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5. BÖLÜM 5: SONUÇ VE ÖNERİLER

5.2. Öneriler

A predominância de visões interdisciplinares na literatura e seu estudo, o debilitamento da estrutura dos gêneros tradicionais, a natureza assistemática de muitos textos hispano-americanos atuais (Ortega,2000), junto a fatores contextuais históricos, étnicos e culturais, tem provocado o surgimento de setores heterogêneos, difusos, móveis, flutuantes, da textualidade contemporânea, genros mistos, interdisciplinares e interculturais que configuram textos plurais, híbridos, com sistemas enunciativos polifônicos, semântica e referencialmente polissêmicos e polivalentes.

Estas zonas de indeterminação ou indefinição textual e de gênero colocam em crise a estabilidade do cânone literário e tornam-se muito significativas no âmbito da narrativa

hispano-americana que, segundo Carrasco (1993), é caracterizada por dois aspectos fundamentais: a mutação interdisciplinar e o hibridismo cultural, que provocaram transformações que fazem parte de uma mudança maior das teorias do conhecimento e do discurso contemporâneo, e, portanto, uma transição rumo a um novo paradigma global.

Em relação à narrativa hispano-americana, os processos de mobilidade e indeterminação do sistema literário são decorrentes da ênfase dada aos aspectos de interdisciplinaridade e interculturalidade de origem no literário, que conduzem à abertura e fragmentação dos modos canônicos. De acordo com Carrasco, este processo deriva de uma nova noção de cultura e sociedade de índole pluralista e relativista, que coincide com alguns postulados pós-modernistas ao situar suas preocupações em âmbitos considerados tradicionalmente como locais ou periféricos e com o fenômeno global de crise dos grandes relatos.

Os diferentes processos históricos, sociais, artísticos, cognitivos, que abalaram, alteraram ou “corroeram” as estruturas tradicionais nas últimas décadas do século XX, provocaram uma sensação de desequilíbrio, variabilidade e mudanças na maneira de conceituar e descrever as várias experiências do Real. Muitas disciplinas tradicionais do conhecimento entraram em crise e variados discursos que até o século XX organizavam a compreensão, classificação e definição dos sentidos e do mundo foram desacreditados ou perderam sua especificidade e autonomia(Berman, 1987). Algumas destas modificações aconteceram dentro dos limites de disciplinas específicas, enquanto outras afetaram vários

campos do conhecimento, produzindo fatos e problemas de caráter transdisciplinar, interdisciplinar e intercultural, fruto do processo de globalização.

Uma visão tipológica da literatura contemporânea permite observar que os gêneros convencionais tem perdido estabilidade e se confundido com outros de natureza análoga e diferente, surgindo assim, gêneros e textos considerados não-literários.

A crise e ruptura dos modelos canônicos da literatura e do discurso mediante as estratégias da paródia, a distorção, a mistura, a fusão ou hibridismo dos textos e gêneros dominantes e estáveis da tradição, romperam ou debilitaram a natureza e os tipos de textos conhecidos, diluíram limites e abriram as fronteiras entre eles, ao mesmo tempo colocaram em dúvida a influência, o sentido e a validez de conceitos como verossímil, realismo, veracidade e sua conexão necessária com determinadas classes de oralidade e escrita.

De acordo com Wahnón (1995), cada dia aparecem novos textos que pretendem ampliar, alterar ou transgredir as normas de construção verossímil da literatura, deixando em dúvida se pretendem transforma-la em história, autobiografia, jornalismo, ciência, teologia, filosofia, ou misturar-se a elas para criar gêneros discursivos novos, embora as teorias que postulam a existência da literatura como discurso opaco que não remitiria a nenhuma realidade e satisfaria a si mesmo.

O texto literário não está distanciado dos demais fatos textuais e não textuais, porém interage com eles, articulando disciplinas, contextualizando dados, relacionando e dando sentido a elementos, situações e momentos históricos distintos, meios verbais e não verbais,

literários e outras formas de discursividade, tentando conciliar de maneira dinâmica as contradições de um objeto limitado entre a verdade e suas versões, reabilitando uma forma plural de aproximar-se da encruzilhada de diferenças em meio as que se encontra o observador de hoje, menos atento que perplexo, pressionado pela avalanche de acontecimentos díspares numa mesma ocasião, como propôs Lisa Block; desta maneira, as reflexões da crítica intertextual ou transtextual propiciam atitudes interdisciplinares:

O estudioso está situado entre diversas disciplinas, entre línguas diferentes, entre tendências contraditórias, apropriando-se de culturas(...) . A crítica transita entre textos heterogêneos vislumbrando as aberturas de uma situação moderna que se radica nesse espaço reservado, nas circunstâncias atuais, por todos os meios(Block, 1990:11)

Este fenômeno não é exclusivo da contemporaneidade, mas ao que parece, no fim do século XX, foi mais complexo e multifacetado na América Latina, cujos antecedentes estão na literatura colonial através de todas as manifestações literárias (cartas, relatos, teatro, testemunhos, etc)

Tudo isto é uma expressão atual da condição histórica da literatura, que segundo Carrasco, é um campo instável gerado por uma noção difusa, plural e heterogênea, tanto entre os próprios escritores quanto entre os teóricos, críticos e historiadores. A literatura é um fato de textualidade escritural variável, complexo e interdisciplinar. Que em diferentes momentos, culturas e sociedades tem sido definido e legitimado a partir de disciplinas e tendências filosóficas e científicas variadas (estética, história, psicologia, retórica, lingüística, semiótica,

estruturalismo, marxismo,hermenêutica, etc.)

