4. ARAŞTIRMA SONUÇLARI VE TARTIŞMA
5.2 Öneriler
Quando nomeamos a intervenção em grupo junto a homens que exercem violência contra mulheres como reflexiva, chamamos ao debate as tendências das sociedades modernas teorizadas por autores como Hall e Giddens. O primeiro desses autores focaliza as intensas dinâmicas da sociedade moderna e seu amplo processo de mudança, que abala “os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social” (HALL, 1997, p. 7). O segundo autor organiza o conceito de reflexividade, comentando que este aparece para marcar uma nova forma relacional instituída na vida social, capaz de romper com práticas e preceitos preestabelecidos. Assim, as grandes mudanças sociais se conjugam com o desenvolvimento de tendências de os atores sociais de fazerem uma revisão e/ou reflexão constantes das atividades sociais nas quais estão inseridos, bem como das formas de suas relações sociais (GIDDENS, 1993, 2002).
O conceito de reflexividade é empregado quando tematizamos as relações de intimidade e, por isto, sua utilização se justifica para referendar as intervenções grupais dos casos de violência. Segundo Giddens (1993), o palco da modernidade é tomado por intimidades, problemas pessoais, crises e sofrimentos que se relacionam com o panorama social, na medida em que as circunstâncias sociais não podem ser consideradas separadas da vida pessoal, e nem como pano de fundo para ela. De acordo com esse autor, “ao enfrentar problemas pessoais, os indivíduos ativamente ajudam a reconstruir o universo da atividade social à sua volta” (GIDDENS, 2002, p. 18). Para ele, a esfera das relações pessoais oferece espaços de intimidade e autoexpressão inconcebíveis nas sociedades tradicionais, dando origem à reflexividade. A consequência disto é que a autoidentidade tem que ser constantemente alimentada por narrativas biográficas coerentes, embora constantemente revisadas, num contexto de múltiplas escolhas. Assim, ao nomear uma intervenção como reflexiva, levamos em conta estas dinâmicas modernas de reconstrução constante de práticas sociais e movimentos de autoidentidade.
Para além do termo reflexividade, ao abordar as intervenções com homens que exercem violência, surge outro conceito – responsabilização –, compondo a dupla paradigmática com a reflexividade, conforme já explicitado. Assim, para conceituar responsabilização, chamaremos novamente para o debate Hannah Arendt (1981, 2004, 2009). A partir de seu livro, Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, Arendt (1999) institui importantes reflexões sobre o tema da responsabilidade, da moralidade, do julgamento e do pensamento. Convidada para fazer a cobertura jornalística, em Jerusalém, do
julgamento de Eichmann29, a autora relata ter se deparado com um homem comum, em nada comparado à imagem demoníaca de um assassino de grande proporção. A partir dessa constatação e dos relatos de Eichmann durante seu julgamento, Arendt (1999, 2004) diz que ele se esforçava para provar que era um mero dente da engrenagem do estado totalitário e, por esse prisma, não poderia ser responsabilizado, a não ser que todos o fossem, inclusive os judeus. Convencido de que tudo o que fez foi cumprir ordens, Eichmann se exime da responsabilidade de ter matado milhares de judeus, fato que parece curioso para Arendt (1999, 2004, 2009).
Num exame atento ao modo de racionalidade de Eichmann, Arendt (2004) propõe desenvolver o termo responsabilização a partir da faculdade de pensar, para ela uma atividade dialógica. A autora afirma que, pela atividade do pensamento, há um diálogo entre eu e eu mesma que pode ser ouvido falando em mim, ou seja, a ação é de natureza relacional, já que tenho um eu e me relaciono com ele como o meu próprio eu. Segundo ela,
esse eu não é de modo algum uma ilusão; faz-se ouvir falando para mim – falo comigo mesmo, não estou apenas ciente de mim mesmo – e, nesse sentido, embora eu seja um só, sou dois-em-um, e pode haver harmonia ou desarmonia com o eu. (ARENDT, 2004, p. 154).
