2. TEMEL BİLGİLER
2.1 Paslanmaz Çelikler
2.1.2 Östenitik Paslanmaz Çelikler
2.1.2.3 Östenitik Paslanmaz Çeliklerin Korozyona Karşı Tutumları
Passamos agora a Georges Perec. Coincidentemente, também aqui partiremos de uma conferência, desta vez realizada no dia 5 de maio de 1967 na Inglaterra, e cujo título é "Pouvoirs et limites du romancier français contemporain". Após traçar um breve panorama sobre como era o romance francês quando começara a escrever – isto é, dividido entre o engajamento de escritores como Sartre e uma literatura totalmente oposta, alienada das questões sócio-políticas de então – Perec discorre sobre seu projeto literário, o de se tornar um escritor realista. Para tanto, algumas idéias e bons sentimentos não eram suficientes. Era preciso “une espèce de modèle littéraire, quelque chose qui vous permette dzavancer dzune manière un peu plus sûre"195.
Entre o desejo de se tornar um escritor realista e os livros escritos sob esta ótica existe a escritura, ou seja, a passagem obrigatória pelos textos de outros, a partir da qual é possível escrever algo particular. Para o autor de Les Choses, escrever é sobretudo um processo de revisitação:
(...) lorsque jzécris, tous les sentiments que jzéprouve, toutes les idées que jzai (...) ont déjà été traversées par des expressions, par des formes qui, elles, viennent de la culture du passé196
.
Assim sendo, um escritor só pode, em vista disso, se formar a partir da repetição de 195 PEREC, G. "Pouvoirs et limites du romancier français contemporain". In: COULET, Henry (org.). Idées sur
le roman. Paris: Larousse, 1992. p. 405.
196
Ibid, p. 406 (Grifos do autor). Essa opinião de Perec, que para ele é um simples constatação, aparece também no discurso de Bernard, nos Faux-monnayeurs, mas com uma conotação totalmente negativa: "Ah! si vous saviez ce que czest enrageant dzavoir dans la tête des tas de phrases de grands auteurs, qui viennent irrésistiblement sur vos lèvres quand on veut exprimer un sentiment sincère" (Op. cit., p. 195). O que para Perec é um fato evidente e inelutável é, para o amigo de Olivier um grande problema, pois as frases que lhe vêm à mente impedem-no de reivindicar sua originalidade. Seria esse desabafo do personagem um eco dos questionamentos suscitados pela época (a concepção do romance situa-se entre 1919 e 1925) sobre a perda de referências seguras em todos os segmentos da vida humana após a Primeira Guerra mundial?
outros escritores, em uma alusão bastante clara às teorias do intertexto. Nunca é demais lembrar que os anos 60 representam a época de ouro do Estruturalismo e do grupo Tel Quel na crítica literária e Perec, embora não compartilhando totalmente de suas propostas, se encontrava no mesmo cenário.
A influência também é discutida nessa conferência. Perec acredita que as "fontes" devem ser admitidas e mesmo reivindicadas como algo de direito pelos escritores:
Czest une idée que Malraux a beaucoup défendue à propos de la peinture, que tout peintre commence par pasticher celui qui lza précédé. Seulement, czest une idée qui était cachée, qui était... Czétait une idée un peu tabou. On disait dzun écrivain, tel écrivain szinspire de..., il nza pas encore trouvé sa vraie voix, v-o-i-x, il nza pas encore trouvé cette espèce dzoiseau au-dessus de sa tête qui va lui dicter ce quzil a à dire, ni sa Muse qui vient chanter pendant quzil dort.197
A ausência de uma visão negativa sobre a influência parece bastante surpreendente para um escritor de seu tempo, mas Perec não a vê como "dependência quase parasitária" do "influenciado" com relação ao "influenciador", e sim como uma simbiose na qual ambos precisam um do outro e, portanto, convivem pacificamente entre si. É possível, então, pensar que, do ponto de vista perecquiano, intertextualidade e influência não eram noções muito distantes uma da outra.
