualismo (free-riding) em situações de uso não-privativo dos recursos.
Seixas et. al (2010) revisaram diversos estudos e fizeram um levantamento de características de manejo participativo em 5 reservas brasileiras. No trabalho, os autores levantaram questões desde a criação até o momento em que cada área se encontrava no momento do estudo. A reserva mais antiga é a RESEX de Arraial do Cabo, que foi criada a partir de iniciativa governamental com o apoio de universidades locais, em 1997. No ano da realização do trabalho foi observado que a reserva já estava na fase de Implementação e com um Plano de Utilização em vigência, mas ainda não havia Plano de Manejo para a área ou sequer sido formado o conselho deliberativo. O processo participativo desenvolvido na Amazônia para proteção de espécies aquáticas (tartarugas e jacarés) iniciado em 2006 ainda encontrava-se em fase de avaliação e planejamento, 4 anos depois. A Reserva de Fauna em Tibau do Sul, que foi criada em 2006, era a área que estava em estágio mais avançado de desenvolvimento, contando com um conselho formado, um plano de utilização, regras formuladas e monitoradas e o Plano de Manejo em fase de criação. A RESEX de Corumbau é a que mais se assemelha à Acaú-Goiana, pois sua criação também se deu a partir de iniciativa popular. Apesar de ter sido criada antes (no ano de 2000) estava no mesmo estágio de
desenvolvimento da Reserva de Fauna em Tibau do Sul. No portal eletrônico oficial do ICMBio ainda não consta a existência de um plano de manejo para esta área.
Esses dados nos mostram que a nossa área de estudo parece estar num ritmo de desenvolvimento bastante lento, pois 16 anos depois das primeiras mobilizações para sua criação ainda não conta com Plano de Manejo estabelecido. Apesar de haver um Acordo de Gestão e um conjunto de regras estabelecido, tais medidas não estão sendo monitoradas e fiscalizadas, pois nossos resultados demonstraram haver um sério desconhecimento por parte dos pescadores entrevistados. Dietz e Henry (2008) ressaltam a importância do contexto em que o sistema está inserido, pois um fator influencia o outro de forma dinâmica. Análises comparativas são importantes para compreender a velocidade de amadurecimento desses princípios e quais fatores influenciam nesse processo para poder otimizar o processo de co- gestão.
CONCLUSÕES
Nossas análises indicam que, apesar de uma criação que envolveu ativa participação social e contou com o apoio de órgãos públicos, atualmente, 16 anos após as primeiras mobilizações, o conhecimento acerca de informações de grande importância para o sucesso da RESEX ainda é baixo. A quantidade elevada de usuários e a extensão do território da reserva também podem ser fatores agravantes para o reconhecimento dos limites, prejudicando a auto-organização de sistemas, pois torna mais difícil a reunião e o entendimento entre os envolvidos. Tal como visto em outros estudos, a existência de uma liderança forte nas comunidades está exercendo um papel de grande importância no processo de desenvolvimento de uma política auto-organizada.
O desconhecimento dos princípios facilitadores de uma gestão participativa é maior nas comunidades em que há maior discrepância de renda, sugerindo uma relação causal entre PGRC e equidade. O desconhecimento de PGRC também é maior entre beneficiários com maiores valores individualistas. O eixo coletivista (self-transcendence) é composto por valores que implicam em custos, que podem ser medidos pela renda e pela quantidade de horas trabalhadas na reserva.
Os princípios que levam à uma gestão coparticipativa (PGRC) levam tempo para amadurecer e esse tempo varia de acordo com a comunidade. Enfatizamos a importância de orientar os principais atores no desenvolvimento de uma gestão coparticipativa na direção dos princípios básicos propostos por Ostrom (1990), e que desenvolver valores coletivistas entre os usuários de um bem comum pode aumentar o conhecimento destes princípios.
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