De acordo com Carrasco, as diversas concepções de literatura e de literário consideram diferentes elementos e fatores para a determinação da “literaturidade” do texto particular ( o estilo, os gêneros, a retórica, a função poética, o autor, o mistério, o reflexo social, certos temas ou aspectos do mundo, etc), mas não conseguiram consenso nem em torno de um conceito comum, universal e estável, nem ao menos um objeto homogêneo,visto que as noções de literatura incluem uma variedade de textos, gêneros ou tipos discursivos.

A instabilidade, a modificação, a ruptura, a transgressão, a variedade dentro de uma unidade parecem ser próprias dos discursos que foram escritos e lidos como literários através dos tempos, das línguas e das culturas. Talvez por isso a crítica, a teoria literária, a história da arte não conseguiram estabelecer categorias unanimemente aceitáveis e validadas que resolvam o problema da variação permanente, da multiplicidade e a heterogeneidade das formas literárias e sua díspar conceitualização. E como um critério de seleção e de conformação de um corpus prestigiado por sua qualidade, seguro dos valores e influência na vida social, que pudesse controlar a vastidão, heterogeneidade desta textualidade chamada literatura, transferiu-se a idéia de “cânone” a partir da instituição religiosa e política e a instituição literária, para regular e controlar o poder da palavra, da beleza e da retórica.

Uma postura mais contemporânea consiste em considerar o cânone não como uma unidade ou estrutura imutável, mas como sendo histórica, plural, segundo fatores individuais, culturais, políticos ou ideológicos, conformada por heterogeneidades, complexidades,

contradições, e por isso, algo inseparável do trabalho de criação, crítica e investigação literária.

O cânone da literatura hispano-americana se desenvolveu desde a sua origem como imitação do cânone europeu, de acordo com os critérios de homogeneidade, singularidade, linguagem especial, ficcionalidade e mimese. Neste marco, os escritores puderam criar formas literárias imitativas e outras próprias, como por exemplo, o realismo mágico, o criacionismo.

O estudo das transformações do cânone da literatura hispano-americana foi realizado fundamentalmente em relação ao discurso narrativo, considerando que por volta dos ano setenta inicia-se um abandono parcial de algumas “chaves escriturais”, segundo Carrasco(19991) do chamado “boom” latino-americano. A introdução de novas formas de realismo frente as complexidades meta-literárias ou fantásticas (Rama, 1982), o auge do testemunho, a nova novela histórica, a literatura feminista, a aceitação a-crítica de modelos provenientes da globalização e do neoliberalismo, entre outros aspectos, foram vistos como parte deste processo de transformação. Mas foi a inserção de formas testemunhais “não literárias” ou ensaísticas (Miguel Barnet, Rigoberta Menchú, Elena Poniatowska e outros) que permitiu falar de descolonização e redefinição do cânone literário, no sentido de que a ele foi incorporada a voz do outro (Beverly e Achugar, 1992) através do testemunho, das histórias de vida, as biografias e as auto-biografias. Pode-se assim falar de um ecleticismo radical que torna difusa ou não significativa a procedência dos discursos para serem considerados como literários .

Outra estratégia usada é o hibridismo cultural, que é a utilização de elementos provenientes dos setores étnicos e culturais dissimiles e de linguagem de codificação plural. Portanto, estes textos são caracterizados pelo surgimento de campos interculturais considerados habitualmente como subalternos ou marginais, com o uso de conteúdos, retóricas e estilos provenientes de diversas etnias e culturas.

A emergência também da produção de novos atores literários como as mulheres, negros, exilados/imigrantes e subalternos em geral, que passam a tomar a palavra e a ocupar um novo espaço no campo intelectual, e no projeto criador, não só determinou essa enorme relativização das fronteiras do literário, como permitiu o estabelecimento de formas literárias alternativas como o testemunho, por exemplo, que ao ser legitimado como forma literária ideologicamente conformada e comprometida com grupos sociais até então condenados ao silêncio, e também como forma literária especialmente capaz de dizer a sua época, e promover uma intervenção transgressora, patrocinou uma série de questionamentos éticos e estéticos, fundamentais para a compreensão do processo literário latino-americano contemporâneo.

