• Sonuç bulunamadı

A economia, em particular, teve sua outra face revelada pelo relato desses sujeitos trabalhadores, ao mesmo passo em que, o ato de trabalhar evidenciou-se como elemento central para a compreensão de seus processos saúde/doença. Um deles, ao ser indagado sobre se no seu passado havia feito alguma coisa que trouxe prejuízos a sua saúde, relata situação vivida ao trabalhar numa empresa do agronegócio na região de Mossoró:

E – Acho que sim né!? A ignorância foi minha, eu peguei um saco, não chamei ninguém pra me ajudar, peguei um saco de 70 quilos e botei nas costas, dessa vez eu fiquei... não me dei bem não, tomei medicamento. Era um saco de pó de palha, trabalhado numa máquina cortando aí vexado pra terminar o serviço, aí...O caba que é pobre, todo serviço pesado ele faz, quando o caba não quer trabalhar tá certo. (ENT 25, p. 96)

Ele descreve um pouco o trabalho que realizava na plantação, no que se percebem os riscos à saúde aos quais estava submetido.

[Eu trabalhava] era plantando, era... colhendo o melão do campo pra os armazém né!? Armazenar ele lá, o grande e o pequeno. Que o melão de exportação é diferente né!? Porque o melão de exportação ele cai verde, se tirar maduro ele não aguenta a viagem né!? Já o melão que ia pra São Paulo era um tipo de melão, já o que ia pra o Rio de Janeiro era outro. O melão que ia pra o Rio [de Janeiro] primeiro ia à granel no caminhão. Já para São Paulo ia encaixado, todo encaixado, hoje é tudo encaixado. [Isso foi] Lá no Assú. Com o americano né!? Plantação grande! Pra eles botar o veneno no melão, era dois palmo do pé do melão pra fora assim... com uma colherzinha e botando aqui [faz o gesto mostrando que o veneno ficava pendurado na sua cintura]. Se caísse uma coisinha em cima da folha, caía queimando logo, era forte (ENT 25, p. 96).

Ele também trabalhou no ramo salineiro, outro pilar da economia local, onde assim como no agronegócio fazia o “serviço pesado”. Diz ele: “Eu tirava o sal de dentro do barco pra fora. Hoje ninguém colhe mais sal, quem colhe é o maquinário, tem o maquinário pra tirar” (ENT 25, p. 96). Ou seja, o entrevistado faz referência ao

período, anterior à reestruturação produtiva na década de 1970, quando as salinas se viram obrigadas a introduzir a maquinaria em seu processo produtivo, o que na época ocasionou grande desemprego em Mossoró (ROCHA, 2005).

Como vimos, as atividades salineiras e de fruticultura geram muitos serviços de transporte por caminhão. Abaixo, um dos sujeitos da pesquisa que exercia a função de caminhoneiro, relata seus hábitos de vida e alimentação quando exercia essa profissão, os quais lhe ocasionaram, em sua concepção, uma diabetes.

Rapaz é o seguinte, olhe: a diabetes, a minha saúde foi de mim, não tem ninguém diabético na minha família, foi porque eu era caminhoneiro e comia de tudo na estrada, principalmente coisa doce, aí foi de mim mesmo, não tenho que culpar ninguém por isso. Minha diabetes foi criada, porque diabetes você não pega de ninguém, mas você adquire (ENT 8, p. 17).

As economias tradicionais de Mossoró geram, como já vimos, uma grande rede de serviços por toda a cidade. Dois dos entrevistados, um trabalhador e uma trabalhadora que se inserem nesse ramo, expõem situações de saúde vinculadas a tais serviços. No primeiro caso, um jovem de 21 anos, empregado de uma rede de supermercados, segmento de visível crescimento na cidade, diz:

Tenho, só tenho um problema que me apareceu no trabalho aí!? Tava fazendo um esforço, machuquei minha coluna, tô tentando aí ver o que é, pra mim saber o que é. [...] Começou a aparecer umas dor. Me levantei pra ir trabalhar, apareceu uma dor na coluna, de um lado e de outro, pegando pra perna. Aí fui pra o hospital, tomei injeção, passou só no dia e no outro dia voltou de novo, tomei mais três. E aí tô pra ir pra o médico pra saber o que é, pra ele mandar fazer alguma coisa, um raio-x, saber o que é né!? Que eu não sentia isso e só foi eu descarregar um caminhão na firma lá, no outro dia essa dor apareceu. Eu tô em casa sem trabalhar por causa disso, pra resolver isso aí. (ENT 9, p.20).

