1.6. Brusellozis Enfeksiyonunda Koruma, Kontrol ve Eradikasyon
2.2.12. Örneklerin pH Değerlerinin Ölçülmes
ALGUNS ASPECTOS DA RELAÇÃO EROS/TÂNATOS EM POEMAS DE EDGAR ALLAN POE E DE ALPHONSUS DE GUIMARAENS
Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. Nada na alma lhe diz Mais que a lição da raiz Ter por vida a sepultura.49
O fato de desejo e morte coexistirem nos poemas de Poe e de Alphonsus intensamente leva-nos a passar pela teoria freudiana de Eros (instinto de vida)/Tânatos (instinto de morte), o que certamente vai ao encontro das idéias anteriormente discutidas: o gótico, a melancolia, o estranho, e o sublime. Cremos estar aí um dos ingredientes psicológicos primordiais nos textos poéticos dos autores que ora temos como foco de análise. Iniciemos uma breve teorização de viés freudiano, portanto.
Durante o verão de 1929, Sigmund Freud trabalhou em um texto que se tornaria um clássico em sua linha psicanalítica e teria influência em diversas áreas de conhecimento. Esse livro faz parte de uma vertente que marca uma nova fase no seu pensamento, na qual ele se distanciou de sua fase puramente clínica, centrada no indivíduo, para pensar questões relativas à humanidade, à conexão indivíduo/sociedade. Esse novo ciclo teve início com a publicação de Além do Princípio de Prazer (Jenseits des LustPrinzips), em 1920, em que reitera a noção sobre Eros, mas apresenta uma menção mais acentuada do conceito do instinto de morte (Tânatos). Sua análise reforça que a libido de nossos instintos sexuais coincidiria com o Eros dos poetas e filósofos, o qual mantém unidas todas as coisas vivas (2003, p.65); todavia, aponta-nos que o objetivo da vida
[...] deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva se afastou e ao qual se esforça para retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então
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compelidos a dizer que o objetivo de toda vida é a morte , e, voltando o olhar para trás, que, as coisas inanimadas existiram antes das vivas. (FREUD, 2003, p.49)
Em 1929, surgirá então Das Unbehagen in der Kultur (título que foi traduzido de várias formas em diferentes idiomas Civilization and its Discontents, Malaise dans la Civilisation, El Malestar en la Cultura, e, em português, O Mal-Estar na Civilização, por
exemplo), em que Freud discute, entre outros assuntos, a questão de como e onde o homem se encaixa no mundo local de permanente conflito para o ser humano em sua busca por liberdade em meio às exigências de adequação aos regulamentos, leis, costumes e tradições. A tese básica de Freud é a de que o homem, egoísta e agressivo por natureza, busca auto- satisfação; porém as amarras culturais inibem seus impulsos instintivos, gerando sentimentos de culpa e ansiedade. Ele defende a tese de que a vida social pressupõe repressão. O desenvolvimento do indivíduo bem como o da civilização só são possíveis através do controle das pulsões humanas, pois estas são incompatíveis com a vida em coletividade. Assim, para Freud o ser humano está condenado à infelicidade na civilização, já que, por felicidade, ele entende a livre fruição das energias instintivas.
Procederemos, a seguir, a um breve resumo das idéias fulcrais de alguns capítulos de
O Mal-Estar na Civilização a fim de, mais adiante, podermos focalizar melhor como essa
teorização Eros/Tânatos pode ser aplicada no estudo comparativo dos poemas de Alphonsus e de Poe.
Nos parágrafos introdutórios, Freud contra-argumenta observações que um amigo seu, o crítico e escritor francês, Romain Rolland, teria feito sobre O Futuro de Uma Ilusão (Die
Zukunft einer Illusion), de 1927, em que Freud, revelando seu lado ateu, investigou a origem
psicológica das idéias religiosas e afirmou que a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade. Rolland concorda com o ponto sobre a natureza ilusória da religião, porém mantém que todos os seres humanos partilham um sentimento inato de religiosidade, o qual denominaria de oceânico , por meio do qual o ser humano tem a sensação de que está
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conectado a todo o mundo e à humanidade inteira. Freud, por outro lado, reconhece que há um sentimento oceânico de unidade e identificação entre os seres humanos, que, no entanto, não indica uma religiosidade inata. Embora diga não ter experimentado tal fenômeno, procura entendê-lo cientificamente, visto que, se não há sinais fisiológicos externos de sua existência, deve haver uma explicação psicanalítica, portanto. Esclarece que o ego se percebe mantendo linhas de demarcação bem claras com o mundo externo. Somente quanto se atinge o amor máximo é que o ego conscientemente permite essas fronteiras se tornarem mais fluidas sem se sentir ameaçado. Em geral, a tendência do ego é a de se separar da dor e do desconforto associados ao mundo externo. A distinção entre esses dois mundos é crucial para o desenvolvimento psicológico, fazendo o ego reconhecer uma realidade distinta dele mesmo.
