5. TARTIġMA VE SONUÇ
5.1. Öneriler
No mundo do faz-de-conta, o sítio do Pica-pau Amarelo insere-se no conceito de “cidades vivas”, principalmente no que diz respeito ao progresso pela exploração do petróleo, conforme vemos em O poço do visconde, obra em que o autor realiza ficcionalmente o que não foi possível fazer, a contento, na realidade. Nessa ficção de clara intenção didática - como o mostra o teor científico das explicações em torno da formação e extração do petróleo -, cria-se a Companhia Donabentense de Petróleo, em que Emília participa não só com suas sagacidades e impertinências, mas também como Diretora de Transportes, dona de um avião e economista em relação às suas próprias finanças: “[...] um ponto negro apareceu no céu azul. Era o avião da Emília. Chegou. Posou. O piloto fez sinal aos operários [...].” ( LOBATO, 1994-c, p. 67 ).
O discurso do progresso, por via da exploração de petróleo, aparece claro, decisivo, nessa ficção: divulgada a notícia da descoberta do produto no sítio de Dona Benta, os estados brasileiros passam, crescentemente, a fazer prospecções bem-sucedidas, afirmando o narrador que...
O País entrou a prosperar dum modo maravilhoso. Todo mundo compreendeu que o nosso emperramento antigo provinha da falta de circulação. (...) O número de automóveis cresceu vertiginosamente. O de caminhões de carga, ainda mais. As fazendas adotaram os tratores de puxar os arados e aposentaram os bois e as mulas. As estradas de ferro passaram a queimar óleo combustível em vez de lenha e carvão. [...]
O supergás, ou gás líquido, acondicionado em cilindros de ferro, invadiu até as casas da roça. Ninguém mais cozinhou com lenha: só a gás, como nas cidades grandes. ( op. cit, p. 94 )
O autor como arquiteto imaginário do desenvolvimento, num desejo literaturizado que tem a sua pedagogia: ensinar a desejar, a sonhar com um Brasil moderno.
E a antiga vila, nos arredores do sítio, passa de mil para cem mil habitantes, é visitada por turistas, ganha dez cinemas, escolas esplêndidas, cinco hotéis de luxo, a Casa de Saúde Dona Benta, “absolutamente gratuita”, de onde “os doentes saíam invariavelmente curados e gordos”. ( id. ibid. ) Pistas duplas, com tapete de grama separando-as, canteiros de flores e iluminação noturna, restaurantes típicos, bombas de gasolina donabentense a cada três quilômetros... Casas de Abrigo, gratuitas, para os viajantes... Ainda nessa cidade tão viva,
A Escola Técnica Narizinho tornou-se um padrão copiado pelo País inteiro. Os rapazes e as raparigas que lá se diplomavam em vários ofícios eram disputados a peso de ouro. “Aqui se aprende de verdade” era o letreiro que havia na fachada do estabelecimento –e aprendia-se mesmo. ( id. ibid. )
Assim Lobato ficcionaliza, para as crianças, suas representações de desenvolvimento, e desenvolvimento global: na saúde, na educação, no trabalho, na cultura, no lazer, no urbanismo. Traz, desse modo, para o mundo dos pequenos, e pela via do ficcional, assuntos que discutia com intelectuais de sua geração. Mostrar essas possibilidades às crianças foi uma de suas táticas.
A decadência e a estagnação perturbavam-no, e tanto, que por isso mesmo, provavelmente, haja concebido Emília livre da inércia rotineira das bonecas de pano.
2. 6. No palco com outros
A Escola Técnica Narizinho traduz, simbolicamente, as preocupações do criador de Emília com a educação, preocupações que, como foi dito, moveram outros intelectuais e cientistas dos fins do século XIX e das primeiras décadas do século XX, como Tobias Barreto, catedrático da Faculdade de Direito de Recife, que criticou a cultura retórica da época, divulgou os filósofos alemães, o evolucionismo e o positivismo; Euclides da Cunha, misto de engenheiro, sociólogo e literato, além de outros como Belisário Penna, higienista; Miguel Pereira, professor da Faculdade de Medicina; Miguel Couto, José Augusto Bezerra de Medeiros, Anísio Teixeira, Otávio Lamartine e outros.
Deve-se ter em mente que os anos 20 e 30 do século XX foram de fortes construções ideológicas em torno do papel do Estado, do que se pretendia como sociedade e homens novos, por força mesmo da 1ª Guerra Mundial (1914-1918) que, cessada, permitiu fosse percebida a precariedade da ordem internacional. E estava recente a revolução soviética de 1917, que “parecia anunciar a aurora de novos tempos” ( FAUSTO, 2002, p. 170 ), e em que Eisenstein se inspira para conceber o filme Outubro. Estado forte e culto à personalidade passaram, então, a compor o programa da orientação política tanto de direita quanto de esquerda .
