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6. SONUÇ VE ÖNERİLER

6.2. Öneriler

Como já apontamos, para Lukács, a essência do trabalho é “uma peculiar e exclusiva articulação entre teleologia e causalidade.” (LESSA, 2002, p. 70). Isso porque somente no mundo dos homens encontramos a teleologia ou a prévia-ideação. Lukács indica que “uma posição teleológica se realiza no âmbito do ser material como nascimento de uma nova objetividade.” (LESSA, 2002, p. 70).

36 Enquanto a causalidade se caracteriza por um automovimento intrínseco e invariável, tanto em sua forma natural como causalidade natural ou mesmo em sua forma social como causalidade posta a teleologia é essencialmente posta, pois todo processo teleológico é orientado por uma finalidade e, portanto, uma consciência que põe um fim. Por outro lado, não se trata de uma simples pulsão espontânea da subjetividade, nem mesmo a elevação das categorias do real à subjetividade.

É sim, um ‘momento real da realidade material’ e, por isso, se consubstancia num movimento pelo qual a consciência, com o ato de pôr, dá início a um processo real, exatamente ao processo teleológico. O pôr, portanto, tem nesse caso um ineliminável caráter ontológico. (LESSA, 2002, p. 72).

Lessa (2002) afirma que a “coexistência concreta” entre teleologia e causalidade “tem lugar apenas e tão-somente em um único complexo: o trabalho.” E acrescenta, “isso significa que a teleologia não existe por si mesma (ao contrário da causalidade), mas apenas no interior de nexos causais determinados.” (LESSA, 2002, p. 76).

A transmutação da teleologia em causalidade posta, a partir do trabalho, representa a objetivação. Portanto, a objetivação nada mais é senão a síntese entre teleologia e causalidade, a articulação entre a idealidade da teleologia e a materialidade do real sem que teleologia e causalidade percam suas distinções essenciais. A objetivação modifica o mundo dos objetos na direção de sua sociabilização, ou melhor, na construção do humano-genérico.

Para Lukács, o mais elevado grau conhecido alcançado pelo ser, o social, se destacou do grau biológico incorporando-o e assentando nele sua existência, devido exatamente ao fato de que somente o ser humano desenvolveu a capacidade dessa operação real do teleológico. Pode-se afirmar, portanto, que o pôr teleológico funda e desenvolve o ser social, bem como que o ser social é essencialmente causalidade posta.

Ao adentrar nas processualidades sociais, os objetos não perdem sua essência natural, a madeira que se transforma em cadeira ou mesa não deixa de ser madeira. Apesar de manter seus fundamentos “ontológico-naturais”, o material transformado pelo trabalho em objeto social acaba por negar-se enquanto ser natural e passa a atuar no mundo dos homens como causalidade posta, gerando assim outras possibilidades para o agir dos homens.

Lukács, citado por Lessa (2002, p. 78), afirma:

O homem que age praticamente na sociedade se encontra, por isso, diante de uma segunda natureza, para a qual ele, se quer dominá-la (meistern) com

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sucesso, deve se comportar como se comporta para com a primeira, isto é, deve buscar transformar em um fato posto por ele o curso das coisas que é independente de sua consciência, deve, portanto, ter-lhe conhecido a essência, estampado nela o cunho que deseja.

O fato de que a causalidade posta mantém seu caráter causal puro não significa que haja uma identidade entre as leis da natureza e as leis sócio-históricas. Cada qual segue suas leis próprias. Os objetos transformados pela ação humana, no que se refere às suas propriedades naturais, seguem aprisionados em sua condição de subordinação às leis da natureza, e a objetivação nele constituída pela ação humana segue, concomitantemente, sua trajetória movida pelas leis sócio-históricas.

Ao ser objetivado, o objeto se transforma em algo distinto do seu criador, passando a existir, enquanto causalidade posta, como segunda natureza em relação ao seu criador. Possui, assim, uma relativa autonomia, exercendo um estímulo de retorno em relação a quem o criou, bem como em relação à sociedade. “A legalidade imanente ao novo objeto e as relações que porventura termine por estabelecer com a totalidade do existente são as determinações decisivas ao seu desenvolvimento.” (LESSA, 2002, p. 79).

