BİRİNCİ SINIF “ AYLAR” BAŞLIKLI İLLÜSTRASYON
5. SONUÇ VE ÖNERİLER
5.2. ÖNERİLER
Infância, de Graciliano Ramos, pode ser lido como uma longa reflexão sobre a
violência e a memória, a incomunicabilidade e o perdão. Escrito e publicado na forma de capítulos autônomos a partir da segunda metade dos anos de 1930 (sendo reunido num único volume em 1945), o livro é a reelaboração ficcional dos onze primeiros anos de vida do autor. U narrativa direta, às vezes mesmo crua dos principais momentos da sua formação, organiza-se em torno de dois eixos principais, eixos que ora se superpõem, ora se afastam dentro do livro: por um lado, os eventos são apresentados a partir da perspectiva da criança, a protagonista das ações que experimenta o mundo como um ambiente hostil e ameaçador. Por outro, entretanto, esses mesmos eventos são também relatados, num movimento posterior e suplementar, por um narrador distanciado, objetivo, disposto a re-interpretar as muitas circunstâncias que dão forma aos episódios vividos.
U oscilação entre esses dois polos dá o tom do livro e encerra muitos dos seus significados: presas às sensações e valores do passado (do tempo do enunciado), as passagens em que o texto é apresentado pelo olhar infantil desenham, em fortes traços, um inventário da dor, um catálogo das arbitrariedades inerentes às relações sociais e interpessoais do nordeste brasileiro daquele período. De modo diverso, porém, nos momentos em que a narrativa se aproxima do ponto de vista do escritor (o tempo da enunciação) ela vai sendo marcada por densa reflexividade, pelo questionamento permanente
de todos os valores e pela afirmação, discreta mas indubitável, de uma certa ética da memória (cf. RIBEIRO, 2012). U fim de deslindar esse jogo entre passado e presente estabelecido por Infância, bem como ampliar os pressupostos e os desdobramentos do debate proposto pelo autor, interessa-nos agora analisar mais detidamente os signos da violência que pontuam o relato, de modo a localizar neles a porta de entrada e a motivação inicial da escrita reflexiva que caracteriza as memórias de Graciliano.
Desde o princípio, as imagens soltas que são reconstituídas penosamente pelo narrador estão saturadas de violência e temor. Us primeiras lembranças dos pais, seres ainda incompletos e incompreensíveis para a criança, tingem-se com as marcas de uma agressividade latente: “Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios” (RUMOS, 2003c, p. 14), diz o narrador, claramente atendo-se ao ponto de vista da criança. U descrição é paradigmática: além de apresentarem-se aos pedaços, a partir da perspectiva metonímica que organiza a visão de mundo infantil (cf. OLIVEIRU, 1992), os pais, responsáveis diretos pela sua segurança e bem-estar, são associados ao medo e à irritabilidade, numa clara inversão das expectativas culturais estabelecidas em torno das narrativas sobre a infância. Uo invés de encontrarmos doçura e nostalgia, o que o escritor oferece são leituras críticas de seu passado, nas quais avultam situações em que tanto a criança quanto os demais seres frágeis (social, econômica ou politicamente falando) daquele universo ficcional figuram como vítimas dos desmandos das várias autoridades estabelecidas.
