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5. ÖRNEK UYGULAMA

O rompimento dos limites das fronteiras mercadológicas e culturais promovidos pelo neoliberalismo provocou como consequência a ampliação dos limites do corpo no

protestantismo no Brasil. Mas é importante ressaltar que esta ampliação não ocorre apenas no sentido cultural, pois, a partir da Teoria Corpomídia e do conceito de imagem de António Damásio (2011), identifica-se que esta alteração ocorre também em níveis cognitivos, modificando as relações de percepção e provocando o mapeamento de novos padrões sensório-motores.

Existe um novo corpo cristão protestante, oriundo da explosão gospel (CUNHA, 2004), e ele se deixou tingir pelas cores da cultura brasileira. O discurso puritano transformou-se em neoliberal, produzindo um novo formato de relacionamento entre sociedade e religião cristã. O efeito pasteurizador da globalização atinge as informações e se transforma na produção de desejos, pautando tudo pela necessidade de consumir. Comportamentos praticados em países chamados de desenvolvidos tornam-se valores almejados pelos países em processo de desenvolvimento econômico, mudando seus valores culturais. Isso se evidencia também nas artes. Hoje com toda uma bibliografia crítica sobre o assunto, a circulação da informação, que possibilita o contato com culturas e hábitos diferentes, faz rever e questionar os nossos próprios valores.

Desde que a civilização ocidental passou a predominar nos quatro cantos do mundo, a ideia de modernização passou a ser emblema do desenvolvimento, crescimento, evolução ou progresso. As mais diversas formas de sociedade, compreendendo tribos e nações, culturas e civilizações, passaram a ser influenciadas ou desafiadas pelos padrões e valores sócios culturais, característicos da ocidentalidade, principalmente sobre as formas europeia e norte-americana. (IANNI, 2001, p.97)

O crescimento da religião evangélica no Brasil depois da década de 1990, mais especificamente depois da explosão gospel, bem como, a sua presença na mídia, ocorre de modo paralelo com a propagação dos padrões de vida neoliberais. Vale lembrar que Max Weber (1864 – 1920) já associava a ética protestante aos modos de produção capitalista, o que é reforçado pelos autores aqui citados (ALVES, 1982; CUNHA, 2004; GOUVEIA, 2006; MENDONÇA, 1995, 2008; MENDONÇA & VELÁSQUES, 2002;). Em países emergentes como o Brasil, zona de influências estadunidenses, esta propagação poderia ter colaborado com a expansão do protestantismo, firmando-o como uma religião proeminente e consolidada?

Algumas igrejas, a maioria delas neopentecostais, segundo os estudiosos do assunto, transformaram-se em verdadeiros mercados da fé10, muitas delas adotaram este discurso neoliberal, que é fruto da cultura norte-americana de bases ideológicas protestantes.

As igrejas Comunidades Evangélica e da Graça, seguida pela Igreja Renascer em Cristo do casal Estevam e Sonia Hernandes, todas neopentecostais foram, segundo Magali Cunha (2004), os catalisadores em promover a troca de informações entre os ambientes de dentro e fora da igreja. Elas substituíram os cantores e conjuntos musicais evangélicos pelos ―artistas‖, outra aquisição da cultura gospel. A Igreja Renascer, desde a sua formação, desenvolveu um trabalho mais voltado para jovens e disseminou o termo e a cultura gospel, quando passou a misturar a sonoridade das canções populares com as letras de músicas evangélica. Visando sempre este público jovem, a Igreja Renascer em Cristo por volta de 1997, inaugurou uma séria de mudanças na vida evangélica que por darem certo acabaram também reproduzindo em outras igrejas protestantes, inclusive as igrejas mais conservadoras de raízes missionárias.

Em busca de formatos mais modernos no discurso teológico, a Igreja Renascer rompe com uma das maiores barreiras do protestantismo e introduz a dança na liturgia dos cultos para acompanhar os grupos musicais, como estratégia de marketing o termo dança foi substituído por coreografia, pois evangélico não dançava. Ainda investindo na propagação da música gospel, houve a criação do ministério Renascer Prise, que transformou os lançamentos de CDs em megaeventos, com participação de dança e também de expressões teatrais, que envolvem produções artísticas de custo elevado. Estas inovações tiveram grande aceitação principalmente entre as denominações pentecostais e, deste modo, a Igreja Renascer torna-se, o maior dispositivo de mudança do comportamento cristão evangélico.

