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2. BÖLÜM: İLGİLİ ALAN YAZINI

2.4. Çocuk Hakları

Os numerosos estudos sobre a nova novela hispano-americana publicados principalmente nos anos noventa concentraram-se nas manifestações de uma mudança de

gênero, ou seja, numa renovação radical do mesmo, na novela histórica do fim do século XX em contraposição à novela histórica tradicional, especialmente quanto ao seu questionamento explícito da escritura da História e de suas observáveis e inovadoras estratégias narrativas.

Para destacar a dimensão desta mudança Seymor Menton e outros autores propuseram a denominação “nova novela histórica” (Menton,1993: 29), admitindo que ao mesmo tempo segue-se escrevendo novelas históricas de índole tradicional, enquanto outros perferiram as denominações “a nova novela histórica de fins do século XX”, “a novela histórica recente” ou “a novela histórica contemporânea para definir “que as mudanças de gênero não acontecem de maneira simultânea nem homogênea” (Pons,1996:255).

A novela histórica hispano-americana do século XIX e da primeira metade do século XX contribuiu segundo Menton, para a criação de uma consciência nacional familiarizando seus leitores com os personagens e aos acontecimentos do passado(ibid.:36), reconstruindo ou revisando a história dos grandes acontecimentos e empregando um discurso narrativo caracterizado de pela linealidadade narrativa e o final fechado e unívoco.Destaca também aspectos tais como: a objetividade e não neutralidade da escritura da História, relativização da historiografia, rejeição da suposição de uma verdade histórica, mudança nos modos de representação, questionamento do processo histórico, a escritura da história a partir das margens, os limites, abandono da dimensão mítica, totalizadora ou arquetípica na representação da história.Finalmente, observa-se uma espécie de desconstrução da história européia, história que sempre dominou a formação do intelectual latino-americano.

De fato, grande parte das novelas com temáticas históricas publicadas a partir dos anos oitenta parecem responder diretamente a este discurso. Isto aponta uma mudança de paradigma na narrativa hispano-americana, em que no decorrer dos anos setenta e oitenta prevalecia a literatura testemunhal. Enquanto a novela-testemunho tratou de reconstruir a verdade histórica narrando a história a partir da perspectiva autobiográfica/individual na representação de um sujeito coletivo/nacional (os subalternos, marginalizados) e enquanto em outras novelas recorreu-se à reconstrução de um mito para a construção de uma identidade coletiva/nacional, e em outras estas tradições são rompidas, recorrendo a outros elementos que também questionam os modos hegemônicos de representação da realidade histórica e da alteridade.

Entre os diferentes intentos de explicar as causas do auge da novela histórica na América Latina predominou a posição de que o novo interesse pela novela histórica tema ver com a busca da identidade continental, que representa um novo grau de emancipação da intelectualidade latino-americana, porque nela se expressa a nova relação do latino-americano com o europeu, manifestando assim uma nova segurança, um novo sentido de valor dos latino-americanos precisamente no tratamento literário da própria história

A partir desta consciência, cria-se, para usar a expressão de Edward Said, “uma literatura de resistência” que propõe rever as certezas universalizantes do colonizador. O que move este romance histórico é a vontade de reinterpretar o passado com os olhos livres das amarras conceituais criadas pela modernidade européia no século XIX, é a consciência do

poder da representação, da criação de imagens e, conseqüentemente, do poder de narrar e de sua importância na constituição das identidades das nações modernas. Daí a necessidade de releitura da história como parte do esforço de descolonização, que se realiza contra toda uma mentalidade perpetuada pelas elites locais, pelos discursos da história oficial.

A narrativa histórica hispano-americana de Alejo Carpentier, Augusto Roa Bastos, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e outros procura trabalhar com a multitemporalidade que caracteriza a América Latina. Dilui os contornos entre história e lenda, problematizando o discurso racionalista e suas categorias puras, para contemplar a realidade multifacetada. Escreve-se uma anti-história que denuncia as falácias da história eufórica dos vencedores. Problematiza-se a enunciação com o intuito de relativizar verdades tidas como universais e absolutas.

