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A forma de desmobilização Governo Dominado pelo Capital apresenta os seguintes aspectos: governo de coalizão e fortalecimento das commodities agrícolas pelo governo.

Com a chegada de Lula ao governo, o pensamento petista hegemônico no partido ficou ainda mais afastado de sua pauta política, pois assumiu a agenda neodesenvolvimentista82, que se identifica com o projeto da classe dominante e, assim, passou a sustentar a ordem e não alterou a estrutura de propriedade no campo brasileiro. A estratégia adotada pelo PT, no governo, inibiu as classes, que protagonizaram embates com os governos neoliberais, antes da chegada de Lula à Presidência da República.

O Lula inova o neoliberalismo [...] o Lula não é mais aquela liderança da classe trabalhadora, [...] O Lula não queria mais fazer a revolução, não queria mais fazer a transformação do Brasil, queria ser um estadista brasileiro, que amenizasse, que melhorasse a gestão do capital. Não se defendia mais um projeto democrático popular para o Brasil [...] Para melhorar o capital, o governo mantém a política econômica neoliberal, com mais agressividade e pega três estratégias: política compensatória

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"Por que recorrer ao termo desenvolvimentista? De maneira tentativa e inicial, diríamos que é porque esse é um programa de política econômica e social que busca o crescimento econômico do capitalismo brasileiro com alguma transferência de renda, embora o faça sem romper com os limites dados pelo modelo econômico neoliberal ainda vigente no país [...] E por que empregar o prefixo o prefixo 'neo'? Porque as diferenças com o velho desenvolvimentismo do período 1930-1980 são significativas. O neodesenvolvimentismo é o desenvolvimentismo da época do capita lismo neoliberal. O problema é complexo e esse é um tema sobre o qual não desejo ser taxativo (BOITO, 2012, p. 5), (Grifos do autor)

para os pobres [...]; tenta desmobilizar todas as organizações da classe trabalhadora [...] trazendo para o governo suas lideranças [...] tentando mapear por categoria, pessoas de referência e desmobilizar; outro aspecto muito forte é essa questão do projeto neodesenvolvimentista. Ele tem um tripé que sustenta o Estado investidor, o Estado financiador e o Estado da compensação social (InMST7).

Tendo em vista os princípios da governabilidade, o Presidente Lula fez um governo de coalizão, constituindo aliança com setores da burguesia, com o grande capital financeiro e agrário, que tinham força no congresso. Dessa forma, descartou a possibilidade de garantir a governabilidade a partir da base social e optou pelo apoio do congresso, que era avesso a seu governo. Essa governabilidade predispôs o governo às fortes pressões da bancada ruralista no congresso e, também, dos grandes empresários para não realização da reforma agrária, durante o seu governo. Além disso, os capitalistas do campo conseguiram que o governo implementasse políticas estruturantes de largo investimento para promover as commodities agrícolas.

Os movimentos estão procurando uma saída, porque eles de todo modo não esperavam que o governo Lula fosse um governo de coalizão. Apostavam que o carisma e toda a personalidade do Lula m suficientes para fazer um projeto que enfrentar-se a direita, mas não seria razoável isso e causou de fato uma certa perplexidade e uma paralisia (ExMST5).

A partir do final dos anos de 1990, as commodities agrícolas tiveram um desempenho econômico expressivo83, com destaque para os valores elevados no segundo Governo Lula (2007 a 2010), em função, sobretudo, das exportações chinesas, que geraram divisas significativas para o país durante o período do Governo Lula. Tal fato pode ser constatado a partir da pesquisa realizada por Negri e Alvarenga (2011, p. 9):

A China já é o principal parceiro comercial do Brasil, com exportações que atingiram US$ 30 bilhões em 2010. A maior parte (cerca de 80%) do que o Brasil exporta para aquele país são commodities, com destaque para a soja e o minério de ferro. Em certa medida, a pauta brasileira para a China, aliada à menor desaceleração das importações chinesas em comparação às do resto do mundo, contribuiu significativamente para o crescimento da participação de commodities na pauta brasileira de exportações. Entre 2008 e 2009, no auge da crise financeira, as exportações brasileiras caíram de US$ 197 bilhões para US$ 152 bilhões e, ao mesmo tempo em que as exportações brasileiras para a China – predominantemente commodities – cresceram de US$ 16 bilhões para mais de US$ 20 bilhões. Paralelamente a isso, também ocorreu um ganho de market share do Brasil nas importações chinesas. A China importa, hoje [2011], mais de US$ 1 trilhão a.a. Em 2000, o Brasil participava

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com 0,49% destas importações, enquanto hoje responde por aproximadamente 2% das compras chinesas. Entretanto, novamente, este ganho de market share foi muito concentrado em commodities. Em 2000, o Brasil fornecia aproximadamente 2,5% das commodities importadas pela China, e chegou a 2009 com uma participação de mais de 8% neste mercado.

