A defesa da superioridade, ou da igualdade, do estado, ou da vida dos casados em relação ao dos religiosos, assim como o crime de bigamia, teve forte adesão popular na América portuguesa, como se pode constatar a partir das fontes produzidas pelas visitações do Santo Ofício. Dado o recorte das fontes consultadas, os visitadores encontraram 16 homens e uma mulher que, avaliando tanto suas vidas, quanto os descaminhos do clero, concluíram que suas vidas ordinárias tinham valor igual ou superior às dos padres e frades em suas igrejas, mosteiros e colégios.
Ronaldo Vainfas entende que a defesa do estado dos casados era resultante do amálgama do tradicional apreço, existente na Península Ibérica, ao casamento com os elementos da pastoral tridentina que valorizavam o matrimônio como sacramento de fé e com os questionamentos quanto à sacralidade do estado clerical, alimentados pela convivência diária com sacerdotes que divergiam flagrantemente dos ensinamentos dos Evangelhos.111 As circunstâncias em que os homens costumavam proferir essa herética afirmação apontam para um clima de irreverência, galhofa e de vanglórias masculinas – bastante distantes das agremiações heréticas imaginadas pela Inquisição.
Das 17 ocorrências desse crime de potencial herético recolhidas pela pesquisa, 16 mostram como o debate sobre o valor dos estados era um assunto que, por um motivo ou por outro, sempre entrava em discussão quando se reuniam parentes, amigos, vizinhos, trabalhadores do mesmo engenho ou mesmo conhecidos circunstanciais. Exceto por Manuel Antônio, torneiro, cristão-novo, cuja confissão a Heitor Furtado de Mendonça, em 1º de
fevereiro de 1592, não dá detalhes das ocasiões em que proferiu a afirmação,112 todas as outras referem-se a alguma forma de reunião de homens.
Como nas discussões sobre a validade da fornicação simples, a defesa da superioridade do estado dos casados sobre o dos religiosos parece ter sido uma discussão que importou sobretudo aos homens. Contudo, houve ao menos uma mulher que defendeu a mesma ideia. Ignez de Brito, moradora na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, da Várzea do Capibaribe, em Pernambuco, também afirmou que a ordem dos casados era melhor do que a dos religiosos, desafiando irreverentemente o frei Joam de Xeixas, frade de Nossa Senhora do Carmo, ao fazê-lo. O frei era um dos muitos convivas presentes em um jantar oferecido na casa do marido da denunciada, chamado Vicente Correa, ocasião em que estiveram presentes várias outras pessoas. Uma delas, seu hóspede, chamado Ignacio do Rego Cogominho, vianês, cristão-velho, de 31 anos, procurou relativizar o dito de Ignez de Brito, alegando ao visitador que ela o fizera galanteando e rindo para o frade e que, após ser repreendida por ele denunciante e pelo frade, se calou.113
Para muitos, essa crença não era mais que uma opinião comum partilhada por muitos homens. Vários deles, inclusive, não sabiam que ela era sujeita à investigação inquisitorial até que foi publicado o Édito da Fé em suas localidades de residência ou ao serem advertidos por membros do clero, notadamente por seus confessores. O carpinteiro cristão-velho Francisco Pires confessou, na Bahia, a 10 de fevereiro de 1592, que, ao longo dos anos, ouvira esta mesma afirmação da boca de diferentes homens;114 o lavrador, cristão-velho, Pedro Álvares Aranha, afirmou não saber que o dito (a respeito do qual praticava com seus amigos) era herético até ler o Édito da Fé e o Monitório Geral, publicados na freguesia de Paripe,115
112 Confissões da Bahia, p.280-281.
113 Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.52.