Essas características aproximam do que Linda Huncheon chama de “metaficção historiográfica” e levam a autora a incluir algumas das obras na sua lista de exemplos da ficção pós-moderna. Confunde-se aí, a crítica à modernidade, pelos seus aspectos excludentes e eurocêntriccos, feita por autores oriundos de um subcontinente onde a modernidade assumiu um caráter inconcluso, de projeto a realizar, sempre adiado, com as objeções feitas ao pensamento moderno a partir de uma sensação de esgotamento dos discursos sobre a liberdade, razão e verdade, gestada nos países desenvolvidos às volta com as contradições decorrentes do capitalismo tardio, marcado pela revolução tecnológica.

que teve a Europa como centro e, por isso, fomos negados e obrigados a seguir um processo de modernização compulsória que nem sempre respeitou as necessidades internas de cada país. É dessa atmosfera que os autores latino-americanos se aproveitam para afirmar as diferenças sem complexo de inferioridade, para privilegiar a margem como ponto de vista.

O que vários autores pretendem negar através de suas obras é que os países latino- americanos são a periferia dos países europeus e sua cultura subalterna. A subalternidade consiste na condição do subalterno, ou seja, de uma forma de opressão que exclui os sujeitos de um modo cultural determinado. O subalterno é somente outra palavra clássica para denominar ao oprimido, ao Outro, a alguém que ficou fora do “todo” cuja voz poderia não ser ouvida e que estruturalmente está fora da narrativa burguesa segundo Gramsci. Em termos pós-coloniais, todo aquele que tem acesso limitado à cultura imperialista e ao espaço da diferença. É também aquele que não pode expressar-se através de suas formas de representação. Tal é o clássico exemplo do texto mais conhecido de Gayatri Spivak, Can the subaltern speak? Para Spivak a partir da subalternidade não existem posssibilidades de diálogo, pois para que exista a comunicação é necessário que haja uma disposição do ouvinte a escutar. A subalternidade é a negação da voz e de toda forma de auto-representação. Por outro lado, quem aposta na subalternidade como forma identitária, projeta a possibilidade de expressão do subalterno através de outros.

No que tange a história do eixo centro-periferia, tradicionalmente nos currículos escolares se apresenta a dicotomia civilização-barbárie como um momento de discussão na

América Latina congelado no século XIX a partir do projeto de Domingo Faustino Sarmiento e outros pensadores, os quais formulavam a coesão da nação baseada na exclusão do lado selvagem e o encarrilhamento dentro dos caminhos do progresso civilizatório encabeçado pelos paises europeus, ou seja, a luta entre civilização européia e a barbárie indígena, entre a inteligência e a matéria.

A barbárie estava representada não somente pelos indígenas, como também pelos ditadores e todas as suas práticas antidemocráticas. Facundo é um tipo da barbárie primitiva: não conheceu sujeição, sua cólera era como de feras e também pelos lugares marginais das cidades, os mendigos, os camponeses e os ignorantes. Por outro lado, o paradigma da civilização era a França, também outros países europeus como a Itália e a Inglaterra no ápice de seu poderio colonial e, sobretudo, Paris, onde o refinamento cultural das práticas artísticas determinava o cume da civilização Ocidental e suas práticas políticas. Neste sentido a história era entendida como um processo linear desde a barbárie até a civilização e os países latino- americanos, na medida em que se encontravam à beira do Ocidente, tinham a possibilidade de chegar a serem paises civilizados, si é que estivessem no rumo da linha do progresso.

Neste vazio social e político, as culturas e sua diversidade não podem ser reconstruídas senão pelo empenho dos grupos para voltar a encontrar sua própria autonomia, sua capacidade de associar valores e práticas, inclusive a participação no mundo das técnicas e os mercados com a conservação de sua própria identidade e memória cultural.

através dos diferentes movimentos literários como o naturalismo, por exemplo. É através de escritores não marginais onde encontramos mais informações sobre os diversos setores que compõem nossa sociedade. Na literatura marginal, de alguma maneira se extingue o encobrir ideológico de uma realidade existente, que é rechaçada por outros segmentos sociais ditos “oficiais” e homogêneos.

A crítica compreende como literatura testemunho aquela em que o discurso de uma pessoa pertencente a um determinado grupo social – geralmente marginalizado, e por isso determinado subalterno – que normalmente não dispõe de meios de expressão próprios, ganha expressão escrita através da participação de outra pessoa; esta é capacitada para expressar o que o primeiro não seria capaz A este chamamos mediador, geralmente solidariza-se com a realidade do subalterno e compartilha de seus ideais.

O Subalterno é considerado – o emissor primitivo da mensagem – como incapacitado a se fazer ouvir – no meio literário – pelos demais grupos, uma vez que entre ambos existem distâncias intransponíveis de nível, seja este social e/ou racial e/ou cultural, etc. Este recurso de ser ouvido pertence ao mediador, cuja voz pode ser escutada e que se dispõe a transcrever em código formal a mensagem que o primeiro não poderia emitir, sendo este o modelo mais usual de literatura testemunho.

