BÖLÜM V : SONUÇ, TARTIŞMA VE ÖNERİLER
5.2. Öneriler
“Foi assim que empreenderam a travessia da serra. Vários amigos de José Arcadio Buendía, jovens como ele, encantados com a aventura, desfizeram as suas casas e carregaram com as mulheres e os filhos para a terra que ninguém lhes havia prometido.” (MÁRQUEZ, 2007, p. 28)
Enfim, chegamos ao núcleo celular do trabalho. É aqui que encontra-se o seu código genético e de onde partem os sinais que o impulsionam para manter-se vivo.
Neste capítulo, o acontecimento narrará a si próprio. Escutemo-lo.
Um percurso... percursos vários
Figura 2: Trajetória dos participantes registrada pelo aparelho GPS
Fonte: Google Maps®, software disponível em: http://earth.google.com/intl/pt (imagem alterada pelo pesquisador)
Na manhã do dia vinte e um de maio de dois mil e nove, partimos em direção ao córrego dos Bandeirantes. Um ônibus da UNESP nos deixou em uma estrada próxima à entrada da trilha que leva até a nascente. Antes de iniciarmos a caminhada, transmitimos algumas orientações e apresentamos os instrumentos que estavam disponíveis para uso comum: um aparelho GPS e dois cadernos para anotações.
O relato da saída de campo que segue são os registros, integralmente como redigidos, desses cadernos. Está organizado cronologicamente e o que distingue a autoria é o espaçamento de uma linha entre os registros.
Figura 3: “Antes de iniciarmos a caminhada, transmitimos algumas orientações...” (foto de F. Meirelles) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Encontro com os alunos da Unesp. Estamos na nascente do Ribeirão Claro.”
“A caminhada começou as 8:30. Foi interessante passar pelos locais e relembrar trechos do registro previamente entregue a nós, o qual relatava uma visão pessoal do Felipe sobre a
paisagem. Eu vejo um pouco diferente. Uma das alunas do Peja diz: “Eu quero voltar p/ minha terra só para poder andar por aqui” (ela se referia à sua terra natal, Alagoas, e o “aqui” se referia ao córrego em frente ao qual nos encontrávamos). “Lá, é mais limpo, ela finaliza”. Faz mesmo sentido que uma terra chamada Alagoas tenha muitas águas, ou muitos lagos. Ou melhor, faria sentido que fizesse sentido. Tenho minhas dúvidas se ainda faz.”
“Carlos agora explana a respeito do formigueiro e das formigas. No formigueiro existe uma espécie de fungo simbionte.
Esta espécie coleta sementes para alimentar o fungo. Daniel também participa das explicações.
Agora Felipe conversa com a turma sobre o córrego á nossa frente.”
Figura 4: “Carlos agora explana a respeito do formigueiro e das formigas.” (foto de A. Campos) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
A água é bem cristalina e o riozinho fica encaixado num solo bem escuro, possivelmente com matéria orgânica.”
“troca de caderno. 2 teias de aranha bem legais. Ou seria uma delas uma hifa de fungo. Ou uma hifa de fungo junto com uma teia. O solo daqui é bem lamacento. Lírio do brejo. Bem cheiroso, branquinho. Uma flor bonita. “A gente é natureza também e sem ela a gente não vive” disse o Dani. Percebo que as senhoras do PEJA de fato se sensibilizam. Há degradação de algumas áreas por onde passamos.
O “Quase” colocou o lírio em outra planta. Peculiar. Estamos adentrando mais no mato. 2 teias grandes c/ suas respectivas donas. As teias em seqüência uma atrás da outra lembram um véu, criam um padrão de natureza bem bonito.
“Nada é por acaso e o Universo está em harmonia” Michele. Eu digo que estou feliz em conhecer esta área.
Som da água. Consigo ficar muito tempo ouvindo só isso. A mata fala o dia todo e hoje em dia eu quase nunca fico próxima para ouvi-la. Acho que essa atividade pode revelar muito nesse sentido. Mesmo estando a área já tão degradada pelo homem.
Dona Célia disse que nunca viu algumas das coisas que vê hoje. Bom se surpreender sempre.”
