Após a discussão das subcategorias, Estado Dominado pelo Capital, Governo Lula Dominado pelo Capital, Mitificação de Lula, Mídia Burguesa, Arrefecimento da Política de Reforma Agrária e Priorização da Política de Inclusão, determinamos a categoria concreta de segunda ordem Desmobilização do MST pelo Governo Lula, apresentada na Figura 6.
O ciclo da categoria Desmobilização do MST pelo Governo Lula efetivou-se a partir da dominação, que o capital exerceu sobre o Estado e, por conseguinte, sobre o governo. Adicionada a essa dominação, havia a atuação da mídia que criminalizava os movimentos sociais e o mito Lula. Tais fatores contribuíram para diminuir a pressão dos trabalhadores do MST sobre o governo, tendo enfraquecido a política de reforma agrária durante o governo em foco. O conjunto da articulação categorial, determinada pela dominação do capital, interferiu na ação governamental, que se direcionou para a priorização de políticas de inclusão destinadas aos trabalhadores do MST, Figura 7.
Nesse ciclo, havia uma contradição interna entre a política de reforma agrária e a política de inclusão, que perpassava a categoria de segunda ordem, ou seja, a negação da política de reforma agrária pelo capital representava a afirmação da política de inclusão. Na medida em que se intensificava a inclusão, surgia o arrefecimento da luta pela na questão agrária, o que provocou o permanente giro desse ciclo e, por conseguinte, fez gerar
Figura 6 - Determinação da categoria desmobilização do MST pelo Governo Lula
Fonte: Dados da Pesquisa
Figura 7 - Ciclo da desmobilização do MST pelo Governo Lula
Fonte: Dados da Pesquisa
Havia, também, contradição, quando o Governo Lula, eleito com a colaboração dos trabalhadores, se comprometeu com um conjunto de políticas estruturais para os trabalhadores, mas limitava a sua ação governamental à esfera das políticas compensatórias; ou seja, o governo eleito pela força dos trabalhadores adotou políticas de governo neoliberal. Essa contradição se tornou visível, quando a desmobilização do MST recebeu influências do Estado, que priorizou o projeto do capital agrário e fez forte investimento em políticas estruturais. Em paralelo, foram criados inúmeros obstáculos, nos diversos níveis institucionais, que impediam a implantação da reforma agrária. Reafirmamos que a mídia desempenhou um papel preponderante, na disputa ideológica junto a sociedade, o que interferiu no arrefecimento das lutas do MST.
Desmobilização do MST pelo Governo Lula
Estado Dominado pelo Capital Governo Lula dominado pelo Capital Mitificação de Lula Mídia Burguesa Arrefecimento da Política de Reforma Agrária Priorização da Política de Inclusão Arrefecimento da Política de Reforma Agrária Priorização da Política de Inclusão
O Estado tem dado prioridade ao agronegócio, pois o orçamento que é destinado para o MDA e o orçamento para o MAPA é algo totalmente desproporcional. O MST fica muito refém e tenta disputar orçamentos, políticas públicas, que impulsionem a agricultura camponesa e criou, nos últimos anos, certa dependência dos editais, das políticas públicas, dos projetos, dos seguros, em relação ao Estado [...] O Estado, ao mesmo tempo em que dá total prioridade ao agronegócio, criou uma certa relação de dependência dos movimentos em relação às políticas públicas. O MST está nesse meio e, nesses últimos, anos parou um pouco. O próprio MST faz a análise de que a reforma agrária não avançou e aí gerou uma crise no MST (ExMST7).
Na desmobilização do MST pelo Estado, havia um forte controle social como, aliás, sempre foram os movimentos populares no país (controlados pelo Estado brasileiro). Com a chegada de Lula ao governo, houve uma expectativa de que os movimentos pudessem exercer um certo controle sobre as políticas do Estado, entretanto isso não ocorreu, pois o governo foi dominado pela estrutura de Estado neoliberal, conforme já explicitamos. A partir dos anos 1990, o Estado foi dominado pelo capital, o que desencadeou a reforma gerencial. Então, durante o Governo Lula, permaneceu a relação de dominação do Estado sobre o MST.
Em relação ao papel do Estado tem um viés que sempre foi caro aos movimentos sociais e que era a grande expectativa quando nós ganhamos com Lula, que eu acho que merece uma avaliação preponderante, que é o famoso controle social das políticas públicas. [...] A minha avaliação é de que nós avançamos pouco e nada. Na verdade, e pelo contrário, estamos caminhando para regredir de novo para a velha fórmula de, em vez de haver um controle social do Estado, das políticas publicas, o Estado, na verdade, é quem acabou controlando os movimentos e reproduzindo velhas práticas políticas para dentro dos movimentos sociais. Neste aspecto, há um descenso dos movimentos nessa ultima década (ExMST4).
A Desmobilização do MST pelo Governo Lula ocorreu com a neutralização do projeto dos trabalhadores pelo projeto do capital, ou seja, quando o governo foi dominado pelo capital: "Pode ser um governo dos trabalhadores [...], mas se não romper com o projeto do capital, ele vai continuar governando dentro desse projeto do capital, ele não vai fazer, de fato, as mudanças que a classe trabalhadora precisa" (InMST8). Nessa dominação do capital sobre o governo, as pretensões do Movimento em torno das políticas se limitaram às políticas de inclusão, que cumpriram um papel de desmobilizar o MST e, assim, afetaram a radicalidade e a autonomia97 política de sua militância.
