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5. Bölüm Tartışma ve Öneriler

5.2. Öneriler

Heidegger, em sua leitura da história da filosofia, enfatiza que na modernidade a verdade é subjetivada, saindo da noção de criação ou inspiração divina, para adentrar na visão de mundo apresentada pelo sujeito. É ele (o sujeito) quem determinará o modo de se posicionar diante das demais coisas, que passarão a ser enquadradas conforme os ditames da sua subjetividade (HEIDEGGER, História da filosofia, de Tomás de Aquino a Kant, 2009 p.118). O homem por ser um ser racional (Cogito), passa a ver os demais entes como objetos passíveis de serem dominados e organizados para o uso conforme estabelecem os parâmetros de sua racionalidade. Assim, se funda uma nova reorganização do mundo em que ele se torna aquilo que é representado (Vorstellung) pelo sujeito, esse cria uma imagem daquele e passa a se relacionar com ele a partir disso.

Re-apresentar significa aqui: trazer para adiante de si, de quem representa, o ente à mão, e fazer com que esta relação consigo repercuta como se fora o âmbito normativo. Quando isto acontece, o homem se instala na imagem a respeito do ente. Na medida em que o homem se instala na imagem desta forma, ele se põe em cena, isto é, no âmbito do ato de representar, universal e publicamente (HEIDEGGER, A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.).

O mundo concebido como imagem é algo que surge na modernidade em que o sujeito se encontra inserido na representação criada por ele. É como se ele expusesse e reproduzisse aquilo que vê semelhante ao que é realizado por alguém ao utilizar uma filmadora para captar imagens de onde se encontra para serem reproduzidas. Por isso, a televisão é uma criação moderna, devido ela ser um produto dessa possibilidade de se ter o mundo como imagem, que é registrado pelas câmeras e levado a milhares de pessoas para que possam ver e conceber o mundo a partir dos mesmos ângulos daquele que se encontra na imagem filmando-a, obtendo com isso, a mesma visão de mundo que ele (aquele que filma). Entre os gregos incipientes não existia isso, pois eles não se viam como sujeitos que olhavam para os entes e se impunham sobre eles, ao contrário, se direcionavam a eles de uma maneira que pudessem se apresentar, conforme mostramos em sua relação com a φύσις. Para os medievais o mundo e os entes que o compõe eram coisas criadas por Deus, não podendo o ser do ente ser trazido pelo homem na condição de objeto.

Na Idade Média não havia imagem-do-mundo porque a humanidade medieval não concebia o mundo como uma representação humana, mas antes como uma criatura de Deus. Por seu turno, na Grécia Antiga as pessoas não se consideravam sujeitos a olhar para objetos projetados, mas antes como estando a ser contemplados ou olhados pelos próprios entes. Para a humanidade tecnológica, todavia, re-presentar uma coisa, torná-la uma imagem, significa forçá-la a retornar ao relacionamento consigo mesma, enquanto reino normativo (ZIMMERMAN, 1990, p. 154).

O traço fundamental da época moderna é a metafísica do sujeito estabelecida por Descartes, algo que perpassa e se consolida nesse período, provocando uma nova maneira do homem se colocar ([pôr] Stellen) no mundo, agora como sujeito da representabilidade (Vorstellung) do ente. Segundo Heidegger ([198-?], A época das imagens de mundo, s/p.), os entes entre os gregos eram algo subjacentes por si e que, a partir da metafísica cartesiana, eles passam a ser algo afirmado pela subjetividade humana, se estabelecendo como aquilo que lhe é oposto, surgindo, com isso, a noção de objetividade. A partir disso, se começa a gerar um drama na existência humana, provocando o individualismo moderno e a exploração desenfreada da

natureza, porque agora ela não é mais φύσις, mas fundo de reserva de recursos a serem explorados pelo sujeito que se impõem sobre ela. Sem este ato (o da exploração da natureza) a subjetividade humana não se afirma, por ser através do exercício de domínio frente à natureza que sua subjetividade será aguçada cada vez mais. O problema maior será quando o homem passar a ser o objeto das investigações, deixando de lado sua condição de subjetividade, conforme nos coloca Werle (2011b, p. 15):

Percebe-se como começa a se instaurar com isso todo um drama da existência, que terá profundas consequências: gerará o individualismo moderno, a solidão como fenômeno constitutivo da separação que o homem operou do mundo, e por fim, a exploração desenfreada da natureza. Pois, agora natureza não é mais physis [φύσις], como dirá Heidegger, mas natura, objeto que tenho necessidade de dominar e explorar. Sem a exploração da natureza, a subjetividade do homem não poderia se afirmar. O problema maior será, porém, quando o próprio homem reverter para o campo do objeto e não ser nem mais ele mesmo sujeito. Vê-se por aqui que o homem se arriscou de maneira perigosa numa posição que criou para si, como sujeito, mas que de alguma maneira fugiu de seu controle.

