9. GENEL SONUÇLAR VE ÖNERİLER
9.2. Öneriler
O termo significado encapsula noções tão amplas quanto as considerações que vimos encontrando em compêndios que tratam das discussões sobre o que é o significado. Assim, palavra, enunciado, gramática são entidades linguísticas porque se dotam de alguma espécie de significado, principalmente se considerarmos que são os arranjos estabelecidos entre eles (e entre outras entidades) que estabelecem a ponte entre a língua e o universo ao qual ela recupera por meio dos atos enunciativos.
Quando falamos que sentido não pode ser definido independentemente da enunciação, não se trata de um modelo novo e exclusivo da teoria na qual nossas crenças estão arraigadas, ao contrário, trata-se uma premissa básica da semântica. A fala de Löbner corrobora o dito: “Os significados das palavras e enunciados não podem ser estudados independentemente de como eles são tomados no discurso9.”
(2002, p.03)
Assim, a máxima de que é a língua em uso que determina os significados é um dos nortes da semântica.
Apesar dos pontos de encontro entre as teorias linguísticas, as abordagens não tardam a se distanciar em algum momento. Demonstração disso está na forma com que cada teoria expressa o sentido. Löbner (2002), por meio de um enunciado como I don’t need your bicycle (Eu não preciso de sua bicicleta, em português) e a partir da ideia de que o objetivo central da semântica é descobrir o conhecimento dos significados das palavras e revelar sua natureza, o linguista traça uma análise a fim de determinar o sentido desse enunciado. Ele começa por meio do levantamento das propriedades inerentes a cada termo (por exemplo, bicicleta: substantivo que designa um veículo de duas rodas e sem motor) para, num segundo momento, abrir espaço para os arranjos e dizer, por exemplo, que os termos /precisar/ e /bicicleta/ são os dois principais condutores de informação no enunciado.
O que fica aquém de uma perspectiva enunciativa é o fato de Löbner não colocar a relação entre cada termo como fundamental para que o referido enunciado tenha um ou vários significados. Ao recebermos esse enunciado, várias ativações são feitas: cenários são estabelecidos, situações são estabelecidas, relações são definidas e redefinidas, etc.
Em verdade, toda análise que separa o eixo paradigmático do sintagmático (que é o que Löbner faz) deixa de considerar que não há comutação lexical que não garanta uma mudança de sentido. Prova disso é que mesmo que /bicicleta/ e /patinete/ façam parte de um mesmo domínio nocional (aquele dos veículos em duas rodas sem motor), um não pode ser usado em detrimento do outro sem prejuízo ou acréscimo de sentido. Se digo “Eu não preciso de sua bicicleta, eu vou de moto, a cidade fica mais longe que eu imaginava”, o termo /patinete/, no lugar de /bicicleta/ geraria um sentido bem diferente, pois o consenso dificulta um cenário onde alguém viajaria, por quilômetros, sobre um patinete.
O problema clássico da separação entre sentido e referência é tomado por Lôbner no trato dos dêiticos em primeira pessoa ao indagar qual o significado do pronome /Eu/. Para a nossa pesquisa, essa ambiguidade intransponível é produtiva no sentido de que traz à tona aquilo que temos discutido ao longo do trajeto: a plasticidade da linguagem, pois esse termo só tem sentido desde que devidamente referenciado, tanto que é na enunciação que definimos e estabelecemos as relações dêiticas, sobretudo em enunciados como o analisado nesse item em que tanto
enunciador, quanto coenunciador só são identificáveis diante de uma situação concreta.
Em outros termos, é um sine qua non do sentido. Por exemplo, o termo /bicicleta/ pode se referir tanto àquele veículo de duas rodas não motorizado quanto a um referente que represente o objeto. Vejamos dois cenários que demonstram isso:
Situação 1: O irmão de Maria todas as manhãs costumava lhe emprestar sua bicicleta para que ela fosse até a escola, mas toda vez que brigavam ele ameaçava tirar a bicicleta da menina como uma forma de represália, isso aconteceu por vezes até que um dia Maria se cansou e disse: “Eu não preciso de sua bicicleta”.
Situação 2: Maria e seu irmão estão montando um jogo de quebra-cabeças cujo objetivo era unir as peças a fim de ter um quadro cheio de tipos de veículos. A menina está tentando preencher uma lacuna em que falta um patinete, mas o seu irmão lhe dá a peça correspondente à bicicleta. Maria olha para ele brava e diz: “Eu não preciso de sua bicicleta”.
