4. Bölüm Bulgular - Tasarım
4.1. İhtiyaç Analizine İlişkin Bulgular
4.1.8. Öğrencilerin geliştirilecek ortamın bulundurması gereken özelliklerine
Partindo do pressuposto de que os três filmes se desdobram através de um “realismo desinteressado”, “desafetado” ou “naturalisticamente afetado”, consideramos pertinente revisarmos algumas sequências afim de percebermos as fronteiras do cinema das obras. O caráter semidocumental se revela para além das cenas documentais, de pessoas reais que são
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colocadas em tela como pinturas, no caso de Amarelo Manga, as fotografias de engenhos de outrora, no caso de Baixio das Bestas e a exploração visual do mangue, em Febre do Rato. Ele se desdobra através de detalhes, de pormenores que estão colocados em cena, fazendo com que as características propostas por Prysthon não se realizem separadamente, mas através de uma interligação.
Se faz pertinente retomar que, no Brasil, historicamente, o cinema (e, principalmente a televisão) se manteve distante de bairro pobre e de seus habitante. Obras como as de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos subverteram essa ordem de um “país limpo”, que esteticamente sempre mostraram um país sem pobreza, sem conflitos, com imagens sem tremores, limpas e convencionais. Portanto os filmes como Vidas Secas, Rio 40 Graus, Rio Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos, 1957), entre outros, não foram uma unanimidade, mas sim exceções diante de diversas produções clean e que traziam uma abordagem em que os personagens eram mais vítimas de sua situação e menos protagonistas. Porém, a partir da década de 1990, o cinema brasileiro traz um tratamento diferente a obras que tematizam o “real”. Um dos precursores dessa situação é o documentário Notícias de uma guerra particular que procura não estabelecer as dualidades (o bom em oposição ao mau), mas trazer uma nova perspectiva de que os temas são muito mais complexos que isso e que não devem ser romantizados na chave melodramática. O documentário abre portas não só para outros similares que problematizem o Brasil “real”, mas também para produções ficcionais, de caráter observativo (como o caso de Amarelo Manga), denunciativo (o caso de Baixio das Bestas) e poético (Febre do Rato). Como Esther Hamburger define, “a cidade aparece, nesse universo, como cenário e ator privilegiado” (HAMBURGER, 2005, p.316)
Portanto, na filmografia de Cláudio Assis, podemos perceber alguns detalhes que são cuidadosamente colocados em cena. Um rádio ligado em Amarelo Manga, um longo plano em que uma adolescente é exposta nua a homens que a devoram com o olhar em Baixio das Bestas, imagens documentais de um dia comum na cidade em Febre do Rato, fazem com que os filmes criem um pacto de verossimilhança com o espectador. Estes elementos narrativos e estéticos, através da ideia de representação, se fazem presentes de maneira marcante nas tramas, buscando uma possibilidade de identificação com a realidade. A apropriação da ideia de “efeito do real” proposta Roland Barthes (2004) se torna útil para compreendermos o nosso objeto. Minúcias nas narrativas, como, por exemplo, o já citado som de um rádio ligado que funciona como demarcação do tempo em Amarelo Manga, trazem uma sensação de “efeito de real”. Barthes mostra que “a singularidade da descrição (ou “pormenor inútil”) no tecido narrativo, a sua
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solidão, designa uma questão da maior importância para a análise estrutural das narrativas” (BARTHES, 2004, p. 184), ou seja, tudo em uma narrativa é passível de significância. Os recursos narrativos não estão ali somente afim de descrever a obra, no caso dos filmes; eles não se configuram apenas como componentes de cena, mas evidenciam para o espectador uma espécie de reconhecimento do real. Os detalhes, embora não tenham um significado aparentemente claro, estão ali e são evidenciados produzindo no espectador um “efeito do real” (BARTHES, 2004). É notável na história do cinema brasileiro uma preocupação com um efeito de realidade, sendo ele perceptível nas narrativas ou interpretações dos atores. Deus e o diabo na terra do sol ilustra bem a preocupação em ser verossímil à realidade quando coloca Manoel (Geraldo Del Rey) subindo um monte de joelhos, com uma enorme pedra na cabeça. No filme de Glauber Rocha, essa sequência (Figura 10) é feita quase sem cortes, de aproximadamente seis minutos, de forma a fabricar uma representação da realidade saturada de “efeito de real”, no qual o ator Geraldo Del Rey realmente caminhou de joelhos com uma pedra na cabeça. A duração do plano causa estranhamento (e até mesmo incômodo) no espectador quando o tempo da representação é semelhante ao da duração dos eventos. E justamente por ser longo e parecer realmente com a duração dos eventos, a intensidade emotiva é suspensa.
Fonte: DVD Deus e o diabo na terra do sol
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Partindo do “efeito do real” proposto por Barthes, chegamos a um conceito que auxilia na análise estética da obra de Cláudio Assis, o “choque do real”. Primeiramente precisamos de uma limitação mais precisa do que se constitui o real, e para Jaguaribe (2007, p.17), “se há algum sentido unificador no conceito de realismo é que ele se caracteriza por uma visão de mundo que exclui ou coloca em quarentena fantasias, crenças esotéricas, tradições místicas ou sonhos românticos que também se manifestam na fabricação social da realidade na modernidade”. Por este motivo, o sentido mais comumente utilizado para o termo “realista” se encontra em oposição a algo que é fantasioso.