“Os cipós buscam o molhado da terra. Borboletas, pequeninas se deixam ser interpretadas por flores. Agrupadas, elas se esquentam, juntas se protegem.”
“Achamos um pé de borboletas, vimos vários pássaros, mariposas, andando em grupos achamos muito mais coisas, e um mostra ao outro. Em meio às árvores vimos lixo e ao fundo vemos um caminhão de entulho.
Guapuruvus, taboas, goiabeiras, pau-formiga e a percepção vai além, cada um com o que lhe chama mais atenção.”
Figura 5: “Achamos um pé de borboletas...” (foto de F. Meirelles) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Chegamos na nascente do córrego dos bandeirantes demos uma parada para tomar água da bica.
Estou maravilhada com a natureza, tudo é perfeito falta consciência do povo, para não poluir muito.
Falamos sobre a importância as água em nossa vida.”
“Gostei muito de aprender que onde há nascente precisa ter uma área de mata para a preservação da água. È muito maravilhoso este passeio pois estamos conhecendo o que tem de belo em Rio Claro.”
Figura 6: “Chegamos na nascente do córrego dos bandeirantes demos uma parada para tomar água da bica.” (foto de A. Campos.)
Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“O olho d´água reserva os remanescentes dessa vida maior chamada comunidade. Nos despedimos da origem do fluxo e seguimos em meio a grama seca pelo fogo. Esses vegetais trabalham para reparar nossos atos.
Ossos registram o abandono.”
“Nesse momento acabamos de voltar da trilha da nascente, grupo conversa ativa e animadamente, há uma interação amigável entre todos. Alguns tomam água, tiram suas blusas, pois agora a neblina dissipara-se totalmente e o sol já esquenta intensamente. Uma colega tira o sapato, pois o mesmo fora invadido por formigas lava-pés. Apesar do susto, nada grave aconteceu.
O grupo reúne-se em torno de uma ossada, onde um colega explica os processos de preservação e fossilização de organismos. Ao fundo, um lindo beija-flor verde metálico forrageia a procura de alimento.”
Figura 7: “Nesse momento acabamos de voltar da trilha da nascente...” (foto de F. Meirelles) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Estamos no caminho de volta da nascente e Alessandro está dando uma breve explicação sobre o processo de formação de fósseis. Entretanto tenho necessidade de registrar dois momentos que aconteceram no caminho de ida. O primeiro foi o encontro c/ uma mariposa que repousava tranqüilamente sobre uma folha de um vegetal que não consegui identificar. De beleza rara suas asas pareciam com um tapete verde e bordas cor-de-creme. Corpo completamente coberto por pêlos, linda. Nunca havia visto uma como esta. Permaneci durante algum tempo admirando sua exótica beleza. Também fiz questão que outras pessoas tivessem a mesma experiência que eu.
A segunda experiência, muito mais simples, mas igualmente gratificante. Que para muitas pessoas pode não ser algo significativo, para mim foi algo que despertou minha percepção. A
experiência em si foi a observação de uma gota de água (orvalho), paralisada sobre a superfície de uma folha de uma Melastomatácea. Ela estava bem na ponta da folha quase que p/ cair, mas insistia em ficar lá. A única, não existia mais nenhuma sobre todo o vegetal. De tão perto de sua borda a gota d´água deixava passar os raios solares por suas moléculas, formando um prisma de diferentes cores e brilho intenso. Contrastando com todo o lixo que pode ser encontrado por perto.
Neste momento me lembro que sou um homem da Terra, ligado intimamente com a natureza que está ao meu redor e em meu interior. Pé no chão, na terra, no barro... é disso que eu gosto.”
Figura 8: “... um colega explica os processos de preservação e fossilização de organismos.” (foto de F. Meirelles)
Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Troca de saberes. De uma observação uma motivação para a troca. Uma formiga, a água, uma ossada ou um pássaro, tudo é motivo para iniciar, naturalmente, uma troca. Eu observo e registro o meu olhar sobre tudo o que acontece através de uma lente.
O que nos une? A observação do ambiente, da natureza (em grande parte sofrendo as conseqüências dos maus cuidados humanos) mas o que realmente me interessa, o que realmente atrai os meus olhares, a minha atenção é o humano. O relacionamento humano em meio a essa natureza. Múltiplas aulas, nada convencional. Todos são professores, ao mesmo tempo que também se é aluno... troca?