Uma das máximas do sentido do enunciado é que ele pressupõe uma ocasião, um contexto ou cenário e o contexto do enunciado engloba alguém que enuncia, alguém a quem é enunciado, tempo, lugar e fatos.
Para Löbner (2002, p.09) o significado do enunciado é definido como o significado resultante do uso de uma expressão num dado contexto de enunciado. Em outros termos, ele deriva da expressão do significado baseado em situações originadas pelo contexto do enunciado.
Assim, quando um enunciado é produzido, inferências (experiência linguística, experiência de mundo, etc.) são feitas pelo coenunciador, as quais são responsáveis por sua interpretação.
Dentre os pontos de peculiar interesse aos semanticistas no tocante ao estudo do enunciado, destacam-se dois:
(i) Como referência e verdade dependem do contexto do enunciado?
O pecado de Löbner (2002) foi o de estipular um significado lexical distinto de um significado gramatical. Fato que contradiz suas explanações acerca do significado do enunciado.
Num primeiro momento ele determina que o significado lexical seriam estoques de significados de todos os termos arquivados na mente, para, num segundo momento, admitir haver tanto palavras que só têm sentido se combinadas com outras, quanto palavras que só têm sentido determinado pelo uso.
Ao estipular que o significado gramatical é a relação entre termos numa forma gramatical particular, com o exemplo “O cão comeu as meias amarelas”, o linguista se limita a afirmar que o termo /comeu/ está no pretérito, o termo /meias/ está no plural e assim por diante.
O que, infelizmente, fica de fora é a demonstração que o grau de incidência do qualificador /amarelas/ sobre o termo /meias/ só pode ser determinado pela enunciação. Afinal, todas as meias são amarelas e o cão as comeu ou o animal, dentre as meias existentes, só comeu as de cor amarela?
Löbner bem poderia ter se valido de sua premissa de que o sentido é dado pelo contexto e demonstrado que a flexão marca a relação fisiológica entre os termos, mas não garante o sentido.
Eis o problema clássico da fragmentação que deixa de fora o nível mais profundo que é o da abstração linguística, a qual nos dá condições de, por exemplo, reconhecer se o termo /amarelas/ atribui quantificação ou qualificação ao termo /meias/. Vejamos dois exemplos do que estamos dizendo:
(i) “O cão comeu as meias amarelas. Pelo menos as verdes e as brancas
se salvaram.”
(ii) “O cão comeu as meias amarelas. Como vou usar tênis agora?”
Em (i) o termo /amarelas/ exerce função quantitativa, pois dentre as meias existentes, ele encapsula uma parte delas.
Em (ii), a função é qualitativa, pois as meias foram comidas e eram amarelas. Assim, apesar de Löbner (2002) assumir que a “forma gramatical de uma palavra, desde que não determinada pela gramática, contribui ao significado composicional” (p.13), ele ainda se restringe a dizer que “as formas das palavras são
relevantes para os seus significados e para o significado da frase como um todo”. (p.12). Além de se contradizer em alguns momentos: deve-se considerar que nem todas as diferenças nas formas gramaticais das palavras são relevantes para seus significados. (ibidem)
O exemplo a seguir não contribui muito a nenhuma de suas afirmações que elencamos acima. Para ele, a palavra /cachorro/ que teria sentidos diferentes no singular (referência a uma única criatura do tipo) e no plural (referência a mais de uma). O que não diz muito para um estudo semântico focado na articulação, como o nosso.
Observando os enunciados a seguir: (i) Todo cachorro é fiel a seu dono.
(ii) Os cachorros se diferenciam dos lobos por serem domésticos.
Podemos constatar que enquanto em (i) a articulação entre os termos /todo/ e /cachorro/ remete ao conjunto de animais da espécie e engloba a ideia do todo, do plural, mesmo que o termo referente esteja no singular; em (ii), a comparação entre os termos /cachorros/ e /lobos/, que apesar de estarem no plural, remete à espécie, que também engloba a ideia da parte, do singular.
Apesar de algumas críticas ao modelo de Löbner (2002), cremos que há um caminho em comum entre nossas crenças e as dele, sobretudo no que se refere à admissão de que léxico depende de gramática e vice-versa. A diferença é que para ele é esporadicamente, para nós é inevitavelmente.