2.2. Öz Yeterliğin Tanımı Ve Önemi
2.2.2. Öz Yeterlik Kaynaklarını Oluşturan Kaynaklar
Nos discursos das docentes, entrelaçam-se representações de criança numa visão romântica, naturalmente boa, feliz e ingênua, como também crianças como sujeitos de direitos, frutos de uma realidade social, que têm vidas diferentes e que assim precisam ser consideradas. São crenças e imagens absorvidas de suas trajetórias de vida e até mesmo da formação.
Quando fazem referência à função da Educação Infantil, tem sido consensual o cuidar e educar, conforme expressam os documentos oficiais que regulamentam essa etapa de ensino, em sua indissociabilidade. Entretanto, fica latente a dicotomia e distorção em relação a função quando revelam que essa etapa de ensino não tem “cobrança pedagógica”, sendo uma forma de suprir carências afetivas e favorecer o desenvolvimento natural das crianças.
Ao acompanharmos a cotidianidade das ações no CMEI, percebemos que há um clima de insatisfação das professoras quanto à ação de higienização das crianças, considerada como sendo uma tarefa desagradável, como se não fizesse parte do ofício, sendo entendida talvez como desprestígio da profissão. Vejamos a realidade observada:
Durante o turno da tarde, numa sala do nível II, havia 16 crianças. Nessa ocasião, os jogos de mesas estavam em círculo e as crianças finalizam uma atividade, sob a orientação da professora. Nesse ínterim, a auxiliar de sala não participava do referido momento e, num canto da sala, observava os acontecimentos. Chegara a hora do jantar; logo, a auxiliar entra em cena. Organiza as crianças na fila e as leva até o banheiro, na própria sala de aula, para lavar as mãos, e as encaminha em fila para o refeitório. A professora aproveita esse momento para colar as atividades das crianças no mural da sala, organiza os livros de literatura. Chega até a porta da sala, olha as crianças jantando sob a ajuda da auxiliar, conversa com uma colega de outra sala e retorna a sua sala de aula. Após o jantar, as crianças sob a orientação da auxiliar seguem em fila até o banheiro para a escovação e pentear os cabelos, pois está próximo de encerrar o horário de aulas. Nesse momento, a professora faz um semicírculo com as cadeiras: é hora de cantar e esperar o término do horário de aula. As crianças, pouco a pouco, começam a cantar várias músicas que já sabem de cor. A auxiliar organiza os materiais que foram utilizados durante a higienização. Chegam os responsáveis das crianças (mães, pais, tias, irmãos e/ou avós), professora e auxiliar beijam e abraçam todas as crianças (registro escrito de observação realizada em sala de aula/agosto de 2012).
De acordo com este registro, podemos perceber que as ações de banho e alimentação são relegadas às auxiliares, contrariando a construção do vínculo entre cuidar e educar, no qual se estabelece a formação de laços afetivos, a formação de hábitos e valores na relação da criança com a professora. Aliam-se nesse cenário os dispositivos da administração pública, que apesar de ter integrado as Creches à Educação Municipal, ainda contrata profissionais
concebidos como “auxiliares”, sem qualificação específica para a docência, com carga horária e salários diferentes, dentro de um mesmo espaço social. Instauram-se hierarquias e dualidades da realidade vivida na docência com crianças pequenas e o que essas docentes pensam ser o modelo ideal da profissão (KRAMER, 2005a).
O binômio cuidar e educar é, geralmente, compreendido como um processo único, em que as duas ações estão profundamente imbricadas. Mas, muitas vezes, a conjunção sugere a ideia de duas dimensões independentes: uma que se refere ao corpo e outra aos processos cognitivos. Nos textos acadêmicos, nas propostas pedagógicas, nas práticas, assim como nas falas de profissionais de creches, muitas vezes, mais que integração, o binômio expressa dicotomia. Em razão de fatores socioculturais específicos da nossa sociedade, essa dicotomia alimenta práticas distintas entre profissionais que atuam lado a lado nas escolas de educação infantil, especialmente nas creches: auxiliares cuidam, e as professoras realizam atividades pedagógicas (KRAMER 2005b, p. 66).
Paradoxalmente, as professoras dizem gostar de trabalhar com crianças e que estão adaptando-se ao “novo”. O afeto, a receptividade, o carisma que as crianças demonstram para com as professoras têm mobilizado, em algumas delas, o desejo de continuar na Educação Infantil. Então, é preciso dar um passo mais à frente, entendendo que:
Considerar cuidar/educar como indissociáveis não significa desconsiderar as características próprias de cada termo, mas procurar ter uma visão de conjunto. Assim, podemos dizer que a educação e o cuidado perpassam a educação em geral- da educação infantil à universidade, porém na educação das crianças há especificidades (PAIVA, 2007, p. 99).
Reconhecemos que os saberes e o agir docente no campo da educação da criança ainda estão arraigados no viés da dicotomia mente/corpo, provenientes de um processo histórico, social e cultural, no qual ainda prevalece precária valorização das profissionais.
Nas transcrições abaixo, as docentes expressam os motivos da docência na Educação Infantil, que no nosso entendimento são reveladores do oportunismo em relação ao concurso público:
O motivo de me submeter ao concurso foi porque já havia feito dois concursos em Recife para a coordenação do ensino fundamental, e há muito tempo aguardava ser chamada. Foi quando surgiu esse em Natal para a Educação Infantil, fiz sob estímulos do meu esposo, sem muita pretensão, e quando menos esperava fui convocada. Jasmin (Informação verbal).
O motivo de fazer o concurso para a Educação Infantil foi porque os outros concursos que fazia para atuar em Ciências Biológicas e não obtinha bons resultados, percebia que na área da didática me destacava. E quando surgiu o concurso que exigia o magistério, considero que foi um presente, porque voltei a estudar, senti prazer e não tive dificuldade nenhuma. Margarida (Informação verbal). Ingressei no cargo de Educadora Infantil por meio de concurso público, que partiu do desejo e sonho de ter algo mais fixo, mais concreto, porque na escola privada
tem sempre aquele “é hoje não é amanhã”. Considero que foi ótimo porque me deu a oportunidade de fazer as duas coisas: de ser concursada e de trabalhar na área que gosto. Tulypa (Informação verbal).
Quando fiquei sabendo do concurso para Educação Infantil já estava aposentada. Fiquei feliz por poder fazer o concurso e curiosa de saber como era a Educação Infantil Orquídea (Informação verbal).
Como vemos, a entrada das professoras nessa área de atuação teve início em 2009, resultante do concurso público destinado exclusivamente à atuação na Educação Infantil, aliada às suas trajetórias de vida e condições socioeconômicas. Um desses motivos foi a submissão a vários concursos para o Ensino Fundamental e a não obtenção de bons resultados. Além disso, nunca cogitaram trabalhar com crianças pequenas, na faixa etária de 04 meses a 05 anos e 11 meses, porém, mesmo assim, aproveitaram a oportunidade de acesso ao primeiro concurso público para o cargo de Educador Infantil17, que exigia apenas nível
médio, modalidade Normal, e representava vínculo empregatício com estabilidade profissional. Isso nos possibilita compreender que a docência na Educação Infantil, para estes sujeitos, foi uma escolha dentro da não escolha (LÉLIS, 1996). Não era uma opção, um desejo, mas garantir-lhes-ia um vínculo empregatício, com estabilidade profissional.