O homem na natureza, a natureza no homem... eucaliptos, margaridões, lixo e humanos.”
Figura 9: “... o que realmente atrai os meus olhares, a minha atenção é o humano.” (foto de A. Campos) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Início da trilha após cerca – Divisa do Horto com a UNESP. Continuação do Córrego dos Bandeirantes.
Infelizmente, ao contrário da nascente, aqui a água não está nada limpa.
Apenas alguns metros e vemos bastante diferença. Muito lixo, coloração da água bem verde, sem peixes. Está bem poluído.
Parada breve. Algumas pessoas conversando, interagindo, outras observando. Outras escrevendo.
Retorno da trilha, agora sentido Ribeirão Claro.
De um lado, um talhão de eucaliptos, do outro uma mata em regeneração seguindo o Córrego dos Bandeirantes.”
Figura 10: “De um lado, um talhão de eucaliptos, do outro uma mata em regeneração...” (foto de F. Meirelles)
Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Tum, tum, tum, tum... sinto a vibrações dos meus passos na terra, ouço o som.
Infelizmente meus pés estão calçados pois é grande o risco de contrair doenças como micoses e verminoses. Sinto diariamente a falta de uma floresta saudável. Por aqui, somente eucaliptos e áreas descampadas, as habitações humanas não têm canalização adequada para o esgoto e o córrego que visitamos arca c/ as conseqüências... Justo a água!
A situação que encaramos hoje em dia na Terra é desanimadora. Hoje, temos que ser fortes, que recriar e alimentar as esperanças. O fato de estarmos aqui reunidos, compartilhando, trocando, é uma esperança.
Chegamos em um nível tão perigoso no trato com a natureza, no trato com as pessoas que, finalmente, parece crescer a consciência de que só cuidando uns dos outros e do meio, criaremos um mundo onde a felicidade coletiva e genuína, impere. Finalmente estamos entendendo que a ciência e a tecnologia não são nada sem o amor e bom-senso.
Chegamos em um ponto em que amarmos uns aos outros é questão de sobrevivência! Se todos amassemos o rio...
Beleza e destruição contrastam, convivem.
A nossa geração tem uma bela duma missão, uma grande responsabilidade. A maioria de nós já encontrou o mundo num processo violento de destruição. Nosso trabalho é recuperar a natureza, e pra isso é preciso recuperar o Homem.”
“Em cima ouço sons de quero-quero, muitos. Quanto lixo no córrego!”
“Encontramos o córrego, desta vez com muito lixo. A mesma água que bebíamos com muito gosto pouco distante daqui; não dá vontade mais de repetir este ato.”
“Paramos perto do córrego para conversar sobre a diferença da nascente, a água esta mais turva e a quantidade de lixo é absurda.
Pobres sapinhos e pererecas, o córrego não é mais um ambiente para eles.
Dona Severina “construiu” uma ponte para todos passarem pelo brejo. Alguns tocos são bem úteis nessa hora.
Os margaridões acompanham nossa saída o tempo todo. Pequenos sóis que iluminam nosso caminho.”
Figura 11: “Quanto lixo no córrego!” (foto de F. Meirelles) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Assutador!!!
O córrego que se mistura c/ o lixo. Onde está a força maior?
Na água cristalina que teima em correr cristalina?
No colorido dos plásticos (objetos) que se seguram / enroscam em cada obstáculo?
Podemos pensar que ambos geram resistências que poderiam nos conformar? (deixar conformes...) .”
INTERMEZZO: o canto do sapo que ouço e não ouço.
Ao fundo, girassóis que não são girassóis.... mas belos, bela é a parede que formam. INTERMEZZO: mudas de recuperação (Mandioca fritinha... hum...). A natureza é mãe, não tem jeito!
Agroecologia e SAF.
IBIRACEMA: nome da terra.”
Figura 12: “Pequenos sóis que iluminam nosso caminho.” (foto de A. Campos) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Benvindo a Ibiracema, onde plantei e o rio esculpiu. Onde chorei pelo o que se extinguiu. Terra de ninguém cultivada por alguns e explorada por outros.