No caso de Hasta no verte Jesús mio, de Elena Poniatowska, o intertexto do discurso dominante, como apresenta a narradora, se entretece com as vozes dos oprimidos em um contra-discurso da retórica da Revolução Mexicana.

No texto de Poniatowska processa-se o encontro de dois fragmentos da cultura mexicana: a cultura letrada e a cultura “subalterna”. Há uma autoria dupla em que a voz é

genuinamente de Jesusa, mas onde a autora edita seu relato oral.

O texto reproduz sua imaginação, filosofia de vida, seu discurso sobre a Revolução mexicana que representa uma situação social de desigualdade e injustiça. A narração autobiográfica de Jesusa Palancares projeta um caráter rebelde e independente que resiste à exploração. O texto reproduz uma pluralidade de vozes que incluem as vozes da periferia em tensão com as do discurso oficial.

Na narrativa hispano-americana surgiram diversos textos e manifestações textuais que transpassam, superam, transgridem ou se apartam do cânone, ou seja, que pretendem dismistificá-lo e abri-lo para permitir a incorporação de outras formas textuais. Estes são os espaços de instabilidade, crise e mudança, determinados pelos intentos de validação dos textos e tipos textuais referenciais e testemunhais como literários, a mutação de disciplinas e gêneros, o deslocamento semântico e a incorporação da interdisciplinaridade e inter- etnicidade, como mecanismos de coerência dos diversos tipos de texto.

Conclusão

A oralidade foi uma forma desprestigiada de representação a partir do momento em que a escritura e mais tarde a imprensa se constituíram nas modalidades estabelecidas de

conceber e transmitir saber e conhecimento.

A oralidade está associada às culturas pré-letradas em que os “os moldes de pensar e de expressão” como os denomina Walter J. Ong em seu estudo Orality and literacy(1982) diferem basicamente dos da palavra escrita, enquanto não se submetem aos modelos de raciocínio e análise das culturas letradas Lanser considera a autoridade discursiva como “a credibilidade intelectual, a validade ideológica e o valor estético que se confere à obra, autor, personagem, narrador ou prática textual.”

Dentro desta perspectiva pode-se observar nos últimos anos um interesse crescente por gêneros ou textos previamente excluídos, como a expressão oral, a narrativa feminina e a da periferia.

O intertexto do discurso dominante, como apresenta a narradora, se entretece com as vozes dos oprimidos em um contra-discurso da retórica da Revolução Mexicana.

No texto de Poniatowska processa-se o encontro de dois fragmentos da cultura mexicana: a cultura letrada e a cultura “subalterna”. Há uma autoria dupla em que a voz é genuinamente de Jesusa, mas onde a autora edita seu relato oral.

O texto reproduz sua imaginação, filosofia de vida, seu discurso sobre a Revolução mexicana que representa uma situação social de desigualdade e injustiça. A narração autobiográfica de Jesusa Palancares projeta um caráter rebelde e independente que resiste à exploração. O texto reproduz uma pluralidade de vozes que incluem as vozes da periferia em tensão com as do discurso oficial.

Nesta narrativa de dupla autoria de mulheres mexicanas, o discurso oral do “outro” rompe o silêncio lendário para surgir com um texto que representa a outra cara da realidade mexicana, o olhar dos oprimidos.

Hasta no verte Jesús mio incorpora o discurso dos oprimidos à história da literatura. Sua escritura reproduz as vozes anônimas, até então excluídas, dos mexicanos da periferia num contra-discurso à narrativa oficial do século XX. O relato oral de Jesusa Palancares reproduz sua visão de mundo, sua resistência inquebrantável e seu esforço para superar sua condição subalterna. Nesta narrativa de dupla autoria de mulheres mexicanas, o discurso oral do Outro rompe seu legendário silêncio para surgir com um texto que representa a outra face da realidade mexicana, o olhar dos oprimidos. O testemunho da mulher marginalizada Jesusa Palancares atingiu uma posição de sujeito falante numa obra de ficção que reproduz sua ideologia subalterna e em que a autoridade narrativa foi conferida por sua credibilidade, seu valor estético e ideológico. Em Hasta no verte Jesús mio Elena Poniatowska conseguiu transgredir barreiras interculturais para restabelecer o prestígio e autoridade da representação oral transformada em texto.

Através destas considerações, podemos concluir que esta é uma obra que, pela temática que desenvolve, mostra não somente os efeitos do processo de modernização – conservadora e periférica – vivenciados pelo país onde esta narrativa se originou; estão presentes também os efeitos excludentes das transformações sociais deflagradas pela modernização.

A literatura testemunho apresenta visões alternativas à historiografia “oficial”, enriquecendo e multiplicando os ângulos a partir dos quais podemos olhar. Através desta podemos vislumbrar como os efeitos de um processo de modernização conservadora produziram narrativas que formularam novas possibilidades de visão histórica, reflexão social e produção artística na América Latina e, por sua vez, incluindo a voz dos excluídos sociais como um coro-se não harmônico, sempre único – da sociedade como um todo.

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