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1.2. Örgütsel Atalet

1.2.1. Örgütsel Ataletin Alt Boyutları

Como pode ser observado, até mesmo quando o foco é o jornalismo científico, os transtornos mentais e de comportamento e seus personagens adquirem variáveis e múltiplos significados. Ora seus portadores devem ser inseridos socialmente pelo fato de sua doença ser igual a qualquer outra, como um problema no coração ou nos rins, cujas causas estão no mau funcionamento do organismo ou nos genes da pessoa. De modo que, os distúrbios serão desvendados, compreendidos e até mesmo curados por meio de uma das “soluções mágicas”, que só a ciência e a genética são capazes de criar. Porém, em outros momentos ou notícias, os transtornos são explorados com ênfase no sentido próprio de doença e sua imagem de sofrimento, desordem, algo incurável, relação com a morte e fonte de uma série de consequências negativas e, com isso, todos os distúrbios, por mais particulares que sejam, são resumidos e unificados em uma única palavra e significado, a loucura.

Como dito logo no Capítulo 1, este estudo adota o conceito de notícia como um artefato linguístico que representa determinados aspectos da realidade e resulta de um processo de construção em que interagem diversos fatores, com destaque à ação cultural, a

qual permite que a informação seja “compreensível num determinado momento histórico e num determinado meio sócio-cultural” (SOUSA, 2005, p.3). Desse modo, o jornalista – produtor da notícia – está sujeito à gramática da cultura, que participa diretamente do processo de construção da narrativa noticiosa. A notícia, por sua vez, é a transformação de um fato em discurso, o qual é selecionado e interpretado a partir dos enquadramentos culturais compartilhados socialmente, que estão inseridos no processo de recontextualização do acontecimento e sua transformação em narrativa, que é veiculada para o público e, por conter significados e valores por eles conhecidos, torna-se inteligível.

Partindo dessa concepção de notícia como seleção, interpretação e recontextualização de um fato a partir de enquadramentos culturais pré-existentes, é possível compreender mais claramente as notícias avaliadas neste capítulo, como a entrevista com o geneticista britânico e referência internacional em estudos de psiquiatria, David Goldberg. Em “Criar doenças mentais só atrapalha tratamento” (GARCIA, 2009b), o expert afirma que é preciso limitar o que se define como doença mental rotulando apenas coisas para as quais haja evidências de que tratamentos ativos sejam melhores do que placebos. Ele critica diretamente as novas edições de manuais internacionais de classificação de transtornos mentais, como o CID e o DSM, que subdividem distúrbios em uma infinidade de subtipos e listam comportamentos normais como sintomáticos. Segundo o cientista, é ideal que os médicos apenas descrevam sintomas gerais para os transtornos, pois “Ter um diagnóstico definido de duas maneiras diferentes deixa todo mundo louco.”

O geneticista questiona classificações que tornam sintomáticos todos os tipos de comportamento – um exemplo disso é o fato de que a timidez de falar em frente às câmeras passa a ser classificada como transtorno mental na próxima edição desses manuais, que devem ser lançadas no próximo ano - e afirma que esse excesso deixa “todo mundo louco”. Ou seja, uma das referências mundiais em psiquiatria, Goldberg também recorre ao sentido popular de loucura (o senso comum) para dizer que o exagero na tentativa de “psiquiatrizar” a sociedade e o diagnóstico dos distúrbios é uma das causa do problema.

O mesmo acontece na notícia “Dor causada por luto prolongado desperta atenção de cientistas” (SCHUMER, 2009), que discorre sobre a inclusão do transtorno na nova edição do DSM. Michael First, professor de psiquiatria clínica de Columbia e um dos editores do atual manual, o DSM-4 disse que “Seria loucura da parte deles [especialistas] não levá-lo a sério.” – novamente um catedrático usa o senso comum e mais especificamente a loucura para justificar algo que ele considera como irresponsável e irracional em relação à classificação e diagnóstico dos transtornos mentais.

Portanto, como identificado em capítulos anteriores, é possível afirmar que múltiplas vozes são ouvidas nesta cobertura da Folha de S.Paulo, que adota o viés e o bloco temático Ciência. E ainda que o destaque sejam os releases científicos e as falas de cientistas, eles não só não impedem como também difundem os muitos e até mesmo contraditórios significados e sentidos contidos na expressão polissêmica transtornos mentais e de comportamento, termo usado para referir-se a neuroses, psicoses e psicopatias, distúrbios que afetam a vida e o comportamento de portadores e seus familiares.

De modo que os transtornos, independentemente de serem psicoses ou neuroses, são generalizados como doenças mentais. Têm suas causas e mecanismos originados no organismo, mas também podem ser resultado somente de situações comportamentais ou da “loucura” ocasionada pela violência, frustrações e por “paranoias” da sociedade contemporânea. Nessa miscelânea de origens, a psiquiatria torna-se padrão de normatização social e um dos elementos da ciência - a protagonista para compreender, tratar e até mesmo curar, com auxílio da genética, - esses distúrbios cujos tratamentos – medicamentosos ou terapêuticos – são reais e efetivos. E receitas naturais podem ser usadas para preveni-los.

Tratáveis e talvez curáveis graças à ciência, os transtornos têm exemplos de superação. Mas, por outro lado, por ser doença e seus portadores estarem em sofrimento mental são sinônimos de perdas, desordem e a causa de problemas. Às vezes são abordados como incapacitantes, condição permanente. O fato de seus personagens serem capazes de um ato de violência não é ignorado. E mesmo diante da supremacia de pesquisadores e laboratórios, são causas de suicídio e podem ampliar as chances de morte entre portadores com câncer. E claro, mesmo alvo de diversas vertentes e versões científicas, sua relação com a loucura – enfatizada até mesmo por cientistas – não é jamais esquecida.

7 PARA ALÉM DO JORNALISMO CIENTÍFICO: OS TRANSTORNOS MENTAIS E COMPORTAMENTOS E SEUS PERSONAGENS NA FOLHA DE S.PAULO

Este capítulo visa analisar, com ênfase na análise de conteúdo qualitativa, as notícias que abordaram - em sua totalidade ou apenas parte delas – questões referentes aos transtornos mentais e de comportamento e a seus personagens, porém, não o fizeram em nome do jornalismo científico. Ou seja, matérias que de alguma maneira utilizam um tema de origem científica, os distúrbios mentais, mas cujo foco não é divulgar ciência.

Das 366 notícias que compõem o corpus total desta pesquisa, 259 ou 70,8% do total enquadram-se na categoria Para Além do Jornalismo Científico. Ela foi subdividida nos seguintes blocos temáticos, que são aqui analisados: Personagem, Outras Mídias, Geral, Geral Opinião, Opinião do Leitor e Metáfora.

Em relação ao número de notícias, as subcategorias aqui analisadas são assim dispostas: Outras Mídias com 70 notícias concentra 27% dos textos; Personagem com 60 matérias, 23,2% do total; Metáfora com 59, 22,8%; Geral Opinião apresenta 32 textos, 12,4%; Geral com 23, 8,9% e Opinião do Leitor com 15 corresponde a 5,8%.

7.1 Os transtornos mentais e de comportamento na Folha de S.Paulo: quando o foco é o

Benzer Belgeler