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Após esses parênteses veja a carta escrita por Luis Costa Pinto.

271 BUCCI, 2000, p.132. 272 BUCCI, loc. cit.

Luís Costa Pinto273

– Não gosto desse governo, mas é o único que temos. Logo, resignemo-nos. Tomei um susto ao ouvir aquilo. Estava em Brasília havia menos de um mês. Fora transferido pela revista Veja da sucursal de Recife, que chefiava, para me integrar ao grupo de repórteres da sucursal brasiliense. Quando fui informado da promoção saí para comemorá-la, em São Paulo, com os jornalistas Laurentino Gomes, Caco de Paula e Xico Sá. Este último, que tivera uma experiência em Brasília, detestara a cidade. ―Cara, o Congresso é um mistério. Passei três meses para descobrir onde ficavam os banheiros de lá. E se você não tiver fontes entre os parlamentares, está ferrado: os mais velhos o engolem‖, explicara Xico. ―Ouça muito e fale pouco." Quem me confessara a resignação ante o governo do então presidente Fernando Collor de Mello, já no primeiro encontro entre fonte e repórter, sem pedir reservas, fora o presidente da Câmara dos Deputados à época, Ibsen Pinheiro. A conversa que tivemos, que começara por futebol, passara por questões regionais e jornalísticas e terminara em política pura, havia gerado uma empatia instantânea entre mim e ele. Estabeleceu-se, a partir de então, uma relação de admiração que segue até hoje.

Dono de raciocínio rápido e lógico, auto-ironia refinada e poder de análise invejável, o ex-deputado Ibsen Pinheiro pontificava como uma das melhores fontes de informação na capital da República naquele início da década de 1990. Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/1988, Ibsen liderara a bancada de deputados federais do PMDB. Foi a partir de sua atuação como líder que conseguiu migrar do chamado baixo clero parlamentar – grupo numeroso de deputados que tem pouco destaque na Casa a despeito de alguns terem construído respeitável biografia na ação junto às comissões temáticas do Parlamento – para o time de políticos com destaque nacional. Antes de tudo, Ibsen era uma fonte jornalística que não mentia. Perguntado acerca de temas sobre os quais não podia se manifestar, omitia-se. Jamais lançava balões de ensaio à imprensa ou tirava repórteres dos bons caminhos de apuração. ―Já fui um de vocês‖, dizia, com alguma nostalgia.

Em 1992, quando o governo Collor perdeu as condições de sustentação política no Congresso e definhava à mercê da Comissão Parlamentar de Inquérito que lhe expunhas as entranhas, Ibsen tornou-se um aliado seguro e secreto da corrente suprapartidária que pediria a cassação do presidente da República. ―O que o povo quer, esta Casa termina querendo‖, vaticinou o ex-presidente da Câmara dos Deputados ao receber, na primeira semana de setembro daquele ano, a formalização do pedido de impeachment presidencial no Salão Verde do Congresso. A retórica começava a aprontar uma cilada para ele: o povo, representado em protestos nas ruas pela sociedade civil organizada, de fato queria o impeachment. O Parlamento, em sua maioria, ainda não. Existia certa margem de negociação capaz de evitar a perda de mandato de Collor, mas Ibsen foi peça chave na articulação que estreitou o raio de ação dos estrategistas palacianos. Escreviam-se, naquela ação surda do presidente da Câmara, as primeiras linhas do epílogo de sua vida parlamentar em Brasília – a cassação, em 18 de maio de 1994, por alegada colaboração com a ―Máfia dos Anões do Orçamento‖. Numa sexta-feira do mês de setembro de 1993, o repórter Policarpo Jr., meu colega na redação brasiliense de Veja, obteve o furo de reportagem que mais tarde deu origem à CPI do Orçamento. Depois de insistir por uma semana, ele conseguiu uma entrevista exclusiva com José Carlos Alves dos Santos, ex-assessor da Comissão Parlamentar Mista de Orçamento do Congresso Nacional. José Carlos estava preso em uma delegacia de Brasília por suspeita de assassinato de sua mulher, Maria Elizabeth Lofrano. Na entrevista original, José Carlos mencionou o envolvimento de sete deputados e de um senador em um esquema de fraudes ao Orçamento Geral da União. Não falou no nome de Ibsen Pinheiro, que acabara de deixar a Presidência da Câmara e, semanas antes, fora lançado pré-candidato a Presidente da República numa festa do PMDB no Recife. Àquela altura, mais de um ano antes do pleito, a candidatura presidencial de Ibsen era uma miragem no cenário político – mas do centro à direita do espectro

