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e do outro brilhante, polido e irregular. As características dos vidros obtidos com esta técnica, certamente levariam à transparência do material que seria uma qualidade inerente dos vidros quase inexistente (ORTIZ PALOMAR, 1997: 438; LANCASTER, 2014: 175; RIBEIRO, 2010: 96; DIAS DA CRUZ, 2009: 154).
Para finalizar, os arqueólogos María Ortiz Palomar e Juan Paz Peralta (ORTIZ PALOMAR, 1997: 440-443) tratam, em seu artigo sobre os vidros romanos na Hispânia, de analisar os exemplares de vidros de janelas encontrados pelos escavadores em Bilbilis [11], Labitolosa [27] e Los Bañales [29].
Em Bilbilis, os vidros datam do século II d.C. e, além dos numerosos fragmentos recuperados no contexto termal, se destacam os fragmentos constituintes de uma janela cujo vidro quadrado (0,44 m de lado) apresenta as maiores dimensões já analisadas na Hispânia. Da análise dos fragmentos deste vidro se verifica que a técnica utilizada, como era comum no Alto Império, consistia na do fundido em moldado. De acordo com os arqueólogos, os fragmentos apresentam marcas de ferramentas metálicas, ganchos e pinças, próximas aos cantos indicando o trabalho de estiramento da massa vítrea; verifica- se também que eles são planos de espessura irregular, com os cantos arredondados polidos ao fogo, e com marcas impressas semelhantes a estrias de madeira ou de corpúsculos de areia.
Na cidade de Labitolosa, após a análise e classificação dos inúmeros fragmentos de vidro localizados no ambiente termal (análise essa que levou em consideração o cromatismo, a textura e o grau de transparência, a qualidade da manufatura e o número de ângulos entre outros fatores), focalizou-se nos fragmentos de um vidro de uma janela circular (0,48 m de diâmetro), único exemplar do tipo no contexto peninsular ibérico. Na ausência de informações adequadas sobre janelas circulares, os arqueólogos assimilam o exemplar de Labitolosa àqueles casos em que os oculus de vidro se localizam em ambientes aquecidos, como é o caso da janela circular do schola labri do caldarium masculino da terma do Fórum em Pompéia [47].
Já no caso de Los Bañales, as únicas informações a respeito atestam que os fragmentos pertenceriam a cinco vãos de janelas, sendo que as qualidades físico-químicas deles focam na coloração azul-esverdeado, com poucos exemplares incolores.
Materiais metálicos – Ao levantarmos algumas informações sobre o uso de material metálico nos ambientes termais nas fontes textuais romanas, encontramos pouquíssimas indicações nas que analisamos. Apenas em Sêneca (Epístolas morais a
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Lucílio, 86) temos referências de torneiras de prata sendo utilizadas nas termas (nisin aquam argentea epitonia fuderunt), geralmente nos alveis ou nas piscinae, enquanto que em Plínio o Velho (História Natural, livro XXXIII, 152-153) vemos a afirmação do uso da prata pelas mulheres como parte de um ambiente de luxo nos banhos, ainda que o autor romano não tenha deixado claro de que forma a prata era utilizada nas termas.
Por sua vez, no tratado de Vitrúvo encontramos três importantes referências ao uso dos metais dentro do ambiente termal. A primeira referência focaliza na informação de que as três caldeiras de metal utilizadas para o aquecimento da água (em três diferentes temperaturas, indo da fria para a quente) nos ambientes quentes deveriam ser fabricadas com o bronze. A segunda diz respeito ao uso de ganchos, cravos e barras de ferro na construção das vigas de sustentação do telhado e das abóbodas. A última trata do emprego de um disco ou escudo de bronze (clypeum) no topo do laconicum para regular a temperatura e o vapor dentro daquele ambiente (Livro V, 10.1-5; LANCASTER, 2014: 174).
À semelhança do que costuma ocorrer com os materiais vítreos, os materiais metálicos têm poucos exemplares no registro arqueológico em instalações termais, se comparados com os materiais laterícios ou pétreos, apesar de que em nosso catálogo [tabela 12] pareçam numericamente superior por estarem presentes em maior número de edifícios. Dos vestígios metálicos recuperados nas escavações, apenas três tipos de metais foram identificados – o ferro, o chumbo e o bronze. Ao fazermos uma leitura das fichas de registro, a partir dos dados da [tabela 12], podemos verificar que: a maior parte dos artefatos de ferro é totalizada pelos pregos utilizados nas concamerationes, e em seguida vêm as barras de ferro e as plaquetas (estas últimas teriam função de arruela dos pregos); o uso do chumbo está praticamente vinculado à produção de tubos (fistulae) para as canalizações hidráulicas das termas; e o bronze apareceu apenas como plaquetas cuja função não é determinada.