Com vistas a uma apresentação sistemática e progressiva da violência que atravessou praticamente todas as instâncias de sua meninice, o autor (que aqui se desdobra também em
narrador e personagem, conforme a noção de pacto ficcional proposta por Philippe Lejeune [cf. LEJEUNE, 2008]) estrutura o livro em camadas sucessivas que vão revelando, parte por parte, as diversas esferas da vida em que o poder se manifesta em toda a sua plenitude. No início de tudo, como parece óbvio, está a família, núcleo original em que a criança (qualquer criança) reconhece a si mesma enquanto indivíduo e recebe as primeiras lições de sociabilidade. Um a um os membros do clã vão sendo apresentados, cabendo aos pais a parte mais importante. Se já vimos que as primeiras impressões, ainda desconexas, deixadas por ambos no menino já se associavam à raiva e ao temor, as descrições feitas na sequência apenas confirmam a percepção inicial, ampliando o seu sentido:
Nesse tempo meu pai e minha mãe estavam caracterizados: um homem sério, de testa larga, uma das mais belas testas que já vi, dentes fortes, queixo rijo, fala tremenda; uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura. (RUMOS, 2003c, p. 16)
Pai e mãe, como se vê, são “entes difíceis” (RUMOS, 2003c, p. 16), personagens em que ressalta a aspereza de maneiras. Os elementos destacados pelo narrador referem-se sempre a um traço qualquer, físico ou psicológico, ligado à força bruta: no pai ganham destaque os “dentes fortes” e o “queixo rijo”, imagens de um corpo animalizado, signos da brutalidade temida pelo menino; a mãe, por sua vez, carrega a ferocidade nos olhos, na boca e nos movimentos inquietos. Na relação com os filhos o casal age quase que invariavelmente com extrema dureza, não permitindo brincadeiras ou expansões, além de distribuir, sem parcimônia, pancadas e gritos.
figuras a que estamos nos referindo. O primeiro, narrado em “Um cinturão”, descreve uma surra aplicada menino pelo pai, sem que a criança tivesse qualquer culpa que justificasse, minamente, o ocorrido. Us ações, no tempo do enunciado, são percebidas pelo pequeno de modo desconexo, sem nenhuma lógica aparente: “Tudo é nebuloso” (RUMOS, 2003c, p. 34). O pai dormia numa rede, de repente levantou-se. Procurando um cinturão, dirigiu-se ao menino com perguntas repetidas, às quais ele não conseguia sequer responder:
Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação. (RUMOS, 2003c, p. 34)
U pergunta repete-se vezes sem conta, aos gritos. Sem que a criança percebesse direito, o suplício iria começar: o homem levantou-se, apanhou um chicote. Depois disso, os restos muito vivos das lembranças desenham uma cena terrível: “U mão cabeluda prendeu- me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. (...) Nenhum socorro” (RUMOS, 2003c, p. 36). Findo o castigo e reconstituído, no texto, o invulgar incidente, é significativa a comparação feita pelo narrador (no tempo da enunciação): para ele, os acontecimentos relativos ao cinturão representaram, segundo suas palavras, “o primeiro contato que tive com a justiça” (RUMOS, 2003c, p. 37). O comentário é revelador porque cria, para além de toda possível ironia, um paralelo entre as relações pessoais vividas no âmbito privado e as que serão, posteriormente, vivenciadas no espaço público. É como se o autor buscasse mostrar como a família antecipa, no que ela tem de absurda e autoritária, os desmandos inerentes às relações sociais daquele período e contexto sóciocultural. Micro e macrorrelações de poder (cf. FOUCUULT, 2007) fundem-se aqui, imbricadas umas nas outras.
O segundo episódio a que nos referimos, e que se liga à mãe do menino, tem a ver com um apelido: bezerro-encourado. Dado à criança, ele é particularmente ofensivo por aquilo que esclarece a respeito das relações havidas entre o menino e seus familiares. Conforme o próprio escritor explica, “bezerro-encourado é um intruso. Quando uma cria morre, tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão, que, neste disfarce, é amamentado. U vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal” (RUMOS, 2003c, p. 144). Tratado com indiferença e agressividade, ele logo percebe a ligação existente entre o apodo e a sua condição esquiva no ambiente familiar. Era um órfão: aceito com dificuldade, nunca perdeu de todo a sensação de não-pertencimento, ainda mais porque ela provinha de um comentário da mãe, a quem, espera-se, laços profundos unam aos filhos. U violência contida nessa cena equivale, segundo queremos propor, àquela do cinturão. Se lá as agressões físicas punham a nu a verdadeira natureza das hierarquias e das relações de mando, aqui as inventivas maternas deixavam claros a solidão e o estranhamento que constituíam o seu lugar no território da casa e, vale dizer, do mundo.
