Quando o visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendonça aportou, adoentado, na cidade do Salvador da Bahia a 9 de julho de 1591,2 o padre Frutuoso Álvares, natural de Braga, em Portugal,3 um homem já velho, contando 65 anos e com barbas brancas,4 logo se
1 Neste capítulo, será problematizada a questão da sodomia em relação às hierarquias eróticas e de gênero vigentes na América portuguesa entre os séculos XVI e XVII. Todavia, como se verá ao longo do capítulo, a sodomia era um conceito marcado mais pelo seu caráter movediço e incerto que por uma definição clara. Poderia significar tanto o homoerotismo entre homens e entre mulheres, quanto a prática de sexo anal entre homem e mulher, além de vários outros atos sexuais considerados contrários à natureza. Uma vez que a discussão parte de dúvidas sobre a relação entre masculinidade e homoerotismo no contexto e sobre o par conceitual sodomita/homossexual, o texto se centra, por meio do processo instaurado contra o padre Frutuoso Álvares, vigário de Matoim, na sodomia perfeita, ficando a discussão da sodomia imperfeita e da sodomia foeminarum, respectivamente, para os capítulos 2 e 4 da dissertação.
2 Segundo Rodolpho Garcia, em sua introdução à edição impressa das Denunciações de Pernambuco na Primeira Visitação, recapitulando as informações oferecidas por Capistrano de Abreu nos volumes anteriores dedicados às confissões e às denúncias feitas na Bahia, Heitor Furtado de Mendonça, tendo sido nomeado visitador dos bispados de Cabo Verde, São Thomé e Brasil (inclusive São Vicente e o Rio de Janeiro) por comissão especial do cardeal arquiduque e inquisidor-geral D. Alberto a 26 de março de 1591, chegou a Salvador enfermo devido às atribulações da viagem pelo Atlântico. GARCIA, Roddolpho. Introdução. In: Primeira visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595. Introdução de Rodolfo Garcia. São Paulo, Paulo Padro, 1929, p.VII.
3 Dada a decisão de problematizar a sodomia apenas a partir do caso do padre Frutuoso Álvares, algumas complexidades que foram acrescidas ao fenômeno devido à colonização e ao escravismo não serão explicitadas no capítulo, notadamente os modos particulares de expressão do homoerotismo nas culturas indígenas e africanas com que se depararam os portugueses na formação de seu império ultramarino. Carlos Figari mostrou, em estudo a partir dos relatos de viagem e cartas de missionários na América portuguesa durante o século XVI, que não havia uma estigmatização ou uma repulsa, entre os povos tupi da costa do Brasil, ao homoerotismo, que, entre eles, tinha um modo funcional na sociedade. O autor destaca que alguns indígenas poderiam se gabar de suas proezas homoeróticas (como agentes na cópula), o que seria indicativo da valorização do comportamento ativo e masculino, em contraste com a passividade, vista como atributo feminino. O mesmo autor, em relação às práticas homoeróticas nas culturas africanas, salienta que elas (e a ambiguidade de gênero e sexual que implicavam) estavam ligadas à espiritualidade, à religião e à magia. A androginia, nessas culturas, estava ligada ao sagrado. Essas outras possibilidades de vivência e significação do homoerotismo no mundo colonial português, por não se apresentarem explicitamente nas aventuras do padre Frutuoso, não serão, portanto, aprofundadas neste estudo. FIGARI, Carlos. @s outr@s cariocas. Interpelações, experiências e identidades homoeróticas no Rio de Janeiro. Séculos XVII ao XX. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2007, p.26-50.
4 Ao longo deste capítulo, o estatuto erótico e de gênero da sodomia na Época Moderna será problematizado a partir da confissão feita pelo padre Frutuoso Álvares na Primeira Visitação e do processo instaurado contra ele pelo visitador Heitor Furtado de Mendonça a partir da denúncia de Jerônimo de Parada. O processo encontra-se digitalizado no site dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo em Lisboa, sendo seu índice de referência PT-
TT-TSO/IL/28/5846. Disponível em:
apresentou à Inquisição para confessar seus pecados. Apresentando um aspecto senhorial condizente com o ideal patriarcal que norteava a masculinidade, no período, enquanto gênero performativo, o padre foi o primeiro a se confessar a Heitor Furtado no período da graça concedido a Salvador. Todavia, qualquer impressão que o semblante de Frutuoso Álvares possa ter causado no visitador, provavelmente foi logo desfeita pelo teor de sua confissão.5
Em sua confissão, o padre Frutuoso Álvares narrou, ao talvez pasmo visitador, sua vida de encontros eróticos ilícitos com “muitos moços e mancebos que não conhece nem sabe os nomes”.6 Nestes encontros, o padre trocava abraços, beijos, tocamentos diversos nos sexos dos parceiros e praticava o sexo anal tanto penetrando, quanto sendo penetrado, ainda que tenha alegado, em sua primeira confissão, que jamais efetuara o pecado da sodomia penetrando.7 Seus parceiros parecem ter sido sempre jovens adolescentes de idade entre 12 e 18 anos, a quem Frutuoso Álvares atraía para a prática do nefando usando de vários subterfúgios, principalmente sua posição a princípio insuspeita de velho vigário de Matoim e amigo das famílias dos jovens.