No que tange ao uso dos metais no mundo antigo, especialmente no romano, havia uma gama muito grande de tipos deles disponíveis para uso, desde os mais valiosos como o ouro e a prata, em geral destinados para estátuas, moedas e outros, até os mais comuns como o ferro, o chumbo, o estanho e o cobre (estes dois últimos formando uma liga que dá origem ao bronze) que eram empregados para a fabricação de ferramentas, armas e armaduras, utensílios de carpintaria como pregos e cravos, além de tubos de diferentes secções para as canalizações de água, em geral.
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De acordo com Craddock, o emprego do bronze para as mais diferentes formas e utilidades (domésticas, militares, etc) foi rapidamente suplantado no primeiro milênio pelo emprego do ferro (em armas e ferramentas), porque tinha uma resistência muito maior, além de estar mais facilmente disponível em diversas regiões e em quantidades maiores. Ainda durante o primeiro milênio, a Península Ibérica63, dentre as várias regiões
que compunham o vasto mundo romano, era uma grande fornecedora de minerais com destaque para a prata, na região de Carthago Nova, para o ouro, extraído no noroeste da Hispânia, além do mercúrio e estanho, obtidos na região central da península, e para o chumbo e o cobre que podiam ser extraídos em qualquer região da Ibéria. No que ainda diz respeito ao ferro, era no trabalho com o ferro fundido, desde que contivesse uma pequena porcentagem de carbono, que se obtinha o aço num processo de fundição e refinamento. Por sua vez, a tradicional liga de cobre e estanho, que dava origem ao bronze desde o quarto milênio, veio a ser alterada com a inclusão do chumbo, para efeitos de fundição, e do zinco ao invés do estanho, gerando uma nova liga, o latão, que podia ser visto nas cunhagens e objetos de uso pessoal, principalmente na região oriental do Império (CRADDOCK, 2008, 93-110).
Finalmente, no quadro abaixo temos a definição proposta pelo arquiteto Francis Ching (CHING, 2006: 198-203) dos quatro principais metais descobertos nas escavações:
g. Quadro com a descrição dos tipos metálicos
Metal Termo latino Definição
Bronze AES Tradicionalmente qualquer uma das ligas que
consistem em cobre, estanho e, às vezes, outro metal.
Chumbo PLUMBUM Elemento metálico pesado e maleável, de
coloração cinza-azulada. Símbolo: Pb
Cobre AES Elemento metálico dúctil e maleável, de
coloração marrom-avermelhada, utilizado em condutos de água e na fabricação de ligas como o bronze e o latão. Símbolo: Cu
63 A arqueóloga britânica Janet DeLaine (DeLAINE, 1997:97-98), no seu estudo arquitetônico-construtivo sobre a terma de Caracalla, faz uma exposição acerca das origens das matérias-primas utilizadas na construção do edifício tais como, os tijolos, as pedras, a madeira, os metais, etc. Para o caso dos materiais metálicos, ela atesta que dos três principais metais empregados na antiguidade para os Banhos – ferro, chumbo e bronze -, muitos depósitos de ferro eram empregados para suprir Roma desde o século III a.C. e tinham a suas origens em diversas regiões provinciais entre as quais a Hispânia, a Gália e Noricum. O ferro hispânico era considerado de alta qualidade e utilizado principalmente em armaduras e ferramentas, embora, segundo DeLaine, não tenha sido empregado o ferro hispânico como elemento construtivo e os romanos tenham preferido fontes mais próximas.
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Estanho STANNUM Elemento metálico lustroso, de baixa fusão e branco-azulado, maleável e dúctil, utilizado na fabricação de ligas. Símbolo: Sn
Ferro FERRUM Elemento metálico maleável, dúctil, magnético, branco-prateado do qual é produzido o aço. Símbolo: Fe
Concreto e argamassa64 – antes de tratarmos especificamente sobre a origem, a composição, o desenvolvimento e a aplicação do concreto romano na construção edilícia nas suas duas principais formas – o opus caementicium e o opus signinum -, nos parece relevante expor o entendimento que os autores antigos tinham do concreto, e por extensão dos seus componentes materiais, como um elemento construtivo. Ao par disso, mencionamos nas notas de rodapé algumas breves definições terminológicas, tendo por referência a obra de René Ginouvès (1985).
