“... a prisão (...) deve ser recolocada aí: no ponto em que se faz a torção do
poder codificado de punir, em um poder disciplinar de vigiar; no ponto que os castigos universais das leis vêm aplicar-se seletivamente a certos
indivíduos e sempre aos mesmos; no ponto em que a requalificação do sujeito de direito pela pena se torna treinamento útil do criminoso; no ponto em que o direito se inverte e passa para fora de si mesmo, e em que o
contradireito se torna o conteúdo efetivo e institucionalizado das formas jurídicas”.
(Foucault, 2002, p.184)
Em Vigiar e Punir (2002), Foucault retratará as condições econômicas e sociais que
permitiram e acompanharam mudanças na arte de governar, com o surgimento de uma nova racionalidade política e de um novo tipo de poder a partir do séc. XVII. Com o fim do Antigo Regime e o desenvolvimento da economia mercantil (e mais tarde do capitalismo industrial),
100 houve um deslocamento e uma descentralização do poder absoluto do soberano para os
mecanismos disciplinares.
O surgimento do poder disciplinar trouxe mudanças tanto no objeto e na forma de exercício do poder, quanto na própria forma de punição. O controle que até então era exercido pelo soberano sobre seu território passa a ser anônimo e ter como objeto a vida das pessoas, e a punição que era feita principalmente na forma de suplícios é substituída pela pena de prisão. O corpo suplicado e castigado dá lugar ao corpo corrigido.
Apesar das instituições disciplinares já existirem anteriormente, foi na modernidade que a disciplina se fixou como forma social do poder. Segundo Foucault (2002, p. 118), apenas no decorrer dos sécs. XVII e XVIII é que as disciplinas se tornaram formas gerais de dominação, expandindo sua ação para além das instituições de confinamento.
A soberania, caracterizada pela figura do soberano e por relações de dominação, foi a forma de poder que prevaleceu desde a Idade Média até o séc. XVI. O poder soberano era
descontínuo e lacunar, tinha por objeto o território, não o individuo: não estava preocupado com a forma que a população vivia, mas apenas com o sucesso no exercício do confisco e do controle territorial.
Nesse momento, a prisão ainda não era a pena por excelência, os suplícios prevaleciam
enquanto punição exemplar: agindo sobre o corpo dos súditos, impingindo-lhes um sofrimento calculado e público, com o intuito de exaltar o poder do monarca, reafirmando sua soberania sobre aqueles que se mostram inimigos do rei.
Porém, a violência impingida pelos suplícios, ainda que bruta e descomunal, não carecia de racionalidade. Ao contrário, é milimetricamente calculada, medida quantitativa e
qualitativamente, proporcional ao mal cometido e organizada de forma ritualística, com o fim de assegurar a perpetuação do poder soberano sobre o indivíduo. A exemplaridade da punição, seu detalhamento, assim como sua inscrição no corpo, podem ser facilmente reconhecidos na descrição do mecanismo do rastelo no conto Na Colônia Penal de Franz Kafka:
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“- Nossa sentença não soa severa. O mandamento que o condenado infringiu é escrito no seu corpo com o rastelo. No corpo deste condenado, por exemplo – o oficial apontou para o homem- será gravado: Honra o teu superior!”
(Kafka,1996, p.13)
Contudo, com o fim do Antigo Regime, os suplícios darão lugar à prisão, elevando-a enquanto pena por excelência, enquanto uma forma racional e pura de punir, supostamente não-violenta, e por isso, compatível com os preceitos do Estado Moderno. As tintas fortes usadas pelo poder soberano e a centralização do poder na figura do monarca vão sendo substituídas pelas disciplinas, cujo exercício é anônimo e discreto, não situável em um espaço ou identificável com uma pessoa.