Hoje só trabalho, espero surgir a sombra neste lugar.”
“Andamos ao longo da área do GIRASSOL c/ algumas mudas se estabelecendo.
Observamos um poço no curso do córrego o qual poderia ser muito bem aproveitado caso não fosse poluído.
Gado ao longo da área.
“O sol ainda não está a pino, mas quase. Caminho por entre mudas, muito cuidado. Nas conversas conheço pessoas antes desconhecidas, e gosto. Onagracea (será que é assim que escreve?) é o nome de uma planta que tem uma florzinha amarela. Pesquei essa informação enquanto caminhava entre pessoas.
Encontro de grupos: nós e os bois, eles pastam, e nós? O cupim tem que ser bem assado na brasa, sabia? Eu não.
Tchau pro córrego. Caminhamos para o piquenique, não o evento mais importante, mas talvez mais esperado, principalmente agora.
Eu me despeço dele assim: estou apoiando o caderno num tronco da cerca, há arame farpado. Meus pés pisam solo úmido e barrento, o lixo persiste, a natureza também.
Agora os grupos se fundem... tudo na mesma natureza, que é única.
Justamente enquanto registro sobre a fusão dos grupos (boi e nós) o Felipe me pede p/ que fotografe tal situação, acho isso um tanto engaçado (será que tivemos um mesmo olhar sobre a situação?).”
“Começamos a volta com a despedida do riacho. Temos que atravessar uma boiada. Estamos motivados um pouco pelo sol forte (já são quase 12h00) e um pouco pela fome. Os bois caminham ao nosso lado. Bonito ver esse dois grupos lado a lado. Um no qual estou inserido. Os quero-quero avisam nossa chegada. Os anus pretos também. Nossos integrantes vocalizam uivos com a intenção de afugentar o gado. Um dos bois vocaliza como dizendo: “vamos”, pois logo em seguida já não os avistamos mais entre as árvores. Chegamos à cerca dos margaridões. Muito bom reparar as sutilezas e os detalhes, que no mato com uma menor influência antrópica (meus irmãos) parecem ficar ainda mais evidentes de tão belos.
Ouço uma pequena conversa sobre preconceito: uma senhora branca falando parabéns para um rapaz negro, por não ter vergonha de ficar em meio de brancos. Interessante a cultura ao longo do tempo.”
Figura 13: “Caminho por entre mudas, muito cuidado.” (foto de F. Meirelles) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Enfim o lixo acabou! Como é bom caminhar em terreno plano! “Aonde a vaca vai, o boi vai atrás...” – Jack, que figura...”
“A Natureza é tão bela, por isso eu hoje estou vivendo nela, e me espelho nela, o rio tão belo, os animais (gado, cavalo), plantas (capins), tudo maravilhoso.”
“Gosto bastante deste caminho, me lembra o Atum. Aliás, ele teria gostado bastante do dia que vivemos hoje. Quase toda família reunida! Seria bom...
Fico olhando estes bois. Nossa, que coisa triste que vi agora... não quero escrever sobre isso.
Figura 14: “Encontro de grupos: nós e os bois, eles pastam, e nós?” (foto de A. Campos) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.
“Acho que a cena triste foi a maneira como o “vaqueiro” tratou os animais... “Os olhos observam, mas quem enxerga mesmo é a cultura”... A dele e a nossa...”
“Picnic – hora do lunch.”
“São 12h e 40min. Estamos reunidos em um piquenique com os professores da Unesp. Na beira de um rio. Nosso passeio foi uma maravilha. Falamos sobre a água, as aves, as plantas, os répteis, o córrego do Ribeirão.”
“A hora do lanche é um momento bastante agradável, todos conversam, brincam e, como não poderia deixar de ser, comem.
“Em busca da nascente... Ao longo do rio
De água e de gente...
Impressões e saberes... Pra vida conjunta...
Na luz de um tempo que na união
flutua
Vai gado Vai bicho... Vem gente unida Sendo bem recebida.
Figura 15: “Picnic – hora do lunch.” (foto de A. Campos) Fonte: acervo de JOAQUIM, F.F.