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Veremos aqui que o tamanho e sobrevivência do setor de turismo receptivo dependem fundamentalmente do patamar da taxa de câmbio de longo prazo. Quanto mais valorizado o Real, menor o setor. As firmas aqui analisadas não são homogêneas, e, os prestadores mais expostos a custos em Reais, e que observam demanda mais elástica, ficarão de fora da cadeia de distribuição do setor de turismo receptivo internacional. Isto se deve ao fato de que estes são os mais expostos à volatilidade cambial.

Vejamos a curva de custos agregada do setor no gráfico 4.3. Esta caracteriza os custos da oferta agregada dentro do país. O ponto Câmbio H mostra o patamar de câmbio de hoje.

Analisando o gráfico, vemos que todas as empresas que estão localizadas acima do ponto onde a taxa de câmbio corta a curva de custos da oferta agregada, estariam fora do mercado com este patamar de câmbio, e o tamanho do setor seria dado por todas as empresas que estão abaixo deste ponto, o segmento de reta 0H. Isto se dá porque os custos em Reais destas empresas (acima do ponto analisado) são mais altos do que a receita em dólares que a atividade lhes traz.

Na mesma figura vemos dois movimentos de câmbio, no ponto Acom uma taxa de conversão de reais por dólar mais alta (real desvalorizado), e no ponto B a uma taxa reais/dólar mais baixa (real valorizado).

Curva de Custos do Setor e Patamar de Câmbio

0H – Tamanho do Setor com o preço do dólar no patamar de hoje 0B – Tamanho do Setor com Real mais valorizado

0A – Tamanho do Setor quando o Real desvaloriza

1

2

3

Gráfico 4.3

Com estes movimentos vemos claramente que, quanto mais valorizada a moeda nacional, menor seria o setor estudado neste trabalho. No patamar da moeda nacional mais valorizada o tamanho do Setor seria o segmento 0B, e no nível de câmbio desvalorizado, o Setor teria o tamanho do segmento 0A. Com a mudança do ponto H para o ponto B, muitas empresas sairiam do mercado, ou reduziriam seus custos com corte de pessoal ou de serviços agregados para moverem-se ao longo da curva de custos da oferta agregada. Serviços mais sensíveis à variação cambial ficariam fora do setor, por exemplo, os que têm maior parte de seu custo dado em reais, ou seja mais expostos ao risco da queda da moeda internacional frente ao real, como por exemplo restaurantes e guias bilíngües em serviços onde os guias não são essenciais (como translados entre cidades ou entre aeroporto e hotéis), ou poderia haver um menor investimento em expansão da rede hoteleira dentro das fronteiras brasileiras.

Por exemplo, firmas da cadeia de distribuição do setor com somente 20% dos seus custos contratados diretamente em reais agüentariam mais a pressão cambial (valorização

do real) que firmas que observam a maior parte dos seus custos contratados diretamente em reais. Para agentes com menor exposição ao real (maior parte dos custos atrelados ao dólar) a variação em seu custo marginal em função da variação cambial seria proporcionalmente menor do que para agentes com maior exposição dos custos em reais. Vejamos abaixo um exemplo onde o real aprecie 10% frente ao dólar, e o quanto isso afetaria os custos marginais dos agentes, em função da exposição de sua estrutura de custos a esta variação:

A Firma 1, digamos uma operadora de receptivo brasileiro com muitos contratos fechados em dólares com fornecedores, a Welcome to Brazil, por exemplo, tem 35% de seus custos atrelados diretamente à moeda nacional. A Firma 2 tem 50% de seus custos em reais, que poderia ser um fornecedor de produtos de aventura para a Welcome to Brazil que compra parte do material utilizado nos passeios em moeda estrangeira, e paga toda a mão de obra e os contratos de utilização de território nacional em moeda doméstica. Enquanto a Firma 3, que poderia ser o fornecedor de veículos da Welcome to Brazil, os restaurantes que têm contratos com a operadora de receptivo, ou mesmo as pequenas pousadas em cidades mais remotas de nosso país, seria caracterizada por pelo menos 80% dos seus custos atrelados diretamente ao real. Uma variação no câmbio que levasse à apreciação de 10% da moeda nacional frente ao dólar, afetaria os custos marginais da Firma 1 em apenas 3,5%, os da Firma 2 em 5%, enquanto os custos marginais da Firma 3 aumentariam em 8%. Portanto, a Firma 3, localizada num ponto mais alto da curva de custos da oferta agregada deste mercado, estaria fora do setor mais rapidamente do que as Firmas 2 e 1 respectivamente. Vemos aqui que, com contratos em dólares no mercado internacional, as firmas nacionais que estabelecem contratos internos também nesta moeda estão menos expostas à volatilidade do setor, transferindo o risco para a ponta da cadeia de distribuição que contrata a maior parte dos serviços em reais.

Um estudo interessante feito por CUNHA (1997) sobre a variação da procura turística em função de variações no preço relativo dos produtos turísticos, mostra que, mesmo se os operadores de receptivo mantiverem os preços fixados e contratados reduzindo suas margens de comercialização ou excluindo dos seus pacotes os serviços

mais caros – neste caso que variam mais negativamente com relação à baixa do dólar, ou seja, mais atrelados à variação do real – dar-se-á o que Cunha chama de dicotomia nos preços turísticos, onde mesmo que o influxo de turistas permaneça constante, os gastos destes dentro das fronteiras nacionais, diminuem consideravelmente, deixando estes de consumir serviços em bares, restaurantes, algumas excursões, diminuído compras, uso de táxis locais, entre outros. Este efeito leva a uma redução na procura efetiva pelo produto agregado.

Outro ponto relevante, é que o custo de oportunidade dos diversos agentes que oferecem serviços turísticos no Brasil, é bastante diferente. Hotéis por exemplo podem preferir deixar de estabelecer preços em moeda estrangeira para o mercado internacional, e concentrar suas vendas no mercado doméstico, muitos restaurantes também podem fazer o mesmo; enquanto guias de turismo bilíngüe precisam do turista estrangeiro para efetuar sua atividade, ou seja, não atender este mercado significa não ter nenhuma receita com esta atividade. O mesmo se dá com as operadoras especializadas no receptivo internacional, pois atender ao mercado interno no lugar do externo levaria uma grande mudança estrutural no negocio, acarretando altos custos de pessoal e treinamento. Daqui vemos que alguns agentes podem facilmente estar fora da oferta do setor sem afetar muito sua renda, enquanto outros precisam fundamentalmente adaptar-se as mudanças para sobreviver exercendo esta mesma atividade.