Com Anísio Teixeira, Lobato tinha amizade já no início da década de 1920. Encontraram-se nos Estados Unidos. Tal encontro, para Bomeny ( 2001, p. 10 ), “foi seminal na construção de um ideário de civilização e na formação do que Lobato chamaria a ‘irmandade’”, expressão que queria dizer “uma agremiação de profetas de uma religião cívica de transformação do Brasil”. Lendo a correspondência de Anísio Teixeira, a autora conclui que Lobato “foi uma extraordinária figura de ligação entre educadores” ( id. ibid. ), lembrando que coube a ele a articulação da amizade
entre o Anísio e Fernando Azevedo. Do mesmo modo como a correspondência entre Lobato e Godofredo Rangel durou enquanto durou a existência do criador de Emília, as cartas entre aqueles dois educadores também só cessariam com a morte de Anísio Teixeira. Escreve este, dois dias após a morte de Lobato, a quem dedica o livro Educação no Brasil: “A menor reflexão sobre o fenômeno Lobato em nosso país confirma a minha tese de que perdemos, anteontem, a mais densa e vigorosa encarnação do espírito brasileiro, em nosso tempo.” ( TEIXEIRA, 1999, p. 10 )
Fig. 13 – Anísio Teixeira (de óculos) e Monteiro Lobato (à sua esquerda). Estados Unidos, década de 1920
Transformar o Brasil era o que desejavam. E em função disso, jogavam o jogo dos contatos, alimentador da troca e da disseminação de idéias. As cartas eram o que são hoje o telefone e a internet - com a ressalva de que as falas telefônicas evolam, não deixam, facilmente, registro material; não se tornam documentos como as cartas, enquanto ao correio eletrônico falta a alma da letra e é facilmente
deletável.
Todos eles queriam fazer emergir do solo do Brasil uma nação, através de um amplo processo educativo. Para isso, a cada um cabia mover a sua peça no xadrez das concepções e das ações, que incluíam apropriações da pedagogia praticada
nos Estados Unidos e em alguns países europeus e que acabou por gerar o Movimento da Escola Nova. Esse movimento defendia, entre outras coisas, a capacidade de o aluno aprender por si mesmo, com base em seus interesses e na capacidade de observação e experimentação (MANACORDA, 2002), comportamento, aliás, que Lobato imprime generosamente em Emília, como veremos à frente quando falarmos de A chave do tamanho.
Necessário parecia todo esse empenho. Afinal, as experiências reformistas, a partir da instauração da República, foram, na visão de Berger (1980), todas frustradas: faltava-lhes conteúdo pedagógico apropriado, restando a impressão de que os representantes da elite social, incumbidos de implementá-las, nenhum interesse - político ou social - tinham nelas. E a população como um todo não tinha poderes para representar seu próprio projeto educacional. Continuava-se a ter uma educação pautada no modelo jesuítico, o que equivale a dizer, nas palavras de Anísio Teixeira ( op. cit., p. 32 ), que “Todo o ensino sofria, assim, dessa diátese de ensino ornamental: no melhor dos casos, de ilustração, e nos piores, de verbalismo oco e inútil.” A mesma visão tem Berger ( op. cit., p. 170 ), para quem a escola brasileira era de conteúdo intelectualista, alienada da realidade e sem vinculação ao mundo de trabalho, servindo por isso exclusivamente à classe dominante.
Tinha-se, como já referido, esta realidade: 74,6% da população em idade escolar, no início do século, eram analfabetos, conforme dado apresentado por Bomeny ( 2001 ).
E há que se levar em conta as conseqüências sociais da prática escravista. Não se podia ter senão, no geral, um povo intelectual e moralmente desfigurado, sem a consciência de cidadania - que até hoje se busca formar, como percebemos na freqüência com que, do final do século XX para cá, é pronunciada, escrita,
discutida a palavra cidadania, seja em projetos comunitários e de pesquisa, seja na linguagem da mídia ou da escola, sempre com a intenção de denunciar e/ou reverter a exclusão social; os problemas sanitários; o desconhecimento de direitos básicos; questões relacionadas à qualidade de vida; o analfabetismo, que, tantas décadas depois, continua alcançando importante contingente da população.
A visão de que o Brasil não correspondia a uma nação aparece numa “conversa carteada”, datada de 1915: “Não somos ainda uma nação, uma nacionalidade”. E afirma que “As enciclopédias francesas começam o artigo Brasil assim: ‘Une vaste contrée...’ [...] Não somos país, somos região” ( LOBATO,1961-a, p. 32 ). Mas, sonhador, e assumindo o espírito-criança de que fala Nietzsche, cria, no incorpóreo da ficção, o real desejável.
Dentro do princípio do espírito sutil, em que também se apóia a nossa compreensão sobre o criador de Emília e sobre esta própria, enquanto humanidade, e que, relembrando, dá o ser humano como não passível de exatidão, podem ser percebidos os movimentos interiores de Lobato, enquanto pensador do Brasil. Do ponto de vista socioeconômico e intelectual, ele não é povo, é elite, e há momentos em que critica, por exemplo, a figura do caboclo, por seu mau uso da terra, pela depredação das florestas e outros comportamentos que considera reprováveis. Mas reconhece, depois, que, ao se afastar do ambiente da roça, foi possível ver o problema com a devida racionalidade, livre dos laços subjetivos que a proximidade parecia produzir. Diz, ao criticar a literatura - e o gosto do público por ela – respaldada na imagem folclorizada do caboclo: “[...] Em havendo caboclo em cena, o público lambe-se todo. O caboclo é um Menino Jesus étnico que todos acham engraçadíssimo, mas ninguém estuda como realidade”. ( LOBATO, 1961-b, p. 68)