Vimos até o momento uma série de embates teórico-conceituais que se configuram enquanto desafios metodológicos à execução deste trabalho, contudo há de se ressaltar que
toda pesquisa se depara com desafios ou problemas específicos, decorrentes da natureza do objeto de estudo. Nesta direção, convém lembrar que, se por um lado, a questão metodológica acerca de pesquisas em cidades pequenas há de ser vista no bojo da problemática teórico- conceitual de diversas disciplinas – da Geografia, do Urbanismo, da Engenharia –, não obstante as especificidades que lhe conferem identidade dentro de uma visão interdisciplinar que requer uma elaboração bastante trabalhosa, em termos de referenciais analíticos, por outro lado, o uso de técnicas e instrumentos de análise se revelam também limitados e muitas vezes não são capazes de apreender a realidade ou não é suficiente para abranger de modo singular a manifestação dos fenômenos em cidades de pequeno porte.
Assim, os caminhos teóricos e práticos se deparam com uma situação absolutamente complexa. As possibilidades de análise do ponto de vista teórico-conceitual se estendem amplamente, podendo ser traçadas investigações a partir de diferentes e diversas perspectivas analíticas. Em se tratando das cidades pequenas em particular, explora-se frequentemente a articulação entre o urbano e o rural, a própria contestação do que é urbano e cidade no país, as particularidades da morfologia urbana, a reprodução social do espaço e da moradia, as funções e papéis desempenhados na rede urbana. Enquanto as análises a partir da exclusão se revelam também complexas, pela multidimensionalidade do conceito, alvo de discussões, controvérsias e críticas, pois é empregado para designar as mais diversas situações, pois o conceito de exclusão tem sido discutido, principalmente nas áreas das ciências humanas e sociais, na maioria das vezes atrelados com a chamada crise do mundo do trabalho. Essa discussão vem sendo amplamente difundida no cenário europeu, inicialmente e principalmente pelos franceses, desde as décadas de 1960 e 1970. Na América Latina e no Brasil essa temática também ganha espaço, no qual os autores procuram adequá-la a nossa realidade. Desqualificação, desfiliação, marginalização, espoliação, apartação social, precariedade, vulnerabilidade são alguns conceitos que encontramos relacionados ao de exclusão na literatura. A situação acentuada da desigualdade e pobreza nos dias atuais faz emergir a construção de uma série de conceitos: exclusão, espoliação urbana, inclusão precária, segregação espacial, informalidade, ilegalidade, entre tantos outros. O próprio conceito de exclusão é empregado de diferentes maneiras e utilizado com diferentes adjetivos que de certa forma exprime e converge para o objeto da análise ou do discurso, como exclusão social, exclusão territorial, exclusão econômica, exclusão digital, entre tantos outros. Quanto aos aspectos práticos e metodológicos que viabilizam a concretização de uma pesquisa científica, elas se revelam limitadas, pelo próprio fato de haver uma produção bastante limitada de trabalhos que versam sobre as cidades de pequeno porte, seja na
Geografia, no Urbanismo ou em quaisquer outras áreas cujo foco central é o espaço urbano. Desse modo, elencamos alguns desafios ou obstáculos que cruzaram nosso caminho durante a concretização desta pesquisa, o que se mostra importante ao passo que foi fundamental para delinear os caminhos sinuosos percorridos, como assinalaremos mais adiante, e para sancionar os limites à execução da pesquisa e todo o conjunto de procedimentos intelectuais e técnicos cabíveis à uma investigação científica para se atingir os objetivos traçados.