273 Luís Costa Pinto é jornalista. Foi editor e chefe da sucursal de Veja no Recife e em Brasília, foi repórter de O

Globo e da Folha de S.Paulo, foi editor de Época e editor-executivo do Correio Braziliense. É consultor de comunicação. (os relatos foram feitos na edição nº 1.819, de 18 de agosto de 2004 da Revista IstoÉ. p. 30-33).

partidário não havia nenhum nome viável para disputar o pleito presidencial de 1994 com Luiz Inácio Lula da Silva, o favoritíssimo pré-candidato do PT. ―Tenho certeza que o calvário de Ibsen começou ali, no momento em que ele deixou de ser uma aventura para começar a aglutinar apoios em torno de si‖, disse-me certa vez Nelson Jobim.

Cerca de dois meses depois de iniciadas as investigações parlamentares acerca dos desmandos e da cobrança de propinas na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional, o nome de Ibsen Pinheiro emergiu associado à Máfia de Anões que corrompia o erário. O primeiro documento revelado para incriminá-lo era um cheque do ex-deputado Genebaldo Correia (que renunciou ao mandato na esteira das investigações) depositado em sua conta bancária. Horas depois de divulgada a informação dando conta da existência desse cheque, a assessoria de Ibsen Pinheiro passou a afirmar que o cheque era referente a uma transação financeira com uma caminhonete. O valor do documento bancário era compatível com essa transação e o carro, de fato, fora transferido de um para outro – mas a obviedade do álibi não aplacou a ânsia de apuração jornalística sobre o fato. O segundo documento divulgado para estabelecer um elo entre o ex-presidente da Câmara e a Máfia dos Anões do Orçamento era uma fotografia tirada durante um jantar em uma ilha grega – mostrava Ibsen cercado por cinco dos sete anões do Orçamento.

Um tímido círculo de amigos – alguns deputados; outros, amigos da vida inteira – reuniu-se em torno de Ibsen para rechaçar as acusações. Nelson Jobim , Miro Teixeira, Sigmaringa Seixas, Henrique Eduardo Alves, entre os parlamentares, eram os mais chegados. Luiz Carlos Madeira, advogado e ministro do TSE, pontificava no grupo dos amigos de fora do Congresso.

– Eu era um prato cheio para servir à vingança fria. Tinha ampla exposição, mas não tinha nenhum poder político. Ou seja, eu já havia sido até lembrado para ser candidato a presidente da República, mas não tinha construído nenhum relacionamento político mais sólido dentro das estruturas partidárias ou com a mídia. Fui ingênuo.

O desabafo é do próprio Ibsen e foi feito mais de uma vez ao longo das inúmeras conversas que tivemos em torno do episódio de sua cassação. Como sempre, a análise insinua-se precisa.

O cheque de Genebaldo Correia e a foto da Grécia sustentaram uma semana de acusações nos jornais contra o ex-presidente da Câmara dos Deputados. Mesmo desarticulados, mas fiando-se na ausência de outras provas que maculassem ainda mais a biografia de alguém que fora interlocutor privilegiado da República por dois anos, os amigos de Ibsen conquistavam terreno na árdua tarefa de desmentir as acusações. No intestino da CPI do Orçamento, que caminhava para um desfecho melancólico pois só ia cassar deputados do chamado ―baixo clero‖ parlamentar, buscava-se uma revelação de impacto. Foi nesse ambiente que se perpetrou um dos grandes erros jornalísticos contemporâneos. Às 20h de uma sexta-feira de novembro de 1993 telefonou-me o assessor parlamentar Waldomiro Diniz. Lotado na Subcomissão de Investigação Bancária da CPI do Orçamento, Waldomiro era o braço direito dos deputados José Dirceu e Aloizio Mercadante naquelas investigações. Hábil, esperto e articulado, forjara-se desde a CPI do Caso PC como uma das boas fontes do submundo político brasiliense. ―Tenho uma bomba para você‖, disse-me Waldomiro. ―Estou indo para a sua redação .‖ Minutos depois Waldomiro Diniz entrou na sucursal brasiliense de Veja, onde os trabalhos de encerramento da edição estavam avançados e trabalhávamos em um texto de capa sem maiores novidades ou revelações sobre os trabalhos da CPI. Dali a duas horas, no máximo três horas, a edição de Veja teria de baixar para a gráfica da Editora Abril, em São Paulo. Waldomiro exibia um sorriso triunfal. ―Pegamos Ibsen‖, disse-me. Em seguida, exibiu sete boletos de depósitos bancários, já dolarizados por ele, e que, segundo me dizia, provavam a transferência de US$ 1 milhão de dólares de uma conta bancária de Ibsen Pinheiro de uma agência da Caixa Econômica para uma agência do Banrisul. ―Ele não tem salário para ter tanto dinheiro. Isso é a prova da corrupção‖, asseverou Waldomiro.

