O modelo conceitual de Curry e Moore (2003) foi concebido no sentido de retratar a evolução e os componentes da cultura informacional.
Segundo os autores, primeiramente, a organização reconhece a necessidade de adotar uma cultura informacional. Nesse momento, comunica o que por eles é denominado de ethos (personalidade; caráter cultural), demonstrando
comprometimento a partir da reestruturação dos componentes de uma cultura informacional. Trata-se de um processo dinâmico e contínuo até que a filosofia/discursos e a prática transformem-se em normas.
Exatamente nesse ponto, estão alguns dos aspectos que influenciam diretamente o comportamento individual, à medida que entre o extremo do desejo ou vontade de uma cultura e sua substanciação estão presentes inúmeras variáveis, sendo que a percepção humana é uma dentre as principais.
A relação que, teoricamente, seria tranquila entre o indivíduo e a cultura ambiental, uma vez que o primeiro adere quase que por imposição às condutas sociais para ser aceito e tornar sua convivência pacífica, na verdade é estabelecida a partir de contradições, questionamentos e embates que podem culminar em ajuste ou ruptura, ambos os resultados derivados de processos geradores de tensão.
Eis alguns problemas inerentes à relação entre indivíduo e cultura informacional e que serão transportados para o modelo DIFI:
A – A cultura organizacional influencia a formação da cultura informacional A organização reconhece a necessidade de adotar uma cultura informacional, porém nem sempre esse reconhecimento está fundamentado em sua própria cultura (sua própria convicção). Sabe que existe uma necessidade, ouviu-se falar, até sente-se que algo está incompleto, porém não há traços de sua cultura organizacional que dê sustentação ao que seria, de fato, uma cultura informacional.
B – Incongruência entre os valores pregados e os valores praticados
A comunicação do ethos pelos valores disseminados presume ser
acompanhada da ação fundamentada nesse ethos, evidenciando os mesmos
valores que serão percebidos nas práticas de interferências nos fluxos informacionais promovidas pela organização. As normas e regulamentações internas podem se apresentar igualmente disformes.
Quando atinge o estágio de a cultura informacional estar traduzida e “institucionalizada” nas normas e regulamentos, não há mais distinção significativa entre a cultura informacional e a organizacional, uma vez que a organização evolui a ponto de que a disponibilidade e o uso da informação sejam inerentes às atividades cotidianas, transformando-se em um valor para a organização.
A síntese do modelo de Curry e Moore (2003) está representada na Figura 3, que demonstra o processo de evolução da cultura informacional. A representação do modelo evidencia o que faz parte do dia a dia das organizações da sociedade contemporânea, ou seja, uma cultura informacional sólida agrega elementos e processos vitais de uma organização: os procedimentos operacionais que movimentam a máquina produtiva; os sistemas que gerenciam as informações; os sistemas de informações que servirão às demandas estratégicas decisórias da direção; o inter-relacionamento pessoal e departamental, no sentido de criação de sinergia; e finalmente os fluxos de comunicação e informacionais que permeiam praticamente todos os demais elementos e processos anteriores.
O problema é que o foco dos processos de interferências nos fluxos de informações das empresas parece estar sempre na questão da produtividade, e isso põe outras questões tão importantes quanto, como o caso das consequências de longo prazo sobre o indivíduo, em segundo plano. Trata-se de uma questão óbvia em uma sociedade na qual a mão de obra está cada vez mais escassa e cara,
portanto a tendência tem sido a de aumentar a produtividade por dois vieses: ou pela substituição de trabalhadores por equipamentos ou pela busca de sistema de gerenciamento de pessoas que visem ao aumento de produtividade.
Figura 3 - Evolução da cultura informacional.
Fonte: Curry e Moore (2003, p. 95).
A questão central dessa discussão é que a informação como subsídio de todos os processos merece uma atenção destacada em relação às demais variáveis envolvidas na questão da produtividade, o que não parece ocorrer. Apenas um diagnóstico acompanhado de um planejamento eficaz pode tornar mais equilibrado o conjunto de todas as variáveis envolvidas com o trato informacional.