O primeiro diz respeito aos dados do IBGE: estamos num momento de pré-censo, ou seja, apesar de trabalhamos com algumas estimativas do IBGE de 2007, os valores mais frequentes apresentados nesta análise são do Censo de 2000, o que, em partes, pode representar certa desconexão com a realidade atual em termos numéricos, pois a compressão do tempo e do espaço é tão violenta que tudo muda muito rapidamente. Ademais, trabalhar sob a ótica de indicadores – dados quantitativos – merece determinado cuidado analítico, pois os números nem sempre são capazes de revelar a realidade, pois vamos nos deparar com pequenos números, ausência de uma base de dados consistentes e de informações disponíveis, bem como o potencial de alcance destes dados que podem não representar plenamente a realidade urbana quando falamos em cidades de pequeno porte. Ressalte-se a dificuldade em obter dados nos órgãos públicos dos municípios que englobam o estudo de caso, tendo como exemplo o indeferimento da prefeitura de Buri em ceder algumas informações solicitadas. Entretanto, é importante clarear que esta pesquisa não tem por objetivo criticar uma ou outra gestão urbana, um ou outro agente que produz ou contribui para intensificar as desigualdades sócio-espaciais, mas sim de traçar uma visão crítica da sociedade capitalista como um todo, das ações, práticas e realizações que segregam, excluem e fragmentam a sociedade e o espaço. Portanto, quando nos referirmos à gestão urbana, entendemos-na enquanto um processo contínuo, apesar da tradição brasileira de descontinuidade, cujos planos e projetos são ignorados a cada mudança de gestores, de acordo com ideologias partidárias ou interesses políticos, logo, a presente Dissertação não visa examinar um ou outro governante, esse ou aquele partido político, esta ou aquela ação ou plano, mas a totalidade do planejamento e gestão do espaço, indispensáveis para o entendimento de sua produção, ou seja, nos empenhamos em delinear um estudo centrado na neutralidade e imparcialidade científica.
Assim, os caminhos a percorrer são diversos do ponto de vista teórico-conceitual e, em certa medida, limitados metodologicamente, pois apresentam inúmeras controvérsias e diferenças em relação aos centros urbanos de maior porte e entre si mesmas. As cidades pequenas representam um espaço heterogêneo, tanto no que tange o espaço físico quanto nas relações sociais que aí se estabelecem, sendo, portanto, uma imensa área a ser explorada no
campo científico, pois as possibilidades para pesquisas e estudos estão abertas e há caminhos a serem trilhados, contribuindo e aprimorando as concepções teórico-metodológicas a partir de aspectos quantitativos e qualitativos.
Identificar, analisar ou descrever a estrutura e os elementos que condizem a realidade das cidades pequenas é, pois, uma tarefa árdua, ainda mais se partirmos do pressuposto de que a cidade não pode ser pensada ou compreendida em seus pedaços e pelo fato da própria realidade estar em movimento constante, dificultando a leitura pela totalidade. O olhar sobre a cidade e a região, a amplitude do conceito de exclusão, as ações e práticas contraditórias dos atores produtores da cidade, a perceptação dos sujeitos, os problemas enraizados na paisagem urbana, entre tantos outros aspectos, admitem múltiplos olhares da cidade e do urbano tal qual a produção de modelos, análises e instrumentos que dêem conta de explicar a realidade destes espaços urbanos e do território como um todo.
Diferentes dimensões de análises são possíveis, no entanto, estabelecer uma combinação com outros enfoques de pesquisas se faz necessária, procurando entender um pouco as cidades pequenas a partir das médias e grandes. Até o momento as pesquisas em cidades de pequeno porte terem tido um caráter pontual e isolado, o que dificulta um avanço teórico-conceitual e denuncia as limitações e o nível de abrangência destes estudos, entretanto, traçar um nexo entre diversas e diferentes perspectivas e realidades é fundamental na busca de novos caminhos e rumos que são a base de quaisquer avanços da ciência e do saber. Uma análise a partir da totalidade exige olhar para as diversas escalas e é nesta perspectiva que procuramos contribuir com a produção da temática no campo da Geografia e do Urbanismo principalmente, cujo arcabouço teórico-metodológico adotado possa dar conta de desvendar o objeto que se pretende investigar, apesar da limitação dos recursos materiais e dados disponíveis, aceitando que juntamente com as novas perspectivas teórico- metodológicas surgem, ao mesmo tempo, novos problemas desta natureza.