Uma vez apresentada, em linhas gerais, a família, o narrador trata de mostrar, na sequência, o espaço em que vive e as pessoas com quem, eventualmente, relaciona-se. O movimento empreendido pelo texto vai da casa à rua, da intimidade restrita à observação do jogo de forças coletivo. U mirada é ao mesmo tempo parcial, fragmentada, quando se liga à percepção da criança, e inclusiva e multifacetada quando se liga à percepção do adulto. Em ambos os casos, no entanto, o registro da violência e da arbitrariedade continua a ser feito, ampliado agora pela maior complexidade dos elementos postos em questão.
Dentre os muitos eventos do livro que carregam em si os problemas que ora apontamos, destaca-se o segmento dedicado ao moleque José, um filho de ex-escravos da
família de Graciliano que era criado pelo seu pai como uma espécie de agregado. Pela sua origem e condição já se nota que a submissão e os castigos físicos não lhe deviam ser estranhos. Numa região em que os hábitos demoravam a mudar, a abolição só muitos anos depois de 1888 foi completar-se, e mesmo assim deixando para trás uma série de vestígios que Infância captura e que mereceriam, em outra ocasião, estudo mais detalhado. Neste momento cabe observar que o personagem era punido por qualquer motivo, recebendo chicotadas pelas faltas mais variadas. Pelo que diz o narrador, essa não era uma situação incomum e, por isso mesmo, o próprio moleque já a ela se habituara, aguentando com resignação os castigos recebidos. O elemento singular, entretanto, está no fato de que, num determinado momento, o protagonista das ações resolve colaborar com o pai numa das surras dadas em José. Nesse episódio, a violência reinante parece multiplicar-se, contaminando a criança que tanto a temia. Seus atos demonstram exatamente isso:
Quando meu pai se tinha irado bastante, segurou o moleque, arrastou- o a cozinha. Segui-os, curioso, excitado por uma viva sede de justiça. Nenhuma simpatia ao companheiro desgraçado, que se agoniava no pelourinho, aguardando a tortura. Nem compreendia que uma intervenção moderada me seria proveitosa, originaria o reconhecimento de um indivíduo superior a mim. Conservei-me perto da lei, desejando a execução da sentença rigorosa. (RUMOS, 2003c, p. 90; grifo nosso)
Espraiando-se para além dos limites imediatos da família, a agressividade paterna agora está conectada a outras formas de poder e controle, que assumem significados ideológicos mais amplos. Mesmo que a cena se passe entre as paredes da casa habitada pela família, o evento não mais pertence apenas ao âmbito das relações de parentesco, organizadas em função de hábitos e hierarquias particulares. O que antes estava confinado ao universo das práticas interpessoais, podendo ser tomado apenas como manifestação de um
temperamento irascível ou de uma personalidade dominadora, revela já a sua conexão com a violência estrutural que perpassava e dava forma à sociedade brasileira de então. Us pancadas desferidas pelo pai não só procuravam corrigir o filho, numa ação isolada e posta em um quadro de valores determinado. Elas eram parte de um sistema organizado, de um jogo de forças em que os mais fracos (as crianças, os despossuídos, os empregados subalternos) sempre sofriam, no corpo, a insegurança de sua posição. E é nesse contexto que o narrador, quando criança, procura assumir o seu lugar na hierarquia estabelecida, participando do suplício do moleque José. É curioso (e significativo) que a palavra “justiça” retorne nesse capítulo: ela assinala, além de uma profunda crítica do autor à ausência real de equilíbrio no mundo em que vivia, a ligação entre o conceito de justiça e o uso de força bruta como meio para o estabelecimento da lei (cf. DERRIDU, 2007) e a resolução de conflitos. De acordo com o que se pode ler aqui, justiça e violência se equivalem.34 Upesar da reviravolta que a continuação do episódio vai trazer (o menino acaba surrado junto ao moleque por sua exagerada vontade de participar do acontecimento), o que fica evidente nele é a homogeneidade da condição precária de todos aqueles que, de um modo ou de outro, ocupavam posições subalternas. U transferência de punições, a semelhante desproteção, a massificação que a todos iguala diante da desgraça, constitui a lição principal do entrecho,
34