A narrativa hispano-americana trabalha com a diluição das fronteiras entre ficção e história para confrontar as representações feitas pelo poder com a representação daqueles postos à margem. Neste estilo de criação autores como Carlos Fuentes, Rosario Castellanos e

Elena Poniatowaka reivindicam a valorização dos sujeitos na cotidianeidade.

Elena Poniatowska com sua novela introduz a voz dos oprimidos ao cânone literário latino-americano. A ficção das mulheres evoluiu a ponto de que a protagonista desta obra, é uma mulher marginalizada que alcança a posição de sujeito falante numa narrativa que desmistifica os ideais da Revolução Mexicana e inscreve a ideologia do subalterno no texto oficial. A escritura de Poniatowska consegue incorporar as vozes do Outro mexicano, através do diálogo com os que sofrem de opressão, fome ou pobreza. Neste aspecto, a autora segue as pautas iniciadas por Rosario Castellanos em seu rol de agente intercultural e sua novela marca um avanço na representação do marginalizado no discurso literário latino-americano.

Devido a sua condição subordinada na sociedade patriarcal, as mulheres demonstraram uma abertura em direção aos marginalizados por motivos de etnia, classe ou gênero. Rosario Castellanos a partir dos anos cinqüenta e Elena Poniatowska após a década de setenta, atuaram como agentes interculturais que transgrediram as barreiras de sua classe social e conseguiram estabelecer uma interação dialógica com o outro, com aqueles excluídos por sua idiossincrasia ou por sua condição social subalterna.

A linguagem das mulheres na América Latina tem sido formulada por vozes de resistência e pelo questionamento dos sistemas que regulam as situações de injustiça e repressão. Em sua preocupação com a condição do Outro mexicano, Elena Poniatowska aprendeu a escutar o clamor dos marginalizados. Jesusa Palancares, a narradora-protagonista desta novela, representa as vozes silenciadas do México anônimo e sua coragem para

enfrentar adversidades. Jesusa, como mulher oprimida estáconstantemente exposta à violência e à escassez. Sua existência marginalizada está marcada pela ignorância, o vício, o abuso e a pobreza. A protagonista é uma mulher das periferias da cidade do México que desde sua infância luta heroicamente para sobreviver. Na idade de cinco anos perde sua mãe e a partir de então inicia-se na escola de experiências negativas que a levam desde sua terra Oaxaca na época de Madero, através dos episódios da Revolução Mexicana, até a capital federal onde enfrenta um destino de vida instável. Sua trajetória caracteriza-se por uma resistência permanente à opressão e pela luta incansável contra qualquer fonte de poder que ameace sua liberdade individual e sua integridade.

Numa conferência sobre a América Latina em 1982 em Berlim, Elena Poniatowska declarou sua adesão aos marginalizados quando disse: “A literatura das mulheres na América Latina é parte da voz dos oprimidos. Acredito tão profundamente que estou disposta a convertê-lo em leit-motif, em ideologia”.

A associação das mulheres com a periferia é essencial na narrativa de Poniatowska edificada com a voz dos oprimidos e com as daqueles excluídos dos centros do poder. Segundo a autora, Jesusa é e não é uma mulher reprimida. É porque vem do nível mais baixo da sociedade, mas não está oprimida porque se salva sozinha. Poniatowska escreve que a mulher mexicana é duplamente oprimida já que seu estado de submissão foi introduzido pela Conquista e o cristianismo, e porque é mulher reprimida. As mulheres que quiseram liberar-se desta condição de submissão, como Sor Juana, foram silenciadas. Neste contexto, Jesusa

Palancares é uma desmistificadora enquanto retrata o avesso de uma realidade e questiona o heroísmo da Revolução Mexicana quando diz:

“yo creo que fue uma guerra mal entendida porque eso de que se mataran unos contra otros, padres contra hijos, hermanos contra hermanos; carrancistas, villistas, zapatistas, pues eran puras tarugadas porque éramos los mismos pelados y muertos de hambre. Pero ésas cosas que, como dicen, por sabidas se callan.”(p.94)

Ao introduzir a voz dos marginalizados em sua obra, Poniatowska está transpondo as barreiras da narrativa oficial cultural e histórica. Seu intertexto do discurso dominante se mescla com as vozes dos oprimidos num contra discurso da retórica da Revolução mexicana. Poniatowska seleciona uma linguagem que reafirma sua posição ideológica de adesão aos oprimidos e emite assim um postulado cultural. Neste aspecto, a ficção de Poniatowska inaugura um marco significativo no resgate do marginalizado para a literatura, algo proposto por Canclini que ao analisar as culturas híbridas apresenta as transformações da cultura popular através do contato com a cultura urbana, em seus diversos aspectos, entre eles a migração, o subemprego, o desemprego.