Curry e Moore (2003) destacam a necessidade de presença de fluxos de comunicação eficazes, parcerias interorganizacionais, práticas cooperativas de trabalho e livre acesso à informação relevante, gestão de sistemas de informação, em conformidade com a estratégia de negócios, e orientações e documentações
Contexto social Contexto histórico Contexto social Contexto histórico
CULTURA INFORMACIONAL
AMBIENTE INTERNO
A EVOLUÇÃO DA CULTURA INFORMACIONAL
Ambiente externo organizacional
CULTURA ORGANIZACIONAL ETHO S BASE IN F O RM ACI O NA L L IDE RAN ÇA P ART ICI P A T IV A L ID E RA NÇ A P A RT ICI P AT IV A Parcerias inter- organizacionais Cultura profissional Sistemas de informação gerencial Ambiente profissional Fluxos comunicacionais Processos e procedimentos
Sistema operacional Sistema cultural
Gestão da informação
claras de informação e gerenciamento de dados, todavia o equilíbrio de todos esses elementos e processos é um desafio a ser vencido.
Quando se destacará, no Capítulo 4, as implicações que o ambiente de trabalho bem como as ações emanadas da organização podem desencadear sobre os indivíduos, demonstrar-se-á exatamente uma perspectiva humanista a ser considerada sobre algo que muitas vezes é tratado como meramente mecânico e operacional: implantar, trocar, descontinuar um sistema de informação; dar, tirar, aumentar, diminuir, bloquear, desbloquear o acesso a informações do sistema, sites
e conteúdos no ambiente de trabalho, entre outras ações.
Não se trata de abolir o controle ou, no outro extremo, de controlar tudo, mas de verificar primeiramente em qual modelo a organização pretende se estabelecer enquanto gestora de informações e de pessoas, qual é realmente sua cultura e que tipo de colaborador ela realmente deseja ter em seu quadro para só então planejar, comunicar e implantar suas ações de interferências que irão ter implicações importantes sobre a organização como um todo.
O fato é que não é possível tratar o maior subsídio organizacional como se fosse apenas mais uma variável inerente aos processos, mas de destacá-la, dando- a um tratamento diferenciado e personalizado dentro do contexto. Nesse mesmo sentido, reconhecendo que a informação recebe seu significado (o que antes era um dado) a partir da ação cognitiva humana, é a partir da perspectiva do indivíduo que deverão ser avaliadas as consequências das ações de interferências nos fluxos informacionais promovidos pelas organizações.
No modelo aqui sintetizado, “[...] é reconhecido o valor e a utilidade da informação para atingir as metas operacionais e estratégicas, no qual a informação é a base para a tomada de decisão organizacional e a tecnologia da informação é facilmente explorada como um facilitador para sistemas de informações eficazes” (CURRY; MOORE, 2003, p. 94). Quem executa a exploração e dá sentido aos fluxos emanados dos processos organizacionais é o indivíduo.
O indivíduo, por sua vez, percebe a cultura mais objetivamente por meio dos valores, uma vez que esses estão entre as camadas superficiais representadas nos artefatos e a mais profunda em que figuram os pressupostos.
Como os valores justificam os artefatos culturais, por um lado, e são transpostos para o nível dos pressupostos básicos, de outro, seu dinamismo e sua posição intermediária os tornam mais propensos a representar uma boa parte da
cultura que rege determinado ambiente no qual se desenrolam as relações humanas. Essas últimas, por sua vez, são passíveis de serem consideradas sob o ponto de vista das regras e normas que as orientam ou comprometem. Os valores representam muito da cultura. Para Nietzshe, citado por Tamayo (2008, p. 310), “os valores caracterizam a vontade de existir e de se afirmar de uma coletividade”.
Nesse sentido, a seção seguinte tratará dos valores e seu papel como mediadores do pensar e agir humano e das sociedades em seu sentido amplo ou restrito, como é o caso do contexto das organizações.