Tratar de narrativas, testemunhos orais e memórias exige do pesquisador um olhar transdisciplinar, uma vez que diversas questões se interpõem e misturam- se: história e memória, fontes orais e documentos, oralidade e escrita. Trabalhar com memória de velho tanto no quesito de metodologia quanto como arcabouço teórico, nos leva a construir uma relação de proximidade com o campo pesquisado.
Afinal, trabalhar com a narrativa de pessoas velhas precisa inicialmente de uma aproximação e conquista de confiança entre o narrador. Afinal, os mesmos muitas vezes consideram que não tem nada de importante a contar, consideram-se muitas vezes como inúteis em relação ao saber da sociedade moderna (JUCÁ, 2009). No entanto, ao optar pelo trabalho com as narrativas dos ciganos velhos, nos deparamos com outra realidade diversa da descrita acima, pois os velhos ciganos quando confiam em um indivíduo não se mostram constrangidos em falar, ao contrário, falam abertamente sobre sua história, cultura e sobre a vida cotidiana. Ressaltamos que as narrativas dos ciganos podem ser tendenciosas ao colocá-los em uma posição favorável na história, o que deve deixar o pesquisador atento, para não ser influenciado pela fala de seu narrador.
Destacamos que os ciganos não deixam de falar do preconceito, das representações da má fama, das distorções culturais e identitárias que permeiam sua história. O Sr. Valdemar relatou também sobre o modo de vida da comunidade não cigana ser mais forte
que os de uma pequena comunidade cigana. Ele nos revela que as jovens, e principalmente as mais jovens, se aculturam de tal modo, a ponto de renegarem suas próprias origens, como se
esta constituísse demérito ou desonra. Isto é visível na fala do Capitão Valdemar: “mas quero
que se veja, mas num tem... tem jeito, não. Pá, Pá, ajeitar. Os mais novo, esse novo de hoje,
inda mais as moçadinha nova, elas num querem nem dizer que são mais cigana” (Sr.
Valdemar, entrevista realizada em maio/2013).
O Sr. Valdemar nos contou, ainda, que “muitos valores se perderam depois que se
misturou os ciganos com os não ciganos, a intinerância acabou, mas a ciganidade, não”
(Sr.Valdemar, entrevista realizada em maio/2013), observamos que ao longo do tempo muito coisa vem se modificando na história dos ciganos do Bairro Sumaré. Diante disso, abrir as cortinas e adentrar no caminho de alargamento para a pesquisa que ora desenvolvemos com os ciganos é compreender o passado como um presente invisível, é percorrer um território como parte globalizada de um conhecimento historicamente acumulado pelo grupo sociocultural cigano.
Todavia, para entender as vivências dos ciganos do Sumaré hoje, é necessário retomar o passado a partir das lembranças que afloram no esquecimento e no saber do Sr. Valdemar e do Sr. Benoar. Entretanto, as memórias dos Senhores Valdemar e do Sr. Benoar são fenômenos sempre atuais, são fios vividos num presente contínuo e que aproximam passado e futuro.
O primeiro contato com o nosso objeto de pesquisa ocorreu a partir de um encontro com o seu Benoar (atual líder da comunidade), quando fui ao campo da pesquisa pela primeira vez, no Alto do Sumaré14. Durante o percurso fiquei apreensiva e ansiosa, pois todas aquelas imagens estereotipadas tomavam os meus pensamentos, afinal, a pesquisa de campo coloca o pesquisador frente a uma série de provocações, as quais, também, o leva a relativizar verdades e concepções de mundo (OLIVEIRA JÚNIOR, 2006).
Era uma manhã quando me dirigi à Rua Maria Benvinda, conhecida como rua
principal, “rua dos ciganos” que dá acesso às residências de boa parte das famílias ciganas, à
procura de falar com o Sr. Benoar., segui até a Rua Marli, ao chegar havia muitos ciganos sentados nas calçadas, estacionei a moto, desci e perguntei onde ficava a casa do Sr. Benoar. Ao chegar à residência me apresentei e expus os motivos que me levaram a procurá-lo. Fui convidada a sentar o que gerou em mim uma inquietação, afinal, a moto se encontrava estacionada do lado de fora da casa, o que me tirava à concentração, pois a ideia de que a
14
Fica localizado na saída de Sobral para Crateús entre a BR 222, o riacho Mucambinho e a linha férrea, isolado do centro da cidade. Pelo censo de 2010 IBGE, o bairro é populoso com 16.060 habitantes (IBGE, 2016).
qualquer hora a moto fosse roubada. Fui convidada a tomar água e café, aos poucos fui me acalmando e a conversa fluiu. Em um dado momento, chegou uma cigana com o nome de Zezita sentou- se e começou a participar da conversa falando sobre a imagem negativa que o povo tem do cigano. Logo em seguida chegou outra cigana com o nome de Dulcineide e me perguntou se eu era uma jornalista que ia apresentar para a Presidente Dilma os direitos dos
ciganos, no mesmo instante também fui interrogada com a seguinte frase: “o que os ciganos
ganhavam com esse trabalho que eu estava realizando”? Comecei por responder que era
professora e estava pesquisando os ciganos e buscava com a pesquisa contribuir com os jovens e profissionais da educação para o conhecimento de outras culturas.
Nesse primeiro contato senti receptividade e confiança por parte dos ciganos, o que me impulsionou a seguir com a pesquisa, naquele momento muitas possibilidades de interpretação e análise me vieram a mente, a mais forte foi de uma comunidade esquecida pelo tempo, pela história, a meu entender, fato gerado tanto pelas representações difundidas na sociedade, quanto pela produção e desconhecimento da cultura cigana, o que para nós historiadores da educação entendemos como a história de um povo esquecido, de vozes silenciadas pelo processo de exclusão social.
Afinal, como os próprios ciganos dizem: “acho muito interessante esse trabalho com a gente, só assim a gente é lembrado”. Nesse momento percebi minha aceitação no grupo
e conduzi os caminhos da pesquisa com encontros pontuais conforme dias e horários marcados. Em virtude das ocupações dos entrevistados essas conversas perduraram por dois anos. Neste primeiro instante meu interesse era manter aproximação com o grupo para compreender o que motivou os ciganos a se fixarem na cidade de Sobral e como se constituía as relações de sociabilidade com os moradores do bairro.
A reflexão sobre a continuidade da pesquisa, juntamente com a interpelação da realidade e os dados recolhidos, conscientizaram-me de que havia pontos de aproximação e afastamento, divergências e ambiguidades, presentes no processo da sociabilidade dos ciganos em Sobral, bem como a problemática que o grupo passa na atualidade, gerada pelo conflito entre as gerações mais velhas e as novas gerações, as quais mantêm seus laços de pertencimento através da oralidade e manutenção de costumes e valores, considerados ultrapassados pelas novas gerações. Todavia faz-se necessário recorrer ao passado para conhecer esses povos como parte integrante do povo brasileiro.