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Um dia após chegar à Cidade de Goiás, apesar do presumível cansaço da viagem, tomou posse Cunha Mattos de seu cargo no palácio do Conde dos Arcos, "em presença do presidente da província, Coronel Álvaro José Xavier" e dos demais membros da Junta. Com a mão sobre os evangelhos, fez o tradicional juramento, "prometendo defender S.M. o Imperador, o rico e vasto Império do Brasil, a Constituição Brasileira (que ainda não existia) e a província de Goiás."14 Tudo foi feito com muita pompa e circunstância, o que o deixou desconfiado com pegajoso excesso de gentilezas.

A partir de então, passou a se dedicar à tarefa de disciplinar e organizar as tropas acantonadas na Cidade de Goiás. Desde do início desta incumbência Cunha Mattos se mostrou entre desgostos e assustado com a precariedade do treinamento dos soldados, o despreparo dos oficiais, a insuficiência das munições, a desorganização das tropas e a indisciplina endêmica. Tudo era devidamente notificado à Secretária de Estado dos Negócios da Guerra: "escrevendo [ao ministro] Vieira de Carvalho afirmava Cunha Mattos que os

12 Idem. 13 Idem. 14

regimentos de milícia da província ou pelo menos as companhias da Cidade [de Goiás], eram puramente fictícios."15

Isso era uma razão militar. Mas conquanto fosse essa a sua missão, não pôde Cunha Mattos ficar alheio à dinâmica da vida política e social da velha capital goiana. A burocracia local, em particular, começava a despertar a sua desconfiança. Parecia por ora inepta, por ora indolente e freqüentemente corrupta. Mas decerto esses eram apenas presságios iniciais. Ele apenas principiara os estudos dos arquivos existentes nos quartéis e na junta da fazenda. Porém, a tensão latente não demorou não demorou a tornar-se manifesta. O episódio aparentemente banal da noite de 29 de junho a evidenciava em todas as suas cores.

Nessa data, Cunha Mattos desejando averiguar a prontidão dos soldados ordenara o toque de corneta em plena madrugada. O tema escolhido para o exercício sigiloso foi era generala, "rebate militar em voga no Império e de conhecimento obrigatório a todo soldado."16 Apenas a Junta havia sido avisada do exercício. O desfecho do exercício se mostrou

.uma calamidade e uma desilusão para o governador das armas. Somente alguns oficiais inferiores e poucos soldados se apresentaram em seus quartéis. Os oficiais superiores, especialmente os comandantes dos corpos, primavam pela ausência a capital da província, falando-se dos milicianos, estava repleta deles que timbravam em ostentar seus marciais fardões nos festejos de gala, e tão somente. Mas não conheciam a generala. Escrevendo a Viera de Carvalho afirmava Cunha Mattos que os regimentos de milícia da província ou pelo menos as companhias da cidade, eram puramente fictícios.17

Parte dessa descrição elaborada por Americano do Brasil destoa sensivelmente de uma versão fornecida por Cunha Mattos. Aos membros da Junta ele alegara em ofício que por ocasião do toque da generala se "apresentaram em Parada todos, ou quase todos os militares da Cidade."18

Menos controversa é a certeza referente ao imenso frenesi causado pelo boato então fundido na velha capital. Por algum motivo obscuro, após o toque da generala, alastrou-se por entre os lábios e ouvidos dos habitantes da Cidade a 15 Idem, pg. 144. 16 Idem, pg. 144. 17 Idem. 18

aleivosa notícia de o que Governador das Armas pretendia depor a Junta e instituir um novo governo, presumivelmente por ele próprio chefiado.

