Ao procurarmos a especificidade de nossa pesquisa na cidade do Natal, verificamos que existem três grandes instituições dirigidas a deficientes visuais, sendo uma o Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte – IERC, que funciona no bairro do Alecrim. O referido centro oferece aos deficientes visuais a educação e reabilitação, sejam pessoas cegas ou com visão subnormal. As pessoas totalmente cegas são alfabetizadas no sistema Braille e aquelas com visão subnormal utilizam outros recursos, tais como letras em tamanhos ampliados e materiais didáticos; e alguns outros recursos ópticos adequados às condições de cada um. Também é oferecido o ensino de 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental, em que são utilizadas atividades pedagógicas envolvendo as mesmas disciplinas da grade curricular da escola comum. Além da parte educacional, outras atividades de habilitação e reabilitação são propostas, como por exemplo, atividades de vida diária, orientação, locomoção, Informática, serviço psicológico, serviço de assistência social.
Em 2003, o Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte atendeu a 160 pessoas deficientes visuais na faixa etária de 0 a 45 anos, tendo como propósito não só a reabilitação e educação, mas a habilitação de pessoas cegas, a fim de proporcionar as mesmas oportunidades para um pleno desenvolvimento, de forma que haja uma integração ou reintegração à sociedade (SILVA, 2004).
Além do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte, existe também o Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento às Pessoas com Deficiência Visual – CAP, destinado a alunos do Ensino Fundamental e Médio. Esse centro faz parte de um projeto idealizado pelo Ministério da Educação, em parceria com a Secretaria de Educação Especial, que oferece subsídios aos sistemas educacionais para a implantação, organização e funcionamento de serviços de apoio pedagógico prestados aos deficientes visuais que estão inseridos na rede regular de ensino. O Centro de Apoio Pedagógico visa garantir aos educandos cegos e aos de visão subnormal acesso aos recursos didáticos. O centro é dotado de equipamentos e recursos tecnológicos avançados para livros e textos em Braille, ampliados e sonoros, para distribuição aos deficientes visuais. O público alvo é prioritariamente o educando cego ou de visão subnormal do Ensino Fundamental da escola pública.
Por fim, a Sociedade dos Cegos do Rio Grande do Norte – SOCERN, que é voltada a promover cursos profissionalizantes tanto para os deficientes visuais como para a comunidade em geral.
De acordo com o que observamos nas instituições mencionadas, podemos afirmar que a inclusão de deficientes visuais nas escolas é uma possibilidade que se abre para o aperfeiçoamento da educação escolar e para o benefício de todos os alunos com e sem deficiência. Sem dúvida que este tema envolve outras questões como formação de professores, conscientização dos alunos, recursos didáticos adequados às necessidades de cada um, entre outros. Entendemos também que é necessária uma disponibilidade interna, tanto das instituições como dos professores, para enfrentar as inovações de uma condição profissional; e estrutura física que, em geral, não é comum aos sistemas educacionais.
A partir dessa breve exposição, observa-se que apesar de existirem diferentes centros que orientam os deficientes visuais residentes na cidade do Natal, dados alertam ainda serem poucos os alunos que freqüentam as escolas de ensino regular. A tabela a seguir apresenta um censo de pessoas com diferentes necessidades especiais em algumas escolas na cidade do Natal:
Tabela 01: Quantidade de alunos com necessidades especiais matriculados em algumas escolas da cidade do Natal entre 1995 e 1999
ANO Nº DE ESCOLAS DV DA DF DM MD CT OUTROS TOTAL 1995 12 - 06 01 12 - - 08 27 1996 27 01 13 01 18 - - 05 38 1997 24 04 35 02 25 02 - 01 69 1998 50 07 60 07 74 01 - 49 198 1999 62 09 51 25 78 27 - 20 210* 09 51 15 56 04 04 64 203**
Fonte: Setor de Estatística SME, 1999, apud (SILVA, 2004). * Dados enviados pelas escolas do MEC – Censo/99 ** Matrículas reais encontradas nas escolas municipais.
LEGENDA: DV – Deficiência visual; DA – Deficiência auditiva; DF – Deficiência física; DM – Deficiência mental; MD – Múltiplas deficiências; CT – Condutas típicas.
De acordo com a tabela acima, verifica-se um número crescente de matrícula de alunos com necessidades educacionais especiais; inclusive em relação aos
deficientes visuais observa-se um grande aumento, se compararmos o ano de 1995, no qual não havia nenhum aluno com deficiência visual com o ano de 1999, em que foram matriculados nove alunos.
Tabela 02: Alunos com necessidades especiais matriculados nas escolas de Natal entre os anos de 2000 e 2003 ANO Nº DE ESCOLAS DV DA DF DM MD CT OUTROS TOTAL 2000 53 25 69 32 97 25 4 88 340 2001 47 11 54 23 99 43 7 74 311 2002 50 30 53 33 130 19 17 121 403
Fonte: Setor de Estatística SME/Censo Escolar - Março, apud (SILVA, 2004).