114 Confissões da Bahia, p.334-345. 115 Confissões da Bahia, p.342-343.
mesma justificativa apresentada pelo mercador, cristão-velho, Antonio Vaz da Costa, ao visitador Marcos Teixeira, na Bahia, a 14 de abril de 1618.116 Bastião Pires Abrigueira, carreiro de certa proeminência por possuir bois e carros próprios, dos quais vivia, foi denunciado por três amigos em Olinda (Domingos Madeira, clérigo de missa, Domingos de Sequeira e Antonio de Andrade Caminha, senhor de engenho) e, ao ser por eles repreendido, argumentou, talvez com medo nos olhos, ao ser ameaçado com a Santa Inquisição, que “(...) quando fora casado vivera bem e quieto”,117 que “(...) estivera seis ou sete anos casado e (...) que era tão bom o estado do casado como o do religioso”,118 e que nos “(...) seis ou sete anos que estivera casado lhe fizera Deos com sua molher muitas mercês e que despois de enveuvar sempre tivera trabalhos”.119
Como apontou Vainfas, as justificativas para a crença de que ser casado era tão bom ou melhor quanto ser clérigo poderiam também ser pautadas por fragmentos de discursos teológicos (originários da cultura letrada) ou por críticas ao modo de vida mundano dos membros da Igreja. Fabião Lopes e Manoel Garro narraram ao visitador Heitor Furtado de Mendonça uma animada reunião acontecida em Porto Calvo, Pernambuco, em que Manoel da Costa Calleiros, cristão-velho e senhor de meio engenho, e Pero Lopes, lavrador cristão- velho, e Francisco Mendes, mercador, cristão-novo, discutiam aos gritos sobre a superioridade do estado dos casados. Eles argumentavam que ele fora o primeiro a ser criado por Deus, no que foram contraditos por Fabião Lopes, para quem a superioridade dos religiosos estava em
116 Segunda Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil pelo inquisidor e visitador o licenciado Marcos Teixeira. Livro das Confissões e Ratificações da Bahia – 1618-1620. Introdução de Eduardo d’Oliveira França e Sônia Siqueira. Anais do Museu Paulista, tomo XVII, p.408-410.
117 Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.341.
118Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.342.
119Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.347.
serem eles continentes, diferentemente dos casados.120 Fabião Lopes ecoava o ensinamento de São Paulo aos coríntios de que ainda que fosse melhor que o homem não tocasse mulher alguma, para que a luxúria fosse evitada, deveria cada homem ter sua mulher e cada mulher seu marido.121 Por outro lado, Francisco Lopes da Rosa, cristão-novo, mameluco, tabelião da cidade de Phelipeia de Nossa Senhora das Neves, na Paraíba, por estar em desagravo com os frades capuchos que evangelizavam os indígenas na capitania (que o repreenderam por viver amancebado como uma índia pagã), dissera que era tão bom cristão quanto os frades capuchos e que o seu estado era tão bom quanto o deles.122
Ao defenderem o valor do estado dos casados, estes homens (e esta mulher), mesclando elementos de suas vidas cotidianas, pedaços de doutrina e críticas aos clérigos, legitimavam, ao mesmo tempo, um estatuto central para suas identidades de gênero masculinas. Tais defesas eram também enunciados que performatizavam a masculinidade, materializando-a ao serem proferidos na forma de homens ávidos por provarem uma masculinidade exacerbada, que nunca poderia ser definitivamente incorporada.123
Ao viverem sob a ordem escravista e colonial, que necessariamente os distanciava do ideal ascético de vida propagandeado pela Igreja tridentina, esses homens, submetidos ao
120Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.176-177; 268-271.
121Bíblia Sagrada. Novo Testamento. 1ª Epístola de São Paulo aos coríntios. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1967. (Barsa), p.147.
122 Primeira Visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil pelo Licenciado Heitor Furtado de Mendonça – Denunciações de Pernambuco – 1593-1595, p.411-412.