Irresponsável, mas maravilhado com a possibilidade de cravar um furo na edição de

Veja do fim de semana seguinte, embarquei na versão e na dolarização. Não chequei as informações. Comuniquei aos editores em São Paulo que estava

mudando o tom da reportagem que concluía e passava a ser mais afirmativo contra Ibsen. Liguei para o ex-presidente da Câmara – afinal, ouvir o outro lado é praxe muitas vezes cumprida com burocracia. Ele me negou a história, negou-me os depósitos e os valores, mas eu preferi acreditar nos documentos que tinha em mãos – afinal, registrar o outro lado burocraticamente também é praxe no jornalismo A nova informação autorizou uma chamada de capa mais enfática contra o ex-deputado – ―Até tu, Ibsen?‖. A principal revista semanal de informação do País, que ia ficar exposta nas bancas por uma semana, era um libelo acusatório contra o presidente da Câmara dos Deputados que liderara a votação do impeachment ao ex-presidente Fernando Collor de Mello um ano antes. Escrevi o texto e enviei os documentos bancários por fax para São Paulo. Com a reportagem lida, modificada e aprovada pelos diversos escalões editoriais de Veja, cheguei à minha casa por volta das 2h da madrugada do sábado. Pouco antes das 8h fui acordado por toques insistentes da campainha do apartamento onde morava. Era Silvânia Dal Bosco, colega na redação de Veja. ―O Paulo Moreira quer falar com você. Deu um problema grave lá em São Paulo... na edição da matéria do Ibsen‖, disse-me Silvânia. ―Ele está tentando ligar para cá, para a sua casa, mas só dá ocupado .‖ O meu filho tinha deixado o telefone fora do gancho. Liguei para Paulo Moreira, então editor-executivo de Veja. Tenso, Paulo disse-me que Adam Sun, chinês implacável que por muitos anos zelou pela qualidade das informações publicadas em Veja na condição de chefe da equipe de checagem da revista, descobrira que a dolarização estava errada. ―Lula, essa soma não dá US$ 1 milhão de dólares. Dá US$ 1 mil dólares‖, gritou-me Adam do outro lado da linha. Eu gelei. ―Paulo, tem jeito?‖, perguntei. ―Não‖, cravou-me ele, friamente. ―Já rodamos 1 milhão e 200 mil capas. E jogar fora 1 milhão e 200 mil capas é um prejuízo impagável. Podemos, ainda, mexer no texto dentro da revista – mas isso vai atrasar a remessa para o Rio de Janeiro e para o interior de São Paulo‖, advertiu-me ele. ―Vê se consegue, em 10 minutos, alguém para sustentar em on essa dolarização de US$ 1 milhão‖, sugeriu.

