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A leitura dos textos jurídicos referentes ao índio leva a considerar as relações entre diferentes formulações do discurso indigenista, uma vez que se registram nos textos jurídicos visões de mundo diferentes e antagonistas, concebidas dentro do campo jurídico e que, por sua vez, expressam confrontações do campo político (FAULHABER, 2003).

O século XIX foi palco da discussão da política indigenista, pois nos três séculos anteriores ela oscilava entre três interesses básicos, o dos moradores, o da Coroa e o dos jesuítas. Os grupos indígenas, sem qualquer representação real em nível algum, só se manifestavam por hostilidades, rebeliões e eventuais petições ao Imperador ou processos na Justiça (CARNEIRO DA CUNHA, 2009).

A legislação indigenista do século IX é flutuante, pontual e subsidiária de uma política de terras.

A Carta Régia de D. João VI, em 02 de dezembro de 1808, havia declarado devolutas as terras conquistadas aos índios, mesmo sendo direitos originários. Conforme pesquisa de Manuela Carneiro da Cunha (2009, p.138-145), entre 1808 e 1819 era favorecido o estabelecimento de milicianos, fazendeiros e moradores pobres em áreas indígenas, supondo-se que eles instruiriam os índios no trabalho

agrícola, nos ofícios mecânicos e na religião católica. Em 1819 houve o reconhecimento expresso da primazia dos índios sobre seus territórios, já que teriam a preferência nas terras “em que estão arranchados” (26 de março de 1819, 08 de julho de 1819). Em Decisão de 20 de fevereiro de 1823 José Bonifácio recomendava que se dessem terras aos soldados que serviam nos estabelecimentos militares (denominados presídios) destinados à atração e pacificação dos índios do Espírito Santo. Em 18 de junho de 1833 foram dados estímulos oficiais a povoamentos indiscriminados do Rio Arinos, na rota entre o Pará e o Mato Grosso. Ainda em 1833, o produto dos arrendamentos das aldeias indígenas destinava-se ao “sustento, vestuário e curativo dos índios mais pobres e à educação de seus filhos” (18 de outubro de 1833).

Em 24 de julho de 1845 o ‘Regulamento acerca das Missões de catechese (sic) e civilização dos Índios’ (Decreto 426) estabelecia diretrizes gerais (mais administrativas que políticas) para o governo dos índios aldeados. Entretanto, já havia sido debatida exaustivamente, por deputados brasileiros, uma política indigenista antes da primeira Constituição de 1822. Dos projetos apresentados à Assembleia Constituinte, o considerado mais relevante foi o de José Bonifácio, denominado ‘Apontamentos para a civilisação (sic12) dos Índios Bravos do Império

do Brasil’, mas, que, na realidade, não foram incorporados ao projeto constitucional. Em 28 de janeiro de 1824 foi dado ao aldeamento dos índios do Rio Doce, no Espírito Santo, um “brevíssimo regulamento interino, que servirá somente para lançar os primeiros fundamentos à grande obra de civilisação (sic) dos índios”. Essa interinidade, porém, seria de longa duração (CARNEIRO DA CUNHA, 2009).

O Regulamento das Missões, promulgado em 1845, é o único documento indigenista geral do Império. Prolonga o sistema de aldeamentos e o entende, explicitamente, como uma transição para a assimilação completa dos índios.

Cinco anos após o Regulamento das Missões, foi promulgada a Lei das Terras (Lei 601, de 18 de setembro de 1850), em que se reafirmava a conveniência de se assentarem “hordas selvagens”. Para seu aldeamento seriam reservadas áreas dentre as consideradas devolutas, que seriam inalienáveis e destinadas a seu usufruto. Conforme Carneiro da Cunha (2009, p.145), a situação foi entendida como transitória, permitindo aos índios o pleno gozo das terras (Decreto 1318 que

regulamentou a Lei das Terras, de 30 de janeiro de 1854, art.75). Na realidade, a Lei das Terras inauguraria uma política agressiva em relação às terras das aldeias, pois um mês depois uma decisão do Império mandou incorporar aos Próprios Nacionais as terras de aldeias de índios que “vivem dispersos e confundidos na massa da população civilizada”. As ocupações não ocorreram em aldeias abandonadas, e tornou-se “a primeira versão dos critérios de identidade étnica no século XX”.