O peso das commodities agrícolas teve as seguintes consequências para o país: impacto positivo na aceleração do crescimento; fortalecimento da estabilidade econômica, o que possibilitou o enfrentamento da crise econômica mundial, naquela época; possibilidade de alavancar um conjunto de políticas sociais e elevar a credibilidade e reconhecimento do Brasil, em nível internacional. Em função da participação positiva das commodities agrícolas, na situação financeira do país, o Governo Lula reconheceu o poder de competitividade desse setor da economia, em nível internacional, e implementou políticas estruturais para maior incremento do capital agrário. O investimento governamental, nesse setor, significou gastos públicos de valores elevados com a finalidade de cumprir a estratégia de intensificar a primarização84 da agricultura brasileira.

[...] o governo Lula, na senda aberta por Collor e alargada por Fernando Henrique, só faz aumentar a autonomia do capital, retirando das classes trabalhadoras e da política qualquer possibilidade de diminuir a desigualdade social e aumentar a participação democrática (OLIVEIRA, 2010b, p. 375).

Em tais circunstancias, o capital exerceu domínio sobre o Governo Lula, tendo conseguido priorizar seu projeto de desenvolvimento, o que desarticulou os projetos identificados com os movimentos populares, conforme afirma Oliveira (2010b, p. 375): "Se FHC destruiu os músculos do Estado para implementar o projeto privatista, Lula destrói os músculos da sociedade, que já não se opõe às medidas de desregulamentação."

De acordo com Boito Jr. (2005), as burguesias industrial e agrária avançaram e, em paralelo, a Força do Capital financeiro se manteve inalterada, no contexto desse governo.

[...] a novidade do governo Lula neste terreno é que ele promoveu uma operação política complexa, que consistiu em possibilitar a ascensão política da grande burguesia interna industrial e agrária voltada para o comércio de exportação - no que respeita ao médio capital, não houve

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A primarização é entendida como a maior participação de produtos básicos na pauta de exportação. Os dados da entrevista revelaram que a primarização da agricultura do Brasil, durante o Governo Lula, envolveu a criação de grandes empresas, flexibilização da legislação ambiental, regularização das terras e presença forte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) na Amazônia.

alteração no interior do bloco no poder sob o governo Lula. O governo promoveu a ascensão da grande burguesia interna industrial e agrária sem quebrar a hegemonia das finanças (BOITO JR., 2005, p. 62).

A dominação das forças do capital sobre o Governo Lula deixa claro que não tem mais sentido aquela tese de um governo em disputa (governo de composição de classe), defendida por parte da esquerda, que apoiava esse governo. Por meio do MDA85, ministério coordenado por um grupo petista, o governo não pretendia fazer uma disputa interna pelas políticas de reforma agrária, mas, mesmo assim:

[...] tem um discurso que a gente fica fazendo, às vezes do lado da esquerda, que é a análise de governo: é um governo de composição de classe, é um governo que nós temos que disputar. Essa análise está equivocada, ultrapassada, o governo não é de composição de classe, ele é um governo que já se posicionou a favor dos interesses da classe dominante, que não teve condições políticas, históricas, de romper, ou de pelo menos iniciar um processo de ruptura com a dominação ideológica do capital no Brasil (InMST2).

O MST fez uma análise inicial errada sobre o Governo Lula, mas logo percebeu que se tratava de um governo dominado pelas forças do capital no campo, conforme depoimento de um militante a seguir:

Até nos primeiros 2 anos do governo, tinha uma ideia que nós [MST] estávamos disputando, depois nós vimos que não tinha nada de disputa, tinha um projeto muito bem estruturado do capitalismo, inclusive voltado para o campo, usando todo o poder do Estado, uma aliança do Estado, do Estado financiador, investidor, da compensação social, para desmobilizar (InMST7).

Benzer Belgeler