Quando questionados acerca de seu(s) principal(is) meio(s) de locomoção na cidade, os participantes indicaram o transporte público em sua quase totalidade, 83,78% afirmaram fazer uso do mesmo em sua mobilidade urbana. O carro particular apareceu em segundo lugar na frequência de uso pelos indivíduos, com frequência de 29,73%. Abaixo é
possível identificar os meios de transporte indicados pelos participantes em ordem decrescente de frequência de uso.
Gráfico 10 - Principais meios de transporte dos participantes
Fonte: Elaborado pela autora
Vale salientar que dentre as pessoas que apontaram o carro como um dos principais meios de transporte, mais da metade (6 entre as 11) também fazem uso do transporte coletivo, sendo o carro apontado como única forma de locomoção por quatro dos respondentes, aparecendo ao lado da moto em uma das respostas. O taxi foi indicado ao lado de outros meios de transporte em apenas uma resposta. A caminhada foi indicada como principal meio de transporte por um respondente, sem o complemento de outros veículos (mapa 6), contudo na questão em que havia a solicitação para descrever dois caminhos percorridos em sua rotina, um dos trajetos incluía a utilização de transporte coletivo, complementado por trechos de caminhada. Em sua descrição de um percurso feito integralmente caminhando este sujeito forneceu riqueza de detalhes quanto a nomes de ruas e movimentos a serem realizados a fim de atingir seu destino final, como pode ser observado a seguir: “Percurso casa para igreja: Parto em direção a Rua Duas Nações e ando por volta de meio quarteirão e entro à esquerda [...]. Ando seis quarteirões até chegar na Rua Oliveira
Sobrinho e entro à esquerda, ando mais meio quarteirão e chego ao meu destino final.” (mapa
06).
O sujeito 21, que também apontou apenas o carro como meio de locomoção na cidade, ao falar sobre seus caminhos percorridos, descreveu um trajeto realizado de modo autônomo utilizando o transporte coletivo e a caminhada. Esta realidade pode estar ligada à
0 5 10 15 20 25 30 35 Quantidade
insegurança que o sujeito revelou através de seu mapa afetivo, que estimula sua atitude de deslocar-se acompanhada, fazendo uso de veículo particular.
O sujeito 31 também citou apenas o carro como meio de transporte, contudo nos caminhos percorridos, descreveu um trajeto realizado de ônibus, que ratifica sua afirmação de deslocar-se sozinha “às vezes”.
Quanto à frequência com a qual os participantes deslocam-se sozinhos na cidade, temos a seguinte distribuição da amostra, conforme apresentada no gráfico abaixo:
Gráfico 11 - Frequência com a qual os participantes deslocam-se sozinhos
Fonte: Elaborado pela autora
A maior parte dos sujeitos (64,86%) afirmaram sempre ou quase sempre deslocarem-se sozinhos, enquanto apenas 16,22% nunca saem desacompanhados. Entre as oito pessoas que nunca ou raramente tem mobilidade independente em ambientes externos, observa-se que seis não realizaram treinamento em orientação e mobilidade e esta carência pode estar diretamente ligada a tal limitação, já que aqueles que realizaram esta etapa da reabilitação têm maior grau de independência em seus deslocamentos.
Também foi indagado aos participantes da terceira etapa da pesquisa, na qual foi aplicado o instrumento finalizado, se os participantes deslocavam-se sozinhos e como se sentiam a este respeito. Apenas 15 pessoas responderam esta questão, havendo somente duas respostas negativas. Uma das respondentes (sujeito 27) indicou sentir-se limitada por isso, ou
em suas palavras “amarrada”, enquanto a participante 37 afirmou que se sente bem, pois um
dia irá aprender a andar sozinha. A expectativa de adquirir a habilidade de deslocar-se com autonomia é mais potencializadora do que a idéia da impossibilidade de realizar tal atividade,
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Nunca Raramente Às vezes Quase sempre Sempre
que impõe uma condição cristalizada ao sujeito, o qual graças a sua forma de perceber as circunstâncias e lidar com elas torna-se realmente deficiente.
Quanto às 13 pessoas que afirmaram andar sozinhas pela cidade, somente o sujeito 30 declarou fazê-lo sem nenhum receio, chateação, medo ou insegurança, enfatizando a liberdade que experimenta ao transitar desacompanhado pelas ruas de Fortaleza. As demais respostas mencionam os sentimentos elencados na tabela abaixo:
Quadro 10 - Sentimentos dos participantes ao transitarem sozinhos em Fortaleza
Despotencializadores Potencializadores
Insegurança por causa da violência, insegurança por causa do desconhecimento em ambientes novos, solidão, chateação, desgosto, sensação de direito privado, apreensão, medo de ficar perdido, despreparo, sensação de andar numa cidade despreparada para deficientes e com pessoas que não sabem ajudar ou não querem, desconfiança, estranheza, medo.
Liberdade, aprendizagem constante, felicidade, independência.
Fonte: Elaborado pela autora
A partir da tabela pode-se perceber o quanto a mobilidade das pessoas com deficiência visual produz sentimentos despotencializadores que os afetam de modo a reduzir seu conatus (ESPINOSA, 1998), constituindo verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento de suas capacidades.
Esta informação pode ser corroborada pelas observações feitas a partir das respostas fornecidas acerca dos caminhos percorridos com frequência pelos sujeitos. Ao contabilizar os destinos por eles apontados em suas descrições, temos o gráfico abaixo, que indica a frequência com que foi mencionada cada atividade:
Gráfico 12 – Finalidade do deslocamento
Fonte: Elaborado pela autora16
Além destes caminhos, foram registrados 05 percursos classificados como internos, pois partiam de um ponto para outro dentro de uma mesma edificação ou instituição mais ampla, os quais foram referidos por pessoas que afirmaram não se deslocarem sozinhas no perímetro urbano.
A leitura do gráfico acima mostra que a maioria dos deslocamentos mencionados pelos integrantes da amostra conduz a realização de tarefas essenciais, como estudar e trabalhar, além da terceira categoria formada por exercícios como voltar para casa ou pagar contas. Tais dados sugerem que a dificuldade para transpor as barreiras arquitetônicas e atitudinais impostas pela cidade restringe a variabilidade de ambientes frequentados pelas pessoas com deficiência visual, que, portanto, preferem ir a lugares conhecidos, onde se sentem mais seguros devido ao domínio sobre o espaço, previamente adquirido através da
apropriação, como afirma a participante 36 sobre sua mobilidade em Fortaleza: “Às vezes me
sinto insegura e com medo e às vezes bem segura. Quando eu saio pra um lugar que eu já conheço eu saio muito segura, mas quando são lugares que não conheço tenho uma certa
insegurança pois nem sempre há pessoas para ajudar.”.
16
Atividades de rotina aqui equivalem a atividades como voltar para casa, ir a estabelecimentos comerciais e pagar contas. 29% 27% 27% 11% 2% 2% 2% Estudar Trabalhar Atividades de rotina Atividades de lazer Ir ao médio
Realizar exercício físico Atividade religiosa