Em 1926, Menotti publica dois livros de contos, Toda Nua e A Outra Perna do
Saci, ambos pela “Série Novíssima”.182
Nesses contos, o autor faz referência a Freud, ao focalizar as características psicológicas das personagens, porém continua a explicar o destino dos indivíduos por meio de determinações de ordem biológica, usando freqüentemente argumentos em torno do problema dos atavismos. Muitas vezes, o narrador expressa uma visão realista ou pessimista do humano, cuja “bondade” é vista apenas como disfarce para o interesse. Personagens da cor negra surgem esporadicamente, algumas vezes, na pele de seres dóceis e bondosos. Assim o padre Eusébio, do conto “O Árbitro”:
O chefe dos vigilantes era Padre Eusébio. Chegara a diácono e era tonsurado. Parecia esculpido num tição. Era preto como a dor de uma viúva. A perfídia caricatural dos apelidos grudara-lhe, como um selo, a designação de “padre Corvo”.
[...]
Eu não sentia hostilidade no padre vigilante. Ele era bom e era suave. Preto, com um nariz esmurrado de boxador, era simpático porque sua fisionomia tinha muita doçura. E sua voz era de mel.
[...]
Eusébio estava radiante, bom e simples, agradecia à Providência dadivosa, que o integrara no seu destino único, pondo-o em contato com a terra que fora a madrasta e a consoladora da sua raça. Seu avô – quem seria – um cabinda semi-bárbaro, arrastado, a chibata, da cabana da tribo ao porão do navio negreiro, sentira a alforria transitória naquelas horas em que o sol é um castigo de brasa nos rins exaustos, junto da terra-roxa do cafeeiro nascente, engolido depois, sem pompas de enterro, pela boca de uma cova esgoelada no seu ventre.
182 Toda Nua contém os contos: “O Apóstolo” (dedicado a Plínio Salgado e Cassiano Ricardo), “O Disco” e “O
Árbitro”. A Outra Perna do Saci contém, além do conto que deu título à obra: “O Homem que não Era”, “O Romancista”, “Nascimento e Morte de Fulgêncio Freitas, Funcionário Público e Herói Popular”. Na segunda edição de Toda Nua (1932) serão compiladas as duas obras e será incluído ainda o conto “O Herói”. A epígrafe de Toda Nua: “Eu quis ver a Vida toda nua... Ela era bela e horrível como a verdade”.
Ela, a terra, a mãe de todos, lhe dera um simulacro da liberdade perdida e a compensação tardia mas redentora da paz dentro da morte (1926:99-165).183
O panteísmo também permanece como força expressiva nos contos, em paralelos contínuos entre homem e natureza.184 Descrições dos corpos das personagens como louros,
“corpo branco”, ou caboclo “cor de bronze” e matizes variados são freqüentes. Aliás, o caboclo reaparece como um ser integrado “panteisticamente” na natureza, como filho da terra e irmão dos animais e árvores, fixado ao universo interiorano. Os pretos são comparados a animais, descritos como fanáticos e totemistas. O corpo é tomado, freqüentemente, como expressão e espelho da alma e da vida.
Em 1928, Menotti retoma a contraposição entre idealização e realidade ao publicar
O Amor de Dulcinéa, poema em forma de diálogo entre D. Quixote e Sancho Pança. Aqui,
Menotti inverte a relação entre idealismo e empirismo presente na obra de Cervantes, pois o escudeiro passa a representar o idealismo e a credulidade, enquanto D. Quixote assume a faceta do empirismo e da necessidade. Enquanto Sancho vê gigantes, D. Quixote avista apenas moinhos de vento. O autor estabelece ainda aqui, mais uma vez, a oposição entre carne e barro, entre alma e luz.185
183 Menotti, em atitude de justificativa para o viés realista emprestado ao conto “O Árbitro”, confessa:
“Sou católico, apostólico, romano. Creio na doutrina cristã e na justiça. Não escrevi este conto com espírito de irreverência. Há nos sacerdotes a mesma contingência humana que há nos advogados, servidores da lei e da justiça.
E porque alguns deles não sejam puros de costumes, não caem dos seus nichos as imagens de santos. Nem porque alguns advogados sejam trampolineiros, a justiça não deixa de ser a aspiração mais nobre e legítima da sociedade organizada. M.D.P.”
184 No conto “O Disco” afirma o autor: “[A alma] Nasce como uma flor no espírito. Tem a evolução normal e
passa pelos estágios das estações do ano, da primavera floral ao inverno assassino. Umas são mais carregadas de vitalidade e de clorofila. Absorvem, na sua formação, mais energias e mais vida. Algumas, mesmo, nos exaurem. Sugam todo o húmus de crença ingênua, de curiosidade inquieta e esbanjam as melhores reservas de nossa vontade de viver...” (1926: 71).