Sendo a natureza aberta desta maneira pelo homem moderno, ela se torna um objeto de investigação. É do interesse dele (o homem moderno) desvendar os seus mistérios, e aquilo que antes recebia respostas, seja de cunho mítico ou religioso, passará agora pelo crivo do projeto subjetivo de se impor sobre ela a partir da ciência. A natureza não apenas torna-se um objeto disponível (Bestand) para a investigação, como também se transforma naquilo que fornecerá os recursos a serem captados e transformados para obtenção de algo, o que só é possível através de um atravessamento nela a partir de uma investigação rigorosa. É o que propõe a realizar a ciência moderna que se qualifica como uma pesquisa rigorosa. “Pesquisa e rigor, método e exploração organizada se exigem reciprocamente, são a essência da ciência moderna, transformam-na em pesquisa” (HEIDEGGER, A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.).

Isso se estabelece diante de uma tomada de posição do homem diante da natureza, ao impor sua subjetividade sobre ela criam-se aspectos que orientam e delimitam o caminho a ser percorrido pela investigação. Nesse modo de proceder, as coisas (entes) não são tal como se apresentam, mas conforme o estabelecimento do percurso que elas devem percorrer. Capta-se especificamente aquilo que a subjetividade deseja e já se antecipou no cálculo de todo o procedimento investigativo, alcançando, com isso, o aspecto subjetivo que se busca nos entes

e não o que eles são em sua essência, conforme nos diz Heidegger (A época das imagens de

mundo, [198-?], s/p.): “Preparar e estabelecer um experimento significa representar uma

condição de acordo com a qual um sistema específico de movimentos pode ser acompanhado na necessidade do seu decurso, de tal forma que o sistema pode ser dominado de antemão pela calculação.”

A pesquisa é aquilo que direciona a ciência moderna, ela se instaura em uma região do ente como procedimento que orienta de que modo o ente deve ser aderido no estabelecimento para se comprovar a esfera já delimitada. É nisso que consiste o rigor da pesquisa moderna: mapear a região a ser percorrida no ente e conseguir comprovar com exatidão aquilo que previamente já foi anteposto. O escopo do experimento investigativo moderno é a comprovação de uma lei que anteriormente é estabelecida e que direciona todas as ações sobre o ente, visando certificá-la. O resultado obtido já delineia os próximos caminhos a serem trilhados. Então parte-se em busca de uma nova resposta em um novo franqueamento do ente. “O procedimento que conquista as esferas individuais de objetos não se limita a acumular resultados. É bem antes o caso que ele se prepara para um novo procedimento, com a ajuda de seus resultados” (HEIDEGGER, A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.).

A ciência moderna utiliza do experimento como modo de comprovar a tese que antecipadamente é informada, algo que se difere muito do agir dos gregos. Segundo Heidegger (A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.), Aristóteles foi o primeiro a entender que experiência significa a observação das próprias coisas em suas transformações e particularidades, sem ter a precipitação de cálculo sobre o ente. Já nas ciências modernas, o que temos é a primazia do método frente ao ente, tornando-o objeto a ser pesquisado por uma subjetividade que lhe sobrepõe. Com isso, surgem as especialidades, porque quanto mais específicas forem as ciências em determinada região do ente, mais realistas e rigorosos serão os seus resultados.

O que ocorre de modo iminente com a difusão e consolidação do caráter institucional das ciências? Nada menos que o asseguramento da primazia do método diante do ente (natureza e história) que se torna, assim, objetivo, através da pesquisa. Sobre a base do seu caráter de exploração organizada, as ciências alcançam a reunião e unidade que lhes correspondem (HEIDEGGER, A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.).

