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5. SONUÇLAR VE ÖNERMELER

5.2. Öneriler

Estabelecer o nível de influência que Berkeley exerceu sobre Hume é uma questão que nos importa aqui, na medida em que ela nos ajudará a compreender a seção Das ideias abstratas do Tratado. Hume abre essa parte de sua obra com a seguinte afirmação:

Uma questão muito importante foi levantada a respeito das ideias abstratas ou gerais, a saber, se são concebidas pela mente como gerais ou particulares. Um grande filósofo contestou a opinião tradicional acerca desse ponto, afirmando que as ideias gerais não passam de ideias particulares que vinculamos a um certo termo, termo este que lhe dá um significado mais extenso e que, quando a ocasião exige, faz que evoquem outros indivíduos semelhantes a elas. Considero esta descoberta uma das maiores e mais valiosas feitas recentemente na república das letras, e por isso tentarei aqui confirmá-la mediante alguns argumentos que, espero, eliminarão qualquer dúvida e controvérsia a seu respeito. (T.1.1.7.1)

No caso, o “grande filósofo” a que Hume se refere nesse parágrafo é o Dr. Berkeley. Seu nome é citado numa nota de rodapé. Porém, como não era costume na época, Hume cita apenas o nome do Dr. Berkeley, sem, infelizmente, especificar as demais referências de cuja obra ele teria extraído a tese sobre as ideias abstratas. Além disso, cumpre notar que essa é a única passagem no Tratado em que George Berkeley é citado. E, exceto por essa passagem do Tratado, encontraremos o nome desse autor em apenas outras duas passagens na obra humeana163.

Por conta disso, levantou-se a hipótese de que Hume não teria tido acesso direto à obra de Berkeley, tendo apenas notícias vagas e imprecisas sobre as ideias deste autor a partir de terceiros. Quem

primeiro levantou essa hipótese foi Richard H. Popkin, no seu artigo

Did Hume ever read Berkeley?164 de 1959. Hipótese essa que foi, poucos anos depois, falseada, devido à publicação de uma carta de Hume, na qual ele revela não só conhecer os Princípios de Berkeley, como também sugere esta obra como uma porta de entrada para o seu Tratado165. Temos, portanto, elementos bibliográficos suficientes para afirmar que Hume tivera um contato direto com a obra de George Berkeley, em especial, O Tratado sobre princípios do

conhecimento humano, de modo que alguma influência, por certo,

George Berkeley excerceu sobre Hume.

Cabe agora responder a uma segunda questão. A tese sobre as ideias abstratas exposta no Tratado é, de fato, similar a tese que Berkeley expôs nos seus Princípios? Ou seja, existe alguma variação substancial na estrutura dessas duas teses que nos permitiria afirmar que há no Tratado uma nova tese sobre as ideias abstratas? A resposta para essa segunda questão também é bem clara e, de modo geral, representa um consenso entre a fortuna crítica humeana. Pois, uma breve comparação com a tese que Berkeley defendeu entre §10º §13º no Prefácio de seus Princípios nos permite afastar qualquer dúvida. De acordo com §11º dessa obra,

Uma palavra se torna geral ao ser convertida em sinal, não de uma ideia geral abstrata, mas de várias ideias particulares, qualquer uma das que ela indiferentemente sugere à mente.

Passagem essa que, no parágrafo seguinte, é completada pela afirmação abaixo

Se quisermos dar um significado a nossas palavras e falar somente do que podemos conceber, acredito que reconheceremos que uma ideia considerada em si é particular, mas ao representar ou significar todas as outras ideias particualres do mesmo tipo torna-se geral. Para esclarecer isso mediante um exemplo,

164POPKIN, Richard, “Did Hume ever read Berkeley?”, 1959.

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suponhamos que um geômetra esteja demonstrando o método de dividir uma linha em duas partes iguais. Ele traça, por exemplo, uma linha preta de uma polegada de comprimento; essa linha, que em si é particular, é, no entanto, geral em relação a seu significado, pois, do modo como aqui é utilizada, representa todas as linhas particulares, quaisquer que sejam. Desse modo, o que é desmonstrado acerca dela fica demonstrado acerca de todas as linhas, ou, em outras palavras, de uma linha em geral. E, assim como essa linha particular se torna geral ao ser convertida em um signo, do mesmo modo o nome linha, que tomado em absoluto é particular, torna-se geral ao ser convertido em um signo. E, assim como linha deve sua generalidade não ao fato de ser o signo de uma linha abstrata ou geral, mas de todas as linhas retas particulares que possam talvez existir do mesmo modo pode-se pensar que a generalidade da palavra linha deriva da mesma causa, isto é, das várias linhas particulares que ela indiferentemente denota. (P.I.§12)

Embora essa última passagem seja bem extensa, uma rápida comparação com a citação acima do Tratado nos permite afirmar que ambas as teses são estruturalmente similares devido a três aspectos. O primeiro diz respeito à possibilidade de formar ideias gerais, o que é categoricamente rejeitado por ambas as teses. Segundo, que o significado de um termo geral é estabelecido através da associação de uma ideia particular a uma palavra/signo. E, por fim, que há apenas uma tese responsável por explicar como são formados os termos gerais. Em Locke, por exemplo, duas teses cumprem esse papel, uma nos mostra como ideias abstratas são formadas e outra estabelece a relação entre este tipo de ideia e um termo geral166.

Portanto, no tocante à estrutura de ambas as teses, nós podemos afirmar, com segurança, que não há, entre elas, uma diferença substancial. E, por isso, Hume foi justo ao dar crédito a Berkeley por sua descoberta sobre as ideias abstratas. Uma descoberta que, aliás, abriu uma nova linha de pesquisa na doutrina das ideias abstratas, ao trazer para o centro do debate a relação entre linguagem e percepção. Logo, podemos afirmar que Berkeley,

166 Acerca desse tema, vale a pena conferir também a seguinte passagem na obra de Husserl: HUSSERL, EDMUND. Logical Investigation, pg. 289 e 290.

no que diz respeito a esse tema, exerceu uma grande influência sobre Hume.

Benzer Belgeler