123 Diz-se aqui que a masculinidade, vivenciada, performativamente, de modo exacerbado pelos homens da América portuguesa, nunca seria definitivamente incorporada no sentido de que, conforme explica Butler, não havendo uma identidade original ou primária do gênero (no caso, da masculinidade), esse se estrutura sempre a partir da imitação (citação) e da contingência. Segundo a filósofa, “(...) reconhecimento da contingência radical da relação entre sexo e gênero diante das configurações culturais de unidades causais que normalmente são supostas naturais e necessárias”. É nesse sentido que Butler apresenta a paródia como um meio para a subversão da ordem de gênero, uma vez que, sem presumir a existência de uma identidade original, a paródia revela que a suposta identidade original a qual molda-se o gênero é ela mesma uma imitação sem origem. Para a filósofa, “(...) a identidade de gênero pode ser reconcebida como uma história pessoal/cultural de significados recebidos, sujeitos a um conjunto de práticas imitativas que se referem lateralmente a outras imitações e que, em conjunto, constroem a ilusão de um eu de gênero primário e interno marcado pelo gênero, ou parodiam o mecanismo dessa construção”. Não havendo uma identidade original e natural, não há também um modelo essencial de masculinidade ou de feminilidade a ser buscado e incorporado, de modo que a imitação é sem origem e sem fim. BUTLER, J. Problemas de gênero, p.196-197.
olhar escrutinador do Santo Ofício, enfrentavam diariamente o desafio de ser homens perante poderes que, aos seus olhos, os queriam menos homens. Ou homens de uma espécie diferente, que fossem capazes de disciplinar sua carne para superá-la na vida que, acreditavam, viria após a morte. Para os homens que enfrentavam os rigores da vida na América Portuguesa, entre fins do século XVI e início do XVII, este retirar-se do mundo não só não condizia com seu modo de experimentar seu sexo e seu gênero, como não se coadunava com o ambiente dos sertões, das viagens marítimas, da faina diária nos engenhos, nas cidades e nos pequenos povoados onde se desenrolavam suas vidas. Suas masculinidades pareciam escorrer de seus corpos, como o suor do trabalho ou das cópulas com as negras da terra, exacerbando a sensação de que a América portuguesa só poderia ser colonizada por homens rudes e viris. Uma virilidade agressiva que se performatizava na relação com as mulheres, sempre objetificadas, fossem solteiras degradadas, ou esposas e filhas, e com outros homens, aos gritos e palavrões, que pontuavam o constante relatar de proezas eróticas reais ou imaginárias. A virilidade masculina tão mais agressiva e excessiva deveria parecer, quanto mais difícil fosse a garantia de sua posse. Longe de ser um dado da natureza (embora fosse assim percebida por eles, fruto da criação divina), a masculinidade, para se fazer performativamente, exigia provas constantes e estratégicas de sua afirmação. Esta necessidade parece ter norteado as variadas situações de sociabilidade masculina flagradas nos documentos analisados neste capítulo, tornando-as situações próprias à expressão de algum sentimento, interpretado como herético pela Inquisição, como a apologia da fornicação ou a defesa da superioridade da vida de casado sobre a de religioso. Mesmo sentindo a culpa por tais pecados – inculcada pela Igreja por meio da Pastoral da Carne – estes homens não se eximiam diante de oportunidades de provarem, sempre e uma vez mais frente à sociedade em que viviam, sua masculinidade, ainda que essa virilidade tão excessiva os conduzisse ao terror do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Se, por um lado, o processo inquisitorial poderia lhes obliterar a honra,
estigmatizando-os como desviantes da doutrina cristã, os termos pelos quais sofressem tal infâmia poderiam ser um argumento cabal da sua condição de macho. Se para o Tribunal do Santo Ofício, tais comportamentos configuravam um possível herege, frente à inquisição popular, a afirmação da sua virilidade tornava público um homem como este deveria ser e se comportar nessa sociedade.
CAPÍTULO III
SODOMIA E MASCULINIDADE: O CASO DO PADRE FRUTUOSO ÁLVARES1