IV. BULGULAR VE YORUM
5.2. Öneriler
No período de 2002 a 2007, a OTCA esteve sob a administra- ção da Secretária-Geral equatoriana Rosalía Arteaga Serrano. Como primeira SG-OTCA eleita pelos oito países amazônicos, o período sob administração de Rosalía é reconhecido pela ampliação das ati- vidades da OTCA no âmbito regional e pela projeção desta organi- zação nos fóruns internacionais.
Porém, a fase de 2002 a 2009 foi marcada não só pela dinami- zação, mas também por uma crise institucional iniciada no período final do mandato. Algumas críticas faziam-se recorrentes quanto ao “estilo” da Secretária-Geral de conduzir a atuação da OTCA. Isso porque as competências atribuídas à instituição pelo Tratado exigem que as ações desta instituição estejam sempre subordinadas às deliberações conjuntas dos países amazônicos, representados nas Reuniões de Ministros das Relações Exteriores. O que ocorria, e no caso gerava críticas, era a proatividade da Secretária-Geral, que, por vezes, agia com demasiado protagonismo nas tomadas de decisão e de representação internacional da OTCA. Esta postura resultava na dinamização de algumas atividades, mas, por outro lado, feria a legitimidade da instituição como representante uni- camente do consenso entre os países amazônicos, portanto, sem autonomia institucional e decisória.
Assim, pode-se deduzir, por meio das entrevistas ao corpo funcional da OTCA, que um dos motivos da saída de Rosalía e da posterior crise institucional tenha sido esta postura proativa da Se- cretária-Geral, não condizente com a configuração da cooperação regional amazônica, marcada pelo multilateralismo. Cientes disto, tornam-se compreensivas e pertinentes as palavras de Pires (2011):
Um ponto a ressaltar nesse sentido é que a Organização, mais particular- mente o Secretariado, deve continuar mantendo sua postura de animador e de colaborador, ou seja, de elo entre os países para a agenda comum, e nunca a de um agente à parte, acima ou abaixo dos demais (Pires, 2011, p.12).
Ao fim do mandato de Arteaga, em abril de 2007, a Chancela- ria equatoriana apresentou um nome para a recondução ao cargo. A proposta foi aceita por Brasil, Peru, Guiana e Suriname, mas vetada pela Colômbia, que se justificou pela necessidade de al- ternância das nacionalidades à frente da Secretaria Permanente, já que Rosalia também era do Equador. Apresentaram-se, então, candidaturas do Peru, com apoio colombiano, e da Bolívia, incen- tivada pela Venezuela, mas ambas sem aceitação ampla. Na tenta- tiva de uma solução, o Brasil lançou candidatura, a qual, sem obter consenso, foi retirada em 2008 (Gadelha, 2009).
Assim, o cargo de SGOTCA ficou vago de junho de 2007 a abril de 2008, e foi ocupado interinamente pelo Diretor Executivo, o co- lombiano Francisco Ruíz Marmolejo, visto que os países-membros não conseguiam chegar a um consenso em torno de um nome para a sucessão. De acordo com Gadelha (2009), o impasse acerca da elei- ção do SGOTCA, que durou cerca de dois anos, denota que, três décadas após a assinatura do TCA, a Organização enfrentava ainda sérias dificuldades de ordem política, financeira e institucional.
Diante das dificuldades em definir o ocupante do cargo de Se- cretário-Geral da OTCA, na XLVIII Reunião da Comissão de Coordenação do Conselho de Cooperação Amazônica (CCOOR), em 16 de outubro de 2008, decidiu-se criar um Grupo de Trabalho (GT2008) para diagnosticar os principais problemas e apresentar sugestões para o melhor funcionamento da Organização. O Grupo de Trabalho constituído foi formado por diplomatas das Chancela- rias dos oito países-membros, e incumbido de, em 45 dias:
a) Realizar reuniões com os Coordenadores temáticos, com o propósito de avaliar a informação proporcionada por eles e definir as prioridades de cada Coordenadoria; b) Revisar a informação fornecida pelas Chancela- rias dos países-membros a respeito de suas prioridades na região amazô- nica; c) Apresentar à CCOOR documento com a avaliação da informação proporcionada pelos Coordenadores de área e pelos países-membros; e, d) apresentar à CCOOR projeto de mecanismo para regular a relação en- tre a OTCA e a cooperação internacional (Gadelha, 2009, p.35).