Na Decisão 275, de 21 de setembro de 1870, com a experiência de Couto de Magalhães no vale do Rio Araguaia13, o governo pretendeu estender ao Amazonas e ao Mucuri ou ao Rio Doce o abandono da política de concentração e aldeamento e a criação de um internato para crianças indígenas.

A partir de 1875, as Câmaras Municipais passaram a vender aos foreiros as terras das aldeias extintas e a poder “usá-las para fundação de vilas, povoações ou mesmo logradouros públicos” (Decreto 2672, de 28 de outubro de 1875). Em 1887, as terras das aldeias extintas revertem ao domínio das províncias, e as Câmaras Municipais passaram a poder aforá-las (Lei 3348, de 20 de outubro de 1887, art.8º, parágrafo 3º, 12 de dezembro de 1887 e 04 de abril de 1888).

Ao ser proclamada a República, a Constituição de 1891 ratificaria esse estado de coisas. Em seu art. 64, o texto transferia para os Estados o domínio e propriedade das “minas e terras devolutas situadas nos seus respectivos territórios”. Nessa decisão dos constituintes, estava a raiz dos abusos cometidos pelos governantes dos Estados, doando, vendendo ou permitindo a ocupação das áreas indígenas por colonos, fazendeiros e posseiros brancos, que nenhum respeito tinham pela pessoa e pelo direito natural do indígena à sua terra.

Graças à ação do Marechal Rondon, em 20 de junho de 1910 foi criado o Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e Localização de Trabalhadores Nacionais, previsto na Lei 1.606, de 20 de dezembro de 1906, que foi regulamentado em dezembro de 1911. Nessa lei, o SPI resta subordinado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio e tem por objetivo “prestar assistência aos índios aldeados, reunidos em tribos, em estado nômade ou promiscuamente com civilizados”.

13 O Brigadeiro José Vieira Couto de Magalhães buscava a criação de um “laço entre o indio e o christão” através da “educação intellectual pratica” das crianças das tribos da região do Araguaia, em Goiás, projeto que resultou na criação do Colégio Isabel em 1870 às margens do rio Araguaia, com o apoio dos governos Imperial e da Província de Goiás. O Colégio recebia crianças de “todas as tribus do Araguaya, algumas inteiramente barbaras”, tendo Magalhães como diretor até 1877 (MAGALHÃES, 1873, p.512, citado em RIZZINI, 2004).

Nesse mesmo ano de 1910, desencadeava-se no exterior, especialmente na Europa, uma campanha de descrédito contra o Brasil e suas instituições, que tinha seu ponto alto no problema indigenista. Havia denúncias de prática de genocídio contra os silvícolas, ou seja, o governo brasileiro era apontado como conivente ou insuflador do extermínio dos remanescentes das tribos que povoavam o território na época do descobrimento e no primeiro século de colonização. A campanha evoluiu de genocídio14 para etnocídio15, mas esvaziou-se quando o governo possibilitou à imprensa estrangeira e autoridades internacionais do indigenismo para a visita e observação das áreas indígenas.

O processo legal de espoliação tornou-se transparente, começando por concentrar em aldeamentos as chamadas “hordas selvagens”,

[...] liberando-se vastas áreas sobre as quais seus títulos eram incontestes, e trocando-as por limitadas terras de aldeias; ao mesmo tempo, encoraja-se o estabelecimento de estranhos em sua vizinhança; concedem-se terras inalienáveis às aldeias, mas aforam-se áreas dentro delas para o seu sustento; deportam-se aldeias e concentram-se grupos distintos; a seguir, extinguem-se aldeias a pretexto de que os índios se acham “confundidos com a massa da população”; ignora-se o dispositivo de lei que atribui aos índios a propriedade de terras das aldeias extintas e concedem-se-lhes apenas lotes dentro delas; revertem-se as áreas restantes ao Império e depois às províncias, que as repassam aos municípios para que as vendam aos foreiros ou as utilizem para a criação de novos centros de população (CARNEIRO DA CUNHA, 2009, p.146).