Não pensei em Ibsen Pinheiro ou na injustiça que estava ajudando a dar curso com aquela reportagem calçada em uma falsa prova. Pensei em mim, no meu emprego, em como salvar uma reportagem fadada a produzir uma tragédia. Telefonei para o presidente da CPI do PC, o então deputado Benito Gama, e consegui pegá-lo acordado àquela hora. Narrei-lhe o ocorrido. Ele tinha conhecimento da versão acerca dos tais depósitos de US$ 1 milhão. ―Não há chance de isso estar errado. É US$ 1 milhão e Ibsen terá de responder por isso‖, asseverou Benito. ―Deputado, isso é on (ou seja, no jargão jornalístico, eu perguntava se a informação podia ser

publicada assinalando-se a sua origem)? Olhe que a reportagem de Veja, que está

errada, vai se escudar nesse on seu‖, perguntei mais uma vez. ―É on. Agora, deixe- me fazer o meu cooper‖, tranquilizou-me Benito. Passei a frase por telefone a Paulo Moreira, que mexeu na edição da revista já na gráfica, e a Veja circulou com o libelo acusatório contra Ibsen.

Foi uma tragédia pessoal para Ibsen Pinheiro. Ele não me procurou nos 10 dias seguintes. ―Não tinha coragem de querer saber o porquê de terem dado curso àquela mentira. E logo um repórter com o qual eu tinha excelente relação‖, disse-me anos depois. Eu sabia que a reportagem estava errada, a CPI também. Por ter detectado o erro e por ter trabalhado para corrigi-lo no texto interno da revista, a despeito de não ter salvado a capa, já impressa, o checador Adam Sun ganhou um prêmio de US$ 1 mil conferido pelo diretor de redação de Veja, Mário Sérgio Conti. Prêmios como aquele, obtidos mesmo sem concursos ou disputas, só eram dados depois que conseguíamos bons furos de reportagem. Fora a primeira vez que um prêmio como aquele acabara nas mãos de um checador. O texto de Veja repercutiu nos jornais por dois dias, a dolarização incorreta foi protocolarmente corrigida pela CPI na semana seguinte, mas Ibsen fora arrastado definitivamente para o centro das investigações. Seus advogados de defesa contrataram uma auditoria da Trevisan & Associados para esquadrinhar todos os ingressos e todas as saídas de suas contas bancárias no período de cinco anos. Nenhuma movimentação financeira anormal foi detectada, mas a CPI desconheceu tal auditoria argumentando que não a pedira nem a fiscalizara.

– Houve um momento, no meio de todo aquele furacão, em que eu tomei uma decisão: convenci-me que a melhor coisa que podia fazer por mim seria não morrer. Eu não poderia simplesmente ter um enfarte e morrer; dar um tiro na cabeça ou sucumbir a um câncer, se ele fosse diagnosticado em meu corpo. Tomei a decisão política de não morrer para ver até onde iria tudo aquilo, até onde eu resistiria e como seria o meu restabelecimento pessoal e público.

Essas memórias do turbilhão pessoal foram-me confessadas por Ibsen Pinheiro sete anos depois de seu calvário pessoal. A conversa, travada em um restaurante de Curitiba, teve por testemunha o ex-deputado e ex-ministro da Saúde Alceni Guerra, personagem involuntário de um massacre semelhante à sua honorabilidade e à sua biografia.

Ibsen Pinheiro sobreviveu à tormenta. Recusou-se a ver a si mesmo no meio do cenário devastado. Horas depois de ter sido cassado por 293 votos no plenário da Câmara dos Deputados, pouco mais da metade dos integrantes da Casa, Ibsen deixou o apartamento funcional de parlamentar no qual morava em Brasília e voou para Porto Alegre. Não conseguiu dormir. Levantou-se às 6h da manhã seguinte e foi barbear-se. Olhou-se no espelho e perguntou-se: ―Até onde vou?‖ Envergou o terno, pôs uma pasta 007 nas mãos e dirigiu-se à sede da Promotoria do Estado do Rio Grande do Sul. Queria reassumir de imediato, naquele dia, o posto de promotor de Justiça para o qual passara por concurso público mais de duas décadas atrás.―Tire férias‖, aconselhou-o o superior hierárquico. ―Não. Quero trabalhar. Quero viver de novo‖, resignou-se Ibsen, que passou a ser lotado como promotor- assessor da Procuradoria-Geral de Justiça do Rio Grande do Sul.

– Nunca tive vergonha de mim. Sempre tive fama de ser arrogante e, naqueles tempos, passei a me impor uma postura que soava ainda mais antipática: sabia que precisava andar de cabeça erguida. Não podia abaixar o olhar. Não podia sentir-me derrotado. Os dias, as semanas, os meses foram passando e, nas ruas de Porto Alegre, de São Borja ou de Tramandaí, jamais fui hostilizado. Dois ou três anos depois, voltei a ser saudado por um ou outro. A reparação pública não havia se formalizado, mas eu estava em paz comigo.

