A institucionalização da ciência, a partir do século XVI, teve a divulgação dos resultados das pesquisas ligada às sociedades reais, que mantinham as cartas e as correspondências particulares como mecanismos de comunicação entre os pesquisadores. Das sociedades reais para o monopólio das editoras comerciais dos países do hemisfério norte os periódicos científicos se consolidaram como mecanismo eficiente de divulgação da ciência.
Kuramoto (2006) considera a situação paradoxal: as instituições públicas de ensino e pesquisa, fomentadas pelo Estado, concentram as pesquisas científicas e seus pesquisadores, em nome do prestígio e reconhecimento, procuram publicar em periódicos tradicionais em suas áreas. Essas mesmas instituições produtoras de conhecimento, para terem acesso aos artigos de seus pesquisadores e à produção mundial, tem que pagar, e caro, pelas assinaturas das revistas, para manter os acervos de suas bibliotecas atualizados. Para Kuramoto (2006, p. 92) “do ponto de vista ético, os resultados dessas pesquisas deveriam ser de livre acesso, mas não é isso, entretanto, o que acontece no sistema de comunicação”. E ainda:
Tais colocações constituem apenas uma faceta do problema, existe a questão dos direitos autorais, os quais são entregues aos editores das revistas. Os autores nada recebem pelas publicações de seus trabalhos, tendo muitas vezes de pagar para ver os seus trabalhos publicados. Portanto, os autores não se interessam pelo retorno financeiro obtido pela publicação de seus trabalhos, mas pelo prestígio e notoriedade que essas publicações podem lhes trazer.
O aumento exorbitante dos preços das assinaturas de títulos de periódicos ocorrido nos anos setenta levou à crise dos periódicos impressos, iniciada em meados da década de 70 no mundo todo.
A década de 90 como afirma Cendón (2003, p. 275):
[...] marcou o início de uma expansão vertiginosa do volume e variedade de informação disponível na Internet. Atualmente, o número crescente de empresas, órgãos governamentais, associações profissionais, universidades e indivíduos que oferecem informações na Internet tornam- na uma ferramenta fundamental para os profissionais da informação.
Com a literatura científica não foi diferente: foi na década de 90 que surgiram os primeiros periódicos eletrônicos, na denominada sociedade da informação, caracterizada pelo desenvolvimento das TIC’s e a ampliação do processo de comunicação com o aparecimento dos arquivos abertos.
As primeiras iniciativas voltadas para esse acesso aberto à informação oriunda dos ambientes acadêmicos de pesquisa tiveram origem nos países do primeiro mundo. Nesses mesmos países, detentores do monopólio do mercado editorial, pesquisadores e instituições iniciaram ações precursoras da democratização da informação na web, livre de cobranças de taxas e da cessão dos direitos autorais e de copyright:
A aparente estabilidade de que gozava o sistema de comunicação científica mundial foi abalada quando estourou a chamada crise dos periódicos, em meados da década de 1980, que já vinha se anunciando desde a década de 70. O gatilho da crise foi a impossibilidade de as bibliotecas universitárias e de pesquisa americanas continuarem a manter suas coleções de periódicos e a corresponder a uma crescente demanda de seus usuários, impossibilidade decorrente da falta de financiamento para a conta apresentada pelas editoras, cada ano mais alta, mais alta mesmo que a inflação e outros índices que medem a economia. Isso já vinha acontecendo nos países em desenvolvimento, inclusive no Brasil, cujas bibliotecas já não conseguiam manter suas coleções atualizadas, mas a crise só detonou quando atingiu as universidades norte-americanas. (MUELLER, 2006, p. 31).
A idealização dos arquivos abertos iniciou-se na década de 90 com iniciativas como
ArXiv5 mantido pelo Laboratório de Los Alamos, Novo México, que se tornou um
repositório global de artigos não revisados pelos pares nas seguintes áreas do conhecimento: física, matemática, ciência da computação e ciências lineares. Outras iniciativas pioneiras como Network Digital Library of Thesis and Dissertations (NDLTD), deram origem a disponibilização da produção científica por meio de arquivos públicos digitais. No Brasil, a participação na NDLTD iniciou-se por meio da BDTD criada pelo IBICT no início dos anos 2000. Com 97 instituições brasileiras participantes, a BDTD conta com 211.254 registros de teses e dissertações que são disponibilizadas e, consequentemente, “[...] institui a divulgação digital de teses e dissertações produzidas pelos programas de doutorado e mestrado reconhecidos.” (ANEXO A).