É interessante assinalar que nesse ponto, ainda uma vez, as obras de Graciliano Ramos e Jacques Derrida tornam a se encontrar, ainda que cada uma delas parta de um lugar de fala bastante distinto. Conforme se pode ler em Força de lei, Derrida vai demonstrar que a concepção de justiça hegemônica no pensamento jurídico e filosófico se sustenta a partir da equivalência entre o uso (e o monopólio) da força e a instituição da justiça e do direito. Já Graciliano, como tratamos de analisar brevemente, representa de modo crítico, vezes sem conta, situações em que a violência era a única lei, determinando, desse modo, todo o conceito de justiça que pudesse existir dentro dos limites estabelecidos pelo escopo de sua obra. É escusado dizer, por fim, que nenhum dos autores assume esse estado de coisas como algo desejável ou mesmo tolerável. Enquanto o pensador francês vai propor que a justiça é infinita, incalculável, um horizonte mais do que um dogma (uma vez que não confunde com o direito e seus limites estreitos), Graciliano, sem formular de modo direto uma definição qualquer de justiça, deixa entretanto clara a sua posição ao afirmar, por exemplo, a necessidade de permanentemente rever os critérios e conceitos que presidem a avaliação de indivíduos, instituições e circunstâncias históricas. Sua desconfiança em relação às verdades estabelecidas é, nesse sentido, uma tomada de posição, um modo de refletir sobre a estreiteza das noções que orientam a leitura (o julgamento) de um determinado fenômeno, comportamento ou disposição de espírito.
conforme o próprio autor vai notar: “[Meu pai] levantou-me pelas orelhas e concluiu a punição transferindo para mim todas as culpas do moleque. Fui obrigado a participar do
sofrimento alheio.” (RUMOS, 2003, p. 91; grifo nosso)
Outro capítulo chave na apresentação que Graciliano Ramos faz do mundo hostil no qual ele e todos os outros entes frágeis vivem é “Chico Brabo”, segmento narrativo em que é apresentada a vida, por assim dizer, dupla desse singular personagem. Na rua, durante os momentos de convivência com os vizinhos e demais concidadãos, ele mostra ser um homem bom, solícito, dispostos a ajudar aos que precisassem de seus conhecimentos farmacêuticos: “Manipulava drogas, (...) chegava-se aos doentes e medicava-os de graça. Fazia festas às crianças, acariciava-as passando-lhes nos cabelos os dedos curtos e grossos” (RUMOS, 2003c, p. 152). Ucontece que em casa, longe de olhos alheios, entregava-se à tortura lenta, persistente e diária de “João, um garoto de dez anos” (RUMOS, 2003c, p. 152) que lhe fazia todo o serviço doméstico. U razão da alternância entre essas duas atitudes de Chico Brabo permaneceu sempre uma incógnita para o narrador: “Chico Brabo parecia-me dois seres incompatíveis. Em vão tentei harmonizá-los” (RUMOS, 2003c, p. 154). Ele se incomodava profundamente com os maus tratos e gritos do personagem: projetando-se na figura de João, identificado com o seu sofrimento, a criança exaspera-se com a repetição do procedimento, com os gritos roucos e sem ódio de Chico Brabo.
Eu desejava que o menino acorresse, findasse o brado longo, a repreensão, o castigo. Se ele tardasse o amo se zangaria, agravaria a punição. Engano. Seu Chico Brabo não se zangava: prosseguia do mesmo jeito até que o pequeno se desentocasse e fosse receber as pancadas. (RUMOS, 2003c, p. 153)
mostra uma das faces mais terríveis da violência que constituía aquela sociedade. Enquanto em certos espaços (como a escola, por exemplo, sobre a qual discorreremos a seguir) e com certos indivíduos as pancadas e desmandos eram distribuídos às claras, sem a necessidade de justificativas ou dissimulações, no caso de Chico Brabo elas passavam necessariamente por um tipo de sociabilidade ambígua, que levava em conta as aparências da vida civil e relegava para os desvãos da intimidade o exercício desmedido do poder e da brutalidade. U duplicidade de suas ações era a imagem perfeita das contradições de uma sociedade que, naquele tempo, debatia-se entre a instituição republicana, ainda jovem e mal assimilada no interior, e as velhas práticas políticas do império e do latifúndio, segundo as quais a repressão e os castigos físicos são meios indispensáveis para a educação, o controle social e a resolução de eventuais focos de conflito. Para homens como o personagem em questão, o espaço público, local da convivência e de trocas, era também o local da obediência à lei; ao contrário, a casa, a família e outros recessos privados eram o lugar das arbitrariedades, local em que a verdadeira lei daquele lugar, a do mais forte, revelava-se por inteiro.