Num primeiro momento evolutivo, o ego se mistura com uma ampla, quase infinita, percepção do mundo a sua volta; com a maturidade surge uma sensação diminuída de realidade, pois o ego já se delimitou como algo à parte do mundo externo. Nas palavras de Freud:
Uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu ego do mundo externo como fonte das sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos. Ela deve ficar fortemente impressionada pelo fato de certas fontes de excitação, que posteriormente identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais, poderem provê-la de sensações a qualquer momento, ao passo que, de tempos em tempos, outras fontes lhe fogem entre as quais se destaca a mais desejada de todas, o seio da mãe , só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro. Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um objeto , sob a forma de algo que existe exteriormente e que só é forçado a surgir através de uma ação especial. Um outro incentivo para o desengajamento do ego com relação à massa geral de sensações isto é, para o reconhecimento de um exterior , de um mundo externo é proporcionado pelas freqüentes, múltiplas e inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer, cujo afastamento e cuja fuga são impostos pelo princípio do prazer, no exercício de seu irrestrito domínio. Surge, então, uma tendência a isolar do ego tudo que pode tornar-se fonte de tal desprazer, a lançá-lo para fora e a criar um puro ego em busca de prazer, que sofre o confronto de um exterior estranho e ameaçador. (1978, pp.133-134)
Adiante, Freud demonstra que a mente é algo excepcional no que tange à possibilidade de coexistirem sentimentos infantis e maduros durante a vida de qualquer um de nós, ou seja, depois que um fato é registrado em nossa memória, nunca mais é esquecido, bastando que ocorram as circunstâncias apropriadas para que a lembrança seja trazida à consciência vigil.
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Faz-se uma comparação com escavações arqueológicas, pois o passado coexiste, ainda que escondido, no presente. Numa analogia com Roma, Freud diz:
Seu sítio acha-se hoje tomado por ruínas, não pelas ruínas deles próprios, mas pelas de restaurações posteriores, efetuadas após incêndios ou outros tipos de destruição. Também faz- se necessário observar que todos esses remanescentes da Roma antiga estão mesclados com a confusão de uma grande metrópole, que se desenvolveu muito nos últimos séculos, a partir da Renascença [...]Permitam-nos agora, num vôo da imaginação, supor que Roma não é uma habitação humana, mas uma entidade psíquica, com um passado semelhantemente longo e abundante isto é, uma entidade onde nada do que outrora surgiu desapareceu e onde todas as fases anteriores de desenvolvimento continuam a existir, paralelamente à última. (1978, p. 136) Em seguida, o texto retoma seu objetivo principal o de explicar a fonte dessa suposta sensação oceânica de unidade. Parece ser, conclui-se, um vestígio do narcisismo infantil dos primeiros anos de vida quando o ego se integra por completo ao mundo, não discernindo o mundo subjetivo do objetivo. Soma-se a essa lembrança narcísica inicial, após consciência de o mundo externo poder ser fonte de desprazer e de forças não controláveis, a conclusão de que há a necessidade por parte da criança de buscar (ou de se retomar) amparo e proteção. Assim, Freud conjectura:
... estamos perfeitamente dispostos a reconhecer que o sentimento oceânico existe em muitas pessoas, e nos inclinamos a fazer sua origem remontar a uma fase primitiva do sentimento do ego. [...] A derivação das necessidades religiosas, a partir do desamparo do bebê e do anseio pelo pai que aquela necessidade desperta, parece-me incontrovertível, desde que, em particular, o sentimento não seja simplesmente prolongado a partir dos dias da infância, mas permanentemente sustentado pelo medo do poder superior do Destino. Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico, que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, ainda está envolto em obscuridade. [...] Posso imaginar que o sentimento oceânico se tenha vinculado à religião posteriormente. A unidade com o universo , que constitui seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo. (1978, pp.137-138)