As mudanças sociais e o desenvolvimento econômico a partir do séc. XVII tiveram grande impacto na determinação dos bens jurídicos merecedores de tutela penal, assim como na forma de se pensar a punição. Com o surgimento de um novo tipo de riqueza (concentrada agora nas mercadorias estocadas nos armazéns e na maquinaria) o sistema punitivo passa a coibir outros tipos de conduta; e com o desenvolvimento de um novo tipo de economia, a punição na forma da prisão constituirá o principal meio de reforma das individualidades, adequando os
indivíduos aos padrões de normalidade, adestrando-os para a ética do trabalho e empregando sua força produtiva para atender a demanda crescente de mão-de-obra.
A modernidade inaugura um novo tipo de poder, produtivo, que se exerce sobre a vida, governando as forças do corpo e dirigindo-as para determinados fins. Segundo Foucault esse poder sobre a vida - por isso denominado biopoder - desenvolveu-se sobre duas unidades distintas: primeiro em relação ao indivíduo, investindo sobre seu corpo; depois atingindo a população, enquanto corpo-espécie, com o controle dos processos da vida, da morte e das mudanças.
A partir do século XVII, consolidam-se os mecanismos disciplinares para extrair utilidade e docilidade dos corpos dos indivíduos, através da anatomia-política de seus corpos. O segundo pólo de atuação desse poder se desenvolve a partir da segunda metade do séc. XVIII, e centra-
102 se no corpo-espécie, na população, regulando a natalidade, mortalidade, migração, habitação, configurando uma bio-política da população.
O poder soberano – diferentemente do poder disciplinar- não tinha por objeto a regulação das práticas cotidianas (Moura, 2007, p. 24). Um dos privilégios da soberania, o direito sobre a vida e a morte - o soberano fazia morrer ou deixava viver - foi substituído por um poder de
causar à vida ou devolver à morte. Nas palavras de Foucault:
“A velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente, recoberta pela administração dos corpos pela gestão
calculista da vida”
(Foucault, 2005, p.131)
A disciplina como maneira de gerir a vida é colocada por Foucault na História da
sexualidade, v. I, no capítulo intitulado Direito de morte e poder sobre a vida, como parte da
tecnologia do biopoder. Este veio substituir o poder do soberano de causar a morte, por um poder de controle do corpo e da população, que tem como função produzir vida:
“As disciplinas do corpo e as regulações da população constituem os dois pólos em torno dos quais se desenvolveu a organização do poder sobre a vida. A instalação durante a época clássica, desta grande tecnologia - (...) - caracteriza um poder cuja função mais elevada já não é mais matar, mas investir sobre a vida”.
(Foucault, 2005, p.131)
O desenvolvimento do biopoder acompanhou-se da valorização da normatividade e do controle ininterrupto visando a normalização.
103 “um poder que tem a tarefa de se encarregar da vida terá necessidade de
mecanismos contínuos, reguladores e corretivos.(...) um poder dessa natureza tem que qualificar, medir, avaliar, hierarquizar, mais do que se manifestar e seu fausto mortífero ”
(Foucault, 2005, p.135).
Enquanto as relações de soberania estariam mais ligadas ao âmbito da lei (sistemas jurídicos da soberania), o poder disciplinar se consolida no campo da norma, da regra normalizadora, que não se confunde com a lei, apesar de os preceitos jurídicos funcionarem como formas de tornar aceitável o exercício desse poder normalizador, legitimando os procedimentos de normalização:
“(...) o que não quer dizer que exista de um lado, um sistema de direito, sábio e explícito - o da soberania - e de outro, as disciplinas obscuras silenciosamente trabalhando em profundidade, constituindo o subsolo da grande mecânica de poder. Na realidade as disciplinas têm um discurso.”
(Foucault, 2004, p. 189)
Além do poder disciplinar se respaldar no saber jurídico para a legitimação de seu exercício, ele mesmo constitui seu próprio discurso. Este não se encontra circunscrito no direito, mas se apóia no saber clínico o qual fixa os padrões de normalidade a partir da construção da figura do anormal. Apesar de sustentarem enunciados distintos, o saber disciplinar e o saber jurídico inserem-se no mesmo fluxo de poder, funcionando em relação de complementaridade
(Foucault, 2004, p. 189).