Na obra Farmacologia (De Materia Medica), datada do século séculos I d.C., o autor greco-romano Pedânio Dioscorides expõe a sua percepção sobre a composição da cal viva65 (Calx viva). Segundo este farmacólogo grego, a cal era feita a partir da obtenção de conchas marinhas que passavam por um processo de queima até ficarem muito brancas para, em seguida, serem colocadas num recipiente de água gelada para o resfriamento e posterior secagem, sendo que todo o processo duraria dois ou três dias. A mesma cal poderia também ser feita com pedras que eram queimadas ou mármore (Farmacologia, livro V, 115 apud HUMPHREY, 1997:243).
64 Aparentemente, existe no Dictionnaire Méthodique de l’Architecture (GINOUVÈS, 1985: 45-52) uma certa semelhança intercambiável nas definições terminológicas entre o cimento, o concreto e a argamassa (ciment, béton e mortier, respectivamente). O termo Cimento é definido como um material obtido a partir da calcinação do calcário margoso contendo na sua composição uma porcentagem em torno de 30% de argila. Contudo, os autores do dicionário recomendam que o termo seja evitado na literatura arqueológica e substituído pelo termo técnico Argamassa. Por sua vez, a Argamassa se define como uma mistura de vários materiais rochosos e de água, que o processo de cura leva ao endurecimento após uma série de reações químicas, permitindo assegurar a ligação entre os elementos sólidos. Havia vários tipos de argamassas: a simples, com um único material rochoso ou vegetal; a composta, com uma variedade de rochas compondo a mistura; a de cal, que integrava na mistura a cal, a areia e a água; a hidráulica, contendo a cal hidráulica (matéria prima contendo entre 6% a 20% de argila) como ligante da mistura; e a signinum, mistura contendo cal, areia, água e material cerâmico. Por fim, o Concreto é definido como uma mistura à semelhança da argamassa composta contendo vários materiais rochosos e água, endurecendo através da reação química, mas, com o diferencial de que os elementos servindo de agregados (seixos, pedaços de tijolos ou terracota, pedriscos, cascalho, etc.) à mistura tinham dimensões superiores a 5 milímetros. Já no
Dicionário Visual da Arquitetura, o Concreto é descrito como um material de construção artificial,
semelhante à rocha, obtido mediante a mistura de cimento, diversos agregados minerais e água suficiente para promover o seu endurecimento. Com relação ao Cimento, é considerado uma mistura calcinada de argila e calcário, finamente pulverizada e utilizada como ingrediente de concretos e argamassas, podendo o termo ser intercambiável ao do concreto (CHING, 2006: 52).
65 Calx viva, produto da calcinação anídrica CaO. Quando analisarmos a cal, veremos como os estudiosos modernos entendem nos dias atuais a obtenção da cal viva e da cal hidratada Ca(OH2).
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O arquiteto Vitrúvio Polião também expôs os seus comentários acerca da cal e dos procedimentos para a sua obtenção. De acordo com Vitrúvio, a cal viva deveria ser obtida com a queima de pedra branca - tufo calcário (Silex – pedra dura e sólida de origem vulcânica), sendo que a utilidade da cal se daria tanto nas estruturas constituídas de pedra sólida quanto como revestimentos naquelas constituídas de pedra porosa. Após a queima da cal, os responsáveis pela produção desta matéria prima deveriam proceder à sua hidratação (calx extincta). Neste ponto, o arquiteto nos fornece a sua composição ideal de argamassa que se comporia de uma parte da cal hidratada, ou apagada, com três partes de areia fóssil ou então duas de areia fluvial ou marinha. Para obtenção de uma argamassa com melhor aplicação se recomendava a inclusão na mistura de argamassa composta com areia marinha uma terça parte de cerâmica cozida e moída, o que, nos parece, ser a definição mais simples do opus signinum (Livro II, 5.1).