A dependência de conhecimentos anteriores para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, considerando a produção do conhecimento científico em todo o mundo, conduz ao entendimento de André27 (2005 apud KURAMOTO, 2006, p. 93) de que “somente o compartilhamento desse conhecimento pode diminuir as desigualdades sofridas de forma crônica em nosso planeta.” Essa idéia vai de encontro ao conceito de Sociedade da Informação que remonta aos anos 60, mas que se encaixa perfeitamente às demandas do século XXI:
Sociedade da Informação é um estágio de desenvolvimento social caracterizado pela capacidade de seus membros (cidadãos, empresas e administração pública) de obter e compartilhar qualquer informação, instantaneamente de qualquer lugar e da maneira mais adequada. (CAIÇARA JÚNIOR; PARIS, 2008, p. 24).
Kuramoto (2006, p. 97) aponta os principais marcos do movimento de acesso livre à informação partindo da premissa de compartilhamento da informação com o acesso facilitado pela inexistência das restrições geográficas e institucionais (QUADRO 2):
Quadro 2 – Principais marcos temporais mundiais do movimento de acesso livre à informação
Marco
Temporal Fato
10/1999 Lançamento da Open Archives Initiative, pela Convenção de Santa Fé 2001 Carta aberta da Public Library of Science (PLoS)
14/02/2002 Iniciativa de Budapeste para o Acesso Aberto
30/10/2002 Carta ECHO
11/04/2003 Declaração de Bethesda
27/08/2003 Association of Learned and Professional Society Publishers (ALPSP)
22/10/2003 Declaração de Berlim sobre o Livre Acesso ao Conhecimento
11/2003 Declaração de Princípios do Wellcome Trust em apoio à edição em livre acesso
4/12/2003 Posicionamento do InterAcademy Panel sobre o acesso à informação científica
5/12/2003 Declaração do International Federation of Libraries Association (Ifla) sobre o livre acesso à literatura científica e aos documentos da pesquisa
12/12/2003 Declaração de Princípios da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (SMSI)
15/01/2004 Declaração de Valparaíso
30/01/2004 Declaração da Organization for conomicCooperation and Development (OECD) sobre o acesso aos dados da pesquisa financiada por fundos públicos
16/03/2004 Princípios de Washington D. C. para o Livre Acesso à Ciência
30/07/2004 Publicação do relatório do comitê do Parlamento Britânico sobre edição científica
13/09/2005 Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica
26/09/2005 “Declaração de Salvador sobre Acesso Aberto: A Perspectiva dos Países em Desenvolvimento” Declaração de Salvador – Compromisso com a Eqüidade
12/2005 Carta de São Paulo
05/2006 Declaração de Florianópolis Fonte: KURAMOTO, 2006, p. 97.
A reivindicação em nível global é para "[...] direito livre, irrevogável, mundial e perpétuo de acesso [...]" a trabalhos publicados, como definido na Reunião de Bethesda de 11 de abril de 2003 (BETHESDA, 200328 apud COSTA, 2011).
Kuramoto (2006, p. 97) descreve os modelos de negócio classificadas por John Willinsky29, para o acesso livre à informação (QUADRO 3):
28 BETHESDA statement on open access publishing, 2003. Disponível em: <http://www.earlham.edu/~peters/fos/bethesda.htm>. Acesso em: 23 jun. 2012.
29
WILLINSKY, J. The access principle; the case for Open Ac cess to research and scholarship. London: The Mit Press, 2006, 287 p.
WILLINSKY, John. The nine flavours of Open Access scholarly publishing . Journal of Postgraduate Medicine v.49, p.:263-267, 2003. Disponível em: http://www.jpgmonline.com/article.asp?issn=0022- 3859;year=2003;volume=49;issue=3;spage=263;epage=267;aulast=Willinsky, Acesso: 15 abril de 2012.