Essa relação de Perec com seus precursores pode ser, com relação especificamente ao livro Les Choses (que acabara de ser incluído no programa de Literatura Francesa em Warwick), dividida em três ordens:
5 Ligações "indiretas" (ou seja, não claramente discerníveis no texto): La Conspiration, de Paul Nizan e L'Espèce humaine, de Robert Antelme;
6 Leituras "de recheio" e "de repouso": respectivamente, Madame Express (suplemento feminino da revista L'Express) e Barthes (Perec não cita nenhum título específico); 7 Ligações "diretas", visíveis no texto: L'Education sentimentale, de Gustave Flaubert.
Sobre os dois primeiros textos, Perec diz terem sido fundamentais não para as frases de sua obra, mas enquanto espírito, sobretudo com relação ao livro de Antelme. Leslie Hill, responsável pela gravação da conferência, credita o interesse de Perec por esse autor à sua forma de representação do real. Os jogos intertextuais entre as duas obras não têm por objetivo apenas o jogo em si, mas a busca de uma forma:
(...) czest sans doute parce que les jeux intertextuels, dans lzoeuvre de Perec, contestent ou problématisent les modes de représentation traditionnels quzils deviennent la seule manière (...) dzaborder la question difficile des camps198
.
Quanto à Madame Express, Perec afirma ter sido importante sobretudo enquanto corpus (muito provavelmente, embora o escritor não o diga, para os objetos de desejo de Jérôme e Sylvie). Já Barthes teria servido como descanso da leitura dos suplementos...
L'Education sentimentale foi utilizado de três modos: fornecendo algumas imagens (como a de um leilão), na construção de frases com ritmo ternário e, finalmente, pela citação de cerca de trinta frases empregadas sem nenhuma aspa – o que, segundo Perec, não impede de modo algum sua identificação por qualquer bom leitor de Flaubert.
Todas as relações com esses e outros textos são a prática da visão perecquiana da literatura como um quebra-cabeças, isto é, como uma imagem composta por peças cujo sentido se forma apenas quando colocadas juntas. Todo escritor está cercado por muitos outros, lidos ou não. Com eles, esse escritor faz parte de um conjunto inconcluso cujos espaços vazios devem ser ocupados pela obra à venir. Inacabada também é a literatura, sempre a espera do texto novo, anunciado pelos textos que o antecederam.
Perec define sua escritura como um percurso:
une espèce dzitinéraire que jzessaie de décrire à partir, disons, dzun refus, dzune exaltation, en me servant (...) de tout un acquis culturel qui existe déjà199.
Em suma, esse percurso pela literatura se vincula diretamente à tentativa de conhecer a si mesmo. E um bom exemplo desse trajeto pode ser encontrado em La Disparition, um de seus textos à primeira vista mais enigmáticos.
De acordo com Ali Magoudi, na ausência da vogal e subjaz uma tragédia da vida do escritor, o desaparecimento de Cyrla Szulewicz, sua mãe, em Auschwitz, bem como as atrocidades praticadas contra os judeus durante a Segunda Guerra:
Lzauteur construit un écran romanesque qui masque totalement son passé. Paradoxe: lzhorrible souvenir nzest pas derrière le masque, czest le masque lui-même qui exprime lzhorreur, montre la souffrance, dévoile la tragédie. Ni derrière le texte ni au-delà du texte ne sont à évoquer pour comprendre où interpréter. La lecture au premier degré nous confronte à lzétendue du malaise. “Il y avait un manquant. Il y avait un oubli, un blanc, un trou quzaucun nzavait vu, nzavait su, nzavait voulu voir. On avait disparu. Ça avait disparu”.200
198 HILL, L. "Perec à Warwick". In: RIBIÈRE, Mireille (org.) Parcours Perec. Lyon: PUL, 1990. p. 29. 199
PEREC, op. cit., p. 408.
