Em geral, todas as edificações apontadas como de uso habitacional coletivo popular, apresentam alto grau de deterioração. Isso se dá pela falta de investimentos em manutenção, pelas muitas adaptações construtivas – como acréscimo ou alterações no dimensionamento de cômodos, “gatos” junto à rede de fiação elétrica, adaptações hidráulicas para provimento de mais conjuntos hidro-sanitários, etc. – que vão sendo executadas sem planejamento, sem muitos recursos disponíveis ou acompanhamento de um profissional habilitado. Normalmente, estas adaptações ou arranjos construtivos são feitos pelos próprios moradores em troca de isenções de pagamento de aluguel por tempo determinado ou de algumas regalias dentro das regras de convívio interno, como tempo de uso do banheiro, por exemplo.
Neste item, procuramos destacar as edificações que, apesar do nível de degradação, estão inseridas em um conjunto de edificações de grande interesse histórico, cultural e arquitetônico. Algumas se apresentam de forma isolada na quadra, tendo em vista as transformações ocorridas na configuração da área central de Campinas ao longo do tempo e o processo de demolição e construção de novas edificações, inclusive ligadas a outros usos que não o habitacional.
Outras compõem, junto às edificações de características similares localizadas no entorno, conjuntos arquitetônicos de grande interesse histórico produzidos por engenheiros-arquitetos e construtores no período compreendido, sobretudo, entre às décadas de 1870 e 1930.
Seus proprietários normalmente moram no próprio imóvel ou em imóveis próximos. No primeiro caso, o proprietário, em geral, é de classe de renda baixa ou média baixa, cuja única propriedade muitas vezes é aquela edificação deteriorada que ainda lhe serve como moradia na área central. Para ele, a locação de cômodos ou
Figura 33 – Conjunto arquitetônico (imóveis tendo uso habitacional coletivo) Rua Marechal Deodoro, nº 776, 784, 786, 796
vagas é a alternativa encontrada para garantir sua subsistência, a manutenção do imóvel – ainda que insuficiente – e o pagamento de taxas incidentes sobre o mesmo.
No segundo caso, o proprietário já deixou a área central tendo em vista outras regiões da cidade enquanto local de moradia, e vê, na locação de cômodos ou vagas, uma forma de adquirir algum rendimento, além de manter o imóvel ocupado e, assim, evitar uma depredação mais aguda. O uso coletivo, através desta atividade de locação, se dá, normalmente, através de um administrador ou intermediário, nestes casos, enquanto o proprietário aguarda momento mais oportuno, em termos de lucratividade, para a venda do imóvel.
Observa-se que tais imóveis, gradativamente vão sendo adquiridos pelas grandes incorporadoras atuantes da região, formando conjuntos de terrenos que, quando englobados, são de grande interesse especulativo e deflagram a centralização da propriedade. Até a formação desses conjuntos de terrenos, as incorporadoras mantêm os imóveis em alto grau de deterioração, estimulando o uso coletivo de modo a estimular o processo de degradação e a conseqüente desvalorização dos imóveis vizinhos, além de adquirir recursos para pagamento de impostos e taxas incidentes sobre os mesmos. Outra
conseqüência para estes imóveis é sua demolição e substituição de uso, já que em geral transformam-se em estacionamentos particulares, cuja lucratividade adquirida teria a mesma finalidade. Não há preocupação com a preservação do patrimônio histórico ou de interesse arquitetônico, nestes casos. Ao contrário, as incorporadoras trabalham em sentido contrário à preservação, sendo comuns histórias de demolição durante a madrugada de forma a não despertar a reação de grupos de defesa do patrimônio construído.
Figura 34 – Seqüência de imóveis: “Pensão Estrela”, “Pensão Familiar” e Estacionamento
“RCS Park”
Rua Dr. Mascarenhas, nº 387, 391, 415 Arquivo pessoal – 22 de janeiro de 2008.