Isso provoca um novo modelo de homem, em que o questionar erudito das ciências humanas, por exemplo, é substituído pela figura do pesquisador. Ele (o pesquisador) está sempre viajando a eventos e congressos, os editores de revistas, livros e jornais lhe determinam o que deve ser escrito, ter uma biblioteca em casa não é algo indispensável para o direcionamento de suas pesquisas, devido à agora se configurar uma nova tomada de posição frente ao ente e o conhecimento se encontra cada vez mais interligado entre as pessoas, correspondendo a essa nova determinação sobre o ente. Passamos a ter, com isso uma diferenciação entre o homem grego, que acolhe e percebe, e o homem moderno, que calcula, representa e domina.

As ciências modernas com suas descobertas sobre determinada região do ente passam a ditar o ritmo das ações humanas e, neste sentido, a técnica segue suas orientações. Ela não é a ciência aplicada, mas segue os caminhos que a ciência abre no ente, se consolidando como uma atividade ôntica. O que antes, a partir da noção de τέχνη se constituía como uma atividade ontológica auxiliadora no desvelamento (αλεθεια) da φύσις, na era moderna, passa a figurar no plano ôntico em sua relação com a natureza. Na concepção moderna, não há mais espaço para o mundo ser admirado pelo homem, sua abertura é fechada, não se tem mais mistério a ser interrogado devido ao mundo ser visto apenas a partir das respostas que pode nos dar e não mais das perguntas que pode nos estabelecer, perdendo, assim, o seu sentido.

Note-se como Heidegger procura nos chamar a atenção para o fato de que na concepção moderna de ciência não há mais espaço para uma admiração do homem pelo mundo. O mundo perde o seu sentido ao ser enquadrado. Não resta mais nenhum mistério, nada que nos reste a ser interrogado. O mundo só é visto pela ótica das respostas que pode nos dar, mas não das perguntas (WERLE, 2011b, p. 19).

Não apenas o mundo (Welt) que é afetado por este domínio científico, a terra (Erde) também é, perdendo sua noção de habitação, tal como apresentamos no primeiro capítulo a partir da obra de arte, nos exemplos dos sapatos da camponesa pintados por Van Gogh e no templo grego. Em ambos, temos o registro da habitação do homem sobre a terra, seja na lida da camponesa com o solo, seja no erguimento do templo grego por meio de rochas. Com o desenvolvimento científico há essa perda e as demais atividades humanas passam a sofrer com isso. A verdade fica a cada vez mais restrita aos laboratórios, perdendo de vista o mundo e a terra (ALMEIDA, 1993, p. 247).

Como podemos estar percebendo, a técnica moderna gera um “posicionamento” do homem diante do mundo, onde se lida com a representação que dele se tem. No ato de representar, tanto colocamos algo diante de nós, como também nos tornamos submersos na representação (Vorstellung) que criamos. A verdade deixa de ser algo apresentada pelo ente, tornando-se aquilo que criamos a respeito dele, conforme a imposição de nossa subjetividade. Perde-se a experiência fenomenológica do mundo para se fundamentar o sujeito racional, sede das representações e das imagens de mundo por ele criadas (CASANOVA, 2006, p. 128). Na época moderna, não mais somos guiados pelo deixar ser (Sein-lassen) dos entes, mas pelo nosso atuar sobre eles, tornando-os objetos para a fabricação ou contribuição de algo. O homem passa a se orientar pela imagem que do ente foi criada, o que passa a direcionar sua relação com o mundo.

Quando o mundo se torna imagem, o ente em sua totalidade é fixado como aquilo pelo qual o homem se orienta, portanto como aquilo que o homem coloca diante de si e quer, num sentido essencial, fixar diante de si. A imagem do mundo, entendida de modo essencial, não significa uma imagem do mundo, mas o mundo concebido enquanto imagem. O ente em sua totalidade agora é tomado de tal forma que só passa a ser na medida em que é posto por um homem que o representa e produz. Quando surge uma imagem de mundo, uma decisão essencial se consuma a respeito do ente em sua totalidade. O ser é buscado e encontrado na representabilidade do ente (HEIDEGGER, A época das imagens de mundo, [198-?], s/p.).

No mundo concebido como imagem, que é consequência do produzir representacional do sujeito, o homem luta para ser o ente que dá as normas e estabelece os parâmetros aos demais entes, impondo sua subjetividade sobre eles que é guiada pela vontade. Assim, precisaremos passar por esta questão que se consolida como o ápice e o fim da era moderna, a metafísica da vontade no pensamento de Nietzsche.

Benzer Belgeler