LEGENDA: DV – Deficiência visual; DA – Deficiência auditiva; DF – Deficiência física; DM – Deficiência mental; MD – Múltiplas deficiências; CT – Condutas típicas.
A tabela acima mostra o crescimento de alunos com necessidades especiais nos anos de 2000 a 2002, indicando, inclusive, uma certa, evolução no quadro da educação, pelo menos no que diz respeito à quantidade de alunos matriculados.
Na rede privada da cidade do Natal, algumas escolas desenvolvem trabalhos pedagógicos com educandos que apresentam necessidades educacionais especiais, em classes regulares, entre as quais estão o Instituto Educacional Casa Escola – IECE e a Cooperativa Educacional – COEDUC (SILVA, 2004). A seguir, será mostrada uma tabela registrando o número de alunos com necessidades especiais
matriculados nas redes federal, estadual, municipal e particular no ano de 2004, nas escolas da cidade do Natal.
Tabela 03: Alunos com necessidades especiais matriculados no ano de 2004 na cidade do Natal
Matrícula inicial por necessidades especiais, segundo dependência administrativa – Natal/2004
Necessidades especiais Dep. Administrativ a Cegue ira Baixa visão Auditiv o Surd ez Físic a Ment al Múlti pla Superdotado Condi ção típica total Federal 0 0 0 2 1 7 1 0 2 13 Estadual 1 14 34 172 87 173 36 2 101 620 Municipal 5 49 36 31 51 195 35 0 39 441 Particular 74 75 139 60 171 622 147 2 199 148 9 Total 80 138 209 263 309 990 218 44 339 255 0
Fonte:Secretaria de Educação Cultura e do Desporto - SECD/Assessoria Técnica e de Planejamento - ATP/Grupo auxiliar de estatísticas educacionais - GAEE/março/2005.
Essa tabela nos dá a noção do crescimento que está ocorrendo, quando à inclusão das pessoas com necessidades especiais. Especificamente com os deficientes visuais, verifica-se um acentuado aumento com relação ao ano de 2002, ao comparar com os dados da tabela 02, sob ressalva de que em 2004 foram considerados também alunos que utilizavam correção visual, como óculos. Por esse motivo, observa-se um número tão grande de deficientes visuais.
Para estendermos o desafio da inclusão a um número maior de escolas e comunidades, devemos ter em mente que o principal propósito é facilitar e ajudar a aprendizagem desses alunos. A inclusão vai além dessa perspectiva, é mais do que um modelo de aprendizagem, consiste mesmo em um novo paradigma, no sentido de incluir todos em uma sociedade onde a diversidade está se tornando mais norma do que exceção (STAINBACK, 2000).
Nas escolas de hoje, pelo que se vem notando ao longo dos tempos, não é permitido que ninguém se isole ou que se concentre em um único alvo de alunos, pois a diversidade é muito grande, já que o princípio da inclusão está direcionado não somente àqueles com necessidades especiais, mas a todos os alunos. Com tanta diversidade de alunos presentes nas classes regulares, os educadores precisam ter uma visão crítica do que está sendo exigido de cada aluno, mesmo sabendo que os objetivos educacionais possam continuar sendo os mesmos para todos.
É importante considerar que os objetivos específicos da aprendizagem curricular às vezes devem ser individualizados para serem adequados às necessidades de cada aluno, particularmente com deficiência visual. Com isso, devemos sempre lembrar que o objetivo da inclusão escolar não é esquecer as diferenças individuais de cada aluno, mas analisar as distintas formas de promover o
desenvolvimento cognitivo dessas pessoas no contexto do movimento escolar inclusivo. Os alunos com necessidades especiais precisam ser ouvidos, pois é uma maneira de garantir um aprendizado mais direcionado de acordo com as necessidades educacionais de cada um. Como afirma Carvalho (2000, p. 142):
os avanços alcançados nesta última década servem como estímulo para tudo o que temos que fazer em termos de proposta inclusiva, de forma a garantir o direito de “aprender a aprender”, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser.
É imprescindível que os professores ao vivenciarem essa realidade em suas salas de aula sempre estimulem o aluno deficiente visual a solicitar auxílio. É evidente que se deve garantir a sua autonomia e ajudá-lo, respeitando a individualidade de cada um.
Carvalho (2000) menciona que o fato de todos terem direitos está, substancialmente, presente em vários documentos, e os direitos são destacados em âmbito internacional e nacional como, por exemplo, na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e na Constituição Brasileira (1988).
Todos têm direito à mesma proteção contra qualquer ato discriminatório que viole a presente declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação (CARVALHO, 2000).