3. YÖNTEM
3.2. Evren ve Örneklem
Assim como Afrodite, Eros da Alma urânia permanece olhando em direção ao alto, na medida em que é seu companheiro, e que é engendrado a partir dela e por ela. Plotino tenta resolver uma divergência entre duas passagens de diálogos platônicos, Fedro 242 d, onde Eros é filho de Afrodite, e Banquete, 203 c, no qual ele é companheiro da deusa, fazendo de Eros o olhar amoroso de Afrodite em direção a Cronos:
(...) Amando-o, engendra Eros e com este olha para aquele, e esse ato da Alma produz uma realidade e uma essência, e ambos olham para lá: a Alma que engendra e o belo Eros engendrado como uma realidade que está eternamente voltada para outro ser belo e que nisso fundamenta seu ser, sendo um intermediário assim como o olho do desejante é intermediário entre o desejante e o desejado, porque fornece ao amante a visão do amado por sua mediação, mas ele próprio o precede, plenificando-se com o espetáculo antes de fornecer ao amante a possibilidade de ver mediante o órgão, vendo, antes, é verdade, mas não do mesmo modo, porque, apesar de fixar no amante o objeto da visão, ele mesmo desfruta de uma beleza que passa correndo por ele293.
292 Cf. III, 5 [50] 2, 32-34.
293 III, 5 [50] 2, 35-46 [trad. BARACAT JUNIOR, J. C.]. , % , !
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A beleza de Eros - ! , ! – remete a Eros primevo, o mais belo entre os deuses imortais, na fala de Hesíodo294; portanto a beleza situa Eros na grei dos grandes deuses, marcando sua superioridade e dignidade. A beleza também é atribuída a Eros por praticamente todos os discursos do Banquete, salvo o de Sócrates e Diotima, que faz de Eros um intermediário à procura da beleza, um daím n capaz de, perseguindo a beleza em diferentes níveis, elevar a alma ao mundo supra-sensível, como será visto. Note-se que Eros neste passo das Enéadas também é considerado intermediário ( * ), mas não por ser um
daím n. Efetivamente, o que aqui define a noção de intermediário é a metáfora do olho295, a qual descreve a função do amor tendo por referência a visão sensível. Segundo Plotino, o amor é um intermediário entre a Alma e o Intelecto, como o olho do amante é um intermediário entre o amante e o amado. É o olho que permite ao amante ver o amado, na medida em que se enche do espetáculo visível da beleza, antes de proporcioná-lo ao amante. Porém, o olho não retém o espetáculo, de tal sorte que só desfruta fugazmente da beleza296. Em suma, o olho é um lugar de passagem297. Pode-se dizer, em outras palavras, que o olho recebe a impressão da beleza, enquanto a Alma percebe a forma do belo.
Ainda cabe notar que o ato ( ,% ) da Alma produziu ( ,% ) Eros como uma hipóstase e uma essência ( ); esta é a frase-chave para a relação entre Eros e Afrodite298. Quanto ao termo é errado considerar que Eros seja uma hipóstase, no sentido técnico com que usualmente são classificados o Um, o Intelecto e a Alma; com efeito, Eros é uma “realidade”. De fato, não se deve pensar que se
294 Cf. HESÍODO, Teogonia, 120.
295 Hadot observa que Eros, como olho de Afrodite, é uma metáfora inesperada, quiçá mesmo única na história
da literatura e das artes antigas, ainda que o tema do parentesco entre o amor e o olho seja muito freqüente. Ele sugere que esta metáfora seja uma alusão ao deus egípcio Horus, que Plutarco identifica com Eros, e do qual o olho é um conhecido símbolo cultual (HADOT, P. In: PLOTIN. Traité 50, “introduction”, p. 62-63).
296 Cf. III, 5 [50] 2, 40-45.
297 Tal metáfora, com sentido próximo a este, encontra-se também em IV, 4 [28] 24, 31, onde Plotino diz que o
olho transmite à Alma o que ela vê.
298 Cf. WOLTERS, A. M. On Eros, nota 2.36, p. 30. Nesta nota, observa ainda que uma concepção similar de ato
trata de um desdobramento das chamadas três hipóstases principais, o Um, o Intelecto e a Alma. Como nota Couloubaritsis, é fato que o termo “hipóstase” seja utilizado por Plotino em referência a uma “subsistência” qualquer, mas isso não deve eclipsar a especificidade das três hipóstases principais, nem a recusa de Plotino em acrescentar outras. Portanto, no caso de Eros, assim como do lógos, trata-se de uma espécie de desdobramento, da passagem de uma hipóstase a outra, sem que isso implique em uma hipóstase suplementar. Finalmente, é um modo de falar do ato pelo qual emerge uma outra coisa de uma das três hipóstases, e que marca sua presença na hipóstase seguinte299. Por sua vez, o ato da Alma é um olhar ardente ( , , !), intenso, dirigido à primeira essência300. Ora, a Alma e Eros são essências, porque ambos surgem desse olhar, mas também porque este olhar é simultâneo ao ato do Intelecto, que, olhando o Um, se constitui como a primeira essência301. A Alma sente alegria e uma espécie de prazer na visão do Intelecto, tanto assim que essa visão não pode ser algo secundário302. Por isso ela gera Eros que, finalmente, surge do encontro entre esta tensão contemplativa da Alma e este como que eflúvio ( > ,, !) proveniente do que é visto303.
