I. BÖLÜM: PROJE BÜTÇELER‹ • ‹dil Eser, Alper Akyüz
5. Örnek projeler üzerinden ad›m ad›m bütçe haz›rlama
A partir deste capítulo utilizaremos apenas a primeira pessoa do plural, tendo em vista que a pesquisa envolve e é desenvolvida por diferentes sujeitos e não, exclusivamente pela pesquisadora-formadora. Na introdução e no primeiro capítulo articulamos o uso da primeira pessoa do singular com a primeira pessoa do plural por fazer referência a minha história de vida de agora em diante essa opção não mais se justifica.
Este trabalho situa-se no âmbito da pesquisa (auto)biográfica, mais especificamente, em uma prática de investigação-formação e explicita as integrações teoria-prática e pesquisa-formação, apontando-as como indissociáveis. Nesse sentido, como já afirmamos anteriormente a pesquisa (auto)biográfica é uma jovem vertente da abordagem qualitativa, pois os pesquisadores também “estão interessados no modo como diferentes pessoas dão sentido às suas vidas” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 50). Delory-Momberger (2012) assim define o objeto da pesquisa (auto)biográfica:
O objeto da pesquisa biográfica é explorar os processos de gênese e de devir dos indivíduos no seio do espaço social, de mostrar como eles dão forma a suas experiências, como fazem significar as situações e os acontecimentos de sua existência. (DELORY- MOMBERGER, 2012, p. 524)
As cinco características que devem ser consideradas na pesquisa qualitativa são igualmente aquelas que podem ser observadas no caminho que escolhemos para tratar da pesquisa desenvolvida com professores para pensar a formação (em serviço).
A primeira característica é a fonte direta dos dados e o ambiente natural em que o investigador torna-se instrumento para a recolha e análise das fontes biográficas. Em nossa pesquisa, a investigadora é igualmente a formadora e conviveu com os participantes da pesquisa durante um curso de formação, aprofundando contatos mais diretos durante as trinta horas do módulo por ela ministrado, momento em que coletou os dados interagindo com os professores em formação e, com eles, construiu uma proposta de formação para professores. Pôde saber o que os participantes da pesquisa sabiam e o que necessitavam saber após o estudo com eles.
A investigação qualitativa é descritiva. Essa segunda característica, em nosso trabalho, evidencia-se pelos dispositivos utilizados para formar e investigar os dados coletados que são as narrativas (auto)biográficas e os quadros de escuta produzidos pelos participantes da pesquisa. Analisamos suas falas cuidadosamente, admitindo como os autores citados anteriormente, que “[...] tudo tem potencial para constituir uma pista que nos permita estabelecer uma compreensão mais esclarecedora do nosso objeto de estudo” (BOGDAN E BIKLEN,1994, p. 49).
A terceira característica é um maior interesse pelo processo do que pelo produto e/ou os resultados da pesquisa. Nesse sentido as perguntas norteadoras de nosso trabalho sinalizam esse nosso interesse: Como os professores em formação se relacionam com os saberes da experiência? Que procedimentos e dispositivos contribuem para a formação docente nas três dimensões da mediação biográfica (iniciática, maiêutica, hermenêutica)? Como oportunizar a autoformação e a heteroformação?
Construímos uma proposta de formação com/para professores em serviço a partir da convivência com eles durante a coleta de dados. A teoria, no caso os referenciais teóricos e metodológicos subjacentes à proposta de formação, se
concretiza sob a forma de uma prática, mediante o agrupamento dos dados particulares, que são analisados de forma indutiva.
A própria constituição do corpus evidencia o valor que atribuímos ao sentido que os participantes dão à sua vida, ao modo como vivenciam e interpretam suas experiências. Nesse sentido, consideramos o ponto de vista de quem informa e contemplamos a quinta e sua última característica – o significado é vital na abordagem qualitativa. O que se encontra no centro da pesquisa (auto)biográfica que é eminentemente interpretativa, hermenêutica.
Articulando essas características à pesquisa que desenvolvemos, podemos perceber a relação de horizontalidade entre pesquisador e pesquisado. Ao mesmo tempo em que o primeiro acompanha os processos de escrita e de escuta do outro, através do olhar atento e da escuta orientada, os professores em formação participam dos procedimentos e dos dispositivos pedagógicos escrevendo e apresentando as narrativas autobiográficas e preenchendo os quadros de escuta, tornando-se por esse trabalho de reflexão partilhada coconstrutores de sua auto(trans)formação e de seus resultados.
Pineau e Le Grand (2012) defendem a abordagem das histórias de vida como a junção dialética da reflexão teórica e o registro das práticas que, em articulação com tempos e espaços diversos, promovem a elaboração de projetos de vida e de ação. Segundo os autores, é vital que “Sob o aspecto da pesquisa [...] as teorias sejam postas em questão pelas realidades pessoais e sociais, pelos movimentos da sociedade que se tornam operantes através de atores sociais” (PINEAU; LE GRAND, 2012, p.150).
