• Sonuç bulunamadı

Os multiplicadores apresentaram nas entrevistas, temáticas de seu cotidiano que lhes são fontes de preocupação. Os entrevistados resgataram pontos de sua história que indicavam seu interesse pelo bem-estar dos moradores da comunidade. Observa-se nos relatos que esta sensibilização os foi envolvendo cada vez mais no cuidado com o outro, culminando em sua participação no PFM. Estas preocupações, para alguns dos multiplicadores, inicia- se com o bem-estar dos próprios filhos e flui para as demais crianças do bairro, sendo considerada por eles como um fator direcionou para sua entrada no mundo da educação formal:

Eu fui me envolvendo nas questões do bairro, depois fui me envolvendo mais na questão da Associação, foi na (...) com as famílias que é até hoje ela é muito grande, então conheço todos os moradores e já frequentei na casa de todos os moradores e andava e ando muito no bairro e fui pegando alguma afinidade com as crianças. (Paulo)

75 Eu estou aqui há dez anos trabalhando com o bem maior deles que é o filho deles. Então o que eu quero pro bem deles, eles também querem. (Mariana)

Os entrevistados afirmaram que o vínculo com a população atendida extrapola o profissionalismo, passando a assumir para si mesmos os problemas daqueles a quem atendem. Apresentaram uma tendência a auto- responsabilização no cuidado da comunidade. O cenário que observavam os convocava a buscar soluções, ora por iniciativa própria, ora coletivamente (dentro do grupo de educadores e com moradores da comunidade) para as dificuldades que as famílias encontravam:

Porque ver a realidade da criança, você querendo ou não querendo de uma forma ou de outra você acaba entrando na vida daquela criança. O problema dela é um problema teu também. Não adianta você querer excluir, ah ela tem um problema mas... não, não, acho que o problema é o todo, é de todos. Acho que desde o momento que você tá ali, você tem que acatar tudo. (Flávia)

Na metade do curso eu achei um pouco frustrante (...) você vai acompanhar a família até certo ponto, depois você não pode mais decidir por ela (...) de repente é frustrante você querer ajudar e não poder. Como é que eu vou... se eu ajudar vou perder o meu serviço? (Mariana)

Eu pego os contatos da família (...), você pode contribuir com o quê? uma roupa, um não sei o que, daí teve uma... minha mãe, meus irmãos, colegas, e foi acumulando... isso também não é legal ne? O ideal seria você estar proporcionando uma coisa que a família pudesse tapar aquele buraco ali. (Paulo)

O envolvimento voluntário com trabalhos voltados, ora diretamente para a comunidade, ora para famílias específicas, ora para o apoio ao trabalho do ECOFAM destaca-se em seus discursos, tendo a maioria dos multiplicadores se engajado ao longo do tempo, ou no momento da pesquisa se envolvido nestas atividades:

E com isso comecei assim no trabalho voluntário aos sábados, domingos, feriados (...) reuniões, trabalhar com a família, reuniões aos sábados essas coisas. E aí me engajei mais, comecei a participar mais, o trabalho também de terça feira que é o plantão com a família que a gente vai até às oito da noite... (Laura)

(...) mudei pra cá praticamente com um ano, um ano que eu tava aqui, eu comecei já resolver alguns trabalhos voluntários pro bairro mais voltado pra creche, pro bairro também. Logo que

76 entrei um ano e pouco, alguns serviços que tinha, alguma coisa que estava a eu alcance pra ajudar o pessoal, participei. (Paulo) O modo de cuidar das famílias, de acordo com os educadores, transformou-se a partir de seu envolvimento na formação, quando afirmam ter passado a olhar as crianças e suas famílias, não a partir do que lhes faltava melhorar, mas sim, da vulnerabilidade que vivencivam cotidianamente. Os educadores relataram que seu foco se direcionou para as necessidades que passaram a enxergar nas famílias e, sendo assim, passou a preocupá-los o modo com que solucionariam estas demandas.

Os educadores relataram ter realizado ações a partir desta nova compreensão, tais como o aumento da frequência no atendimento do plantão comunitário, a designação de uma pessoa específica para cuidar das demandas originadas no plantão, e a criação de reunião quinzenal, apenas para os multiplicadores, a fim de debater conteúdos da formação, assim como de sua atuação. Também houve relatos de iniciativas individuais e espontâneas, como aprender mais sobre os benefícios concedidos pelo governo para as famílias:

Nós temos uma pessoa que agora está nos... que é a Tati, que ela ta visitando no bairro (...) Um exemplo, um esgoto que está lá na minha rua, só que ela não está na minha porta, está na porta do vizinho. Olha, Tati, tal rua está acontecendo isso, e aí a Tati vai, liga pro órgão representante para que venha consertar. (Valéria) Então eu me preocupei em saber como que eu posso estar ajudando essa família a conseguir um auxílio... sei lá bolsa ... sei lá, uma cesta básica, uma bolsa alguma coisa. Aí eu fui pesquisar. Aí eu ajudei algumas vezes no plantão, e você vê ‘n’ famílias com ‘n’ preocupação. (Mariana)

Então assim, na reunião que nós tivemos na sexta feira do... desculpa, no sábado passado dos multiplicadores, a gente tem um encontro por mês, que é certo esse encontro. Falarmos dos textos, de todo contexto do multiplicadores. (Valéria)

Observa-se que nas entrevistas individuais, é dada ênfase à solução de necessidades básicas das famílias atendidas, sobre quais benefícios teriam direito ou como encontrariam um serviço de saúde indicado e qual multiplicador poderia acompanhar as famílias nestes atendimentos. Estas preocupações mostraram ser alvo de reflexão dos multiplicadores, e na entrevista devolutiva, observou-se uma nova reformulação, pois além de ser difícil agregar mais responsabilidades ao seu trabalho de período integral nas instituições, o outro

77 passou a ser visto em sua possibilidade de cuidar de si. Sendo assim, novas elaborações quanto aos limites da atuação do multiplicador surgiram para os entrevistados, que compreenderam que o multiplicador deve facilitar ao outro que tome suas decisões e possa promover o autocuidado:

Então um tempo atrás sempre... pelo menos eu tinha aquela preocupação de fazer pela pessoa. Hoje talvez a preocupação maior seja fazer com que a pessoa entenda que é uma causa comum que ela também deve correr atrás. Então o ouvir pra mim ficou mais ligado a isso de fazer junto e não fazer por a pessoa ne.(Paulo)

E aí, mas o fato de você ouvir e entender a questão, também entender junto com a pessoa que faz e deixar a responsabilidade na mão delas. Alternativa quem vai... os caminhos vai encontrando é você, situação é essa porque (...) esse lado de querer fazer pelo outro. Essa clareza de não fazer pelo outro, a não ser que a pessoa seja incapaz, mas em geral tem muita essa dificuldade entender isso. Entender quando a pessoa incapaz e mesmo a pessoa seja incapaz, o núcleo familiar dela tem alguém que é capaz. Então como você vai articular com o grupo, com as pessoas ali, e você servir de apoio, ajudar a articular mas com essa clareza que entendi a questão mas, sempre encontrar a solução ou o grupo encontrar a solução e conversar com mais alguém, mais alguém e formar um grupo que seja bom, ao tom, com autonomia, com independência. (Pedro)

Benzer Belgeler