(M.1)
O trecho do romance identificado como parte aproveitada deste manuscrito segue abaixo:
Chegou, vindo de longe, o passador de gado, descera ele da terra talhada de escalvados penhascos. Contava que ao caírem as primeiras
águas se elas enchessem a marca da pegada humana, deixada na pedra pelo bem-aventurado Pai Pina – depois invocado por sua intervenção milagrosa de Amanaiara, o Senhor das Chuvas, era certo que eles as mandaria descer das nuvens171.
Assinalamos que a informação obtida através de leituras aparece no romance de forma poética, mas permitindo que possamos fazer associação entre o texto fonte e o texto poetizado. Este caderno de NC apresenta uma preparação consciente para a elaboração do romance. O texto não nasceu pronto, ele foi se delineando na cabeça da autora a partir de suas descobertas enquanto pesquisadora. Assim, como nos lembra Dominique Maingueneau (1995), “o escritor só consegue passar para sua obra uma experiência da vida minada pelo trabalho criativo, já obsedada pela obra”172
.
Fiquei muito abaixo da Serra dos Ventos onde foram colocados antigos marcos de posse de pedra bastarda de sete palmos, demarcando as sesmarias daquela “terra de descoberta” onde muito depois homens plantaram solares e café, escondendo estes últimos, na sombra protetora das ingazeiras nativas173.
A “terra descoberta” sugerida por NC na citação é a região norte do estado do Ceará, lugar em que viveram muitas tribos indígenas. Com a chegada dos portugueses e do Pe. Antônio Vieira (que catequizou e batizou os índios), os índios sofreram uma espécie de aculturação. A Serra dos Ventos, a que se refere NC no trecho citado anteriormente acreditamos ser uma alusão à Serra da Ibiapaba, lugar onde os ventos são constantes, servindo de motes para poesias.
Do mesmo modo, esta região do Ceará também é conhecida por apresentar alguns terremotos. A seguir o relato da narradora do romance, diante de um evento atípico vivido por ela:
A noite desceu rápida, engolindo toda a luz, quando houve um reboar que subiu das entranhas daqueles sertões e senti oscilar meu chão, como se estivéssemos plantados no dorso de um grande animal de porte que se pusera em trôpego e lento movimento tal qual o dos cágados. Mas tudo estacara de repente e nada parecia ter ocorrido. Novamente o dorso movera-se e um surdo rumor vindo do infinito alastrou-se como as trevas daquela noite. Alguns dos meus moradores falaram, se agitaram de dentro do sono profundo, outros acordaram estremunhados e vacilantes, só o velho que desaprendera a dormir invocou o nome de Deus. Um estranho silêncio envolveu aquele mundo e então todos acordaram. Velas foram acesas e os que viviam
171 CAMPOS, Natércia. Op. cit., 2011, p.41. 172
MAINGUENEAU, Dominique. O contexto da obra literária. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.46.
próximos foram os primeiros a dar conta do acontecido já que nas suas casas de taipa seus telhados de duas águas tornaram-se enviesados, de través, e os choros se fizeram ouvir. A casa de farinha, os quartos dos arreios e das forragens racharam-se, encheram-se de fuligem, de sujeira e dos excrementos secos dos pássaros, pois em alguns destes compartimentos as telhas ruíram dos caibros e ripas. Não sofri abalos nas minhas fundações e dos meus telhados houve debandada de asas. No carrascal daquele chão ficaram largas e profundas fendas que muito depois os mais antigos disseram ter sido por elas que se libertara a Grande Peste espalhando miasmas, tempo esse em que a Morte desceu pelas águas dos rios174.
Apesar de extensa a citação aponta o momento e as consequências do terremoto sofrido pela casa. No entanto, é natural que ela, em sua condição de casa (portanto, antropomorfizada) não saiba nomear e muito menos entender tal fenômeno geológico. Em destaque:
M. [Detalhe do M. anterior: trecho escrito a lápis sobre terremoto]
Na parte inferior da folha do manuscrito está escrita a lápis uma sucinta e possível descrição de um abalo sísmico, sem nenhuma relação explícita com o texto antecedente do documento: “Estrondos, tremores, vidros, louças quebrando, aparecem
na atmosfera um „cinzeiro‟ que ao longe parecia uma neblina quebrando a luz de sol.”
Não há como inferir o gesto da escritora: ou resume alguma ideia repentina que se manifestou e foi registrada para o não esquecimento, ou – em nossa leitura – trata-se de um movimento contínuo e dinâmico da própria escritura, comum na elaboração de textos. Para Mainguenau,
O ato de escrever, de trabalhar num manuscrito, constitui a zona de contato mais evidente entre “a vida” e “a obra”. Trata-se de fato de uma atividade inscrita na existência, como qualquer outra, mas que também se encontra na órbita de uma obra, na medida daquilo que assim a fez nascer. A ponto de se discutir muitas vezes para se saber onde passa a fronteira entre o texto e o “antetexto”175
.
Essa relação entre texto e antetexto sugerida por Mainguenau deixa margem para refletirmos como se processam os ritos de escrita de cada escritor, isto é, perceber como o trabalho de reescritura, de correção, supressão e acréscimo modelam o pensamento do artista. Dessa maneira, embora não consigamos, em alguns momentos, relacionar determinadas informações presentes nos manuscritos de NC ao texto final do romance, tal fato provoca uma reflexão, indicando, sobretudo, a especificidade de todo movimento criador que varia conforme os “ritos genéticos” de cada escritor, ou seja, a perspectiva do movimento muda de acordo com o comportamento mobilizado para a criação literária. Daí entendermos o movimento criador de cada artista como uma rede de significados que precisam ser explorados e divulgados, especialmente, pela leitura dos manuscritos do escritor.
Conforme Cecília Almeida Salles (2004), “essa visão do movimento criador, como uma complexa rede de inferências, contrapõe-se à criação como uma inexplicável revelação sem história, ou seja, uma descoberta espontânea (como uma geração espontânea)”176
. Sendo assim, esse movimento natural de NC aponta para os passos da criação literária.
Sob este aspecto, o ato criador e o modo como NC interfere nas informações colhidas, acabam manipulando a vida em permanente transformação poética para a construção da obra. Em outros termos, equivale dizer que “[...] a originalidade da construção encontra-se na unicidade da transformação: as combinações são singulares. Os elementos selecionados já existiam, a inovação está no modo como são colocados juntos”177
.
175
MAINGUENEAU, Dominique. Op. cit., p.47.
176 SALLES, Cecília Almeida. Op. cit., p.89. 177 Ibid., p.89.
O cotejo dos dados obtidos e registrados nos manuscritos com o texto final nos mostrou que a construção de uma nova realidade (entendida como a realidade literária) ocorre, sobretudo, pela transcriação da realidade apreendida através da linguagem literária.
4.6 Pesquisa sobre o nome Serra da Ibiapaba