A “metrópole do futuro”, hoje classificada como uma das “100 melhores cidades para se fazer carreira” tem vivido um intenso processo de valorização do espaço urbano, com investimento de capital no mercado imobiliário e a constituição de um cenário geográfico com muitas obras em andamento, especialmente apartamentos que são ocupados, em grande parte, por pessoas que constituem uma população flutuante de aproximadamente 30 mil pessoas. Somadas a elas, cada dia mais pessoas com residência fixa em Mossoró dão preferência aos apartamentos, estimuladas pelo aumento da violência; questão esta amplamente evidenciada pelos sujeitos da pesquisa e da qual tratamos mais adiante. Por hora, expomos abaixo, o relato de uma diarista, profissão que, nesse contexto, cresce a cada dia na cidade. Nesta fala, ela releva seu

histórico com outros trabalhos “pesados” que, juntos ao de hoje, associam-se a sua condição de saúde que, por sua vez, lhe traz muitas dificuldades de trabalhar, mas que ela enfrenta por uma questão de sobrevivência. Ao ser estimulada a refletir sobre sua vida pregressa e suas condições de saúde atuais, ela diz:

Poderia ter feito assim, pra gente ter uma vida melhor, ter uma vida normal, sem trabalhar muito, pra gente, porque essa minha doença, é d’eu trabalhar demais, tô desse jeito é! Certeza! Mas se a vida era assim, ninguém podia fazer nada, é! E logo eu tenho um irmão que é, meu pai ele é viúvo, minha mãe morreu e eu quem cuido do meu irmão né!? Ele é epilético, ele dá um trabalho. Papai já tá com 90 anos. Quando esse menino tá em casa tudo bem, mas quando não, eu quem pego ele, boto na rede, pesa que só, saio puxano, tudo isso, acaba comigo. [...] Eu sou doente dos meus ossos, ói (olhe), meu pé, olhe aí esse osso, esse osso dói (mostra o pé ao pesquisador), esse osso do braço também crescendo, tenho gastrite crônica, então assim eu não posso dizer que tenho saúde, não tenho, de vez em quando eu vou pra o pronto- socorro porque a gastrite é grande, é grande mesmo, aí eu queria que mandasse por Deus eu deixar de fumar mas não deixo (risos).[...] Mais de quarenta homi! Aí pronto, eu não posso dizer que tenho saúde, eu trabalho à força, à força! Tem dia que eu vou trabalhar, aí eu pego tomo aqueles comprimidos, como é?...codrofinaco, pra dor (diclofenado), é como eu melhoro, graças a Deus, passo o dia sem sentir dor, no pescoço, nas costas nada, aí eu melhoro. Mas tem gente que diz que os comprimidos é bom pra umas coisas e ruim pra outras, aí eu não entendo (ENT 6, p.6).

Outro segmento que movimenta a economia da cidade é o turismo de eventos, que gera uma gama de trabalhos informais em torno de si. Aqui, o relato de uma trabalhadora:

Deixei de trabalhar com 35 anos e me meti em vendas, assim, vendas pesadas porque hoje tô com 51 anos e tô me achando prejudicada devido ao óleo quente, porque batata frita é aquele vapor que quando a gente bota a batata ele sai, quando ele sai, se a gente não tirar o rosto ligeiro, ele entra. Aí eu dizendo para o médico, o médico acha que esse meu problema, o que prejudicou tá aí. E eu cega, faço o que? Mais nada! Eu tava dizendo ao rapaz do INPS tudo que a gente faz tem que ter a vista, passar troco, olhar onde tá botando as coisas ... Se eu não cuidar dessa minha vista agora o que é que eu vou fazer? Nada. E agora, se o INPS não me der direito, viver sem nada, nem trabalhar posso... (ENT 17-18, p. 50).

No comércio local, aquecido pelas economias tradicionais, em especial a Petrobrás, uma mãe relata a dificuldade do filho em permanecer no trabalho, em virtude de humilhações por ele sofridas devido ao formato de seu nariz:

P- Onde é as ambulâncias?