De acordo com Plínio o Velho, a cal feita do sílex não era a mais adequada para a produção de argamassa para a edificação dos paramentos e nem para o revestimento, mas, no entanto, que seria preferível o uso dela se fosse feita das pedras vindas de uma pedreira do que aquelas das margens dos rios (História Natural, Livro XXXVI, 53.174; DeLAINE, 1997: 88).
Outra matéria prima componente do concreto e tratada nas fontes literárias é a areia. Ainda dentro do tratado de arquitetura, o arquiteto romano faz uma avaliação das qualidades das areias disponíveis para a construção, sempre buscando aquela que apresenta boa condição para as estruturas de concreto. Das duas areias disponíveis, a areia de origem marinha não é recomendada pelas dificuldades de secagem e de resistência à sobrecarga ao ser utilizada nas paredes e nas abóbodas. Já a areia de origem fóssil, que Vitrúvio considera haver quatro tipos – negra, branca, vermelha e vulcânica (carbunculus), teria boas qualidades aquela que, ao ser friccionada na mão, mostrasse um estridor, a que não for terrosa ou deixar manchas nos tecidos no momento dos testes de qualidade. A explicação para a reputação da areia fóssil, seja ela boa ou má dependendo da aplicação, jaz que nas estruturas ela seca rapidamente, permanece nos revestimentos e suporta o peso das abóbodas, ainda que não seja recomendada para a aplicação nos revestimentos devido às fissuras que aparecem na secagem. Em compensação, a areia fluvial ou marinha é recomendada na aplicação e consolidação dos revestimentos, o que a torna adequada ao opus signinum (Livro II, 4.1-3).
Na sua obra História Natural à semelhança das observações na obra vitruviana, Plínio o Velho identifica e recomenda três tipos de areia, aquelas de pedreiras ou fóssil e
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as de origem fluvial e marinha, sendo que com a fóssil deveria ser misturada uma quarta parte de cal e com a fluvial uma terça parte. Além disso, a ambas as misturas deveria ser acrescentada uma terça parte de cerâmica moída para dar uma melhor substância (Livro XXXVI, 54.175-177).
Além das areias e da cal, um terceiro ingrediente do concreto romano, a pozzolana, também foi comentado nas fontes literárias, principalmente por Vitrúvio (Livro II, 6.1) e Plínio o Velho (História Natural, livro XXXV.166 apud HUMPRHEY, 1997: 244-245). Ambos caracterizam, de maneira geral, a pozzolana como um pó advindo da terra que, ao contato com a água do mar e submerso, se torna uma massa rochosa e a cada dia mais resistente. Obviamente, a obra vitruviana é mais prolixa do que a pliniana. Sendo assim, na primeira, além de atestar o uso da pozzolana, elemento em pó originário das regiões de Baias e dos municípios ao redor do Vesúvio como Puteoli, quando misturada à cal e ao pedregulho possibilitava a resistência a vários tipos de edifícios e estruturas, inclusive aquelas sob a água, o arquiteto afirma que é devido à ação do fogo, ao deixar a terra leve sem a presença da água antes da sua aplicação na construção, que possibilita uma reação química (termos nossos) ao entrar em contato novamente com o elemento líquido levando ao endurecimento e à resistência do concreto inclusive contra a própria água.
Em nosso catálogo, mais especificamente no [gráfico 4], tratamos de identificar e listar todos os opera aplicados na construção das termas hispano-romanas e dentre eles estão o caementicium e o signinum. Ainda que os dois opera não tenham sido citados ou identificados pelos arqueólogos e, portanto, sendo considerados por nós apenas em caráter de amostragem, teoricamente pelo menos foram empregados na edificação de todas as termas e balnea como, por exemplo, nas fundações, como núcleo das paredes, nos revestimentos hidráulicos das piscinas e canalizações e como revestimento dos pavimentos.
Das quatro matérias-primas que integravam a composição do concreto, as duas primeiras, a areia e a pozzolana, podiam ser obtidas diretamente na natureza com mínima modificação, a terceira sendo a cerâmica cozida66, material que era fabricado a partir da argila pelo homem e utilizada como substituta da pozzolana, e apenas a quarta matéria, a cal, passava por num complexo processo de reação química que se caracterizava pela quebra, queima, hidratação e moagem da rocha calcária.
66 Assim como faremos com a cal neste segmento do capítulo, comentaremos sobre o processo de fabricação da cerâmica cozida quando tratarmos dos materiais laterícios.