Assim, dado o objetivo de avaliar a atuação institucional da OTCA, o GT 2008 elaborou as seguintes recomendações quanto à cada Coordenadoria temática e quanto à atuação da OTCA em fóruns internacionais.
Coordenadoria de Transporte, Infraestrutura, Comunicação e Turismo
Após encontro com o Coordenador de Transporte, Infraes- trutura, Comunicação e Turismo, o guianense Donald Sinclair, o GT2008 relatou que as atividades dessa Coordenadoria concentra- vam-se na área de turismo, campo de especialização do Dr. Sinclair. O próprio coordenador demonstrou considerar mais apropriado a segmentação da Coordenadoria, cujo escopo seria excessivamente abrangente. O único Programa levado a cabo pela Coordenadoria à época era o Destino Amazônia 2009, relacionado a turismo. O Re- latório final do GT2008 recomenda maior participação da OTCA no processo de integração física regional (Gadelha, 2009).
Coordenadoria de Meio Ambiente
Em encontro entre o GT2008 e o peruano Luiz Oliveiros, então responsável pela Coordenadoria de Meio Ambiente, constatou-se que esta era a Coordenadoria que tinha o maior número de projetos em execução, divididos em quatro áreas que, segundo o Coordena- dor, a OTCA abordava, quais sejam, florestas; recursos hídricos; biodiversidade e mudanças climáticas. O Dr. Oliveiros mencionou como problemas graves da Organização a falta de recursos huma- nos, a atuação independente de consultores externos, a demora dos países em se pronunciar sobre projetos e a falta de comunicação en- tre as coordenadorias (Gadelha, 2009, p.37).
Em agosto de 2011, ocorreu o Encontro de Coordenação da Agenda de Meio Ambiente na OTCA, em Brasília, que possibilitou
a discussão de temas como Rio+20, promover o diálogo entre os paí- ses nessa agenda e explorar temas de interesses e de cooperação. Eis uma iniciativa que deveria ser replicada, o que irá requerer interesse e franca participação das partes (Gadelha, 2009).
Coordenadoria de Assuntos Indígenas
O surinamês Jan Tawjoeram esclareceu que quando assumiu a Coordenadoria de Assuntos Indígenas não existia projeto algum ou atividade em andamento e que, desde então, logrou estabelecer canais de comunicação com todos os países, exceto o Peru, que não designara ponto focal para o tema. O Coordenador apontou como dificuldades a falta de recursos financeiros e humanos e a ineficiente comunicação interna da OTCA. O relatório final do GT2008 consi- derou que a Coordenadoria de Assuntos Indígenas tem sido a mais afetada pela escassez de recursos. É preciso captar novos fundos para as suas atividades (Gadelha, 2009).
Coordenadoria de Ciência, Educação e Tecnologia
O cargo de Coordenador de Ciência, Educação e Tecnologia está vago desde que o venezuelano Alirio Martinez deixou a OTCA, no início de 2008. Por essa razão, o GT2008 se reuniu com o SGOTCA interino, o colombiano Francisco Ruiz, que destacou o bom relacio- namento com a rede de universidades amazônicas como um êxito da organização. O GT2008 considerou positiva essa relação, que, in- clusive, permitiria a contratação de técnicos e consultores da própria região, comprometidos e familiarizados com as questões da Amazô- nia. O relatório final, contudo, classificou de insatisfatório o desem- penho da Coordenadoria e aventou a possibilidade de fundi-la com outra Coordenadoria, de modo a garantir recursos compatíveis com a relevância de seu escopo (Gadelha, 2009).
Coordenadoria de Saúde
A partir da reunião com a Dra. Janette Aguirre, Coordenadora de Saúde, o GT2008 recomendou à CCOOR que uma abordagem inte- grada fosse impressa à atuação da OTCA, em detrimento de sua ma- neira setorial e estanque como temas transversais por natureza vinham sendo tratados. A escassez de recursos orçamentários dessa Coorde- nadoria, segundo o Grupo de Trabalho, iam de encontro ao grau de prioridade declarado pelos países à área de saúde (Gadelha, 2009).