E- É ali no SAMU. E eu acho que... Eu disse a ele, enquanto eu puder lutar para você fazer essa cirurgia, eu faço. Porque o povo tira muita onda da cara dele por causa desse nariz. Discrimina muito ele. Fala que ele é XX que é XX

e fica nisso, aí ele chega me dizendo, ele chega até chorar. “Deixa de ser besta, isso é da vida. Vá procurar o que fazer, vá botar isso na cabeça não, um dia você sai, um dia você vai ficar com seu nariz bem bonitinho”, se Deus quiser, é isso que o povo chega com seu nariz...

P- Quem é que discrimina assim mais?

E- As firmas. Ele foi servir o tiro aí tinha tudo para passar, mas quando o capitão disse que ele tinha passado, quando olhou para o nariz dele, aí pronto, disse:“você tem tudo para passar, mas por causa do seu nariz...”

P- E alguma empresa, firma?

E- Empresa também. As empresas também.

P- Já deixou de trabalhar em algum canto por causa disso?

E- Já. Quando ele trabalhava no parque elétrico, ali, ainda tá em construção, um é parque elétrico. Trabalhou 3 meses, o dono de lá disse que XX e só Deus mesmo, porque eu digo, mas quem vai fazer suas coisas meu filho, não é o nariz, é as mãos. Você tem sua saúde, é porque quando ele começa a poeira, cal, cimento, aí entope. Entope o nariz e ele não consegue.

P- E lá, ele foi discriminado como?

E- Além do nariz, era gordo demais.

P- Mas, aí disseram que não dava certo por causa disso?

E- Foi. Disseram, além de você ser gordo o nariz ainda é quebrado, ainda tem esse problema desse nariz. Isso quando ele começou a trabalhar lá ai ele faltou um dia e meio porque ele pegou uma febre por causa do cimento. Mas um dia ele ficou lá trabalhando até uma hora, duas horas da madrugada XX uma hora, duas horas da madrugada tava lá trabalhando, três meses, “aí hoje mamãe vieram me dizer que estavam me dispensando porque além de eu ser gordo, tem vergonha do meu nariz quebrado. A senhora não acha não XX”. “Homem deixe isso pra lá, vai botar isso na cabeça”. Eu não sei mais o que fazer. Porque ele tem vontade de trabalhar, porque, para comprar as coisas dele, fazer a vida dele, arranjar uma mulher para... porque hoje em dia tá difícil mas só trabalhando arranja, só não arranja parado assim (ENT 17-18, p. 56).

Como se pode perceber pelas falas dos sujeitos da pesquisa, a reconhecida economia de Mossoró, a partir da qual a cidade goza da condição – muito bem aproveitada pelos poderes políticos que governam a cidade – de “metrópole do futuro”, tem no trabalho explorado seu pilar de sustentação. É o trabalhador, e sua exploração, o grande sustentáculo do crescimento econômico, hoje meta suprema de qualquer governo.

A exploração do trabalho é uma expressão da organização econômico-social do capitalismo. E a mesma vem se intensificando com a reestruturação produtiva do capital que atinge os mais diversos processos produtivos, com vistas a estabelecer, sempre, maiores taxas de lucro. Os processos produtivos que configuram o tripé da economia mossoroense, pela vinculação que têm com as economias nacionais e internacionais, caminham em sintonia com a reestruturação a fim de manter seu poder competitivo no cenário nacional e global.

A “metrópole do futuro” serve à nova geração da família Rosado para realimentar o mito da cidade de Mossoró como lugar especial. Consequentemente, seguindo os ensinamentos dos pais, essa geração considera que para concretização desse

lugar especial a cidade não pode ficar nas mãos de qualquer um, pois necessita, para isso, de homens e mulheres “fortes”, “progressistas”, pessoas dotadas de “capacidades especiais”, assim como as que detêm essa família, como já provara ao longo de sua história, dedicada a “servir” Mossoró. Esta cidade que hoje é notada por ser uma das “100 melhores cidades para se fazer carreira”, “uma das economias que mais cresce no nordeste”, “um dos municípios que mais investe na saúde”, a “cidade da liberdade”, a “capital da cultura do RN”.