No capítulo seguinte veremos como estas mudanças de imagens reverberam na mediação pela dança, seja para o dançarino evangélico ou nos mapeamentos produzidos por este corpo.

Concomitantemente com o progresso e consumo como formas de pertencimento social, outro elemento tornou-se muito relevante: o culto ao corpo. A propagação de imagens idealizadas de corpos que incluem ou excluem pessoas em determinados grupos e tribos,

10 Leia Antônio Mendonça (2008) Protestantes, Pentecostais e Ecumênicos: o campo religioso e seus personagens. Editora Metodista. São Paulo. Ver também, Magali Cunha (2007) A Explosão Gospel: um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil. Editora Mauad, LTDA.

padrões de beleza aceitos como universais e que devem ser alcançados desconsiderando as características das culturas locais. Corpos que passaram ―representar‖ escolhas e comportamentos diversificados, agora docilizados pelo marketing e pelas instâncias de poder ao ―acomodarem‖ suas formas de expressões, com as quais, principalmente os jovens, se reconhecem.

A constante adequação do corpo aos padrões estéticos globalizados se tornou sinônimo de melhoria de vida. Um corpo bem cuidado (magro, malhado, esbelto, musculoso, branco...) significa sucesso, reconhecimento, aceitação, saúde, auto-estima, entre outros adjetivos que classificam e indicam a adoção de uma gama de comportamentos necessários para manter este status social, é o que confirma uma série de estudos sobre este tema11.

A sobrevalorização do corpo ressalta uma escolha e experiência individual, ao invés de coletiva, tal qual o protestantismo calvinista. Ao contrário do que pode parecer, a contemporaneidade também trata do corpo como um meio e não como um fim em si mesmo, pois a sua ―boa‖ aparência lhe favorece o acesso às melhores condições de vida. É por isso que alguns autores, como Sennet (1979) e Courtine (1993), comparam este momento como uma forma moderna da ética protestante, conforme cita a cientista social Janet Schubert (2007) em seu artigo Corpo Metamórfico: As Transformações do Corpo no Extremo Contemporâneo:

―o culto ao corpo é uma forma moderna da ética protestante.‖ (SENNETT 1979, p. 269 – In: SCHUBERT, 2007 p.4)

―(...) uma das formas essenciais de compromissos, passado pela ética puritana, com as necessidades de consumo em massa. Aí se descobre não um desaparecimento das proibições, mas, em vez disso, uma nova distribuições de coerções‖ (COURTINE, 1993, p. 242 – In: SCHUBERT, 2007, p.4)

Consumo, comunicação, progresso e padrões estéticos corporais tornam-se valores essenciais de pertencimento e a homeostase deixa o protestantismo no Brasil flexível a todos eles. Neste contexto social, os protestantismos parecem ter conseguido romper as dificuldades iniciais dos tempos da sua chegada ao Brasil, quando mantinham padrões de educação e cultura muito distintos dos praticados nos Estados Unidos. Quando a globalização faz da

11 Para aprofundamento no assunto Ler: SCHUBERT, Janet (2007) em seu artigo Corpo Metamórfico: As Transformações do Corpo no Extremo Contemporâneo: http://www.abrapso.org.br/siteprincipal/anexos/ AnaisXIVENA/conteudo/pdf/trab_completo_281.pdf acessado em Abril de 2011. Ler também, LE BRETON, David. Adeus ao corpo: antropologia e sociedade. Tradução Marina Appenzeller. Campinas: Papirus, 2003.

cultura norte-americana o modelo ideal para que o Reino de Deus possa ser instaurado na terra, o Brasil passa a oferecer as condições para o crescimento das religiões protestantes.

Mais uma vez na história, o puritanismo parece encontrar estratégias de reprodução e sobrevivência adaptando-se a diferentes correntes ideológicas e teológicas das denominações protestantes, repetindo o que ocorreu na construção da sociedade civil americana. Porém, no Brasil, esta adaptação inclui outra forma de relacionamento entre religião e sociedade, uma vez que nos Estados Unidos, nas palavras de Mendonça (1995), o puritanismo era o produto típico entre o pensamento religioso e político.

Em tempos de sociedade tecnológica, neoliberalismo e globalização, o puritanismo no Brasil retoma o discurso da liberdade e ―libera‖ o corpo dos padrões repressivos que diferenciavam o fiel para torná-lo espelho da sociedade brasileira, aproximando-se dos seus costumes, hábitos e comportamentos. O discurso evangélico adquire literalmente outras vestimentas.

Benzer Belgeler