O segundo capítulo passará a focalizar três mecanismos com os quais o ser humano pode tentar superar as vicissitudes e dores vitais. A concepção de tais estratégias é oriunda do próprio princípio do prazer, como um contraponto seu. Ora, se o princípio do prazer estabelece que somos impulsionados sempre no afã de satisfazermos nossas necessidades ou compulsões, ao compreendermos haver no mundo externo o princípio da realidade , que
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interfere e impede a satisfação de nossos desejos, será útil estruturar modos de evitar o desprazer tanto quanto possível. O texto explica que
A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para nós; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis. A fim de suportá-la, não podemos dispensar as medidas paliativas. Não podemos passar sem construções auxiliares , diz-nos Theodor Fontane. Existem talvez três medidas desse tipo: derivativos poderosos, que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela. (1978, p.144) (Os destaques são meus)
Essas três estratégias têm o intuito de minimizar a impossibilidade terrena na consecução do propósito vital, que para Freud se resume em obter felicidade: os seres humanos querem ser felizes e assim permanecer (1978, p.141). Nos derivativos encaixam- se as atividades científica, profissional ou ocupacional. Já no grupo das satisfações substitutivas, teremos formas de compensação como o fervor religioso, a fantasia e a fuga pelo prazer estético-artístico. Nesse segundo mecanismo, discute-se breve e inconclusivamente sobre o papel da Beleza como instrumento de alívio para as dores humanas, emprestando-se muitas das idéias de Emmanuel Kant. De qualquer forma, é importante mencionar a Beleza como elemento substitutivo compensatório de satisfação, pois ela estará ligada a Eros, uma vez que o belo é sempre um atributo do objeto sexual desejado.
Daqui podemos passar à consideração do interessante caso em que a felicidade na vida é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a nosso julgamento a beleza das formas e a dos gestos humanos, a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. A atitude estética em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do sofrimento, embora possa compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la. Embora a ciência da estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas, tem sido incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito da natureza e da origem da beleza, e, tal como geralmente acontece, esse insucesso vem sendo escamoteado sob um dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas. A psicanálise, infelizmente, também pouco encontrou a dizer sobre a beleza. O que parece certo é sua derivação do campo do sentimento sexual. O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso inibido em sua finalidade. Beleza e atração
são, originalmente, atributos do objeto sexual. (1978, p. 146)
Por fim, escaparemos do sofrimento pelo uso de drogas químicas, que também tratarão em si dos sintomas de nosso desprazer existencial e não de suas causas.
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As causas desse desconforto vital doloroso estão no corpo humano, no mundo externo e das relações sociais. Como esclarece o pai da psicanálise,
O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes. (1978, p.141) (Os destaques são meus)
Isso nos leva ao fato de que, apesar do suposto propósito principal de nos proteger, a civilização é em grande parte responsável pela nossa infelicidade. Ora, ela exige que o individual seja sacrificado em nome do coletivo, diminuindo, por conseguinte, a liberdade de cada pessoa; exige, assim, que se renuncie à realização de instintos básicos, que, segundo Freud poderão vir a nos assombrar eventualmente, pois a tendência do que é reprimido é retornar de alguma forma patológica. Certamente, não ficam de fora as limitações que se impõem sobre a sexualidade, visto que a sociedade dita quais manifestações são permissíveis, e até mesmo as suas formas de expressão. Freud sustenta que o homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança (1978, p. 170); logo, mantermos nossos laços sociais ou satisfazermos nossos instintos é uma decisão meramente econômica na medida em que negociamos nossa gratificação imediata por uma estabilidade e segurança a longo prazo, o que, conforme ele assevera, conduzirá ao que denomina frustração cultural .