Como vigário da paróquia de Matoim, Frutuoso Álvares estava bem inserido na comunidade, conhecendo muitas pessoas e sendo por elas conhecido – o que já lhe causara problemas, como será visto abaixo. Conhecia, por exemplo, Pero d’Aguiar, morador em sua freguesia e pai de Cristóvão de Aguiar, mancebo que tinha 18 anos, em 1591. Dois ou três anos antes, segundo relato do padre, ele e o jovem encetaram tocamentos desonestos,
.tcl&dsqDb=Catalog&dsqPos=34&dsqSearch=(((text)='frutuoso')AND((text)='alvares')). Último acesso em: 10 de outubro de 2013. A referência à barba branca do padre está na folha 13 do processo.
5 A esse respeito, o historiador Rodolpho Garcia (1873-1949), discípulo de Capistrano de Abreu, comentou que “logo a 29 [o visitador Heitor Furtado de Mendonça] ouvia a confissão do Padre Fructuoso Alvares, vigario de Matuim, (...) por mais de um motivo penosa para um convalescente de grave doença”, GARCIA, Roddolpho. Introdução, p.VII. O historiador demonstrou, nesta passagem, como o sentimento de abjeção ao homoerotismo sentido pelo visitador perpetuou-se na cultura brasileira através dos séculos, transformando-se de um horror ao pecado tão terrível que era nefando, do qual não se podia sequer falar o nome, em um ódio à figura moderna do homossexual. Para rápida biografia de Rodolpho Garcia, com índice de suas obras e seleção de textos, ver o site da Academia Brasileira de Letras, disponível em: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=350. Último acesso em: 10 de outubro de 2013. 6 Confissões da Bahia, p.47.
abraçaram-se e beijaram-se, tendo polução.8 Como padre, Frutuoso Álvares também conhecia, ainda que superficialmente, ao mercador fuão Siqueira, cujo sobrinho e criado, um moço chamado Antônio, teve seu pênis tocado pelo réu e confessante, carícia que, segundo ele, não resultara em ejaculação de nenhuma das partes.9
Sendo um homem de práticas sodomíticas notórias,10 Frutuoso Álvares mesmo assim conseguiu cultivar amizades duradouras com os pais ou senhores de seus parceiros eróticos. Tal fato põem em questão a performance de gênero encenada cotidianamente pelo réu. Teriam homens ciosos de sua virilidade – como deveriam ser os homens da América portuguesa no período – estreitado amizade, recebendo em sua casa e permitindo que seus dependentes frequentassem a casa do padre, se a apresentação pública do mesmo – se sua performatividade de gênero – não se conformasse ao ideal hegemônico de masculinidade corrente?
Tendo em vista o pesado estigma social associado ao feminino (matriz do pecado na tradição cristã), percebe-se que a identidade de gênero do padre Frutuoso Álvares, não obstante suas práticas homoeróticas, pautava-se pelos padrões culturalmente hegemônicos de masculinidade. Por sua posição de vigário da paróquia do Matoim, o padre exercia funções de patriarca espiritual da comunidade, papel reforçado por sua idade avançada e aparência física. Como tal, foi capaz de articular uma rede de sociabilidade masculina que lhe angariava