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Embora a explicação do processo de transformação da rocha calcária em cal seja um tanto longa, cremos ser útil apresentar aqui uma síntese a partir dos estudos de Jean- Pierre Adam (ADAM, 2011: 69-75), de Carmelo Malacrino (MALACRINO, 2010: 61- 67) e Lynne Lancaster (LANCASTER, 2014: 173). Se antes do advento da cal os romanos utilizavam argila como ligante na alvenaria de pedra ou tijolo, foi com a introdução da cal, como integrante da argamassa, que os romanos passaram sistematicamente a revolucionar a construção em alvenaria com edificações cada vez mais resistentes e elaboradas, das pontes às abóbodas.
Sumariamente, a obtenção da cal (calx em latim) era feita pela calcinação da rocha calcária numa temperatura por volta dos 900º a 1000º em grandes fornos cônicos e fechados, à semelhança daqueles empregados no cozimento das cerâmicas, ou em covas a céu aberto. A primeira transformação química do processo de calcinação é traduzida pela equação – CO3CA > CO2 + CaO, que na linguagem corrente seria a transformação
da rocha calcária em cal viva através da queima da rocha levando a perda de 1/5 a 1/10 do peso original da rocha, o processo podendo dessa forma ser feito nas pedreiras. A segunda transformação consistia na hidratação das pedras calcinadas e poeirentas para a obtenção de um ligante. Essa hidratação convertia as pedras numa pasta plástica, gerando no meio do processo uma forte deslocação rápida de calor, por volta de até 3000º, daí vertendo a cal viva em cal extinta. A equação química do segundo processo é: CaO + H2O
> Ca (OH)2.
Ambos os estudiosos, Adam e Malacrino, comentam que a forma mais tradicional de calcinação da rocha calcária era pelo uso de um forno (fornax), ainda em uso em algumas regiões do Oriente Médio e Norte da África. Este forno, como mencionamos anteriormente, possuía a forma cônica com um diâmetro ao redor dos 7 m, ou menor dependendo da região, e com altura similar. A construção deste forno era bem simples, devendo apenas o construtor ou qualquer outro encarregado pelo forno (coctor calcis) preparar o terreno para a instalação e erguer na base de um declive uma muralha circular. A declividade do terreno proporcionaria uma isotermia e um acesso cômodo à base do forno. No interior do forno, as paredes apresentam um revestimento feito com tijolos ou pedras refratárias. Após a instalação da estrutura do forno, as rochas seriam colocadas no seu interior por ordem de tamanho, sendo a maiores embaixo e as menores até o topo cônico. Na sua base, estaria uma larga abertura (entre 1,50 e 2,50 m) por onde as pedras entrariam e a chama seria acessa permitindo, assim, iniciar o processo de calcinação. A fonte textual contendo o relato da construção de um forno semelhante nós a encontramos
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na obra Sobre a Agricultura de Catão o Velho67, datada do ano de 160 a.C.: Fornacem
calcariam pedes latam X facito, altam pedes XX, usque ad pedes tres summam latam redigito. Si uno praefurnio coques, lacunam intus magnam facito, uti satis siet ubi cinerem concipiat, ne foras sit educendus. Fornacemque bene struito; facito fortax totam fornacem infimam conplectatur. Si duobus praefurniis coques, lacuna nihil opus erit. Cum cinere eruto opus erit, altero praefurnio eruito, in altero ignis erit. Ignem caveto ne intermittas quin semper siet, neve noctu neve ullo tempore intermittatur caveto. Lapidem bonum in fornacem quam candidissimum, quam minime varium indito. Cum fornacem facies, fauces praecipites deorsum facito. Ubi satis foderis, tum fornaci locum facito, uti quam altissima et quam minime ventosa siet. Si parum altam fornacem habebis ubi facias, latere summam statuito aut caementis cum luto summam extrinsecus oblinito. Cum ignem subdideris, siquam flamma exibit nisi per orbem summum, luto oblinito. Ventus ad praefurnium caveto ne accedat: inibi austrum caveto maxime. Hoc signi erit, ubi calx cocta erit, summos lapides coctos esse oportebit; item infimi lapides cocti cadent, et flamma minus fumosa exibit. Si ligna et virgas non poteris vendere neque lapidem habebis, unde calcem coquas, de lignis carboreas coquito, virgas et sarmenta, quae tibi ustioni supererunt, in segete conburito. Ubi conbusseris, ibi papaver serito (Catão o