O verbo ,, ) é um termo técnico da teoria da visão, sendo registrado em Platão e em Alexandre de Afrodísia, mas que deriva, em última instância, da teoria da luz e da visão de Empédocles304. Platão, que possivelmente adaptou a teoria de Empédocles, associou , ! e , ) no Crátilo: “Já o amor é assim chamado, porque flui de fora, e este fluxo não pertence àquele que o tem, mas é importado por meio dos olhos”305. Embora não se sirva do mesmo jogo etimológico, Plotino alude à idéia de que Eros escorre para a Alma,
299 COULOUBARITSIS, L. “Le logos hénologique chez Plotin”, p. 237.
300 Cf. III, 5 [51] 3, 3-5. No Crátilo 420 a, é # , ! que atrai a alma com sua impetuosidade ( , ). 301 O Intelecto é designado como “primeira essência” também em I, 8 [51] 2, 21; V, 3 [49] 5, 35.
302 Cf. III, 5 [51] 3, 5-10. 303 Cf. III, 5 [51] 3, 11-12.
304 Cf. WOLTERS, A. M. On Eros, nota 3.12, p. 37.
305 PLATÃO, Crátilo, 420 b [trad. FIGUEIREDO, M. J.]. Também associa a # , !/ “Quanto ao desejo
introduzindo-se do exterior pelos olhos. O que de certa forma também ecoa o Fedro: os eflúvios da beleza ( ! ,, & ), penetrando pelos olhos, fazem com que as asas da alma comecem a crescer306. Em outro tratado, Plotino retoma esta imagem: “No momento em que a Alma recebe em si o eflúvio que vem do Bem, que ela é atraída pela vida e pelo Intelecto (...) nasce o amor”307. Dessarte, para Plotino, Eros é um “olho repleto” (
, ), como uma visão que contém uma imagem ( > ’
#, !)308. Esta imagem é a da beleza. Porque Eros está relacionado com a visão, Plotino introduz um jogo etimológico, dizendo que possivelmente o nome amor ( , !) recebe sua realidade do ato de ver ( , !)309. A derivação ontológica reflete-se na derivação etimológica. Plotino joga com os registros genealógico e etimológico da palavra eros, estabelecendo uma relação entre o deus, o amor como estado de alma e o verbo amar. Decompondo o raciocínio, eis o que ele diz: o deus Eros é uma essência. Se o que é essência é anterior ao que não é essência, o eros, estado de alma, tira seu nome do deus Eros, ou seja, deste olhar que deriva do ato de ver da Alma. Donde o estado de alma seja designado pelo verbo amar ( , $ ). Plotino introduz pois uma precisão gramatical, indicando que o verbo amar requer complemento. Com isso ele tenta mostrar que o amor, estado de alma, depende de outra coisa, por conseguinte, é relativo e não essencial. Por sua vez, tanto a Alma como o seu amor são independentes, separados, porquanto eles permanecem no inteligível, puros e sem mistura. Ainda que, de certo modo, a alma humana faça parte da Alma-hipóstase, esta se mantém no inteligível, não se misturando ao corpo310. O que significa, na verdade, que uma
306 Cf. PLATÃO, Fedro, 251 b. 307 VI, 7 [38] 22, 8-10.
308 Cf. III, 5 [51] 3, 13.
309 Cf. III, 5 [51] 3, 13-15. Essa etimologia não corresponde à que Platão, no Crátilo 420 a, atribui a Eros
( , ) – correr de fora). É possível, por conseguinte, que Plotino a tenha tomado de uma tradição anterior. Em
Etymologicum Magnum, p. 379, 48 (apud Hadot) encontra-se uma etimologia semelhante à de Plotino, significando que o desejo (Eros) vem aos homens pela visão sensível (cf. HADOT, P. Plotin, traité 50, “commentaire”, pp. 188-189). Ora, isso está de acordo com a teoria do amor como um caminho de retorno ao Um que se encontra nos tratados I, 6 [1] e I, 3 [20], por exemplo.
parte da alma humana se mantém no inteligível. Isso explica a afirmação que aparece na conclusão da exegese de Afrodite e Eros Urânios: esta Alma e este amor urânios estão em nós, diz ele, sendo nossa melhor parte, ainda que sejam separados311.