Quando Perec adquire consciência da ausência201 em sua vida tenta, por meio da
literatura, constituir para si um passado ao qual possa se ligar. Em La Disparition, praticamente tudo é "inspirado" em alguma leitura202. O intertexto perecquiano
– se podemos chamar assim uma escritura que utiliza outras para traduzir em palavras "lzinconscient de Perec"203
–, não se insere totalmente na tradição reivindicada para si, mas constrói um apoio, um tipo de rede de segurança contra o salto no vazio, contra a vertigem da página em branco com os quais se depara o escritor a cada nova escritura/aventura. E aí entram as famosas contraintes: paralisantes para outros, as restrições montam um espaço dentro do qual as palavras se separam das coisas, em que Perec traça seus próprios limites. O texto perecquiano se alimenta de outros textos não para homenageá-los ou contradizê-los pura e simplesmente, e tampouco para continuá-los. Seu emprego cria uma identidade, forma um passado e, embora não sejam capazes de preencher o vazio, ajudam a representá-lo. De certa forma, o processo de construção dos textos de Perec e os próprios textos contrariam a idéia da impossibilidade de transmissão da experiência formulada após a Primeira Guerra (e extensível à Segunda Guerra):
source dzune mémoire inépuisable, dzun ressassement, dzune certitude: les mots étaient à leur place, les livres racontaient des histoires; on pouvait suivre; on pouvait relire, et, relisant, retrouver, magnifiée par la certitude quzon avait de les retrouver, lzimpression quzon avait dzabord éprouvée (...); je relis les livres que jzaime et jzaime les livres que je relis, et chaque fois avec la même jouissance, que je relise vingt pages, trois chapitres ou le livre entier: celle dzune complicité, dzune connivence, ou plus encore, au-delà, celle dzune parenté enfin retrouvée.204
À essa "volta dos mortos" na escritura de Perec podemos também relacionar o texto de Harold Bloom citado anteriormente205. Bloom estabelece seis tipos de diálogos possíveis com
a tradição literária sob a ótica da angustia da influência: clinamen (ou "desapropriação"), tessera (ou "complementação e antítese"), kenosis (ou "repetição e descontinuidade"), demonização (ou "contra-sublime"), askesis (ou "purgação") e apophrades (ou "retorno dos mortos").
Concentrando-se no apophrades (no qual o poeta morto "retorna" à vida por 201
"Je nzai pas de souvenirs dzenfance. Jusquzà ma douzième année à peu près, mon histoire tient en quelques lignes: jzai perdu mon père à quatre ans, ma mère à six (...)" (PEREC, G. W ou le souvenir d'enfance. p. 17).
202
"Par la transcription, dans une langue amputée du zez, de lzensemble des corpus, pourvu quzils aient été écrits, [Perec] se livre à une entreprise de pure création littéraire, sensée aboutir au Livre total, purement sonore, tel que le rêvaient Borges ou Flaubert" (MAGOUDI, op.cit., p. 35).
203 Ibid, p. 37. 204
PEREC, op. cit., p. 195.
intermédio de um poeta novo, ou melhor, o poeta novo alcança "um estilo que captura e estranhamente tem prioridade sobre os precursores"206, a tal ponto que se tem a impressão de
que os precursores desse poeta o imitaram e não o contrário), Claudia Pino acredita ser possível aplicá-lo à escritura de Perec207. Segundo ela, essa "cópia" teria como objetivo o
questionamento da originalidade da escritura, que por sua vez conduziria aos precursores, causando um tipo de estranhamento – definido por Bloom como o Umheimlich de Freud, uma sensação de medo motivada pelo retorno de algo reprimido – causado justamente pelo fim dessa idéia de originalidade. Afinal, "nada pode brotar espontaneamente da página em branco, não pode haver verdade em uma única ficção senão através de sua relação com os supostos mortos"208.
Ewa Pawlikowska fala em "desescritura"209 dos textos de Perec, feita a partir da
descontextualização de frases e imagens de outros textos e inserção destes em seus próprios escritos. Dos mortos à vida, da ausência à presença, o Outro no texto perecquiano nos lembra que nada pode partir do nada. E a escritura ocupa os lugares vazios ou esvaziados a fim de formar uma imagem, uma lembrança, um passado.