OTCA e a Cooperação Internacional – Representatividade da OTCA – Consultores
No que toca à relação entre a OTCA e a cooperação internacional (tópico D), criticou-se o fato de consultores externos não se articularem devidamente com os Coordenadores e participarem de reuniões em fó- runs internacionais representando a OTCA. De modo a conferir maior transparência e estimular novas parcerias, sugeriu-se: maior regula- mentação no repasse de financiamentos à Secretaria Permanente e na contratação de consultores; participação tão somente de funcionários da Organização como representantes da OTCA em fóruns internacio- nais; tentativa de reduzir as assimetrias de recursos entre as Coorde- nadorias, por meio de uma “cota” negociada com os parceiros coope- rantes, que seria destinada às áreas menos atendidas (Gadelha, 2009).
Participação da OTCA na discussão sobre Mudanças Cli- máticas e em fóruns internacionais
O GT2008, em seu relatório final, condenou a participação da Secretaria Permanente da OTCA na discussão sobre mudanças climáticas em fóruns internacionais, o que, na visão do Grupo de Trabalho, extrapolaria as funções do órgão. Embora houvesse um mandato genérico para o aprofundamento da questão no âmbito da
OTCA, emanado da declaração Ministerial de Iquitos, não have- ria ainda uma posição comum que pudesse ser levada a outros foros (Gadelha, 2009, p.37).
Então, após a análise detalhada do funcionamento organizacio- nal da OTCA, o Grupo de Trabalho fez as seguintes recomendações:
a) eleger, em caráter de urgência, novo SGOTCA; b) cancelar todas as atividades da OTCA, salvo os projetos que disponham de recursos e que tenham respaldo nos acordos firmados pela OTCA com terceiros; c) instruir o SGOTCA interino a não iniciar quaisquer novas atividades sem a aprovação da CCOOR; d) solicitar à Secretaria Permanente uma relação de todos os consultores e funcionários que dependem da coope- ração internacional, especialmente da GTZ; e) aprovar no CCA a rede- finição da relação entre a OTCA e a cooperação internacional; f) reati- var as Comissões Especiais da OTCA; g) reorganizar a estrutura atual da OTCA com vistas a aprimorar seu funcionamento, levando-se em consideração sua situação orçamentária; h) elaborar novo instrumen- to administrativo e financeiro; i) reformar o regulamento da Secretaria Permanente sobre o funcionamento das Coordenadorias; j) examinar a possibilidade de aumentar as contribuições anuais dos países, a fim de diminuir sua dependência de terceiros países (Gadelha, 2009, p.38).
Por sua vez, mostrando disposição em incorporar as resoluções e responder às deficiências institucionais levantadas, a CCOOR, em 10 de dezembro de 2008, decidiu que:
a) até primeiro de março de 2009 os países deveriam eleger o novo SGOTCA (o Embaixador Manuel Picasso tomou posse em 23 de abril, o que, considerado o longo período de interinidade encerrado, foi próxi- mo à data estipulada pela CCOOR); b) suspender qualquer novo proje- to (de fato, não se iniciou nenhum projeto); c) suspender qualquer nova atividade onerosa (a proposição de iniciativas pela Secretaria Permanen- te cessou durante o período); d) determinar à Secretaria Permanente que apresentasse, em 15 dias, lista de todos os consultores e funcionários que prestavam serviços à OTCA e eram financiados pela cooperação internacional bem como proibi-los de representar a Organização em fó- runs internacionais (a determinação foi atendida); e) reativar as Comis- sões Especiais da OTCA (o que ainda não ocorreu); f) determinar que
o GT2008 apresentasse, em 60 dias, proposta de nova estrutura funcio- nal da OTCA (o que não ocorreu); g) solicitar a elaboração de um novo instrumento administrativo financeiro (o que deverá ocorrer sob a nova direção da Secretaria Permanente) (Gadelha, 2009, p.38-39).
A conclusão a que se chega com a análise destas dificuldades institucionais no processo de sucessão do cargo de SG-OTCA, é que foi realizado um esforço significativo para a manutenção e for- talecimento do multilateralismo como característica central do pro- cesso de cooperação entre os países amazônicos. Isto se deve a três motivos principais: a busca pela alternância entre os países na con- dução do cargo de Secretário-Geral; a instauração de um Grupo de Trabalho para apurar o desempenho e as dificuldades institucionais na atuação da OTCA; e, mais uma vez, a renovação do compromis- so político dos países com a cooperação amazônica, à medida que houve participação direta dos Ministérios de Relações Exteriores na resolução do impasse e também houve a participação dos Chefes de Estado no processo de relançamento da OTCA como foro regional. No entanto, todas estas não deixam de ser ações diplomáticas, cujos reflexos práticos ainda precisam surtir efeito.