O governo federal estabelecia no Decreto 736, de 06 de abril de 1936, a preocupação com a “nacionalização dos selvícolas” (sic) com a finalidade de “incorporá-los à Nação” (art.1º, b) como guarda de fronteiras. O Regulamento aprovado pelo Decreto 736 propunha uma verdadeira pedagogia da nacionalidade e do civismo (SOUZA LIMA, 2009, p.164).

O capítulo I (Da proteção aos índios), em seu art.2º, estabelecia que o SPI, dentre das atividades de ‘proteção e assistência’, deveria ‘diligenciar para que os

14 Genocídio é crime definido pelo art. 1º da Lei 2.889, de 01 de outubro de 1956, sujeitando seu autor

a sanções que, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: (a) Mate membros do grupo; (b) Cause lesão leve à integridade racial ou física de membros da dupla; c) Submete intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; (...).

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Etnocídio é imposição forçada de um processo de aculturação a uma cultura por outra mais poderosa, (choque cultural), quando esta conduz à destruição dos valores sociais e morais tradicionais da sociedade dominada, à sua desintegração e, depois, ao seu desaparecimento (SILVA, 2011).

índios de fronteira não cedessem à atração das nações limítrofes e que neles se desenvolvessem, vivamente, os sentimentos da nacionalidade brasileira’. A retórica do Regulamento não deixava de pensar os indígenas como inferiores e diferenciados evolutivamente em função do contato. Tratando dos dois tipos de postos indígenas de fronteira com os quais o SPI contava, havia a tarefa de lidar com “povos imbeles, desarmados e na infância social”, de modo a “despertar-lhes o desejo de compartilhar conosco do progresso a que atingimos” (OLIVEIRA, 1947, p.158).

Souza Lima (2009) comenta sobre a ambiguidade de tratamento, pois os imbeles16 eram também os guardas de fronteira, já que eram dotados de características guerreiras inatas. O segundo posto era o de Assistência, Nacionalização e Educação, que se destinava a “uma ou mais tribos em relações pacíficas, já sedentárias e capazes de se adaptarem à lavoura e a outras ocupações normais”. O Regulamento cita, ainda, a importância do “culto à bandeira” e das noções de história do Brasil a serem ministradas.

Esse culto à bandeira era visto, especialmente na iconografia indígena, atestando ‘a eficácia dos métodos leigos’ (SOUZA LIMA, 2009) (Figura 8).

Figura 8 – O imaginário da ‘proteção’ sob o governo do Serviço de Proteção ao Índio (SPI)

Fonte: SOUZA LIMA, 2009, p.161.

Abundantes nos arquivos oficiais também são as fotos das comunidades nativas, vestidas e perfiladas diante da câmera fotográfica (Figura 9).

Figura 9 – Índios vestidos, tendo por companhia o ‘capitão’ do Serviço de Proteção ao Índio

Fonte: SOUZA LIMA, 2009, p.165.

Na década de 1930 o General Cândido Rondon escreveria em um Relatório ao Ministro da Guerra, afirmando que “o regime que preconizamos, de evolução mental natural, sem nenhuma pressão sistemática sobre sua alma, dará ao índio a capacidade de melhor aproveitar os dotes naturais da raça no que diz respeito às suas qualidades primordiais de caráter”.

Como se verá adiante, nesse contexto que Lucio Costa foi contratado pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) para avaliar as ruínas de São Miguel das Missões.

Benzer Belgeler