• Sonuç bulunamadı

Será preciso um esforço ontológico para se desdobrar a noção de informação diante do corpo, partindo do princípio de que também ela, por ser um sensível do e no mundo, faz parte deste “emblema concreto de uma maneira de ser geral” (MERLEAU-PONTY, 2000, p.143), que é a carne. Consideramos, assim, que a informação integra a mesma textura de acontecimentos do corpo, pois, lembremos, a carne é do corpo, do mundo e também das coisas. Conjecturamos que é na invisibilidade da carne, que o corpo e a informação se experimentam, sensivelmente. Como coisa da carne a informação, igualmente, opera por reversibilidade, há nela um visível e um invisível, um direito e um avesso, um senciente e um sensível que, diríamos, são: um

informacional e um informe. Vejamos como podemos perceber essas espécies de camadas da

informação, uma vez que nosso exercício, no momento, é o de verticalizá-la.

A informação e o infosigno, como coisa única que são, tem o informacional e o informe como direito e avesso, que, por sua vez, são unilaterais, sob a perspectiva que vimos na banda de Moebius. A informação, enquanto esse Ser indiviso contém e está contida, no infosigno, que representa sua potência sensível. E, ainda, contém o informacional e o informe como aquilo que nela vibra e a ela sustenta, como uma pujança de criação. Em uma analogia ao ser bruto e ao espírito selvagem, diríamos que o informacional e o informe operam pela intenção e diferença inseparável e que, enlaçados, em uma analogia, são a polpa carnal da informação – a substância viva de sua constituição, seu próprio movimento de ser, sua força anterior de produção significativa. Pois, como coisa do mundo, a informação possui interior.

Esse dentro é, ao mesmo tempo, pleno e poroso de significações encarnadas e, portanto, potente. Como um átomo que em sua fissura libera energia, a informação possui seu núcleo latente de significações, vibrando entre o informacional e o informe. Cindindo-se ela se multiplica, significando. Produzindo um parâmetro imagético pelo qual pudéssemos

vislumbrar essa noção de informação, teríamos camadas submersas na informação, algo como a Figura 5 nos mostra:

, Figura 5 – Informação em camadas

Fonte: Elaborado pela autora.

Diante do nosso pressuposto metodológico, o que fizemos foi então um esforço para reconhecer na informação sua verticalidade. Descamamo-na teríamos a Figura 6:

Figura 6 – Informação “descamada”

Fonte: Elaborado pela autora

Operacionando tais reflexões, diante do referencial teórico de Merleau-Ponty, podemos apresentar agora um esquema representativo que – reforçamos – atende a critérios de análise e serão articulados mais adiante com outros elementos de nossa pesquisa. Vale lembrar, todavia, que a demonstração que faremos é hipotética e que todas as divisões propostas acontem conjuntamente, em um piscar de olhos. Acreditamos que o desdobramento que proporemos, sustenta nossas reflexões, a fim de encontrar pontos de tangência entre o corpo sensível e a informação e, além disso, auxilia na tentativa de expor a conjugação de apreciações nem sempre óbvias de se compreender. Vejamos, portanto, nossa proposição que descama e operacionaliza a informação em sua potência de ser, nossa polpa carnal da informação, representada na Figura 7:

Figura 7 – Direito e Avesso: Informação

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Fonte: Elaborado pela autora.

Segundo esse esquema, temos, portanto, uma grande linha horizontal que delineia, porosamente, o que seria uma tênue e frágil fronteira entre o Invisível e o Visível, deixando escapar uma correlação entre tais – pois, lembremos, o invisível está pleno de visibilidades. A imagem que toca a linha imaginária entre o invisível e o visível, semelhante ao número 8, é um símbolo que marca as relações entre os incompossíveis e aqui representa a Banda de Moebius - para não nos deixar esquecer, da reversibilidade que há entre os pares: invisível e visível, sensível e senciente, informe e informacional, avesso e direito, todos sendo lados iguais de uma só idealidade, que coincidem em suas ocorrências.

Quanto ao sensível e o senciente, distanciados pela mesma linha tracejada, eles têm aqui a função de denotar as características da informação, representadas pelo quale em si, que, para Merleau-Ponty (2000), é sempre certo tipo de latência. Em nosso contexto, o quale se refere, obviamente, aos aspectos qualitativos da informação, que podem ser revelados na experiência. Como sensível, esse quale é mera potência, vibração, devir internalizado. Como senciente, o

quale é Unverborgen – termo em alemão emprestado de Heidegger, cujo uso em Merleau-

Ponty diz respeito ao que é desvelado. É a partir desses aspectos que iremos caracterizar o infosigno e a informação, ousando – depois de feitas as devidas advertências – transformar essa indivisão em categorias de análise, que serão retomadas diante de nosso objeto empírico.