Quando se trata de uma representação estética, a
dimensão fluida [do termo realismo] atesta não somente que uma pluralidade de estilos e formas de representação se expressa pela rubrica ‘realismo’, mas que a palavra ‘realismo’ traduz uma forte conotação ideológica que enfatiza a conexão entre representação artística e realidade. No seu sentido mais primário, o realismo estaria conectado com a utilização da mimese, ativando a noção de arte como cópia de uma realidade e mundo material. A mimese é aqui entendida como um ilusionismo espelhado, uma representação que parece copiar aquilo que existe no mundo. Mas, desde a Antiguidade clássica, esta ‘ilusão’ imitativa obedecia a códigos específicos de verossimilhança que eram culturalmente engendrados. (JAGUARIBE, 2007, p.26)
Ou seja, quando versamos sobre o realismo artístico, a representação do mundo não trata de como ele realmente é, mas sim das formas de representação do “mundo-real”. Isto nos leva novamente a Barthes (2004), para compreender a força de convencimento da arte realista, que se insere no “efeito do real”.
Seguindo este caminho, Jaguaribe (2007) desenvolve o conceito de “choque do real”, o qual utilizaremos para compreender os filmes de Cláudio Assis. Ela define o choque do real
como sendo a utilização de estéticas realistas visando suscitar um efeito de espanto catártico no leitor ou espectador. Busca provocar o incômodo e quer sensibilizar o espectador-leitor sem recair, necessariamente, em registros do grotesco, espetacular ou sensacionalista. O impacto do ‘choque’ decorre da representação de algo que não é necessariamente extraordinário, mas exacerbado e intensificado. (JAGUARIBE, 2007, p.100)
Esse conceito nos auxilia na percepção dos filmes Amarelo Manga, Baixio das Bestas e Febre do Rato, pois eles se encontram numa espécie de limite. Em Amarelo Manga (Figura 11), o primeiro plano revela uma Lígia nua, vista em câmera alta que levanta da sua cama, coloca
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roupas e vai em direção ao seu bar, no cômodo ao lado do seu quarto (a). A cena por si já causa um estranhamento, pois a nudez ainda é um tabu em nossa sociedade. Logo em seguida, Lígia profere um diálogo que, ao seu fim, ela quebra a quarta parede e encara todos nós, espectadores, e diz “eu quero que todo mundo vá tomar no cu” (b). A crueza do diálogo provoca um espanto já nos primeiros minutos de projeção, não por ser extraordinário, como a própria Jaguaribe (2007) coloca, mas por ser algo corriqueiro, que é ouvido sempre, por ser dito olhando nos nossos olhos. O filme toma vida e convida o espectador a fazer parte daquele mundo, daquela realidade. Por exemplo, quando Dunga conversa com o espectador sobre os seus sentimentos em relação a Wellington, ele também quebra a quarta parede e nos olha diretamente nos olhos. Essa parece ser uma característica recorrente no cinema de Assis. Em Baixio das Bestas o personagem Everaldo também realiza o mesmo ato, mas ao contrário de convidar o espectador a fazer parte daquele mundo, ele expulsa, revelando que aquilo, de fato, é um filme.
Figura 11 – Amarelo Manga: Lígia
(a) (b)
Fonte: DVD Amarelo Manga
Segundo Jaguaribe “o uso do ‘choque do real’ tem como finalidade provocar o espanto, atiçar a denúncia social, ou aguçar o sentimento crítico. Em qualquer dessas modalidades, o ‘choque do real’ quer desestabilizar a neutralidade do espectador/leitor sem que isso acarrete necessariamente um agenciamento político” (JAGUARIBE, 2007, p.101). Analisando os filmes de Assis por essa chave do “choque do real”, podemos perceber que eles não ficam imunes ao espectador, justamente por esses picos de adrenalina que provocam um impacto instantâneo em quem assiste. Identificamos isso nas já citadas cenas de Amarelo Manga, e em Baixio das Bestas (Figura 12), no momento em que Auxiliadora é exposta, nua a homens que praticam o onanismo nos fundos de uma igreja (a). O filme, nesse momento, utiliza-se da junção do sagrado e profano, podendo ser lido em comparação com a cena do ritual em Deus e o diabo na terra do sol (b).
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Figura 12 – Baixio das Bestas: Auxiliadora é exposta
(a) (b)
Fonte: DVD Baixio das Bestas
Até mesmo o filme mais poético do diretor, Febre do Rato (Figura 13), possui diversos momentos em que esses choques provocados por uma elevação estética, imagética e narrativa desestabilizam o espectador. Em certo momento, Zizo convida sua musa a passear, saindo do meio de uma festa que ocorre à beira mar. Eles param em um barco, onde fumam maconha e o poeta diz a Eneida que ela parece “puta” (a). Em meio à uma discussão sobre porquês (o porquê dela não querer ficar com ele, porquês de excessos, porquês de vazios), ele diz que a quer penetrar. Ela o enfrenta e diz que sente vontade de urinar. Ele, então, num movimento inesperado pede para ver dizendo que não fará nada com ela, apenas observar. O ápice do efeito catártico é atingido quando Eneida urina na frente de Zizo e ele coloca a mão em seu mijo (b).
Figura 13 – Febre do Rato: Zizo e Eneida no barco
(a) (b)
Fonte: DVD Febre do Rato
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Como Jaguaribe (2007, p.23) define, “o mecanismo catártico do ‘choque do real’ visa aguçar a redescoberta de uma vivência que absorvíamos na indiferença”, ou seja, esses picos de adrenalina projetados a partir de situações corriqueiras, tem como função estabelecer uma percepção no espectador de experiências que ocorrem diariamente no cotidiano, afim de suscitar um pensamento crítico sobre elas. Portanto, o cinema de Claudio Assis se vale de situações corriqueiras, banais e que passa indiferentemente ao caos do dia a dia. Refletir criticamente sobre o que acontece no cotidiano da cidade é uma questão que pulsa em sua cinematografia.
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4 SANGUE NAS VEIAS DA MANGUETOWN: DESLOCAMENTOS