185 Menotti procura atualizar o tema. Na terceira parte da obra, localiza, em 1928, a cena de Sancho Pança
agonizando em seu quarto, afirmando que “a humanidade continua a mesma: fetichista, imbecil, heróica e bela” (DEL PICCHIA, 1928:47). No prefácio, o autor propõe o transporte do cavalheiro e seu escudeiro para o território nacional:
“Este D. Quixote era uma velha obsessão do meu espírito. Escrevi-o em setembro de 1928 – conservando a forma exata com que o poema se gestou dentro de mim.
Sancho, o supremo idealista, é o microcosmo eterno da humanidade, que se completa com o espírito adjetivo do Cavalheiro da Triste Figura.
Heróis comuns a todas as latitudes geográficas, vivem seu instante nacional no território brasileiro da língua deste poema, porque são os dois pólos universais do próprio homem, cidadãos de todas as pátrias, alegorias internacionais do egoísmo e da espiritualidade. M.D.P.”
SANCHO
D. Quixote! Elevai a vossa alma à estupenda altura da missão de um herói de legenda! A terra é vil; a vida é churda; a carne é lama: vosso espírito é luz e vosso olhar é chama! E longe de o arrastar pelo instinto, de rastros, erguei o pensamento ao resplendor dos astros! Tendes fome?
D. QUIXOTE Si tenho! Sonho com caçarolas!
SANCHO
Comei pólen de flor no prato das corolas... D.QUIXOTE
Estás louco, meu Sancho? Este estômago rude com tropos de poesia a fome não ilude... Quando ele ruge assim, o meu pobre desejo de idealismo é vão: pão é pão, queijo é queijo...(1928:18)
Em co-autoria com Alfredo Ellis, Menotti Del Picchia publica, também em 1928,
O Tesouro de Cavendish Romance Histórico Brasileiro.186 A mestiçagem paulista é dissecada
por meio de referências aos ancestrais europeus e indígenas, eles mesmos, “gigantes de bronze”, descendentes de “nobres estirpes”, cujo físico belo e robusto denunciaria um caráter forte e uma vontade firme, em meio a polêmicas sobre linhagem e fidalguia nos diálogos das personagens. Nesse romance de aventuras tecido a partir de dados históricos, as principais metáforas raciais veiculadas pelos autores referem-se a minerais e metais, ainda que os vegetais e frutos surjam algumas vezes.
Um guapo rapaz se tornara João. Louro como fora o pai, esguio em o porte todo britânico, mas não sem os índices de ancestralidade materna, nas linhas duras e rígidas da sua fisionomia, onde se retratavam o judeu, pelo nariz um pouco aquilino e o índio pelos malares em ligeira saliência. O amendoado tênue dos olhos azuis traíam o temperamento ardente do lusitano. Maria, muito mais nova, era também a linda mescla dos dois ramos raciais de seus
186 No entanto, no prefácio do livro, Menotti atribui a obra inteiramente a Ellis, afirmando que apenas leu os
originais, eximindo-se de maiores sugestões. O único ponto de discordância entre os dois autores, segundo Menotti, em relação à construção do romance, se refere ao papel e à imagem negativa dos jesuítas que o romance de Ellis divulga, adversária aos bandeirantes e mamelucos. “Penso que à obra jesuítica – principalmente à missão de Anchieta, o Santo da Nacionalidade – devemos a conservação do espírito de independência nacional, porquanto a obra de cristianização do índio não era uma absorção política, uma distenção do imperialismo ibérico, mas apenas sua incorporação ao ritmo de civilização universal” (DEL PICCHIA e ELLIS, 1928:9).
pais. De cor ajambada, com olhos enormes, a denunciar o impetuoso sangue israelita, fartos cabelos lisos alourados a cercar um rosto redondo de malares largos, era, de fato, um conjunto de encantar (1928: 46, 47).
Ainda que nesse romance Ellis admita a presença de negros em São Paulo durante o bandeirismo (cf. p. 201), a mestiçagem, que geraria a “nova raça”, é continuamente analisada em termos de europeus e indígenas, no sentido de se construir uma reflexão sobre a unidade brasileira. Em meio a uma discussão entre Dom Simão (castelhano), Francisco Spinelli (milanês) e Raposo Tavares, o mameluco João procura apaziguar os ânimos.