A confissão desse processo de regresso a um estado de paz interior consigo mesmo foi feita por Ibsen em uma conversa que tivemos, na sala de seu apartamento em Porto Alegre, no ano de 2000. Estávamos ali eu, ele e sua mulher, Laila, companheira dos melhores dias e dos mais torturantes momentos. Olhei em volta, mirei alguns pratos de louça dourada sobre uma cômoda, uma almofada de crochê sobre uma cadeira de balanço, três ou quatro bibelôs dentro de uma cristaleira espartanamente arrumada. ― Meu Deus‖, pensei em silêncio. ―Este apartamento está decorado à semelhança da casa de meus avós, de meus pais. Um dia eu fui capaz de escrever que esse homem, que essa mulher, tinham se tornado milionários – e olha aqui: são plácidos avós, marcados pela vida, mas ainda sólidos.‖ Não revelei, na hora, aquela sensação que me provocava desconforto, mas passei a me perguntar como poderia fazer um gesto que tentasse reparar as injustiças que, involuntariamente, mas cúmplice, ajudei a perpetrar. Meu maior patrimônio é a credibilidade de que gozo como jornalista profissional e, de alguns anos para cá, como consultor de comunicação. Escrever este relato, absolutamente fiel a tudo o que vivi, foi a melhor maneira que encontrei de repor a verdade – a verdade que testemunhei.

Conclusões sobre a carta reveladora: no começo da carta, Lula mostra uma certa intimidade com sua fonte, o deputado Ibsen Pinheiro.

Quem me confessara a resignação ante o governo do então presidente Fernando Collor de Mello, já no primeiro encontro entre fonte e repórter, sem pedir reservas, fora o presidente da Câmara dos Deputados à época, Ibsen Pinheiro. A conversa que tivemos, que começara por futebol, passara por questões regionais e jornalísticas e terminara em política pura, havia gerado uma empatia instantânea entre mim e ele. Estabeleceu-se, a partir de então, uma relação de admiração que

segue até hoje. Dono de raciocínio rápido e lógico, auto-ironia refinada e poder de análise invejável, o ex-deputado Ibsen Pinheiro pontificava como uma das melhores fontes de informação na capital da República naquele início da década de 1990. A revista tinha pleno conhecimento do erro de informação.

―Lula, essa soma não dá US$ 1 milhão de dólares. Dá US$ 1 mil dólares‖, gritou- me Adam do outro lado da linha. Eu gelei. ―Paulo, tem jeito?‖, perguntei. ―Não‖, cravou-me ele, friamente. ―Já rodamos 1 milhão e 200 mil capas. E jogar fora 1 milhão e 200 mil capas é um prejuízo impagável. Podemos, ainda, mexer no texto dentro da revista – mas isso vai atrasar a remessa para o Rio de Janeiro e para o interior de São Paulo‖, advertiu-me ele. ―Vê se consegue, em 10 minutos, alguém para sustentar em on essa dolarização de US$ 1 milhão‖, sugeriu.

A edição de IstoÉ, que tratava guerra editorial com Veja (nesse momento não vamos entrar nesse mérito da questão por não ser o principal objeto de estudo desse trabalho), trazia revelações importantes na edição nº 1.819, cujo título de capa ―Massacrado‖ apontava ―como o mau jornalismo transformou US$ 1 mil em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil‖. Na mesma capa, a revista afirmava: ―Apesar de tudo, a vítima preserva a sensatez: o denuncismo tem cura, mas na imprensa censurada o denuncismo é eterno‖.

A revista IstoÉ trazia nessa edição questões sobre o projeto de lei da época do presidente Lula e criticava a criação do Conselho Nacional de Jornalismo (CFJ) ‗para fiscalizar e punir jornais e jornalistas‘ e repetia que o ―mau jornalismo provocou martírio do deputado Ibsen‖.

Pelos relatos do jornalista Luis Costa Pinto, Veja – em especial – pode ter cometido ―distorção deliberada‖ da informação. Bucci identificou essa característica e considerou como

Benzer Belgeler