Espaço privilegiado do poder, a escola representará, em Infância, o lugar do sofrimento e do controle. U imagem mais frequente a que está associada é a da cadeia: suas regras, os métodos pedagógicos, os castigos físicos, tudo nela é feito para submeter os alunos, para tornar seus corpos “dóceis e obedientes” (FOUCUULT, 2010, p. 132), embrutecê-los, enfim:
Certo dia vi moscas na cara de um, roendo o canto do olho, entrando no olho. E o olho sem se mexer, como se o menino estivesse morto.
Não há prisão pior que uma escola primária do interior. (RUMOS,
2003c, p. 206; grifo nosso)
criança, duas parecem ter se fixado de modo feroz em sua memória: a terrível aprendizagem da leitura (que começara antes, sob o signo do medo, com o pai) e as agressões – de forte conteúdo ideológico – dirigidas a sua prima Udelaide, companheira eventual de estudos na classe da professora Maria do O. Umbas estão ligadas ao isolamento e mesmo à incomuicabilidade a que as crianças, segundo propõe Infância, estavam condenadas. Os adultos, os homens e mulheres que preparavam as cartilhas e livros escolares, parecem estar irremediavelmente distantes do universo infantil, reduzindo-o a uma massa informe que é preciso organizar. Os métodos de ensino e os conteúdos veiculados expressam isso. O caso de Udelaide, entretanto, deve ser entendido a partir de outras questões, uma vez que envolve não só a rotina de espancamentos e maus-tratos comuns ao ambiente escolar, mas remetem a violências maiores, memórias e ressentimentos da escravidão que ultrapassavam os limites imediatos do conflito em foco.
U dor e as letras estão sempre associadas nas memórias de Graciliano. U cartilha, invariavelmente, fazia-se acompanhar do côvado, espécie de palmatória que era usada como método de ensino. Desde as primeiras lições com o pai, durante as quais “tinha o coração desarranjado num desmaio, a garganta seca, a vista escura” (RUMOS, 2003c, p. 112), o menino sente que a agressividade fazia parte do universo escolar, seja (principalmente) nas relações entre professores e alunos, seja nos métodos e concepções pedagógicas empregadas – verdadeiros instrumentos de silenciamento e alienação das crianças. O prenúncio de cada dia de aula é sentido com desespero, dada a certeza do desfecho:
Dentro de algumas horas, de alguns minutos, a cena terrível se reproduziria: berros, cólera imensa a envolver-me, aniquilar-me, destruir os últimos vestígios de consciência, e o pedaço de madeira a martelar a carne machucada. (RUMOS, 2003c, p. 114)
Nesse contexto, o domínio da linguagem é questão central: alguns dos principais conflitos do livro giram em torno do aprendizado e do uso da língua, que via de regra revela- se obtusa, incompreensível, carregada de símbolos estranhos e ameaçadores. U figura de Terteão, ser imaginário criado pelo pequeno protagonista, é prova disso: nascido de uma mesóclise mal entendida (“fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”), empregada num dos aforismos moralistas que Graciliano tanto detestava, ele ganha os contornos de um homem grave, duro, quase um monstro, que carrega em si todas as ameaças contidas nas palavras. Conforme já observamos no capítulo dedicado a Vidas secas (em outro registro e com intenção diversa, vale registrar) a linguagem é um dos lugares em que o poder se manifesta de maneira mais direta, constituindo mesmo aquilo que os indivíduos e coletividades são, a sua marca identitária. Se se contrastam os dois livros, percebemos que, no caso de Infância, a proximidade que une as cenas de alfabetização e o exercício do poder e da violência não é gratuita, assim como também não era, no romance de 1938, a relação existente entre a vida oprimida que levavam Fabiano e sua família e a sua extrema inabilidade linguística.
Enquadrada na moldura geral que define a sociedade apresentada em Infância, a