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Lula fez um governo que atendeu aos interesses do capital, dos grandes empresários, mas também soube cooptar os movimentos através das políticas, dos financiamentos, da cooptação das lideranças dos movimentos populares e soube, também, administrar a questão do assistencialismo, o que caracteriza o Governo Lula como social- liberalismo (ExMST7).
[...] Não era só melhoria, que nós estávamos precisando, nós como classe trabalhadora, principalmente o campo. Nós não precisamos mudar o jeito de pedir esmola. O que nós precisávamos era de políticas estruturantes (InMST8).
A vitória de Lula, em 2002, foi um fenômeno social inusitado para a sociedade brasileira, tendo sido considerada pelos trabalhadores como uma oportunidade especial para a ampliação de suas conquistas, como jamais ocorrido, na nossa história política. Tal compreensão era partilhada, também, pelo trabalhador menos escolarizado e/ou menos formado político-ideologicamente. Nesse contexto, os trabalhadores consideraram que o período Lula não exigiria grandes preocupações, portanto, não haveria necessidade de radicalização da luta destinada à conquista de direitos, que sempre foram negados. Desse modo, o mito Lula se instalou, tendo dificultado maiores reações do Movimento, que trouxessem críticas capazes de abalar a credibilidade governamental junto à população de baixa renda. Além disso, os movimentos populares, em geral, evitaram fazer críticas ao governo para não colocar o mandato do Presidente Lula, em risco, diante da oposição. De certa forma, tal posicionamento foi sensato, entretanto, trouxe prejuízos posteriores aos trabalhos organizativos98 do MST.
A chegada de Lula à Presidência da República transformou-o no mito do trabalhador no poder e, por conseguinte, foi se instalando o mito do Brasil mudado. Lula, também, se transformou no mito da caridade, em consequência do amplo acesso da população pobre às políticas compensatórias. Sob esses aspectos, a realidade do seu governo foi mitificada a ponto de confundir os trabalhadores, de ocultar as diversas contradições, o que colaborou para mantê-los passivos99 diante de uma política, que não trouxe mudanças estruturais para o país. A partir de sua relação histórica de proximidade com os movimentos populares, o Presidente Lula conseguiu impedir as lutas dos trabalhadores por uma política de reforma agrária, durante os oito anos de seu governo.
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Essa questão será abordada no terceiro capítulo.
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Os trabalhadores tiveram também uma postura ativa diante das políticas do Governo Lula. Esse assunto será abordado ao longo do presente estudo.
No início do governo Lula houve um ânimo generalizado no Movimento e isso se refletiu no nível de mobilização100 que nós realizamos nos primeiros dois anos. [...] quase 200 mil famílias acampadas, porque o Lula sinalizava que ia fazer a reforma agrária (digo distribuição das terras, essa era nossa compreensão, nós tínhamos certeza que não ia ser uma reforma agrária popular), entretanto, passou o 1º ano, 2º ano, 3º ano, 4º ano, o 1º mandato, e entrou no 2º mandato e os números cada vez menores e o nível de conquista cada vez menor, então isto desmobilizou o público Sem Terra de fazer ocupações e também, de certa forma, deu uma baixa na militância, porque a militância acreditava que era possível fazer reforma agrária [...] Então, isso teve um impacto na subjetividade da militância muito grande (InMST3).
A posição do Governo Lula diante dos movimentos populares foi de desmobilização, pois, desde o início, utilizando sua alta popularidade, tratou os movimentos sociais, inclusive o MST, em uma relação de dominação.
A relação do Lula com os movimentos sociais é uma relação de desmobilização. O Lula colocou-se acima dos movimentos sociais, como se os movimentos sociais devessem prestar não só homenagem, mas obediência a ele. [...] Ele desmobilizou as categorias. [...] A atuação dos dois mandatos do Lula, em relação aos movimentos sociais, foi muito ruim, foi muito desmobilizadora para um partido e um governo que se ergueu sob demandas, reivindicações e movimentos fortes, dos próprios movimentos sociais (ExMST2).
A relação entre o Governo Lula e o MST tornou-se mais desmobilizadora, na ocasião em que o governo adotou a estratégia de substituir as ações do Movimento por suas políticas governamentais.
O processo não é simples, mas se trata de substituir os movimentos sociais pela ação do governo. Essa é a linha em geral que governos, que a gente pode dizer cooptadores, seguem e com isso anulam a potência dos movimentos sociais. Há um substituísmo da ação do MST pela ação do governo: desmobiliza. Os próprios sindicatos que eram tão ativos, que converteram Lula em um líder político importante, perderam proeminência no governo Lula (ExMST2).
Consideramos que o processo de Desmobilização do MST pelo Governo Lula está relacionado ao papel desempenhado pelo Partido dos Trabalhadores, na sociedade atualmente, cujos desdobramentos atingem o Movimento. Pretendemos tratar esse assunto no próximo item.
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