– Eu não queria provocar competições de nacionalidades. Somos nós, nativos e forasteiros, os formadores do brasileiro de amanhã, que terá de ser neto de portugueses, de castelhanos, de italianos, de alemães, de ingleses e de índios com muita mistura. Somos todos brasileiros, ou porque aqui nascemos ou porque aqui vivemos. Levantemo-nos, portanto, e bebamos pela grandeza da pátria brasileira! Pela raça de gigantes! (1928: 137,138).
Em Raça de Gigantes A Civilização no Planalto Paulista, também de autoria de Alfredo Ellis, lançado pela mesma Editorial Hélios, em 1926, como quarto volume da “Série Novíssima”, a tentativa de criação de uma identidade paulista regional, com vistas a uma expansão para todo o País, já havia ocorrido.187
Ao contrário do romance, Raça de Gigantes é uma obra com pretensões de se constituir como um estudo científico sobre o tema. Ellis cita vários historiadores e teóricos da raça, como Broca, Lamarck, Le Bon e, principalmente, Lapouge, que fundamentariam suas análises e conclusões. Os capítulos seguem a seqüência de descrição das raças no Brasil, começando pelo ibérico, o índio, o mameluco até chegar, finalmente, ao negro, logo após uma apresentação teórica preliminar sobre o conceito de raça e os conhecimentos acumulados pelo autor sobre o tema até então.
Com relação à mestiçagem, o autor afirma existirem mestiços fecundos e mestiços estéreis. O cruzamento do índio com o português seria extremamente fecundo e “eugenésico”, o que, em larga escala no decorrer do tempo, teria levado à formação de uma “sub-raça”, a paulista. O mesmo não aconteceria com o cruzamento entre o branco e o negro.
Este cruzamento entre branco e negro, parece ser do tipo homogenesico disgenesico, isto é, fecundos os primeiros cruzamentos entre branco e negro produzindo o mulato que por sua vez cruzando com o branco é fecundo até uma determinada geração, quando se esteriliza, cousa que está acontecendo com a gradual eliminação seletiva do mulato, que vai desaparecendo da nossa população (ELLIS, 1926: 78).
Ellis concorda com Taunay, que afirmava que o africano não teria participado na formação da população paulista no período inicial da colonização.188 Segundo esses autores,
até a primeira metade dos setecentos o negro seria praticamente desconhecido em São Paulo, só existindo em casos raros. O elemento negro em São Paulo surgiria mesmo no período da mineração.
Tendo em vista as raças constitutivas da população do estado, explicar-se-iam os caracteres psicológicos dos paulistas, tão “fixos” quanto os caracteres físicos. A associação entre formação racial e democracia, tão cara ao pensamento de Cassiano Ricardo na década de 1930, está presente no pensamento de Alfredo Ellis. Uma fecunda seleção étnica advinda da mestiçagem com o sangue indígena e as mesmas condições de vida para todos levariam a uma sociedade democrática em São Paulo, desde o remoto passado.
Nem um só título de nobreza, nem uma só expressão distintora separava esses, que teriam possuído algumas gotas de sangue azul perdidas entre as massas de glóbulos muito rubros de sangue burguês, do restante da população plebéia do planalto vicentino. O regímen democrático que constituiu o “modus vivendi” dessa gente, muito simples e rústica, de outras eras, foi tão intenso que, mesmo esses elementos procedentes de alguma forma das casas mais nobres da península, não se pejavam para o in breading geral, que constituiu a formação da gente paulista e para a qual o sangue do aborígine caudalosamente concorreu. O meio rude e sertanejo paulista foi um agente democratizador tão pujante que, em S. Paulo primitivo, não houve, distinção de classes, nem mesmo para com os mamelucos, só exceptuando naturalmente os índios, escravos e forros, sendo que, raríssimamente, uma ou outra família, talvez atavicamente, se lembrava de justificar sua ascendência, procedendo, mais a uma puritate sanguinis do que propriamente a uma nobilitate probanda (ELLIS,1926:296).
Paulatinamente, por meio do debate entre vários autores, fica visível um projeto no sentido de delinear o conjunto de características que definiriam especificamente uma identidade paulista, diferente de outras identidades no universo da brasilidade. No contexto político da época, o domínio das oligarquias paulistas, por meio de um modelo tomado como “liberal”, colocaria na agenda desses autores a necessidade de estabelecer correlações dessa identidade com certos ideais “democráticos” das camadas dirigentes, ao menos do ponto de vista do discurso. Assim, os autores vão tentar encontrar na própria formação racial e histórica paulista uma “essência democrática”.