Alguns dias depois, Cunha Mattos achou por bem dirigir um ofício à Junta, no intuito de dirimir qualquer dúvida causada pelo estranho e pitoresco episódio. Nele, Cunha Mattos explicitava que "que julgando [...] mui conveniente ao serviço do Império conhecer se as Tropas das Três Linhas dessa cidade se acham animadas de espírito e de desejo de defender sua pátria em cazo de necessidade depois de haver mandodo participar a Vossas Excelências as intenções pelo sargento Francisco de Alexandria e pelo secretário militar fiz tocar a generala em 29 do mês corrente (...).19

A esse intróito formal, se segue a triste observação de Cunha Mattos, no qual se vislumbra o quanto o desagradável episódio foi capaz de melindrar a suscetibilidade do jovem' coronel:

Devo porém significar a Vossas Excelências que meu coração tem sido agitado pela mais pungente dor [...]. Magou-me com efeito esta absurda novella espalhada talvez com fins sinistros, pois que só gente cega pode desconhecer as atenções e respeito com que sempre tenho tratado Vossas Excelências[...] Portanto vou significar [...] que eu na qualidade de homem de honra e de Cavaleiro exporia e exporei a minha vida para para defender a vida, a Honra, a Autoridade, a Jurisdição e as Preminências de Vossas Excelências até a última extremidade.20

Ao término do ofício, Cunha Mattos se permite lançar mão de uma profissão de fé sobre as responsabilidades e os deveres que lhe impunham o cargo, expondo numa espécie de arroubo à Junta a suas as suas obrigações cívicas e morais:

[podeis ter certeza] de que nesta província há um Governador das Armas que não teme a morte e que preza ser honrado, e que se aparecerem traidores ou malévolos que conspirem contra a autoridade e Pessoas e Governo de Vossas Excelências, Representantes da Augusta pessoa de Sua magestade Imperial achariam no fio da minha espada e na baioneta dos smeus soldados uma certa e prematura morte.21

Nas páginas do Itinerário, o episódio serviu de pretexto e razão para que o coronel expusesse, em uma espécie antropologia de senso-comum, o caráter 19 Idem. 20 Idem. 21 Idem.

inconstante dos habitantes da Cidade de Goiás, afirmando que sua estada no município lhe permitira entrar no conhecimento:

"[...] do espírito do povo[, que segundo suas palavras era] (...) benigno, agasalhador e hospitaleiro, mas um pouco inconstante, (...) [servindo] de brinco de alguns ambiciosos que tem manha e guito de o enganar. Eis o motivo porque sem nenhum proveiro tem particado vários acçções nos negócios políticos que alterão a marcha da administração: pequenas intrigas com ninharias tem lançado a discordia entre varias familias. Conheco que defeito procede do tempo, e não dos homens; e sei que os superiores quizessem deixar de ouvir intrigas, o povo de Goiaz pode viver como uma única familia na mais íntima sociedade.22

Semelhante dissertação, porém, não é capaz de definir e explicar as origens do boato e menos ainda a razão que possibilitou a sua rápida difusão. Afinal de contas, as palavras de Cunha Mattos, sejam nos ofícios, seja no Itinerário, esclarecem pouco sobre a origem e o desenvolvimento de todo acontecimentos posterior ao toque da generala. Desconfio, porém, (ao contrário do que refletiu Cunha Mattos) que o episódio decorrente dos acordes da noite de 29 de junho tinha menos um significado antropológico ou sociológico do que histórico e político. Basta meditar sobre os antecedentes dos últimos três anos, na qual registram as crônicas uma série de ameaças e pretensões de golpes e contragolpes, desde a agitação de padre Marques, passando pela ameaça de uma conflagração civil no norte até a tentativa de golpe liderada pelo ouvidor Galvão e o contragolpe decisivo da Junta; e isso sem mencionar o discreto pustch que obrigou à renúncia o Capitão-General Inácio Sampaio. Portanto, é mais do que provável de que no inconsciente coletivo dos habitantes da velha Cidade estivesse latente a eterna expectativa de uma ruptura política. Decerto, a mobilização das tropas nas altas horas da noite, ordenada por um forasteiro de aparência altiva e já descontente com a ação administrativa das autoridades, não poderia deixava de parecer aos ingênuos e alarmados cidadãos da capital goiana (visto o longo retrospecto golpista) a óbvia senha para a deposição da Junta.

Benzer Belgeler