O infosigno, que integra o topo de nossa imagem, é da ordem do invisível, sensível e avesso, apontanto para a potência. Dirá assim de uma energia reverberante, de uma qualidade

profunda e submersa que nutre a carne da qual ele faz parte, aerando-a em possibilidades. O infosigno é a anterioridade da coisa, é algo prestes à, é a crença no imediatismo da fissura significativa, que lhe dirá respeito por um instante. E, por crer, ele atua, é um agente de sentido que mobiliza as fibras da carne à qual pertence. O infosigno é, assim, a forma mais elementar da informação, aquela que integra, atravessa e conserva viva e vigorosa a carne.

Por sua vez, a informação, localizada na parte posterior da figura, baliza-se com o visível, o senciente e o direito, apontando para a sedimentação. Antes de prosseguirmos, voltaremos a esse último conceito merleaupontyano – no ponto em que Chaui (2002) menciona a

sedimentação do sentido:

A sedimentação é o modo de ser de uma idealidade ou o momento em que a instituição de um sentido se incorpora à cultura, tornando-se “disponível”, uma ideia da inteligência que usamos sem mais pensar em sua origem. Um sentido, porém, é vertical. É e está presente porque carrega consigo dimensões passadas e vindouras, significações que não estão atualmente dadas e de suja ausência depende o prestígio absoluto de sua presença. O documento é esse sentido vertical presente no texto como investimento passado e atual de uma cultura e apelo a textos futuros, articulando-se como os precedentes e com os seguintes de modo indireto e alusivo. (CHAUI, 2002, p.34)

Ao mencionarmos uma informação que tende ou aponta para uma sedimentação, estamos, portanto, sugerindo que nela há camadas significativas que se colaram ao quale e, por isso, desvelam-se. Uma palavra, por exemplo, nos apresenta um sentido que está ao alcance de nossa fala ou de nosso pensamento, é superfície visível e informacional, que encobre e nos faz esquecer o tempo da obra – “tempo de seu fazer-se e tempo de suas retomadas” (CHAUI, 2002, p.34). Atualidade achatada, há nessa informação uma disponibilidade inteligível de qualidades, um reconhecimento comum integrado a uma cultura específica.

O sedimento de sentido é o que dá à informação sua capacidade de representação e de indicação de qualidades. Mas, como superfície dotada de interioridade, na informação também estão presentes e, porque não dizer, latentes, outras possibilidades significativas que podem surgir, junto ao rearranjo dos infosignos produtores de sentido. Uma vez reconhecidos, aceitos, compreendidos, esses signos que informam podem gerar um novo sedimento, outra possibilidade de sentido, que se cola à informação.

Nervura desnudada no mundo visível, emigração do sensível, a informação é superfície de profundidade inesgotável que se atualiza na práxis. É sublimação provisória do informacional forrada por uma reserva informe, invisível. Informe, pois inacabada em seus excessos possíveis, em sua verticalidade, em suas potências, pois que da ordem do quale; uma vez que pois que é infosigno, no desejo inestancável de criar e de fazer sentido. Informacional como arranjo momentâneo, sedimento em desmanche, concentração do disperso. A informação vem deste enlace, é textura significativa. O que há entre ela e o corpo é o quiasma, entrecruzamento, é o enlace no tecido do mundo. Mensurada no corpo por vias da experiência sensível a informação, é incorporada. É carne da carne.

É nessa trama que se inscreve a informação, como experiência no e do corpo. Experiência que possui interior e que nos inicia ao que não somos, abrindo-se assim para a essência, que por sua vez não é pura interioridade e abre-se para o exterior. Há sentido na experiência e inacabamento na essência, são elas “como círculos concêntricos, levemente descentrados” (CHAUI, 2002, p.41). Nesses termos, Merleau-Ponty tensiona a oposição herdada entre facticidade (experiência) e essência (conceito), levando-nos ao interior do mundo operante. Trata-se sempre da experiência de simultaneidade que, como vimos, também na informação tem direito e avesso. A experiência é do corpo, é no corpo e é onde a informação está acontecendo, invariavelmente.

Partiremos para a compreensão dessa experiência. Antes, vale retomar que, diante das considerações feitas, distinguimos a informação do infosigno, bem como seus modos operatórios que configurarão duas categorias de análise que, posteriormente, iremos associar às escolhas feitas por nossos bailarinos corpografantes. Sigamos em direção ao corpo na dimensão da experiência da informação.

Benzer Belgeler