Feita tal formulação, Arendt acrescenta que, “assim como sou meu parceiro quando estou pensando, sou minha própria testemunha quando estou agindo. Conheço o agente e estou condenado a viver junto com ele. E ele não é calado” (ARENDT, 2004, p. 155). O pensar é um diálogo solitário e silencioso, e o ato de não pensar, ou o vazio do pensamento, não significa uma incapacidade cerebral, mas o movimento de evitação do diálogo consigo mesmo.
A concepção de pensamento de Arendt (2004) é plural e se dá na multiplicidade e no movimento, pois pressupõe um estado de co-habitação entre mim e mim mesma. Pensar significa se comprometer com o eu como parte do nós, e a destruição de uma porção do todo (eu ou eu mesma) significa a ruína da própria condição do pensamento e, portanto, levaria à condição estática, inerte e acrítica. Sendo o pensamento uma forma de contato consigo mesmo, manter um diálogo consigo mesmo significa, em certa medida, manter uma relação com a pluralidade. Observamos aqui que a concepção de pensamento e/ou atividade de pensar arendtiana tem como referência o campo político, o campo da ação, extrapolando, assim, os campos filosófico, moral e da consciência do eu.
29
Karl Adolf Eichmann foi o oficial da Alemanha nazista responsável pelo extermínio de milhões de judeus e, em particular, durante a denominada solução final.
Após essas reflexões, Arendt (2004) concebe a responsabilização como um desdobramento do ato de pensar, tal como descrito acima. Somente com a atividade de exame entre eu e mim mesma, movimento do pensamento, é que os sujeitos podem se voltar para o mundo e, na mesma perspectiva dialógica, estabelecer relações de alteridade. O conceito de responsabilização aparece, nesse contexto, como a capacidade que, conectada ao conceito de reflexividade, faz com que uma pessoa possa se posicionar diante do que ela pensa, faz e diz. Isso implica uma atitude reflexiva do sujeito cognoscente para 1) suas relações epistêmicas, ou seja, suas opiniões e convicções; 2) suas relações técnico-práticas, que dizem respeito às atitudes de um sujeito agente para com sua atividade orientada a fins; e 3) suas relações morais-práticas, que supõem a reflexão sobre suas ações articuladas com um projeto de vida próprio, no contexto de uma biografia individual, mas entrelaçada com formas coletivamente dadas de vida (HABERMAS, 2004).
Portanto, esse movimento de responsabilização exige o distanciamento da perspectiva egocêntrica, ou seja, a capacidade de descentrar-se de si mesmo e centrar-se nas consequências performativas de suas ações. Reflexão/responsabilização passa a ser um sintagma norteador das intervenções com homens autores de violência, e trabalhar com o paradigma da reflexão não significa, como apontado por Gondolf (2007), instituir uma dinâmica não diretiva na qual o principal foco é encorajar os participantes a descobrirem e perceberem suas necessidades e possíveis soluções para seus conflitos. Os programas de intervenção com homens que exercem violência contra mulheres têm (e devem ter) diretividade, pois partimos da premissa de que as práticas violentas contra mulheres são instrumentalmente orientadas, ou seja, têm direção e podem ser justificadas por aqueles que as cometem. Nesse sentido, as intervenções devem tematizar o contexto em que a violência é exercida, bem como as formas conexas e heterogêneas que ela toma. Esperamos que as análises dos dados desta pesquisa comecem a elucidar tal ponto, mostrando as estratégias utilizadas pelos homens para justificar suas práticas violentas e apontando, assim, caminhos para a intervenção.
Como a maioria dos programas de intervenção com homens que exercem violência contra as mulheres está organizada por procedimentos em grupos, passaremos agora a descrever, de forma sucinta, os desenvolvimentos teóricos sobre as dinâmicas dos grupos a partir do campo da psicologia. Posteriormente, salientaremos dois aspectos da leitura da dinâmica de grupos que serão utilizados nas análises do corpus de pesquisa.