A escola, em linhas gerais, é uma transmissora cultural que possui o poder de articuladora da socialização entre os aspectos históricos, sociais, psicológicos e culturais. Ao discorrer sobre as práticas educativas em sala de aula, ressalta-se a presença da tríade: professor/aluno/conhecimento. Esta tríade está indiscutivelmente relacionada às condições sociais, psicológicas e culturais que constituem o ensino possibilitado pela prática docente. Coll (1992) afirma que esta tríade é responsável pela interação nos procedimentos escolares e que é no aluno que a aprendizagem se concretiza, os conhecimentos são os objetos de aprendizagem e o professor é aquele que, por meio do ensino, viabiliza a aprendizagem do aluno.
Desta forma, compreende-se que o ensino-aprendizagem se configura como uma atividade articulada entre o aluno e o professor. Esta prática, numa visão construtivista de aprendizagem escolar, apresenta-se como, segundo Coll(1992, p. 179):
atividade mental construtiva do aluno na base dos processos de desenvolvimento pessoal que promove a educação escolar. Mediante a realização de aprendizagens significativas, o aluno constrói, modifica, diversifica e coordena seus esquemas, estabelecendo, deste modo, redes de significado que enriquecem seu conhecimento de mundo físico e social e potencializam seu crescimento pessoal.
Pode-se afirmar que a atividade educativa, que é de responsabilidade do professor, necessita atuar sobre a atividade mental do aluno, gerando meios favoráveis ao seu desenvolvimento e aprendizagem, "sintonizar com o processo de construção de conhecimento do aluno e incidir sobre ele, orientando-o na direção que sinaliza as intenções educativas" (COLL, 1992, p. 186).
Segundo Sacristán (2003),a ação educativa concretiza-se no que é conhecido em relação ao ensino: prática social que se materializa na interação entre professores, alunos e conhecimentos. Esta tríade determina uma relação dinâmica de interdependência na qual "cada elemento influencia e é influenciado pela relação entre os outros dois" (HYMAN, 1974, p. 19). A atividade docente – o ensino – deve envolver essa relação interpessoal positiva, de tal forma que promova o aprendizado e o desenvolvimento da independência do aluno" (HYMAN, 1974, p. 25).
Vasconcelos (1993, p. 35) enfatiza:
A sala de aula é o lugar em que há uma reunião de seres pensantes que compartilham ideias, trocam experiências, contam histórias, enfrentam desafios, rompem com o velho, buscam o novo, enfim, há pessoas que trazem e carregam consigo saberes cotidianos que foram internalizados durante sua trajetória de vida, saberes esses que precisam ser rompidos para dar lugar a novos saberes.
Indo ao encontro ao pensamento de Vasconcelos (1993), Novaski (1993, p. 14) diz que "o professor deve ver a sua aula também como um encontro de gente com gente, de outro lado, entretanto, é preciso proteger essa ideia de reducionismo". O autor ainda diz o seguinte: "Para que serve uma sala de aula se não formos capazes de nos transportarmos além da sala de aula?" (NOVASKI, 1993, p. 15).
Dessa forma, é preciso entender que o conhecimento deve romper as paredes da sala de aula, indo em busca dos vários aspectos sociais e culturais do aluno, mas, para se transportar da sala de aula, é preciso conhecer a diversidade cultural dos alunos, que se manifesta nas aulas em torno do diálogo que se apresenta nas relações sociais, ou seja, entre alunos e entre professor e alunos. Os professores precisam estar devidamente preparados para enfrentar novos procedimentos educativos que visam à valorização de conteúdos e dos saberes que os alunos trazem da sua prática social.
Em seu raciocínio, Veiga (1992, p. 16) é enfático ao se referir à prática pedagógica: "É uma prática social orientada por objetivos, finalidades e conhecimentos, e inserida no contexto da prática social. A prática pedagógica é uma dimensão da prática social".
Neste sentido, torna-se um desafio para o professor tentar desenvolver qualquer exercício participativo neste processo educativo se não enxergar a estreita ligação da prática pedagógica com a social. Logo, para que possa ocorrer uma efetiva participação entre o alunado, é preciso ter ciência de que a aprendizagem é um exercício permanente do saber falar, questionar, contrapor, ouvir, propor, se opor, se impor, contrariar e complementar.
Tardif, Lessard e Lahaye (1991, p. 218) apontam que: "a relação dos docentes com os saberes não se reduz a uma função de transmissão dos conhecimentos já constituídos, pois sua prática integra diferentes saberes, com os quais o corpo docente mantém diferentes relações". Assim, segundo os autores, para dar conta dos objetivos traçados, os professores comumente utilizam: os saberes das disciplinas, os saberes curriculares, os saberes da formação profissional e os saberes da experiência.
Partindo deste ponto de vista dos autores supracitados, os saberes que os professores possuem são as ferramentas necessárias para o que se pretende ensinar dentro das práticas educativas.
Pimenta (1999), corroborando com os teóricos acima, destaca que tais saberes são constituídos por três categorias: os saberes da experiência, do conhecimento e os que se referem especificamente às disciplinas básicas como: português, matemática, história, ciências, geografia, e os saberes pedagógicos, que podem ser vistos como os que permitem a ação do ensinar.
Então, pode-se afirmar que a prática educativa implica numa ação consciente do professor em relação às funções que desempenha no contexto da sala de aula. Esta consciência seria o norte que permitiria organizar as práticas pedagógicas, de modo a desenvolver no educando suas inúmeras capacidades, tais como a de desafiar, provocar, contagiar, despertar a vontade, para que a interação educativa seja um dos caminhos para construir o seu próprio conhecimento.
Ao assumir o papel de mediador pedagógico, o professor torna-se provocador, contraditor, facilitador, orientador. (...) primeiro o professor faz a leitura do conteúdo, apropriando-se dele. Em seguida, coloca-o à disposição dos alunos que, por sua vez, o refazem, o reconstroem para si, tornando-o seu, dando-lhe um novo sentido. (GASPARIN, 2007, p. 113-114).
Diante do exposto, é necessário salientar que durante a pesquisa observou-se que os vários saberes dos professores do programa coadunam com os pensamentos dos teóricos supracitados por se encontrarem diretamente relacionados com as suas atividades pedagógicas cotidianas, que se equilibram entre as normas do programa e o modelo de ensino, visando sempre o aprendizado do aluno.
CAPITULO III – INOVAÇÃO PEDAGÓGICA E O PROGRAMA TRAVESSIA: ALGUMAS APROXIMAÇÕES.
3.1 A INOVAÇÃO PEDAGÓGICA E A INSTITUIÇÃO ESCOLA