8 Confissões da Bahia, p.46. 9 Confissões da Bahia, p.46.
10 Além dos processos que sofrera ao longo de sua vida em Braga, Cabo Verde e Lisboa, o padre Frutuoso Álvares fora processado pelo ordinário do bispado da Bahia em pelo menos duas oportunidades, pelo ajuntamento carnal que mantivera com Diogo Martins (investigação que não logrou condená-lo) e por trocar tocamentos desonestos com os irmãos Antônio Álvares e Manuel Álvares – desta feita, a investigação, fundamentada em testemunhos de cinco pessoas, resultou em sua condenação com multa e suspensão das ordens por certo tempo. Segundo o relato do padre, a investigação mais recente fora realizada na visitação feita pelo provisor do bispo no ano de 1590, um antes da chegada da Inquisição à Bahia. Esse episódio é ilustrativo dos conflitos jurisdicionais, nos quais estava em jogo a expansão inquisitorial no campo religioso português, travados pela Inquisição e pelos bispos nas primeiras décadas após a instalação do Santo Ofício em Portugal, em que os inquisidores procuraram estabelecer alguns delitos, entre os quais a sodomia, sob sua jurisdição privativa fosse pela tradição ou pela lei. O processo de expansão da Inquisição portuguesa em relação ao crime da sodomia será detalhado mais a frente. Confissões da Bahia, p.48, 50-51; PAIVA, José Pedro. Baluartes da fé e da disciplina. O enlace entre a Inquisição e os bispos em Portugal (1536-1750). Coimbra, Portugal: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011.
vantagens explícitas – como usar da hospitalidade dos amigos homens – e implícitas – ganhar a confiança de adolescentes e atraí-los para os prazeres nefandos.
Se os prazeres carnais com rapazes não parecem informar a composição da identidade de gênero do padre Frutuoso, que lugar ocupavam tais práticas em sua visão de mundo? Nas suas palavras – conforme traduzidas pelo notário a mando do visitador: “(...) sabia muito bem quão grandes pecados sejam estes que tem cometido, e deles está muito arrependido e pede perdão”.11 Suas experiências eróticas com jovens, o padre Frutuoso Álvares as traduzia como ações pecaminosas, as quais, devido à fraqueza da Carne, ele não deixou de cometer a despeito das sucessivas sanções sofridas ao longo da vida.
As experiências do padre Frutuoso Álvares e o discurso montado pelo Tribunal do Santo Ofício a partir delas sugerem uma reflexão sobre as maneiras pelas quais se articulavam comportamentos eróticos desviantes e identidades de gênero na Época Moderna.
Propor questões dentro desta problemática é o objetivo deste capítulo, usando como pivô as (des)venturas do padre Frutuoso Álvares perante o Santo Ofício. Assim, o estatuto de gênero e sexualidade da sodomia no mundo português entre os séculos XVI e XVII será problematizado segundo os conceitos de performatividade de gênero, de J. Butler, e de masculinidades, de R. Connel,12 que permitem o deslocamento do binarismo de gênero e da heterossexualidade compulsória,13 abrindo espaço para a percepção de vivências eróticas que
11
Confissões da Bahia, p.49.
12 Para a explanação desses conceitos, ver o capítulo 1 Masculinidades, performatividade de gênero e Inquisição dessa dissertação.
13 Monique Witting, nos marcos do feminismo materialista francês, desenvolveu o conceito da heterossexualidade compulsória para descrever a ação normalizadora exercida pelo conjunto de ciências e disciplinas (entre elas o campo das humanidades, em que se localiza a História) que formam o chamado Pensamento Heterossexual. Este conjunto de saberes científicos, na descrição da autora, é conformado por conceitos primitivos que instauram e mascaram a dominação de grupos sociais (as mulheres, as lésbicas, os gays e certos grupos de homens, por exemplo, os negros ou indígenas) a partir da construção dialética do Outro/diferente. Desse modo, ser homem e ser mulher são categorias cujos sentidos somente existem dentro do sistema totalizador do Pensamento Heterossexual – instaurador da heterossexualidade compulsória. Formas de relações de gênero e sexuais desviantes da ordem patriarcal não podem ser pensadas segundo os termos do Pensamento Heterossexual, exigem, portanto, um esforço de deslocamento e ruptura dos signos deste
não se conformavam ao ordenamento direto e linear de sexo, gênero e desejo – tal como parece terem sido aquelas do padre Frutuoso.
É importante frisar desde já que, diante do volume da documentação existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo sobre a sodomia (notadamente os Cadernos do Nefando, mas também uma vasta diversidade de processos, denúncias, regimentos e outras formas de documentação), que em grande parte não se enquadra diretamente no recorte deste texto (que foca as visitações do Santo Ofício à América portuguesa, entre 1590 e 1620), este capítulo não pretende oferecer respostas definitivas (é isto possível em História?) acerca de como a sodomia era significada e experimentada pelos diversos atores e instituições sociais. O que se pretende é seguir o debate sobre como a sodomia se articulava a identidades de gênero e de erotismo das pessoas. Trocando em miúdos, a pergunta central é simples, era o sodomita homossexual?