O encontro dessas duas esferas, com a sobreposição da norma na lei, não anuncia o fim do aparato legal ou das instituições de justiça, mas, ao contrário, denuncia justamente a co- existência harmônica desses dois campos, a integração das leis aos contínuos aparelhos que envolvem questões reguladoras (Foucault, 2005, p.135). A estrutura jurídica, enquanto reguladora dos processos mais gerais, são interpenetradas pela capilaridade e particularidade
104 do poder disciplinar, conformando assim o direito à norma. O saber da norma passa também a
colonizar o campo da lei, formando um direito normalizado-normalizador.
O funcionamento mais perigoso do controle penal acontece à margem da legalidade, nas outras instituições da justiça criminal além do judiciário, tal como a polícia e a prisão. A execução da pena de prisão não se restringe tão somente à conseqüência da violação da lei penal, ela se constitui em uma realidade autônoma cujo alcance vai além da punição pela infração, agindo sobre o indivíduo com o objetivo de normalizá-lo:“na justiça penal a prisão
transformava o processo punitivo em técnica penitenciária” (Foucault, 2002, p.247).
O alvo da punição deixa de ser o infrator (objeto da lei) e passa a ser o delinqüente
(construção da disciplina). A transformação do infrator em delinqüente se dá a partir da ação de um poder que produz saberes e discursos de verdade. A biografia do delinqüente está a todo tempo construída e sua vida se constitui objeto de exame, a qual se deve “conhecer para
controlar”.
A prisão situa-se no encontro da ordem jurídico-legal e da ordem institucional-disciplinar. Não há detenção senão jurídica, e não há sistema jurídico na modernidade que não esteja relacionado aos mecanismos de normalização. O papel jurídico da soberania na decretação da privação de liberdade acoberta a verdadeira razão da punição moderna: a constituição de indivíduos presos em certas subjetividades, docilizados, obedientes e úteis.
A prisão enquanto sistema disciplinar tem um mecanismo penal próprio, que abrange prescrições de comportamento e sanções para o seu descumprimento. A micropenalidade funciona na instituição disciplinar a partir de três instrumentos principais: do olhar hierárquico, da sanção normalizadora e do exame.
Foucault denominará os chefes e subchefes da Escola de Mettray (que para o filosofo é o marco da formação do sistema carcerário): “técnicos do comportamento: engenheiros da
conduta, ortopedistas da individualidade” que exercem um “adestramento que é
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cotidiano dos colonos; é um saber organizado como instrumento de apreciação perpétua”
(Foucault, 2002, p. 244).
Como bem afirmou Foucault no texto Soberania e Disciplina, o direito da soberania e mecanismos disciplinares são partes intrinsecamente constitutivas dos mecanismos gerais de poder em nossa sociedade:
‘Nas sociedades modernas, os poderes se exercem através e a partir do próprio
jogo da heterogeneidade entre um direito público da soberania e o mecanismo polimorfo da disciplina”
(Foucault, 2004, p. 189)
Para ele, o erro está em querer limitar a discricionariedade e a violência calada do poder disciplinar a partir do revigoramento daquele poder soberano, na ilusão de que o exercício do poder legal possa ser igualitário, democrático e libertador, de que os homens e as instituições possam ser apreendidos e controlados justamente pelo direito.
“Creio, porém, que chegamos a uma espécie de beco sem saída: não é recorrendo à soberania contra a disciplina que os efeitos do poder disciplinar serão limitados, (...). Na luta contra o poder disciplinar, não é em direção do velho direito da soberania que se deve marchar, mas na direção de um novo direito antidisciplinar e, ao mesmo tempo, liberado do princípio da soberania”
(Foucault, 2004, p. 190).
106 CAPÍTULO 5