Todas as criações humanas se destacam dos seus criadores e passam a pertencer à sociedade na qual estão inseridas. Mesmo que as objetivações criadas e, portanto, constituintes da totalidade social necessitem da mediação dos indivíduos concretos para existirem, tais objetivações sempre manterão em relação a esses mesmos indivíduos uma exterioridade e uma objetividade que só podem ser transformadas pela ação dos homens.

Nesse processo ininterrupto de transformação da natureza e das objetivações produzidas, nesse caso já dependendo de mediações conscientes mais desenvolvidas e, portanto, exigindo uma processualidade mais complexa – criação e utilização de ferramentas simbólicas: linguagem, operações de cálculo etc. –, é que o ser humano avançou no domínio pleno da natureza a ponto de superar, pela revolução industrial, formas de organizações societárias que não conseguiam produzir o suficiente para todos os indivíduos dela constituinte. Mais adiante, veremos que essa conquista – “do reino da abundância” – não significou que tal produção fosse destinada a saciar as necessidades (material e espiritual) de todos a partir das possibilidades e das capacidades de cada indivíduo.

Vejamos um excerto de Lukács, apresentado por Lessa (2002, p. 80), que nos parece esclarecedor:

A base do trabalho é que o ser, o movimento etc., da natureza são completamente indiferentes para com nossas decisões; é apenas seu

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conhecimento correto que permite dominá-los praticamente. Ora, o conhecer social tem certamente, também ele, uma legalidade imanente ‘natural’ e nesse sentido se move independentemente de nossas alternativas, do mesmo modo como o faz a natureza.

O fato de que as objetivações/causalidades postas possuam uma legalidade imanente e que, portanto, para atuar com e sobre elas tenhamos que possuir conhecimento necessário (consciência) reveste-se da maior importância, pois esse caráter post festum da teleologia nos permite entender porque todos os demais complexos – o jogo, a arte, a ciência etc. – surgem a partir do trabalho. Isso ajuda também a entender aquilo que Marx já havia deduzido ao analisar a “mercadoria” como essência do capitalismo, ou seja, de que, em última instância, não é a consciência dos homens que determina a sociedade, e sim a sociedade que determina a consciência dos homens. Portanto, tal constatação ontológica é fundamental para entendermos o surgimento e o desenvolvimento de complexos fundamentais, tais como a ciência, a política, o direito, a arte, bem como o jogo – e seu representante degenerado: o esporte.

Lessa (2002), em relação à concepção lukacsiana de “segunda natureza”, afirma que “uma vez objetivado, o ente adquire uma objetividade independente (em um grau maior ou menor, conforme o caso) da consciência que o pôs.” (LESSA, 2002, p. 81). E conclui argumentando que a legalidade imanente a uma objetividade (seja ela um objeto singular ou a totalidade das relações sociais), sua causalidade posta, precisa de um quantum de consciência enquanto “medium necessário” para sua reprodução. No entanto, tais criações humanas desenvolvem-se “de forma puramente causal, não teleológica e, por isso, na cotidianidade, se confrontam com os indivíduos como uma ‘segunda natureza’.” (LESSA, 2002, p. 81).

Em última instância, isso nos mostra como o mundo dos homens, distinto da natureza, é tão material e objetivo (segunda natureza) como o mundo da natureza. Trata-se de um ente com história própria que “realizará seu desenvolvimento com base em sua legalidade imanente e nos nexos causais dos quais vier a participar no interior da totalidade da qual é partícipe.” (LESSA, 2002, p. 82). O referido autor sintetiza citando Marx (1987): “os homens fazem a história, mas em circunstâncias que não escolheram.” (MARX apud LESSA, 2002, p. 83).

Como vimos, a relação teleologia/causalidade somente se verifica no ato de trabalho, ou seja, quando se produzem objetivações (causalidades postas). Isso nos dá elementos para adiantarmos algumas reflexões sobre o complexo jogo no que se refere à sua função sociometabólica na esfera da reprodução social, uma vez que, como veremos na próxima seção, as ações e operações que o constituem são orientadas por uma situação imaginária,

39 primordialmente refletida do trabalho (reino da necessidade) e, portanto, parece tratar-se de uma relação teleologia/causalidade imaginária e/ou refletida. Ao analisarmos a brincadeira como atividade principal do desenvolvimento da criança em idade pré-escolar e sua evolução para o jogo com regras da etapa de escolarização, tentaremos aprofundar melhor o entendimento dessa questão com base na psicologia histórico-cultural.

Benzer Belgeler