As experiências e visão de mundo da protagonista Jesusa podem ser lidas como uma crítica social que reflete a ideologia da pobreza, da cultura mexicana subalterna. A voz da protagonista se funde com o autor que atua como amanuense para reproduzir seu relato oral e registra uma voz antes silenciada. A autora coleta o testemunho da vida de Jesusa em visitas semanais a sua interlocutora durante um ano e o texto surge destes encontros e da tensão nesta

relação afetiva, mas também conflitiva entre as duas, numa interação dialógica entre a consciência e perspectiva de Jesusa e da escritora que as transcreve num marco ficcional. Com a intervenção da autora, a mulher marginalizada consegue um espaço para falar.

O texto reproduz sua imaginação, sua filosofia de vida, seu discurso sobre a Revolução mexicana, sua crítica da escassez da vida, sua luta para sobreviver. Numa situação social de desigualdade e injustiça, a narração de Jesusa projeta um caráter rebelde e independente que resiste à exploração. O texto de Poniatowska reproduz uma pluralidade de vozes que incluem as vozes da periferia em tensão com aquelas do discurso oficial e político numa linguagem de múltiplas faces. Nesta interseção cultural é importante perguntar-se em que medida pode o oprimido acessar a linguagem para expressar sua realidade e com a voz de quê consciência pode falar o subalterno? No caso de Hasta no verte Jesús mio o subalterno, representado por Jesusa, graças à intervenção artística de Elena Poniatowska pode falar de fato.

A autora não transcreve, como historiadora numa linguagem objetiva, mas em interação dialógica com o sujeito subalterno. Atua com empatia, solidariedade e em tensão com sua informante num processo dinâmico de intercâmbio que libera Jesusa de seu silêncio e a reproduz como personagem autônomo e sujeito falante. É através da linguagem de Poniatowska que Jesusa Palancares articula sua condição de oprimida e sua marginalidade.

Se a ideologia é considerada resultado de uma experiência e não um código de ideais abstratos, pode-se postular que a ideologia de Jesusa é sua resposta à sua situação social e as

forças dominantes na sociedade. Seu relato oral projeta uma ideologia do subalterno mexicano, sua saudade da vida do campo (uma visão idílica), sua autodefesa contra a violência, seu pessimismo sobre o destino dos pobres.

Hasta no verte Jesús mio incorpora o discurso dos oprimidos à história da literatura. Sua escritura reproduz as vozes anônimas, até então excluídas, dos mexicanos da periferia num contra-discurso à narrativa oficial do século XX. O relato oral de Jesusa Palancares reproduz sua visão de mundo, sua resistência inquebrantável e seu esforço para superar sua condição subalterna. Nesta narrativa de dupla autoria de mulheres mexicanas, o discurso oral do Outro rompe seu legendário silêncio para surgir com um texto que representa a outra face da realidade mexicana, o olhar dos oprimidos. O testemunho da mulher marginalizada Jesusa Palancares atingiu uma posição de sujeito falante numa obra de ficção que reproduz sua ideologia subalterna e em que a autoridade narrativa foi conferida por sua credibilidade, seu valor estético e ideológico. Em Hasta no verte Jesús mio Elena Poniatowska conseguiu transgredir barreiras interculturais para restabelecer o prestígio e autoridade da representação oral transformada em texto.

Através destas considerações, podemos concluir que esta é uma obra que, pela temática que desenvolve, mostra não somente os efeitos do processo de modernização – conservadora e periférica – vivenciados pelo país onde esta narrativa se originou; estão presentes também os efeitos excludentes das transformações sociais deflagradas pela modernização.

A literatura testemunho apresenta visões alternativas à historiografia “oficial”, enriquecendo e multiplicando os ângulos a partir dos quais podemos olhar. Através desta podemos vislumbrar como os efeitos de um processo de modernização conservadora produziram narrativas que formularam novas possibilidades de visão histórica, reflexão social e produção artística na América Latina e, por sua vez, incluindo a voz dos excluídos sociais como um coro-se não harmônico, sempre único – da sociedade como um todo.

Benzer Belgeler