A investigação deixa de ser reducionista quando considera a pesquisa numa perspectiva interacional. Segundo Ferrarotti (2010, p. 49), que defende o uso das histórias de vida nas ciências sociais, "a especificidade do método biográfico implica a ultrapassagem do quadro lógico-formal e do modelo mecanicista que caracterizam a epistemologia científica dominante", particularmente em Sociologia. Nesse sentido, a pesquisa é formativa para quem dela participa, tanto para o formador quanto para os professores em formação, pois contempla a possibilidade de mudança das práticas, bem como dos sujeitos em formação, uma vez que “a pessoa é, simultaneamente, objeto e sujeito da formação” (NÓVOA, 2004, p. 15).
De acordo com Brockmeier e Harré (2003, p. 525), as narrativas autorreferenciais, orais ou escritas têm ocupado maior espaço nas discussões e nas
pesquisas, porque correspondem a “[...] um novo gênero de filosofia da ciência [...]”. Pois se parte da hipótese que os padrões narrativos possibilitam a organização de nossas memórias, a clarificação de nossas intenções, nos constituindo como pessoa ao nos apropriarmos de nós mesmos, nossa historicidade, o que se apresenta como um aprofundamento da abordagem qualitativa e da metodologia interpretativista. E é pela natureza da narrativa, seu caráter de flexibilidade, que o ato de narrar a própria experiência torna-se fundamental na busca da compreensão e da construção produtiva de significados, da consciência da impermanência da pessoa, da fluidez dos saberes e da maleabilidade da experiência humana em contextos diversos.
Moita (1995) considera que o método (auto)biográfico potencializa o diálogo entre o individual e o sociocultural, colocando em evidência a maneira como cada pessoa mobiliza e/ou constrói saberes em diálogo constante com os contextos (espaços/tempos). De acordo com Abrahão (2003), “a pesquisa autobiográfica [...] reconhece-se dependente da memória” e essa característica precisa ser considerada pelo pesquisador nos momentos de construção da análise.
Retomamos aqui para complementar esse sobrevoo o que afirma Passeggi (2010) acerca das investigações sobre as escritas de si. Para a autora, as pesquisas nessa área do conhecimento se desenvolvem segundo dois eixos, já consagrados. Cada um deles possibilita dois direcionamentos de investigação. O primeiro eixo considera as narrativas autobiográficas como método de investigação, que nasce com a Escola de Chicago no início do século XX, conhece um período de esquecimento quando a pesquisa quantitativa se impõe na pesquisa, dos anos 1930 a 1970, e renasce a partir dos anos 1980, com o retorno do sujeito nas ciências humanas e sociais. O segundo eixo focaliza o ato de narrar como um dispositivo de formação. Essa vertente da pesquisa (auto)biográfica, segundo Passeggi (2011) surge no início dos anos 1980, no contexto da formação permanente de adultos, em países de língua francesa (França, Canadá, Bélgica, Suíça) e chega a Portugal e ao Brasil, pelos trabalhos de António Nóvoa (Nóvoa e Finger, 2010; Nóvoa, 1992, 1995) e do GEDONGE-FEUSP-CNPq (CATANI, BUENO, SOUZA, 2001; CATANI, 2000;2001).
Cada eixo desdobra-se em dois direcionamentos de pesquisa:
1 - Com relação às fontes (auto)biográficas como método de investigação, as pesquisas se realizam sobre:
A constituição e a análise de fontes (auto) biográficas;
As tradições discursivas referentes aos diferentes modos de autobiografar.
2 - No que concerne às narrativas como dispositivo de formação, investigam- se:
Atividades autorreflexivas e suas repercussões no processo de formação e de inserção na vida profissional;
O acompanhamento das escritas de si e a formação de formadores para tal atividade.
A autora chama ainda a atenção para o fato de que as pesquisas privilegiam o estudo sobre os métodos de constituição e análise dos dados e os processos de formação e repercussões das atividades reflexivas na formação, deixando ainda um grande espaço a ser explorado: a natureza das narrativas biográficas e autobiográficas, e os processos de acompanhamento e a formação do formador.
Salienta que as pesquisas realizadas no contexto do movimento das histórias de vida em formação, como no caso de Marie-Christine Josso (2010) a quem recorremos aqui, por exemplo, se caracterizam por conjugar a pesquisa e a formação, recriando, portanto o que realiza nos dois eixos, aquele que usa as narrativas como método de pesquisa para apreender práticas humanas, como faz por exemplo Daniel Bertaux (2010) e Franco Ferrarotti (2010), e aquele que utiliza a atividade reflexiva sobre a experiência para a formação, sem no entanto preocupar- se em tomar essa atividade como um processo de pesquisa para quem se auto(trans)forma ao formar.
A nossa pesquisa se desenvolve com base nos dois direcionamentos do segundo eixo e contempla a forma de conceber esses direcionamentos na perspectiva da pesquisa-formação, já que, a investigadora-formadora propõe e analisa os procedimentos de mediação biográfica, investigando os procedimentos de acompanhamento e suas repercussões nos processos de auto(trans)formação dos professores e do pesquisador, com o objetivo de trazer contribuições para a formação do formador.