Neste sentido, destacamos o estudo desenvolvido pela Coordenadoria Setorial de Patrimônio Cultural (CSPC), da Secretaria Municipal de Cultura de Campinas, com apoio da FAPESP, que realizou um extenso inventário dos bens culturais situados na região central de Campinas68
, guiando-se pelas diretrizes adotadas no “Inventário Nacional de Bens Imóveis dos Sítios Urbanos Tombados (INBI-SU)”, desenvolvidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), desde 1998 (MINC/IPHAN, 2001)69
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O estudo destaca a Resolução n°. 04/90 do Condepacc, que dispõe sobre o tombamento do Complexo Ferroviário Central de Campinas, e da decorrente fragilidade desta figura. Ao menos durante a primeira década de atuação do
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Foram visitados e inventariados cerca de 760 imóveis, dentre os quais aproximadamente 250 foram selecionados para estudos detalhados que ora compõem as relações apresentadas para a abertura de processos de tombamento. O estudo foi finalizado em 2008.
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Dados sobre a metodologia de trabalho e os resultados obtidos pelo órgão federal de preservação podem ser conferidos em www.iphan.gov.br. Sobre o assunto conferir também MINC/IPHAN, 2005.
Figura 35 e 36 – Imóvel com alto grau de degradação e uso habitacional coletivo Rua General Osório, nº 79
Condepacc, foi comum o emprego do termo “preservado” nas resoluções de tombamento, utilizado para designar bens situados na área envoltória dos bens tombados que não poderiam ser modificados ou demolidos sem prévia autorização do conselho, em diferentes graus (preservação total, preservação de fachada e/ou volumetria, por exemplo). Na prática, esses imóveis ficavam, muitas vezes, submetidos às restrições impostas a um imóvel tombado, sem que o fossem juridicamente. Por outro lado, não caberiam aos proprietários os benefícios concedidos àquela figura, como a concessão de isenção de imposto predial territorial urbano (IPTU) ou a possibilidade de concorrer a linhas de financiamentos para recuperação dos imóveis.
Figura 37 – Mapa com a delimitação da área de estudo do “Inventário da Região Central de Campinas”
Fonte: informação pessoal. Prefeitura Municipal de Campinas. “Inventário da Região Central de Campinas”. Campinas, 2008. Relatório Final. Mensagem enviada pela Arq. Rita Francisco,
Agente Cultural – CSPC/SMCEL/PMC, para [email protected] em fevereiro de 2009. Além disso, o estudo da CSPC verificou que muitos dos imóveis “preservados” em resoluções se encontram desfigurados. Por esse motivo abrangeu uma completa revisão dessa situação, culminando com o tombamento daquelas edificações significativas e ainda íntegras — individualmente ou em conjuntos urbanos — e a
retirada da listagem daquelas descaracterizadas ou mesmo demolidas parcialmente das respectivas resoluções em que estiverem arroladas nos termos ora descritos.
Figura 38 – Perímetro de Estudo adotado para a pesquisa, com cruzamento dos dados resultantes do “Inventário da Região Central de Campinas” e pesquisa de campo Fonte: Arquivo pessoal, com base no Mapa geral dos conjuntos em estudo de tombamento (In:
Prefeitura Municipal de Campinas. “Inventário da Região Central de Campinas”. Campinas, 2008, prancha 1/30. Relatório Final. Mensagem enviada pela Arq. Rita Francisco, Agente
Vale ressaltar que, em pesquisa executada junto ao setor de cadastro da prefeitura e demais órgãos pertinentes, boa parte destas adaptações construtivas não passam por processo de aprovação ou regularização junto à prefeitura. Não há também indícios de fiscalização que atuem no sentido de verificar a área mínima resultante dos cômodos, área de ventilação e iluminação mínimas, largura de corredores, número de conjuntos sanitários, etc. A fiscalização também não passa pela existência ou não de alvará ou licença de funcionamento e outros documentos relacionados à ao uso atual destas edificações.
Também destacamos a presença de outras edificações que, pelo contrário, não apresentam interesse histórico-arquitetônico por suas características construtivas, nem são relacionadas diretamente a um conjunto arquitetônico urbano ou a determinado momento histórico-cultural de interesse. Ainda assim, são relevantes, e compõem,
junto às outras tipologias, o quadro da habitação popular na área central de Campinas.