Esse escambo provém de Eros e Ananke, isto é, amor e necessidade, que se tornaram os pais da civilização (1978, p. 159), malgrado aspecto civilizatório repressor. Comenta Freud que
Depois que o homem primevo descobriu que estava literalmente em suas mãos melhorar a sua sorte na Terra através do trabalho, não lhe pode ter sido indiferente que outro homem trabalhasse com ele ou contra ele. Esse outro homem adquiriu para ele o valor de um companheiro de trabalho, com quem era útil conviver. Em época ainda anterior, em sua pré- história simiesca, o homem adotara o hábito de formar famílias, e provavelmente os membros de sua família foram os seus primeiros auxiliares. Pode-se supor que a formação de famílias deveu-se ao fato de ter ocorrido um momento em que a necessidade de satisfação genital não
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apareceu mais como um hóspede que surge repentinamente e do qual, após a partida, não mais se ouve falar por longo tempo, mas que, pelo contrário, se alojou como um inquilino permanente. Quando isso aconteceu, o macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de si, ou, em termos mais gerais, seus objetos sexuais, a seu lado, ao passo que a fêmea, não querendo separar-se de seus rebentos indefesos, viu-se obrigada, no interesse deles, a permanecer com o macho mais forte. Na família primitiva, falta ainda uma característica essencial da civilização. A vontade arbitrária de seu chefe, o pai, era irrestrita. Em Totem e
Tabu [1912-13], tentei demonstrar o caminho que vai dessa família à etapa subseqüente, a da
vida comunal, sob a forma de grupos de irmãos. Sobrepujando o pai, os filhos descobriram que uma combinação pode ser mais forte do que um indivíduo isolado. A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente, a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preceitos do tabu constituíram o primeiro direito ou lei . A vida comunitária dos seres humanos teve, portanto, um fundamento duplo: a compulsão para o trabalho, criada pela necessidade externa, e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual a mulher e a mulher, em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada seu filho. Eros e Ananke [Amor e Necessidade] se tornaram os pais também da civilização humana. O primeiro resultado da civilização foi que mesmo um número bastante grande de pessoas podia agora viver reunido numa comunidade. E, como esses dois grandes poderes cooperaram para isso, poder-se-ia esperar que o desenvolvimento ulterior da civilização progredisse sem percalços no sentido de um controle ainda melhor sobre o mundo externo e no de uma ampliação do número de pessoas incluídas na comunidade. É difícil compreender como essa civilização pôde agir sobre os seus participantes de outro modo senão o de torná-los felizes. (1978, p. 158)
Entretanto, a fim de se manter esse estado de coisas sobrevirão regras comportamentais restritivas que deixarão aflorar o lado agressivo natural a todo ser humano. Num primeiro momento, de novo em nome da estabilidade e segurança que a civilização pode nos dar, aceitamos tais imposições quase que masoquisticamente, pois nos infligimos desprazer ao nos adequarmos às coarctações sociais. Por outro lado, quando temos a oportunidade, passamos de masoquistas a sádicos e daí homo homini lupus, já que
O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. (1978, p. 167)
Independentemente de qualquer exagero quiçá contido no excerto acima, interessa-nos acentuar que Freud demonstra estarem essas duas forças conflitantes Eros e Tânatos na civilização muito antes do século XX. Especificamente na poesia, a idéia de morbidez amorosa, em que Eros e Tânatos se entrelaçam na paradoxal união do desejo e de sua interdição no mínimo desde o Barroco, ainda que com tons e cores diferentes dos trabalhados
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pelos românticos e simbolistas. Não é objetivo deste estudo realizar uma progressão teórica sobre esse tema, passando pelos diferentes períodos literários desde o Barroco. Porém, cremos que existe tal progressão e que será o Romantismo (em que Poe se insere, ainda que não em todas as características dessa estética em seu país) o movimento catalisador e revelador da beleza instrínsica da união Eros/Tânatos, que será explorada por simbolistas como Alphonsus de Guimaraens.
Mario Praz, em A Carne, a Morte e o Diabo, afirma que desejo, luto, melancolia, beleza e horror já estavam nos versos de autores seiscentistas: Podia-se extrair portanto beleza e poesia de matéria geralmente considerada ignóbil e repugnante; e isso sabiam já Shakespeare e outros elisabetanos, apesar de não teorizarem sobre isso. (1996, p.45) Vale lembrar, portanto: especificamente, no caso da figura da amada, ou da figura feminina desejada, ela tem-nos sido oferecida em versos eivados de uma volúpia do sofrimento que conduz ao macabro, ao terrível, ao estranho (Unheimliche).
Essa visão, todavia, é veiculada pela voz masculina. Com freqüência, a percepção do feminino tem oscilado entre o sagrado (deusa, criança, anjo, mãe) e o profano (ninfa,