Quadro 3 – Modelos de negócio para acesso livre à informação
Tipo de acesso Descrição
Home Page Faculdades ou Departamentos de universidade mantêm home page para membros individuais da faculdade, na qual eles colocam os seus papers tornando-os livremente
disponíveis
Subsidiado (Subsidized) Sociedades científicas, instituições de governo ou fundações disponibilizam, por meio de subsídio, o acesso livre a revistas E-print archives Autores depositam preprints e/ou postprints em arquivos
abertos Unqualified (acesso
universal) Publicação imediata e completa de periódico em arquivo aberto Dual mode (modo duplo) São oferecidas duas versões do periódico: assinatura paga
para a versão impressa e aceso aberto para a versão eletrônica
Delayed OA (acesso livre
defasado) O acesso aberto torna-se disponível após alguns meses da saída da publicação inicial que é paga Author fee (autor paga
taxa) Autores pagam às editoras uma taxa para as recompensarem por publicar em OA Partial OA (acesso livre
parcial) Alguns artigos de uma revista são de OA Com bases em renda per
capita Acesso aberto é concedido a países com renda per capita abaixo de determinado limiar Abstract (resumo) Acesso aberto apenas aos sumários e resumos
Co-op (cooperativas) Membros da instituição sustentam periódicos de acesso aberto
Fonte: Kuramoto (2006, p. 97).
Gumieiro (2009, p. 74) propôs um “modelo de negócios” para o ambiente editorial de periódicos científicos de acesso aberto. A autora considerou “[...] que há uma falta de sustentação teórica na CI para esse assunto em particular [...]” e em razão disso buscou “[...] na literatura sobre modelos de negócios utilizados em ambientes digitais, de uma maneira ampla, o entendimento necessário”. Ela chegou a seguinte conclusão:
A atividade de publicação de periódicos científicos eletrônicos de acesso aberto é descrita como um negócio, que tem custos, insumos e fornecedores e estende-se em uma cadeia que vai desde a elaboração do conteúdo pelos autores até a recepção da publicação pelos leitores. Para obtenção de receitas, esse empreendimento recorre a investimentos que não incluem as taxas de acesso e de assinatura tradicionalmente cobrada aos leitores.
No Brasil, a criação da Biblioteca Digital Brasileira (BDB) representa uma iniciativa em prol do acesso aberto à informação científica. A Idéia básica da BDB, um projeto do IBICT, era integrar os principais acervos digitais do país por meio de indexadores virtuais, criados a partir de metadados, que são formas internacionalmente padronizadas de representação dos conteúdos informacionais de documentos eletrônicos. No âmbito da BDB foi criada a BDTD. As instituições públicas brasileiras de ensino e pesquisa ocupam o papel de provedoras de dados, enviam os metadados das teses e dissertações para o IBICT. Como provedor de serviço o IBICT coleta esses dados, que são expostos para coletores no protocolo Open
Archives Initiative - Protocol for Metadata Harvesting (OAI-PMH)30 e os distribui na
web. O Portal de Periódicos da CAPES também cumpre o papel de apoiador do
acesso livre, mas isso somente com uma parcela das fontes disponibilizadas como as bases de dados e repositórios de domínio público, e que não são o seu foco. Sobre os periódicos, a tendência da mudança de paradigma e a filosofia do acesso aberto, Kuramoto (2012) considera “[...] que há um tremendo desconhecimento das estratégias propostas pelo movimento Open Access.” O autor reflete também que:
O movimento Open Access propôs no ano de 2001 duas estratégias: a VIA VERDE e a VIA DOURADA. A estratégia da VIA VERDE propõe que as universidades, os institutos de pesquisa criem os seus repositórios institucionais com o propósito de armazenar a produção científica de seus pesquisadores e professores. E, da mesma forma, que as agências de fomento criem os seus repositórios centrais com o propósito de armazenar a produção científica proveniente das pesquisas, por elas, financiadas.
A via dourada está vinculada aos editores do mercado editorial privado. Como esclarece Kuramoto (2012), os pioneiros participantes do movimento Open Access propuseram essa segunda estratégia para alcançar o acesso livre universal aos editores científicos, com a criação e/ou conversão das revistas científicas comerciais para revistas científicas de acesso livre.
30
No caso da informação tecnológica, as patentes e os MU's, que adquirem o status de domínio público após o período de proteção de 20 e 15 anos respectivamente são passíveis de exploração como importantes fontes de informação, principalmente para os países em desenvolvimento.